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quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

“O medo do futuro deve ser atenuado pela ação do Estado”

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Entrevista com Luiz Gonzaga De Mello Belluzzo

Marilza de Melo Foucher *

“Creio que uma socialização bastante completa do investimento será o único meio de se aproximar do pleno emprego, ainda que isso não exclua qualquer forma de cooperação entre a autoridade pública e a iniciativa privada.”

– Diante de um Estado esfacelado como está hoje, de que forma um plano keynesiano seria capaz de reorganizar o capitalismo?

– Keynes trata o Estado como uma instância ética e política capaz de fazer a mediação dos interesses conflitantes da sociedade civil. É preciso que o Estado e seus corpos intermediários tenham um papel indutor e regulador. Tudo isto tem que ser contextualizado no período em que ele viveu. Keynes tinha uma confiança enorme na capacidade do Estado. O Estado keynesiano é capaz de ver além dos interesses privados. Liberal e hegeliano, o Estado de Keynes é o espaço da universalização dos particularismos da sociedade civil.
Keynes tinha horror do individualismo, mas dizia que há sempre um espaço para certo individualismo, este sentimento que move o indivíduo na economia mercantil-capitalista. Ele achava “o amor ao dinheiro” um horror, mesmo sendo um fator de progresso e de mudança social, todavia, the love of Money ‘pode se transformar em um tormento para o homem moderno’. No livro Perspectivas econômicas para nossos netos Keynes escrevia que os homens precisam voltar para os valores fundamentais da religião, da boa vida, da convivência. Este é um texto muito bonito. Havia uma visão ética ali por trás. Havia também uma concepção liberal do Estado na sua origem, ele não foi capaz de ver a transformação que o estado ia sofrer no capitalismo monopolista e na na sociedade de massas, em que essa independência do Estado em relação à sociedade civil vai sendo minada. Falo aqui da sociedade civil como sociedade dos interesses.
A mesma coisa diz respeito à taxação progressiva. Keynes não acredita que o capitalismo entregue à sua razão interna possa reduzir as desigualdades de renda e riqueza. Hoje se observa a dilaceração do Estado Social . Os sistemas tributários abandonaram a progressividade e começaram a cobrar impostos sobre as mercadorias e serviços em cima dos assalariados. A tentativa de manter o peso do imposto de renda, dos impostos do patrimônio, tudo isto foi destruído pelo movimento do capitalismo.
Quanto ao terceiro pilar da proposta keynesiana trata-se da eutanásia do “rentier”. Keynes explicou no Tratado da Moeda que o sistema bancário moderno é muito integrado e muito desenvolvido não há razão que o capital seja considerado escasso. Ricardo discutiu a questão da renda da terra. Na medida em que a terra vai sendo ocupada, os proprietários podem exigir uma renda derivada da escassez.
O moderno sistema bancário cria moeda (depósitos) ao conceder empréstimos. Cria liquidez à frente. Na economia monetária podem surgir problemas de liquidez, ou seja, de adiantamento de dinheiro para a realização do gasto. O investimento pode não ocorrer se há um problema de confiança dos bancos em relação ao pagamento dos empréstimos adiantados pelos bancos ou se os empresários não tomam crédito porque antecipam resultados ruins de seu empreendimento futuro.
A existência dos bancos modernos superou o obstáculo da poupança prévia próprio de uma economia natural. Numa economia natural, por exemplo, que trabalha só com o trigo, você precisa reservar uma parte de sua colheita pra plantar no ano seguinte. Isto é poupança, um conceito da economia real não monetária, se tal coisa existisse.
Numa economia monetária, os empresários só não vão investir se observarem que o rendimento esperado com a posse de um novo bem de capital (criação de uma fábrica) é inferior às taxas de juros. Keynes propunha a administração pública do sistema bancário a fim de facilitar a oferta de capital monetário para empreendimentos rentáveis. É a mesma coisa que Marx escreve no volume 3 de O Capital. Diga-se eles tem uma visão muito parecida sobre a ontologia do econômico.
Em que sentido? Keynes diz que pode definir a economia empresarial capitalista como uma existência de um lado de empresas que tenham o controle dos meios de produção e do dinheiro e de outro os trabalhadores que são obrigados a vender sua força de trabalho. No volume 29 de Obras Escolhidas estão os escritos que antecedem a Teoria Geral. Ele abordou o capitalismo desta maneira, estas informações se encontram nos manuscritos que foram descobertos mais tarde.
Os capitalistas não gastam com objetivo de maximizar a produção, ele gasta com o objetivo de maximizar seus ganhos, seu lucro monetário. O tratamento que os dois dão à estrutura do capital vai ser fundamental para a compreensão da evolução do capitalismo. Voltando pra questão da crise atual, Marx tem páginas muito importantes que Keynes não tem sobre o progresso técnico a desvalorização do capital e desvalorização do trabalho.
Então Marx vai muito mais além do que Keynes. Ainda que Keynes tenha uma visão que para segurar a este ímpeto do capitalismo de desvalorizar o capital, é preciso segurar a concorrência e não deixar que ela seja devastadora. Isto é uma visão muito conservadora, por isso ele acha possível manter o capitalismo funcionando mais ou menos com aquela condição que eu já descrevi sobre a socialização de investimentos, sistema fiscal progressivo, eutanásia rentier. Ele defendia no quarto ponto uma coordenação das economias nacionais e esboça aí uma ordem econômica mundial.
Propõe a construção das instituições internacionais públicas que permita o ajustamento sem traumas cambiais e monetários dos déficits (e superávits) dos balanços de pagamentos. Isto significaria facilitar o crédito aos países deficitários e penalizar os países superavitários. O propósito de Keynes era evitar os ajustamentos deflacionários e manter as economias na trajetória do pleno emprego. Mais tarde, em Bretton Woods, Keynes propôs a Clearing Union, uma espécie de Banco Central dos bancos centrais. Este emitiria uma moeda bancária, o “bancor”, que seria destinada exclusivamente a liquidar posições entre os bancos centrais. O controle de capitais deveria ser “uma característica permanente da nova ordem mundial”.

– Professor, diante da realidade de hoje, quanto ao papel do FMI, perdoe insistir, mas como explicar que o plano Keynes continue atual no contexto da globalização econômica, face a tudo o que assistimos nesses últimos tempos?

– O plano Keynes nunca foi tão verdadeiro e atual, mas sua implantação nunca foi tão difícil.

– Por isso eu tenho curiosidade de saber o como, o por quê?

– Isto teria uma implicação muito séria que tem a ver com a questão do poder político das nações. Ter o controle da moeda reserva confere muitas vantagens, como bem disse (o ex-presidente Luiz Inácio) Lula (da Silva) no seminário. De Gaulle também denunciava este privilégio exorbitante. Ele tinha implicância com esse poder norte-americano, que ele conhecia muito bem, isto facilitava o movimento das empresas norte-americanas, facilitava muito bem os investimentos externos, facilitava o fato dos Estados Unidos não terem problema com sua dívida pública, ao contrário do que pensam os republicanos norte-americanos. Eles podem refinanciá-las com grande facilidade, usando até o movimento de capitais do resto do mundo para os Estados Unidos. Isto foi importantíssimo na montagem da crise e é importante agora com a taxa de juros sobre um ativo de 10 anos. Um título do Tesouro para 10 anos estar hoje em 1.32 é baixíssimo. É um convite ao endividamento para poder gastar. Mas os republicanos norte-americanos estão obcecados pela divida.

– Mas voltando ao plano Keynes…

– Ele nunca foi tão clarividente na sua análise e proposições, ele queria evitar exatamente que ocorresse esses desequilíbrios crônicos entre balanço de pagamentos dos países mas, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil, pois as condições políticas para proceder a uma reforma dessas não existem, existiram naquele momento, por várias razões na verdade, uma das quais era o sistema monetário internacional, que estava destruído e precisava ser reconstruído desde o inicio, após a Segunda Guerra Mundial. Os Estados Unidos saíram da guerra em condições melhores, com suas indústrias, empresas e seu aparato produtivo intocados. Eles vinham da experiência do “New Deal”, tinham essa visão reformista, foram eles que propuseram as reuniões que criaram a ONU, como as de Bretton Woods que estabeleceram as organizações multilaterais. Logicamente que, quando chega o momento de definir o que o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional fariam, eles asseguraram na verdade a superioridade deles, dos Estados Unidos, que ficaram no coração do sistema. Eles foram generosos, pois ajudaram na reconstrução da Europa, com os mecanismos de ajuda que criaram. Este gesto de generosidade não é gratuito face à guerra fria travada com o bloco soviético. Aqui na Europa houve uma confrontação política entre as duas concepções. A construção do Estado de bem-estar na Europa tem muito a ver com a presença da União Soviética, com o medo da expansão União Soviética.
Eu acho que hoje em dia todas as propostas de reformas passam ao largo disso que o Keynes disse e nunca foi tão atual, pois não há outra maneira de resolver esta questão dos desequilíbrios globais.
Só eu e o Lula abordamos esta questão, os outros não trataram da questão da coordenação internacional. Por que o engano é supor que você vai partir para as políticas de competividade como se a competição fosse um processo que criaria um espaço comum a que todos convergiriam?… A concorrência internacional é geradora de desequilíbrio. Basta ver a China em relação ao resto do mundo, ou a Alemanha em relação Europa. No caso da China, quando fez as reformas, abriu seu espaço territorial para os investimentos estrangeiros e vai oferecer mão de obra barata para alentar a competição por preços das empresas nos Estados Unidos e Europa. Quem foi para a China? As grandes empresas norte-americanas, europeias e japonesas. Eles criaram lá seu espaço de competição. O que aconteceu? Um problema de desemprego crescente nos Estados Unidos e Europa. Então você tem hoje o seguinte fenômeno: o sistema empresarial norte-americano vai muito bem obrigado. Isto é verdade também para as empresas europeias. Mas o espaço da economia territorial, o espaço territorial de convivência, onde as pessoas trabalham, vivem, moram, estudam, comem, têm lazer, esta cada vez mais ameaçado com os cortes nas áreas dos direitos, da redução de salários, de rebaixamento do padrão de vida etc. Por isso, as propostas de Keynes continuam atuais e, no entanto, nunca foram tão impossível.
Os Estados Unidos não querem nem saber disso. Mas os norte-americanos terão que enfrentar estas questões. Porque se eles mantiverem esse sistema monetário internacional, não é porque o dólar é fraco, o dólar é forte, então os chineses vão amealhar, em vez de US$ 3 trilhões de reserva, US$ 5 trilhões! Isto é ruim para o comércio internacional e ao mesmo tempo é muito grave porque os chineses vão exercer de alguma forma esse poder, assim como o Brasil, que tem hoje uma reserva de US$ 370 bilhões e vai ter que acoplar mais.

– O que o senhor achou da proposta dos dois presidentes do Brasil e da França sobre a criação de um conselho de segurança econômica e social, nos moldes do Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU)? Já existe o Conselho Econômico e Social na ONU, todavia, ele não tem grandes poderes…Nem Lula, nem Jospim demonstraram muito entusiasmo…

– Eu acho que o Lula pegou as resoluções do G20 e mostrou que todas elas eram corretas, porém nenhuma delas foi implementada. Por quê? Porque quando você encontra esses obstáculos como esse que eu mencionei com a questão da gestão da reserva de moedas, os Estados Unidos terão que discutir este ponto, não tem como. Os Estados Unidos tinham 40% da produção mundial, hoje eles só têm um pouco mais de 20%. Assim como a União Européia, que também perdeu espaço com o surgimento dos emergentes mais parrudos. Eles terão que rediscutir a reforma do sistema monetário. Por exemplo, o Brasil já estar criando um fundo comum de estabilização para a América Latina. Os fundos regionais vão surgir. O Brasil com o Pré-Sal terá que fazer um fundo soberano e isto é uma arma incrível do Brasil, se bem utilizado. Todavia, isto não vai resolver a questão do desequilíbrio e nem do emprego. A ideia, por exemplo, de o presidente (Barack) Obama dizer que os Estados Unidos terão que trazer de volta as empresas norte-americanas dando-lhes um grau superior de automação, introduzir a robótica, a lógica é a mesma.

– Então, professor Belluzzo, como seria esta nova governança mundial?

– Pois então, a nova governança mundial terá que caminhar nessa direção, do Keynes, não tem como. Torna-se necessário restringir um pouco esta competição, estabelecer regras do comércio internacional que não são estas atualmente aplicadas. A organização da economia internacional passa por outras questões, como a da coordenação mais adequada do comércio, que não podem ser satisfeitas pelas regras atuais Organização Mundial do Comércio (OMC).
Estas regras estipulam o livre comércio o que não é possível, não existe competitividade entre os países, existe entre empresas. Se você aceita as regras da competitividade, deverá aceitar o movimento das empresas para fora; o abandono da economia territorial se estabelece num conflito entre a vida no território. É a lógica abstrata da economia. Esse é o problema do capitalismo. Olhado por certo ângulo, ele é muito suficiente, mas como explicar que existe uma abundancia de capacidade produtiva que poderia atender às necessidades básicas e não básicas das pessoas, e essa incapacidade de gerar igualdade etc. Isto só pode ser feito pela intervenção pública.
Sinceramente, eu fiquei muito impressionado com perplexidade do governo socialista da França. As propostas que eles fazem são francamente insuficientes para enfrentar a gravidade da situação hoje e do que estar pra vir. Adotar por exemplo, políticas de competitividade e austeridade neste momento significa sacrificar ainda mais a população.
Existe certa contradição entre o discurso da competitividade e a criação do Banco de Investimento que ainda não vimos a sua estruturação… A idéia de ter um Banco de Desenvolvimento com o Brasil é muito boa. Hoje o BNDES é o maior do mundo. Talvez seja a melhor resposta para a crise territorial que se vive hoje na Europa.

– A presidenta Dilma apareceu como uma ferrenha defensora da União Européia e do euro, chegando a afirmar que sua criação foi a maior construção política do mundo. Todavia, para a maioria dos cidadãos franceses a Europa política ainda não foi construída daí o não ao tratado de Lisboa… Que sugestões o senhor teria sobre a saída da crise européia? E por que o fortalecimento da União européia é importante para o Brasil?

– Eu venho observando e acompanhando os últimos passos desta crise européia, inclusive esta questão do debate sobre a União Bancaria.
A Alemanha poderia conduzir a rearticulação e o rearranjo da Europa política, não o faz porque caminha numa direção oposta e a França esta numa posição um pouco subordinada. Há uma situação muito difícil, porque o país que poderia funcionar como país residual na absorção dos choques tem bloqueios históricos e ideológicos. A Alemanha está jogando em função de seus próprios interesses, muito diferente do que os Estados Unidos fizeram no pós-guerra. A Alemanha tem essa característica de se considerar um pouco acima, isto é uma mancha que não sai. Considera-se uma nação privilegiada, no certo sentido um pouco parecido no conteúdo e na forma como os Estados Unidos de hoje, da utopia realizada.
Existe hoje uma resistência da Alemanha em romper com a política de austeridade europeia. O povo alemão está convencido de sua capacidade de fazer sacrifícios e suportar; e não está disposto a sacrificar os seus princípios em nome daqueles considerados gastadores e nada cuidadosos com suas economias e endividamentos, tais como os europeus do Sul. Nós temos aí um bloqueio sério.
A Alemanha tem essa coisa também que o Weber percebeu e disse que o povo alemão tinha esse vicio da obediência, é uma condição meio complicada, ao mesmo tempo em que eles se acham superiores, eles são obedientes. Então eles se submetem ao Estado de fato, ao que está ai. Eles têm uma relação muito tosca com o resto da Europa.
Então, penso que a União Europeia poderia ser reconstruída se ela usufruísse um pouco mais liberdade, mais fôlego em suas unidades e nos países membros. Se ela adotasse um mecanismo de compensação fiscal. É um absurdo que os países tenham déficits entre si com uma moeda comum. É preciso uma coordenação dentro do Euro que compreenda diversas estratégias.
No mês de maio deste ano, o prêmio de risco da Espanha, por exemplo, calculado sobre os rendimentos dos títulos alemães de 10 anos chegou a 500 pontos. Para juntar a desgraça ao infortúnio, a corrida bancária e a fuga de capitais chegaram à Ibéria, ameaçando a solvência das instituições grandes, médias e pequenas.
O colapso da confiança não pode ser superado sem a centralização das decisões na autoridade monetária encarregada de zelar pela higidez das relações interbancárias e, portanto, pela “normalidade” das operações de crédito. Você me desculpe, mas isto é de uma burrice inacreditável. Como pensar que uma moeda comum vai funcionar assim? Eu vejo isto no curto e médio prazo com muito pessimismo.
É provável que a crise não atingisse tais culminâncias se as autoridades europeias tivessem admitido a inevitabilidade de uma reestruturação ordenada da dívida e do controle público do sistema bancário. Teriam assim mitigado as agruras da recessão e bloqueados o avanço contagiosos da crise financeira. Trata-se de um caso de psiquiatria política: a opção mesquinha por fazer pouco e devagar – too little, too late - transformou-se numa reação avassaladora do tipo too much forever.


* Marilza de Melo Foucher é economista, jornalista e correspondente do Correio do Brasil em Paris.

Fonte: CdoB

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Para onde vai a economia gaúcha?


Quando se fala em produção gaúcha, a primeira imagem que vem à cabeça é a de uma lavoura de soja ou de um rebanho bovino. Essa lembrança mostra o quanto velhas ideias tendem a perdurar por muito tempo, pois há mais de 40 anos, quase duas gerações, a agropecuária não é a atividade mais importante da economia gaúcha, e sim a indústria de transformação. A FEE já havia apontado isso em seus estudos realizados no final dos anos 70, em consonância com algumas das melhores inteligências do estado, como o querido mestre Cláudio Accurso. Mesmo que uma parte da produção industrial tenha ligações com a agropecuária, a exemplo dos ramos de alimentação ou de máquinas agrícolas, e, também, que, em razão de sua distribuição geográfica mais espraiada, o chamado setor primário influencie fortemente a maioria dos municípios, a atividade econômica no Rio Grande do Sul está voltada para a demanda nacional por produtos industriais e, secundariamente, para as exportações de manufaturas. No último meio século, é no eixo Porto Alegre, Vale dos Sinos, Serra que se articula a espinha dorsal da economia rio-grandense.

Neste sentido, se se quer refletir sobre os rumos de nossa economia, sobre a possibilidade do desenvolvimento futuro, o centro da análise deve se voltar para o setor industrial. Em números, a indústria produz 26,8% do PIB brasileiro, dos quais 16,6% em manufaturas. No Rio Grande do Sul, são 29,2% no total e 22,0% na transformação. Construção civil e mineração têm menor peso na economia gaúcha. Dessa produção, os segmentos da alimentação, química, automotiva, máquinas agrícolas, coureiro-calçadista e metalúrgica somam 69,5% de todo o setor no estado. É inegável na origem da maior parte desses ramos produtivos o impulso da agropecuária, seja no processamento de seus produtos, como nos de alimentação e calçados, ou no fornecimento de insumos e capital, caso de máquinas agrícolas e parte da química. Entretanto, a própria expansão dessas atividades foi tornando-as independentes do desempenho do setor rural, na medida em que foram se integrando ao mercado nacional ou tornando-se exportadoras. Em outras palavras, seu motor passou a ser endógeno e responde a um mesmo acelerador que comanda a indústria brasileira em sua totalidade. Por sua vez o acelerador, que havia se localizado exclusivamente em São Paulo, no passado, vem se espraiando por novas regiões nas últimas décadas, como o Nordeste, o Sul e até a Amazônia, na sequência de um processo internacional de relocalização industrial.

Um reforço a essa desvinculação da indústria da atividade agropastoril veio de algumas iniciativas pontuais dentro de programas nacionais de investimento, caso do Polo Petroquímico de Triunfo nos anos 70 e do Polo Naval de Rio Grande no presente, decididas no âmbito da União Federal e resultantes de disputadas negociações políticas. Da mesma forma, a reestruturação mundial da indústria automobilística abriu espaço a um verdadeiro leilão mundial de “rentabilidades dos territórios”, a exploração de vantagens locacionais como custo de mão de obra ou, no nosso caso, polpudas contribuições de verbas públicas e perdão de impostos.

Um segundo movimento dessa autonomia da indústria gaúcha foi sua vinculação ao mercado mundial através das exportações, cujo exemplo mais notório é o ramo dos calçados, mas que também inclui diversas atividades do segmento alimentação, como carnes de frango e suína ou óleos vegetais. Houve uma mudança na dinâmica assumida pelo mercado internacional nas últimas duas décadas, cuja marca é a instabilidade. Trata-se de um período turbulento de emergência de novas regiões produtoras, caso da Ásia, e declínio de outras, como a Europa. Nesta nova circunstância, se o ramo dos frigoríficos seguiu em ascensão, a indústria calçadista sofreu um doloroso declínio pela maior competitividade dos asiáticos em seu espaço de mercado.

No plano internacional criou-se um nicho relativamente mais estável e protegido, o espaço da integração latino-americana, especialmente o Mercosul. Com um padrão de comércio administrado, regulado por protocolos específicos, como o Regime Automotivo, há um maior poder relativo de negociação por parte dos brasileiros nesse âmbito em comparação com mercados em que competimos com os chineses, por exemplo. Embora mesmo no comércio com nossos vizinhos, não estarmos imunes às investidas do Império do Centro. Além disso, em razão das grandes assimetrias entre os países americanos, o Brasil sempre será aquele que terá de ceder mais, pelo menos nas aparências. É o que afetou o segmento de vinhos e está acontecendo com nossas exportações de máquinas agrícolas, sacrificados por concessões brasileiras. Apesar dos percalços, o mercado regional está sendo crescentemente ocupado por empresas brasileiras e as expectativas futuras são promissoras, na medida em que a região vem crescendo acima da média mundial.

Uma estratégia de desenvolvimento para o Rio Grande do Sul deve partir dessas lições da história. Para a estrutura industrial já estabelecida, o desafio é ganhos de produtividade e mais competitividade, explorando as medidas de política industrial do Governo Federal e aproveitando sinergias já conhecidas, como os arranjos produtivos locais. Essa lição vale também para a agropecuária, pois não há espaço para expansão horizontal, apenas ganhos de eficiência e produtividade que, em diversas culturas, são ainda muito baixos. As possibilidades de crescimento desses setores tradicionais são, entretanto, e salvo condições muito específicas em um ou outro segmento, relativamente modestas. O que pode mudar o patamar da taxa de crescimento do estado será a incorporação de novas atividades industriais de maior produtividade que se beneficiem de condições favoráveis locais, como o que está ocorrendo em Rio Grande. Já havia lá uma indústria naval, as instalações portuárias e outras infraestruturas. Mas foi necessária a decisão da Petrobras de priorizar o fornecimento de equipamentos nacionais e a sincronia de diversas iniciativas públicas e privadas para seu desenvolvimento. E mesmo assim, restam problemas para a exploração de todo o potencial desse polo, como o da mão de obra capacitada.

Após uma fase negativa, de perda de importância relativa na economia brasileira nos anos 90, o Rio Grande do Sul voltou a ter um desempenho mais positivo e alcançou, inclusive, performance acima da média nacional entre 2000 e 2011. Esse feito trouxe o estado de volta à sua posição histórica de responder por 6,7% da renda nacional, como quarto PIB do país. Há também o retorno de uma postura mais desenvolvimentista ao Piratini, que busca formular planos e projetos e se mostra sensível às circunstâncias das empresas locais mas também à prospecção de novas oportunidades para aumentar a complexidade do parque produtivo estadual. Um futuro mais promissor vai depender de alguma intuição, muita pesquisa, e também sorte.

Luiz Augusto E. Faria é economista da FEE e Professor da UFRGS.

SUL21

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Apenas 147 conglomerados empresariais controlam 40% da riqueza mundial

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Um estudo da Universidade de Zurich revelou que um pequeno grupo de 147 grandes corporações trasnacionais, principalmente financeiras e mineiro-extrativas, na prática controlam a economia global. O estudo foi o primeiro a analisar 43.060 corporações transnacionais e desentranhar a teia de aranha da propriedade entre elas, conseguindo identificar 147 companhias que formam uma “super entidade” que controla 40% da riqueza da economia global.

Ernesto Carmona

O pequeno grupo está estreitamente interligado através das diretorias corporativas e constitui uma rede de poder que poderia ser vulnerável ao colapso e propensa ao “risco sistemico”, segundo diversas opiniões. O Project Censored (Projeto Censurado, em tradução livre) da Universidade Estadual de Sonoma, na Califórnia, EUA, desclassificou esta notícia e sua repercussão foi sepultada pelos meios de comunicação norte-americanos. Mas Peter Phillips, professor de sociologia naquela universidade, ex-diretor do Projeto Censurado e atual presidente da Fundação Media Freedom/Project Censored, fez referência a ela em seu trabalho The Global 1%: Exposing the Transnational Ruling Class (O Um Por Cento Global: Exposição da Classe Dominante Transnacional), assinado com Kimberly Soeiro e publicado em projectcensored.org.

Os autores do estudo são Stefania Vitali, James B. Glattfelder e Stefano Battiston, pesquisadores da Universidade de Zurich (Suíça), os quais publicaram seu trabalho a 26 de outubro 2011, sob o título A Rede de Controle Corporativo Global (The Network of Global Corporate Control) na revista científica plosone.org.

Na apresentação do estudo publicado na PlosOne, os autores escreveram: “A estrutura da rede de controle das empresas transnacionais afeta a concorrência do mercado mundial e a estabilidade financeira. Até agora, foram estudadas somente pequenas mostras nacionais e não existia uma metodologia adequada para avaliar o controle a nível mundial. Apresenta-se a primeira pesquisa da arquitetura da rede de propriedade internacional, junto ao cálculo da função mantida por cada contendor global”.

“Verificamos que as corporações transnacionais formam uma gigantesca estrutura como gravata de laço e que uma grande parte dos fluxos de controle conduzem para um pequeno núcleo muito unido de instituições financeiras. Este núcleo pode ser visto como um bem econômico, uma “super-entidade” que propõe novas questões importantes, tanto para os pesquisadores como para os responsáveis políticos”.

O diário conservador britânico Daily Mail foi talvez o único do mundo a publicar esta notícia, em 20 de outubro 2011, assinada por Rob Waugh com o chamativo titulo: Existe uma ‘super-corporação’ que dirige a economia global. O Estudo ressalta que esta célula empresarial gigante poderia ser terrivelmente instável. A pesquisa concluiu que 147 empresas criaram uma “super entidade” dentro do grupo, controlando 40% da riqueza mundial”.

Waugh explica que o estudo da Universidade de Zurich “prova” que um pequeno grupo de companhias – principalmente bancos – exerce um poder enorme sobre a economia global. O trabalho foi o primeiro a examinar um total de 43.060 corporações transnacionais, a teia de aranha da propriedade entre elas e estabeleceu um “mapa” de 1.318 empresas como coração da economia global.

“O estudo encontrou que 147 empresas desenvolveram em seu interior uma “super entidade”, controladora de 40% de sua riqueza. Todos possuem parte ou a totalidade de um e outro. A maioria são bancos – os 20 top, incluídos Barclays e Goldman Sachs. Mas o estreito relacionamento significa que a rede poderia ser vulnerável ao colapso”, escreveu Waugh.

O 1% do mundo

“Efetivamente, menos de 1% das empresas foi capaz de controlar 40% de toda a rede”, disse ao Daily Mail James Glattfelder, teórico de sistemas complexos do Instituto Federal Suíço de Zurich, um dos três autores da investigação.

Alguns dos supostos que subjazem no estudo foram criticados, como a ideia de que propriedade equivale a controle. “No entanto, os pesquisadores suíços não têm nenhum interesse pessoal: limitaram-se a aplicar à economia mundial modelos matemáticos utilizados habitualmente para modelar sistemas naturais, usando o Orbis 2007, um banco de dados que contém 37 milhões as companhias e investidores”, informou Waugh.

O economista John Driffil, da Universidade de Londres, especialista em macroeconomia, disse à revista New Scientist que o valor do estudo não radicava em ver quem controla a economia global, mas em mostrar as estreitas conexões entre as corporações maiores do mundo. O colapso financeiro de 2008 mostrou que este tipo de redes estreitamente unidas pode ser instável.
– Se uma empresa sofre uma angústia, esta se propaga – disse Glattfelder.

Para Rob Waugh e o Daily Mail há um “senão”: “Parece pouco provável que as 147 corporações no coração da economia mundial pudessem exercer um poder político real, pois representam demasiados interesses”, assegurou o diário conservador britânico.

A riqueza global do mundo estima-se que se aproxima dos US$ 200 bilhões, ou seja, duas centenas de milhões de milhões. Segundo Peter Phillips e Kimberly Soeiro, 1% mais rico da população do planeta agrupa, aproximadamente, 40 milhões de adultos. Estas pessoas constituem o segmento mais rico da população dos países mais desenvolvidos e, intermitentemente, em outras regiões.

Segundo o livro de David Rothkopf Super-classe: a Elite de Poder Mundial e o Mundo que está Criando, a super elite abarcaria aproximadamente 0,0001% (1 milionésima parte) da população do mundo e compreenderia umas 6 a 7 mil pessoas, embora outros assinalem 6,6 mil. Entre esse grupo, teria que se procurar os donos das 147 corporações a que se refere o estudo dos pesquisadores de Zurich.

Ernesto Carmona é jornalista e escritor chileno.

CdoB

sábado, 28 de julho de 2012

Dinheiro por nada

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Paul Krugman

Há anos, pessoas supostamente sérias vêm lançando alertas sombrios sobre as consequências de grandes deficit orçamentários - deficit que resultam primordialmente da crise econômica corrente. Em maio de 2009, Niall Ferguson, de Harvard, declarou que "o maremoto da emissão de dívidas" causaria disparada nas taxas de juros norte-americanas. Em março de 2011, Erskine Bowles, co-presidente da malfadada comissão do deficit criada pelo presidente Barack Obama, alertou que a menos que houvesse ação rápida contra o deficit, "os mercados nos devastarão", provavelmente em menos de dois anos. E assim por diante.

Bem, creio que ainda restem alguns meses no prazo de Bowles. Mas algo de estranho aconteceu no caminho para a crise fiscal que tantos previram: os custos de captação dos Estados Unidos caíram ao seu nível mais baixo na História. E isso não acontece só nos Estados Unidos. A esta altura, todos os países avançados capazes de captar recursos em moeda própria vêm obtendo empréstimos a custo muito baixo.

O fato de que os deficit não tenham produzido a alta prevista nas taxas de juros está nos dizendo algo de importante sobre a natureza de nossos problemas econômicos (e a sabedoria, ou falta de, daqueles que se apontaram como protetores de nossas virtudes fiscais). Antes que eu trate desse assunto, porém, vamos discutir os custos de captação baixíssimos - tão baixos que, em certos casos, os investidores na verdade estão pagando aos governos pelo depósito de seu dinheiro.

Em termos gerais, isso vem acontecendo com "títulos protegidos contra a inflação" - papéis cujo pagamento futuro está vinculado ao índice de preços ao consumidor, e portanto fazem com que o investidor não precise temer erosão de seu capital pela inflação. Mesmo com essa proteção, os investidores costumavam exigir pagamento substancialmente mais alto. Antes da crise, as notas de 10 anos norte-americanas protegidas por correção monetária pagavam cerca de 2% anuais de juros. Recentemente, porém, a taxa desses títulos vem sendo de 0,6% negativo. Os investidores estão dispostos a pagar mais por esses papéis do que o total corrigido pela inflação que virão a receber quando o governo liquidar o principal e os juros.

Ou seja, na prática os investidores estão oferecendo dinheiro de graça aos governos pelos próximos 10 anos; na realidade, estão dispostos a pagar uma taxa modesta aos governos para que protejam seu dinheiro.

As pessoas que têm interesse velado em promover o medo de uma crise fiscal fizeram diversas tentativas para explicar por que a crise não se concretizou. Uma das preferidas é a alegação de que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) vem mantendo os juros artificialmente baixos ao adquirir títulos do governo. Mas essa teoria foi submetida a teste na metade do ano passado, quando o Fed suspendeu temporariamente suas compras de títulos públicos. Muita gente -incluindo Bill Gross, do grande fundo de investimento em títulos Pimco- previa uma disparada nos juros. Nada aconteceu.

Oh, e não prestem atenção aos alertas de que um dia desses nos transformaremos na Grécia. Países como a Grécia ou a Espanha estão sofrendo as consequências da decisão irresponsável de trocar suas moedas nacionais pelo euro, que os torna vulneráveis de uma maneira que não se aplica de modo algum aos Estados Unidos.

Assim, o que está acontecendo? A principal resposta é que isso é o que transcorre quando você passa por um "choque de redução de dívidas", quando todo mundo corre para tentar reduzir seu endividamento ao mesmo tempo. O uso domiciliar de crédito despencou, as empresas acumularam reservas de caixa porque não há motivo para expandir produção na ausência de vendas, e o resultado é que os investidores estão prontos mas não têm o que fazer com seu dinheiro. Por isso, estão comprando títulos do governo mesmo que os retornos sejam muito baixos, dada a falta de alternativas. Além disso, ao oferecer dinheiro por juros tão baixos, estão na prática implorando para que os governos emitam mais títulos de dívida.

E os governos deveriam atender a esses pedidos, em lugar de se sentirem obcecados quanto ao deficit em curto prazo.

Ressalva obrigatória: sim, temos um problema orçamentário de longo prazo, e deveríamos começar a resolvê-lo agora, principalmente pela contenção dos custos da saúde. Mas é uma loucura demitir professores e cancelar projetos de infraestrutura em um momento no qual os investidores estão oferecendo dinheiro a juro zero ou negativo.

Não é nem mesmo preciso oferecer o argumento keynesiano quanto à criação de empregos para perceber o fato. A única coisa necessária é perceber que, quando o dinheiro está barato, é um bom momento para investir. E tanto educação quanto infraestrutura representam investimento no futuro dos Estados Unidos; terminaremos por pagar um preço alto, e completamente desnecessário, pelos danos que estamos causando aos dois setores agora.

Isso posto, o argumento keynesiano também é fato. A experiência dos últimos anos - acima de tudo, o espetacular fracasso das políticas de austeridade na Europa - foi demonstração dramática do ponto básico de Keynes: em uma economia deprimida, cortar gastos causa ainda mais depressão.

Portanto, é hora de ignorar os supostos sábios que sequestraram o debate sobre política econômica e atribuem ao deficit o papel central na discussão. Eles estão errados sobre absolutamente tudo - e agora até mesmo os mercados financeiros nos dizem que deveríamos nos concentrar no crescimento e criação de empregos.
Tradução de Paulo Migliacci
 
Paul Krugman é prêmio Nobel de Economia (2008) e professor na Universidade Princeton (EUA). Um dos mais renomados economistas da atualidade, é autor ou editor de 20 livros e tem mais de 200 artigos científicos publicados.

terça-feira, 17 de julho de 2012

A ESPANHA AFUNDA

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Por Rodrigo Fresán
Desde Barcelona, para Página/12

UNO A seis meses del esperpéntico naufragio del Costa Concordia (el colosal crucero todavía está ahí, escorado, junto a la isla de Giglio, como escenografía perfecta para película post-apocalíptica) y en medio de una tormenta (solar) perfecta, el jefe de Gobierno español Mariano Rajoy, quien se creía insumergible y titánico, chocó contra el iceberg de su descontento. Y –tocado y hundido– se fue hasta el fondo. Un fondo donde no aguarda un tesoro sino, apenas, el Fondo Monetario Internacional y sus coleguitas piratas, siempre listos para salir a la caza de los restos y despojos que suben a la superficie. Rodríguez –como millones de españoles atrapados en las cubiertas inferiores, hambrientos de pan y con abstinencia de circo, flotando entre la Eurocopa que fue y las Olimpíadas que serán– lo vio por televisión. 11 de junio. Miércoles; a pesar de que Rajoy ya advirtió de que los viernes serían, de aquí y hasta el fin del mundo, el día elegido para que él descienda del Monte Bruselas con las Tablas de las Nuevas Leyes y nosotros corramos a hacer los espinosos mandados que ordenan las llamas de este incendio. Pero, claro, este viernes caía 13, así que lo mejor era no arrojar más carbón a las calderas del cada vez más oscuro humor negro. Y la hoja de ruta y el curso de navegación ya venía complicado. La borrasca estalló el mismo lunes, cuando se formalizó con datos el pedido de ayuda, rescate, intervención suave, tutela, S.O.S. o lo que sea. El ministro de Economía, por supuesto, insistió con eso de que nadie había impuesto una condición (y no mentía, porque impusieron treinta y dos condiciones) y no al abordaje sino a ser abordados. Y todo empezaba a hacer agua. Las encuestas –como mensajes en botellas– decían que dos de cada tres españoles creen que nada de lo que se está haciendo desde Moncloa servirá para algo. Es decir: dos terceras partes de la población no cree. En nada. Y –destierro a la vista– cada vez se ve más gente en la calle, hablando sola, sin el móvil en la mano y como inmóviles, aislados bajo una solitaria palmera, sin bronceador que los proteja de los rayos ni pararrayos que los salve de los relámpagos.

DOS El miércoles, Rajoy leyó la cartilla en el Congreso. Y era una cartilla larga. Parecía, más bien, un acta de defunción política. O un parte del naufragio de sus recetas. Porque allí, delante de todos, Rajoy se iba a pique mientras, mareado, contemplaba el ascenso inexorable de la marea de una reforma deformante barriendo el castillo de arena de su programa de gobierno. De aquí en más, Rajoy es un capitán sin puerto relevado de sus funciones por un almirantazgo en tierra apenas más firme que la suya. “No podemos elegir. No tenemos esa libertad”, finalmente advirtió –degradado y aferrado al poco obediente puente de mando del hemiciclo de miércoles– el hasta entonces supuesto Gran Presionador Rajoy. Y allí, en vivo y en directo, Rajoy ponía en funcionamiento los motores del mayor recorte en toda la historia de la democracia (atrás quedó el récord del Capitán Zapatero aquel 12 de mayo del 2011) y enumeraba, una a una, restas de haberes y aumentos de deberes como si disparara cañones contra sí mismo. La bancada del PSOE y de la izquierda (que, como se sabe, no es lo mismo) lanzaba un “uuuy” con cada medida enunciada y la del PP aplaudía a su héroe (en señal de admiración por su valentía y compromiso, explicaron), mientras una de sus diputadas lanzaba un “¡Que se jodan!” (la cosa era con los socialistas y no con los desempleados, aclaró luego). Y todo era tan lamentable y tan triste que difícilmente James Cameron pagaría uno de sus batiscafos de luxe para contemplarlo. Pero Rodríguez sí lo vio y ya no podrá olvidarlo. La confirmación absoluta de que al mal tiempo planetario hay que sumarle, además, las malas caras una de las peores tripulaciones de oficiales que se recuerde. Ganas de atarse al mástil para que las sirenas te perforen los párpados. Cualquier cosa mejor que oír a esas autocomplacientes gaviotas graznando, a esos albatros de pésimo agüero que no hicieron nada en su momento, a ese Rajoy –con aire de Haddock sin Tintín– diciendo lindezas muy suyas del tipo “Yo soy el primero en estar haciendo lo que no me gusta” y “Las medidas que he tomado no son agradables cada una en particular y menos lo son todas juntas”.

Rodríguez compró el diario del jueves –un huracán tropical de gráficos, infografías, testimonios y diferentes tonalidades de rojo– para ver si así entendía algo. Y entendió todo.

Ahogados, fue el inapelable titular de El Periódico del viernes.

Y Rodríguez, con el agua al cuello, agitó los brazos y gritó “¡Wilson!”

TRES Para el viernes 13 todo estaba firmado y listo para trámite; el rey advirtió a los políticos de “que no se quede nadie fuera de la recuperación cuando ésta llegue”; el gobierno no dio cifras exactas (pero sí las publicó, en inglés, en una página para inversionistas de su site); la del “¡Que se jodan!” pidió una de esas disculpas que nunca parecen pedir perdón, y en las calles de España, los jodidos, los recortados y parados, los marineros con nudos en la garganta, encallados pero a los gritos, se amotinaban. Y eran reprimidos. Va a ser, sí, un largo y ardiente verano. Y en septiembre se activará la suba del IVA. Y lo poco que iba ya no volverá a ir, parece. La ministra de Empleo y Seguridad Social dijo que “saldremos adelante con dignidad y entereza, con determinación y sensibilidad”. Rodríguez no comprendió lo de “dignidad” y “sensibilidad” (ni González ni Aznar, con bonitos sueldos en la empresa privada, han tenido el gesto de renunciar a sus pagas como ex presidentes; no se ha tocado la “limosna” estatal a la Iglesia y las rebajas a la Casa Real han sido de risa); pero son tantas las cosas que Rodríguez ya no comprende. A Rodríguez sólo le queda comprender los chistes. Y reírse para no llorar –o reírse hasta las lágrimas– con esa foto retocada que muestra a Rajoy y a los suyos con salvavidas al cuello o con eso de “Si esto fuese un naufragio, es como si se salvara a las rocas en lugar de a los pasajeros”. Las rocas son los bancos. Y Rodríguez se sienta en una roca de la playa de la Barceloneta a leer su libro para las vacaciones en casa. Manual de supervivencia y de autoayuda. La nueva edición en español del Robinson Crusoe, de Daniel Defoe. Allí, Rodríguez se enteró de que a la versión de Julio Cortázar –que leyó en su adolescencia, cuando España era pura promesa y las portadas de Alianza eran tan buenas y bonitas– le faltaba el 30 por ciento del original. Ahora, este viernes 13, Rodríguez alcanza ese momento tremendo cuando Robinson, tras veinte años de soledad absoluta, descubre la pisada de Viernes en la orilla, y corre a esconderse en su bungalow, reconociendo que “nunca una liebre buscó cobijo ni se metió bajo tierra un zorro con tanto terror en su mente como yo en aquel refugio”.

Pues eso.

Y ahí al lado –donde termina una playa demasiado parecida a esa postal baldía que acaba de llegarnos de Marte– el acalambrante mar es siempre caldo de tiburones que parece que sonríen, pero que en realidad no hacen otra cosa que enseñar los dientes.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Río+20: sumisión al poder financiero

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Alejandro Nadal · · · · ·

La Conferencia de Naciones Unidas sobre Desarrollo Sustentable (CNSD), mejor conocida como Río+20, vino y se fue. Pudo haber sido un acto importante. En lugar de ello, estableció un nuevo estándar en cómo hacerse irrelevante. La receta es sencilla: pretenda usted que nunca ha oído hablar de la crisis global.

El documento final de la UNCSD no menciona ni una sola vez la crisis económica y financiera global. Poco importa que la crisis ya se ha convertido en la Segunda Gran Depresión. De alguna manera, los funcionarios del Programa de Naciones Unidas sobre Medio Ambiente (PNUMA) consideraron que ese tema no era relevante en una conferencia sobre sustentabilidad.

El PNUMA buscó sacar adelante su iniciativa sobre la economía verde. En el informe presentado en Río se le define como una economía en la que aumenta el bienestar, disminuye la pobreza y mejora el medio ambiente. Se trataría de una economía socialmente incluyente, con bajas emisiones de gases invernadero y gran eficiencia en el uso y manejo de recursos.

Para transitar hacia una economía verde se necesita invertir el 2 por ciento del PIB mundial (anualmente entre 2010-2050) en 10 sectores clave. Es una cantidad importante. ¿Dónde se pueden encontrar esos recursos? El PNUMA responde sin rubor: en el sector financiero. Según esta agencia el sector financiero tiene a su disposición una montaña de recursos y cada vez está más interesado en una cartera de inversiones que minimiza el costo ambiental y social, al mismo tiempo que capitaliza con tecnologías verdes.

La amistad del PNUMA con el sector financiero se confirma cuando se mencionan los mercados e instrumentos que ahora estarían del lado de la justicia y la salud ambiental: bonos verdes, bonos de carbono, REDD+, y activos de propiedad verde, etc. Ahí está: la financiarización de la naturaleza. Nunca se les ocurrió a los funcionarios del PNUMA que el desarrollo de estos mercados novedosos proviene de la búsqueda de espacios de rentabilidad en un mundo en el que la economía real permanece estancada.

El PNUMA en Río ha buscado tapar el sol con un dedo. Ha querido ignorar el hecho de que el sector financiero es el epicentro de la crisis global. El colapso de la economía mundial se mantiene en buena porque la opacidad de las operaciones financieras aceleró el contagio al principio y ahora impide reactivar el mercado interbancario.

Tiene razón el PNUMA: el sector financiero ha crecido mucho en los últimos veinte años. Pero ¿no se les ocurre que eso es precisamente un signo de la patología de la economía global? El estancamiento de los salarios desde hace tres décadas explica el creciente endeudamiento de las familias. La demanda agregada estuvo impulsada por el endeudamiento y eso, a su vez, explica cómo se llevó a cabo un proceso de redistribución de la riqueza de los más pobres a los más ricos. Instrumentos como las tarjetas de crédito, los préstamos para estudiantes o para automóviles fueron verdaderas aspiradoras para succionar recursos de los hogares y llevarlos a los bancos.

Uno de los factores que explica la expansión del sector financiero es su inclinación a introducir innovaciones que hicieron las operaciones del sector más opacas, disfrazaron riesgos, aumentaron la propensión a la volatilidad e incrementaron los niveles de apalancamiento. La bursatilización convirtió a muchas operaciones en zona vedada para los reguladores y agencias de supervisión. La autorregulación sólo proporcionó la ilusión de que se estaba haciendo algo para frenar abusos.

Un punto fundamental que el PNUMA no puede entender: una proporción significativa de la montaña de recursos en manos del sector financiero es riqueza contable. Proviene de un típico proceso de inflación de activos, o si se prefiere, de una burbuja. La crisis es la forma en la que se destruye ese patrimonio que sólo existe en la contabilidad. Para analistas como Nouriel Roubini o Dean Baker, al proceso deflacionario aún le falta mucho para completar su tarea.

Es más, una parte de esos recursos financieros proviene de las operaciones de creación monetaria de los bancos. Por ejemplo, con sus préstamos los bancos de la Unión Europea han creado billones (castellanos) de euros de la nada, o como dicen, ex nihilo. Y sólo una fracción minúscula de esos créditos estuvo respaldada por depósitos. El globo gigante todavía está desinflándose.

El PNUMA debería estudiar con seriedad la relación entre los sectores financiero y real de la economía. Los canales de transmisión entre estos sectores son críticos para el mantenimiento de la estabilidad macroeconómica. En nuestros tiempos las operaciones en el sector financiero han propagado y amplificado la turbulencia y han puesto de rodillas a la economía real. Caray, hasta una organización tan conservadora como el Comité de supervisión de bancos de Basilea (dependiente del Banco de pagos internacionales) se preocupa por estos temas. ¿Por qué los funcionarios del PNUMA no pueden hacer lo mismo?

Alejandro Nadal es miembro del Consejo Editorial de SinPermiso.

La Jornada, 26 junio 2012

terça-feira, 19 de junho de 2012

Corrupción Universitaria y Crisis Financiera

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Académicos Mercenarios

Charles Ferguson · · · · ·

¿Por qué fue tan apagada la respuesta de los expertos académicos norteamericanos a la crisis financiera global? En este fragmento de su libro Inside Job, elaborado a partir de su extraordinario y difundido documental, Charles Ferguson sostiene que la corrupción está profundamente arraigada en las universidades.

Mucha de la gente que vio mi documental Inside Job se dio cuenta de que la parte más perturbadora de la película consistía en la revelación de los extendidos conflictos de intereses en las universidades, en centros de estudios y entre expertos académicos. Los espectadores que vieron mis entrevistas con eminentes profesores quedaron asombrados por lo que salía de su boca.

Sin embargo, no deberíamos sorprendernos. En las últimas dos décadas, los profesionales de la medicina han demostrado ampliamente la influencia que puede ejercer el dinero en un campo supuestamente objetivo, científico. En general, las escuelas y revistas médicas han respondido bien, adaptándose a los requerimientos de transparencia. La disciplina de la economía, las escuelas de negocios, las facultades de derecho y de ciencias políticas han reaccionado de manera muy diferente.

En los últimos treinta años, partes notables del mundo académico norteamericano se han degradado en actividades de "paga por jugar". En nuestros días, si vemos a un célebre profesor de economía prestar testimonio ante el Congreso, o escribir un artículo, hay muchas probabilidades de que le pague alguien con grandes intereses en lo que se está debatiendo. La mayor parte de las veces estos profesores no revelan estos conflictos de interés y la mayor parte de las veces las universidades miran hacia otro lado.

Media docena de firmas de consultoría, varias agencias de conferenciantes y diversos grupos de presión económicos mantienen extensas redes de especialistas académicos de alquiler con el propósito de abogar en favor de intereses económicos en los debates de política y regulación. Los principales sectores implicados son la energía, las telecomunicaciones, la atención sanitaria, el agribusiness y, de manera que no deja resquicio de duda, los servicios financieros.

Algunos ejemplos. Glenn Hubbard se convirtió en decano de la Escuela de Negocios de la Universidad de Columbia en 2004, poco después de abandonar el gobierno de George W. Bush. Buena parte de su labor académica se ha centrado en la política fiscal. Un buen resumen sería decir que no ha visto nunca un impuesto que le gustase. En noviembre de 2004, Hubbard escribió conjuntamente con William C. Dudley, entonces economista jefe de Goldman Sachs, un artículo asombroso. El artículo, “Cómo los mercados de capital aumentan el rendimiento económico y facilitan la creación de empleo” merece citarse. Recordemos que hablamos de noviembre de 2004, con la burbuja ya bien en movimiento: "Los mercados de capital han ayudado a hacer menos volátil el mercado de la vivienda... Las 'restricciones crediticias' del género de aquellas que periódicamente cerraban la oferta de financiación a los compradores de vivienda… son cosa del pasado".

Hubbard se negó a revelar si le habían pagado por escribir ese artículo. También se negó a proporcionarme su última declaración oficial de transparencia financiera, que no pudimos obtener de ningún otro modo, pues la Casa Blanca la había destruido. A Hubbard le pagaron 100.000 dólares (63.000 libras) por declarar como testigo de la defensa de dos gestores de un hedge fund de Bear Stearns procesados en relación con la burbuja, que salieron absueltos. El año pasado, se convirtió en consejero asesor económico de la campaña presidencial de Mitt Romney.

Larry Summers ha desempeñado casi todos los puestos de importancia en la gestión económica gubernamental. Secretario del Tesoro con Clinton, en 2009 se convirtió en director del Consejo Económico Nacional de la administración de Obama.

Aunque sensato en muchas cuestiones, Summers ha cometido una serie de errores y arreglos bien documentados. Y sus opiniones sobre el sector financiero serían difíciles de distinguir de las de Lloyd Blankfein [jefe de Goldman Sachs], por ejemplo, o Jamie Dimon [jefe de J.P. Morgan].

La mayor parte de nuestra información sobre Summers proviene de declaración oficial de transparencia. La declaración de transparencia de 2009 establecía que sus ingresos totales estaban entre 17 y 39 millones de dólares. Sus ganancias totales del año anterior a incorporarse al gobierno fueron de casi 8 millones de dólares. Goldman Sachs le pagó 135.000 dólares por una sola conferencia.

Summers es un hombre de compromisos que debe la mayor parte de su fortuna y buena parte de su éxito político al sector de servicios financieros, y que estuvo implicado en algunas de las decisiones políticas más desastrosas del pasado medio siglo. En el gobierno de Obama, Summers se opuso a medidas contundentes para sancionar a los banqueros o recortar sus ingresos.

Harvard no le exige todavía a Summers transparencia en sus compromisos con el sector financiero. Tanto Harvard como Summers declinaron atender mis peticiones de información.

El problema de la corrupción académica está hoy tan profundamente arraigado que estas disciplinas, así como universidades destacadas, se ven gravemente comprometidas, y cualquiera que considere resistirse a la tendencia se sentiría racionalmente muy asustado. Pongamos por caso una situación como ésta: eres estudiante de doctorado o un miembro joven del profesorado, que está ponderando si llevar a cabo alguna investigación sobre, digamos, estructuras de compensación a la hora de tomar riesgos en servicios financieros, o las repercusiones potenciales de los requisitos de transparencia pública en el mercado de CDS (credit default swaps). El presidente de tu universidad es… Larry Summers.

El presidente de tu departamento es… Glenn Hubbard. O estás en el MIT [Massachussets Institute of Technology], y quieres examinar la caída en el pago del impuesto de sociedades. La presidenta del MIT es Susan Hockfield, que está en la junta de GE [General Electric], una empresa que ha evitado pagar prácticamente cualquier tipo de impuesto de sociedades durante varios años

¿En qué medida afectan estas fuerzas a la investigación y política académicas? La evidencia de la que disponemos sugiere que el efecto es considerable.

Los comentarios académicos sobre la crisis financiera han sido notablemente débiles. Existen, a buen seguro, notables excepciones. Pero en su mayor parte, el silencio ha sido ensordecedor. ¿Cómo se puede estructurar un sector entero de tal modo que a los empleados se les anime a saquear y destruir sus propias empresas? ¿Por qué fracasaron la desregulación y la teoría económica de modo tan espectacular?

La difusión de la película Inside Job tocó claramente una fibra con respecto a estas cuestiones. Se puso en contacto conmigo un gran número de estudiantes y profesores, y ha habido mucho debate. Hay departamentos, entre los que se cuentan los de la Escuela de Negocios de Columbia que han adoptado por vez primera requisitos de transparencia. Pero la mayoría de las universidades carecen todavía de esos requisitos, y pocas tienen limitaciones sobre la existencia de conflictos de interés. Lo mismo vale para la mayoría de las publicaciones académicas. Los periodistas tienen estrictamente prohibido aceptar dinero de cualquier sector u organización sobre la que escriban.

No es este el caso en el mundo académico.

Se ha producido un cambio positivo significativo. Este mismo año, la Asociación Norteamericana de Economía adoptó un requerimiento de transparencia para las siete revistas que publica. Pero la mayoría de las instituciones siguen oponiéndose a una mayor transparencia y, durante la realización de la película, se negaron siquiera a debatir la cuestión.

Charles Ferguson es fundador y presidente de la productora cinematográfica Representational Pictures, y director y productor de No End In Sight: The American Occupation of Iraq (2007) e Inside Job (2010), que consiguió el Oscar al Mejor Documental. Ferguson se doctoró en Ciencias Políticas en el MIT y trabajó como consultor independiente, especialista en tecnología de la información y creador de software. Este texto editado proviene del libro de reciente publicación Inside Job: the Financiers Who Pulled Off the Heist of the Century [Un trabajo desde dentro: los financieros que dieron el golpe del siglo], que detalla y prolonga mucho de lo tratado en el documental del mismo título.

Traducción para www.sinpermiso.info: Lucas Antón

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sexta-feira, 16 de março de 2012

Las veleidades de Islandia

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Dean Baker · · · · · 

A quienes pensaron que ya habían presenciado suficiente locura financiera por parte de este pequeño país-isla les espera una gran sorpresa: la chifladura no ha hecho más que empezar. Islandia parece estar considerando adoptar el dólar canadiense como moneda oficial. Resulta difícil saber por dónde empezar a ridiculizar tal consideración. Si tuvieran algo de sentido común, los islandeses estarían dando gracias cada día al dios de las pequeñas divisas por el hecho de que su país tenga propia moneda y de que no formara parte de la eurozona en el momento de implosión del sistema financiero.

Gracias a tener su propia divisa, Islandia pudo llevar a cabo los ajustes necesarios frente a la crisis permitiendo que el valor de su moneda disminuyera en relación con las de sus socios comerciales. Esto encareció las importaciones reduciendo considerablemente su volumen. La corona islandesa, con un valor decreciente, abarató las exportaciones y las condujo a un aumento de volumen repentino. El efecto de este cambio en los precios relativos fue que el déficit de mercado masivo de Islandia, el cual se disparó a más del 28 por ciento del PIB en 2008, proyectara volverse un superávit de más del 3,0 por ciento del PIB este año. Este increíble giro ha restablecido el crecimiento económico en 2011 y comenzado a disminuir la tasa de desempleo del país.

La tasa de desempleo del 6,7 por ciento registrada en el cuarto trimestre del 2011 supone un nivel alto en relación con los estándares de Islandia, pero pinta muy bien en comparación con las de los países en crisis vinculados al euro. La tasa de desempleo más recientemente registrada en Portugal fue del 13,6 por ciento, en Irlanda del 14,5 por ciento, en Grecia del 19,2 por ciento y en España del 22,9 por ciento.

Estos países sufrieron la desgracia de estar en el euro por tres motivos. En primer lugar, estaban sujetos a la permanente obsesión del Banco Central Europeo (BCE) con la inflación. Mientras que gran parte de la carga de la deuda del ciudadano islandés medio fue paliada con dos años de una inflación del 12 por ciento (2008 y 2009), los deudores de los países en crisis de la eurozona han tenido que sufrir la celebración del BCE por perpetuar una inflación baja.

En segundo lugar, al no poder devaluar su moneda, los países de la eurozona no pudieron confiar en un aumento en las exportaciones netas con el fin de proporcionar el mismo estímulo al crecimiento que Islandia. Finalmente, ser parte de la zona euro significaba que el BCE, junto con sus aliados el FMI y la Comisión Europea, podían exigir recortes presupuestarios e incrementos en los impuestos incluso a mitad de una recesión aguda, decelerando aún más las economías de los países en crisis.

Los desequilibrios creados por los excesos financieros de Islandia en la última década empequeñecen cualquier cosa vista en países afectados de la eurozona. El déficit de su cuenta corriente explotó a un increíble 26 por ciento del PIB en 2006. Esto bastó para llamar la atención del FMI, una organización a la que normalmente no molestan las exuberancias irracionales de los mercados privados. Si Islandia no gozara de la libertad de utilizar la devaluación de su moneda como parte fundamental de su proceso de ajuste, podría estar ahora contemplando una década o más de estancamiento y de alto desempleo.

Sin embargo, en vez de celebrar su buena suerte, los líderes islandeses parecen estar resueltos a forzar al país a entrar en el mismo tipo de corsé que sus menos afortunados vecinos. Si Islandia se uniera a cualquier gran bloque monetario, perdería inmediatamente la flexibilidad que le ha protegido en su recuperación de la crisis. Por este motivo, debería ir con extremo cuidado con los términos bajo los que renuncia al control de su moneda.

Aun así, la elección de Islandia es especialmente bizarra. Siendo uno de los grandes exportadores de petróleo, la moneda de Canadá tiene tendencia a seguir los cambios del precio del crudo. Esto significa que cuando el precio del petróleo sea alto, la moneda canadiense y la islandesa aumentarán de valor. Habrá entonces un efecto directo en el aumento de los bienes y servicios islandeses relativos a los precios de otros países.

Ello hará a Islandia menos competitiva en la economía mundial. Acabará entonces adquiriendo importaciones baratas del extranjero en vez de producir bienes y servicios domésticos y sus exportaciones, por ejemplo el turismo, disminuirán al decidir el resto que Islandia es demasiado cara.

Canadá también tiene este problema. En los últimos meses ha habido varios ejemplos en los que grandes fabricantes anunciaron su decisión de trasladarse a los Estados Unidos para beneficiarse de los costes relativamente bajos. La diferencia entre Canadá e Islandia en esta historia es que Canadá disfrutará de ingresos gracias al petróleo que le ayudarán a mejorar el desplazamiento resultante de un aumento en el valor de su moneda. Islandia tiene pocas probabilidades de poder participar de la riqueza del petróleo canadiense de la misma forma.

La última vez que los líderes de Islandia se infectaron de ideas absurdas sobre la economía contrataron a Frederick Mishkin, un prominente economista estadounidense que decía que todo iba bien aun a sabiendas de que el sistema financiero estaba apunto de implosionar. Esperemos que los agentes públicos tomen un rumbo más serio esta vez.

Dean Baker es codirector del Center for Economic and Policy Research (CEPR). Es también autor de Plunder and Blunder: The Rise and Fall of the Bubble Economy False Profits: Recoverying From the Bubble Economy.

Traducción para www.sinpermiso.info: Vicente Abella Aranda

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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Apple y el comercio con China

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Behzad Yaghmaian · · · · · 

Revelaciones recientes en los medios de información sobre abusos de los proveedores de Apple han reavivado el debate público sobre China y los costes humanos de la globalización.  Entretanto, el Presidente Obama, preocupado por el empleo en un año electoral, ha pedido que China juegue limpio en el comercio internacional y mejore su comportamiento en derechos humanos.

China ha sido un vehículo para la creación de una globalización basada en bajos salarios y bajas normas de trabajo que ha costado muchos puestos de trabajo a Estados Unidos. En años recientes, sin embargo, China se ha esforzado en dar al “made in China” un nuevo significado y rechazar la imagen negativa del país como centro de un capitalismo abusivo propio del siglo XIX en la era de la globalización.

 China está abandonando gradualmente sus anteriores prácticas laborales a medida que se dirige hacia  la creación de un mercado nacional y de una sociedad de clase media. Dado el tamaño de la fuerza de trabajo china y la importancia del país en la economía mundial, cualquier mejora de las relaciones laborales tendrá un efecto substancial sobre los salarios y las normas laborales del resto del mundo. China y la economía mundial se encuentran en una encrucijada histórica.

El gobierno chino ha venido apoyando de forma sostenida la mejora de salarios y normas laborales. En la ciudad de Shenzhen, sede de Foxconn, el principal proveedor local de Apple, el salario mínimo establecido por el gobierno se multiplicó por más de tres desde 70$ mensuales en 2005 hasta 240$ en 2012. Los aumentos de salarios han sobrepasado la tasa de inflación y han continuado haciéndolo incluso después de la crisis del 2008.

Beijing también ha hecho esfuerzos concretos para mejorar las prácticas laborales en el lugar de trabajo. En abril del 2006, el gobierno sacó a debate público el primer proyecto de Ley de contrato de trabajo. El proyecto de ley fue un paso importante para la protección de los derechos de los trabajadores y para establecer reglas básicas de juego limpio, tal como deseaba el Presidente Obama.

El proyecto de ley restringía el uso del trabajo temporal, limitaba la potestad de los empresarios para despedir arbitrariamente a sus trabajadores y concedía a los trabajadores el derecho a la negociación colectiva respecto a salarios y  beneficios. Obligaba a todos los empresarios a dar a sus trabajadores un contrato de trabajo.

La Cámara de Comercio americana en Shanghai (AmCham) y el Consejo de Negocios U.S.-China presionaron contra el proyecto en beneficio de muchas grandes corporaciones norteamericanas a las que representaban. Criticaban el proyecto porque reducía la flexibilidad del mercado de trabajo y aumentaba los costes de producción. En un comunicado público, el Consejo de Negocios U.S.-China se oponía al proyecto de ley por reducir las oportunidades de empleo de los trabajadores chinos y por tener efectos negativos para la competitividad de la China y su atractivo como destino de la inversión extranjera.

En las décadas de los 80 y 90 las multinacionales norteamericanas utilizaron la amenaza de relocalización hacia China como un recurso en la negociación sobre salarios y beneficios con sus trabajadores de Estados Unidos. Años más tarde utilizaron la amenaza de India, Vietnam y otros contra los trabajadores chinos. La amenaza fue efectiva en parte. Después de meses de presiones y de negociaciones una versión más débil del proyecto se convirtió en ley en Abril del 2007.

China ha recorrido un gran trecho desde las tremendamente abusivas prácticas laborales del pasado. El camino hacia una transformación más profunda de las relaciones laborales y la aplicación de los derechos laborales al uso en las democracias occidentales será difícil y tortuoso. Sin embargo, el viaje ya ha comenzado. Es imperativo que las multinacionales norteamericanas no debiliten esta tendencia. El Presidente Obama y la legislación norteamericana pueden jugar un papel constructivo.

La política económica de Estados Unidos respecto a China está en gran parte configurada a través del prisma del comercio internacional. Sin embargo, el comercio de los Estados Unidos con la China ha experimentado cambios estructurales profundos en los últimos años. Una parte creciente del aumento de las importaciones y la consiguiente pérdida de trabajos norteamericanos son debidas actualmente a la inversión y producción global  de las grandes firmas norteamericanas. Para escapar a la normativa laboral progresista nacional, las corporaciones norteamericanas han ido estableciendo complejas cadenas de suministro globales con diferentes grados de abusos respecto a los derechos laborales. La política comercial convencional es inadecuada para el tratamiento de las pérdidas de trabajo y el comercio generados por la globalización.

Al permitir importaciones con prácticas laborales por debajo de la norma, el libre comercio penaliza a quienes cumplen las normas y premia a los otros. Sin embargo, la política proteccionista tradicional penaliza tanto a los violadores como a los no violadores de los derechos laborales. El Presidente Obama puede salvar trabajos norteamericanos y ayudar a la creación de una globalización más justa apoyando la política comercial que se centra en las prácticas del lugar de trabajo de las grandes firmas norteamericanas  y de sus proveedores en China y en otras partes.

La nueva política será específica para el empleador ya que se centrará en cómo se producen las importaciones. Se impondrán tasas de importación sobre las marcas que violen, en algún punto de la cadena de suministros, las leyes laborales nacionales existentes o los estándares mínimos establecidos por un comité de la OIT. Los Estados Unidos presentarán la nueva política para ser debatida y promulgada por la OIT.

Se trata de una política en la que todos ganan, que ayudará a la China a avanzar hacia normas de una mayor aceptación internacional, a reducir la capacidad de las grandes corporaciones para mercadear a través del mundo bajos salarios y normas laborales  y a salvar empleos norteamericanos que se perderían a causa de prácticas laborales inaceptables en otras partes del mundo.

Behzad Yaghmaian es  profesor de economía política en el Ramapo College de New Jersey, y es el autor de Embracing the Infidel: Stories of Muslim Migrants on the Journey West (Aceptar al infiel: historias de inmigrantes musulmanes viajando al Oeste) y  el próximo The Accidental Capitalist: A People’s Story of the New China (El capitalista accidental: una historia popular de la nueva China) (Marzo 2012).

Traducción para www.sinpermiso.info: Anna Maria Garriga

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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

El mundo necesita 600 millones de puestos de trabajo nuevos

Foto de Toby Melville

Stephanie Kelton · · · · ·


La oficina Internacional del Trabajo (OIT) acaba de publicar un soberbio informe sobre la galopante crisis  en curso en el mundo de los mercados de trabajo. Comenzamos el año 2011 con 1100 millones de personas –una de cada tres en la fuerza de trabajo global— o desempleadas o entre los trabajadores pobres que ganan menos de 2 dólares al día. A la masa de los 200 millones de desempleados existentes, los mercados de trabajo globales verán añadirse cada año, de promedio, 40 millones de nuevos solicitantes de empleo. Eso significa que se necesitará crear 400 millones de puestos de trabajo a lo largo de la próxima década, a fin de evitar un ulterior crecimiento del desempleo. Para dar empleo a todos los que quieren trabajar, el mundo necesita 600 millones de puestos de trabajo nuevos.

Preocupa, empero, la desaceleración del crecimiento global, lo que significa que a los mercados de trabajo les resultará difícil seguir el paso del crecimiento de la fuerza de trabajo, por no hablar de recuperar terreno perdido. En 2011, el crecimiento global se desaceleró desde el 5,1% hasta el 4%, y el FMI avisa ya de una ulterior desaceleración en 2012. El informe de la OIT alerta de que, incluso una modesta ralentización en 2012, digamos de 0,2 puntos porcentuales, significaría 1,7 millón de parados más en 2’13. El informe arroja también luz sobre el impacto que las políticas de implacable austeridad fiscal han tenido en el crecimiento y el empleo, comenzando por los programas de austeridad destructora de puestos de trabajo que se han vuelto tan comunes en la Eurozona. En otras partes, en naciones con amplio margen para sus políticas, los gobiernos han perdido su apetito por el estímulo fiscal aún a pesar de que la acrecida inseguridad y a deprimida confianza de los consumidores mantienen en situación de debilidad a la demanda del sector privado.

Analíticamente, el informe comienza de forma excelente: con un análisis que utiliza el enfoque de balance sectorial, tan esencial para la Teoría Monetaria Moderna (TMM). El informe pone de relieve las (negativas) implicaciones que tienen para el ahorro neto privado las restricciones puestas al déficit público. Desgraciadamente, los autores del informe no dominan lo suficiente la perspectiva analítica de la TMM como para desarrollar un análisis coherente y completo, singularmente cuando se trata de distinguir entre los emisores de moneda y los usuarios de moneda. Resultado de eso: el informe termina con un vagaroso llamado político a enfrentarse “al urgente desafío de crear 600 millones de puestos de trabajo productivos en la próxima década”.

Reproduzco a continuación unos cuantos extractos (las cursivas son mías) que ejemplifican las principales conclusiones del estudio:

“Aun cuando sólo unos cuantos países se enfrentan a desafíos económicos y fiscales serios a largo plazo, lo cierto es que la economía global se ha debilitado rápidamente a medida que la incertidumbre se difundía más allá de las economías avanzadas. A consecuencia de lo cual, la economía mundial ha seguido las tendencias apuntadas en la época anterior a la crisis, y en el momento actual, la perspectiva de una doble zambullida en la crisis es una posibilidad real.”

“Hay cada vez más pruebas de un vínculo de retroalimentación negativa entre el mercado de trabajo y la macroeconomía, señaladamente en las economías desarrolladas: los altos niveles de desempleo y el aumento del trabajo pagado con bajos salarios están reduciendo la demanda de bienes y servicios, lo que deteriora la confianza empresarial y aumenta las dudas de las empresas en lo que hace a invertir y contratar trabajadores. Romper ese vínculo negativo es esencial para que eche raíces una recuperación sostenible. En buena parte del mundo en vías de desarrollo, esos aumentos sostenibles de productividad precisarán de una transformación estructural acelerada: desplazándose hacia actividades de mayor valor añadido, al tiempo que se abandona la agricultura de subsistencia como fuente principal de empleo y se reduce la dependencia respecto de los volátiles mercados de materias primas para los ingresos de exportación.”

“Más beneficios procedentes del desarrollo de la educación y la pericia profesional, esquemas adecuados de protección social que aseguren unos niveles básicos de vida para los más vulnerables, así como un robustecimiento de los procesos de diálogo entre los trabajadores, los empresarios y los gobiernos: todo eso se necesita para garantizar un desarrollo de amplio espectro construido sobre una distribución equitativa y justa de los beneficios económicos.”  

Las burbujas inmobiliarias y de otros activos antes de la crisis crearon desalineamientos sectoriales substanciales que precisan reestructuración y que requieren largos y costosos desplazamientos de puestos de trabajo tanto dentro de las economías nacionales como entre países.”

“Para lidiar con la prolongada recesión del mercado de trabajo y situar a la economía mundial en una senda más sostenible de recuperación, son necesarios muchos cambios de políticas.”

Primero, las políticas globales han de ser coordinadas de manera más firme. El gasto financiado con deuda pública y la flexibilización monetaria cuantitativa simultáneamente puestas por obra en muchos países avanzados y en economías emergentes al comienzo de la crisis ya no son opciones abiertas. En efecto, el gran aumento de la deuda pública y la consiguiente preocupación por la sostenibilidad de las finanzas públicas en algunos países forzaron a los más expuestos al aumento de las primas de riesgo de la deuda soberana a apretarse drásticamente el cinturón. Sin embargo, las externalidades positivas entre países del gasto fiscal y de la creación de liquidez pueden ser substanciales y –si se hacen de manera coordinada— podrían permitir a los países que aún tienen margen de maniobra venir en apoyo tanto de sus propias economías como de la economía global. Lo que se precisa ahora es precisamente ese tipo de medidas de finanzas públicas coordinadas para venir en apoyo de la demanda agregada global y estimular la creación de empleo.

En segundo lugar, la reparación y una regulación más substancial del sistema financiero restauraría la credibilidad y la confianza…”

En tercer lugar, lo que ahora más se necesita es apuntar a la economía real para venir en apoyo del crecimiento de los puestos de trabajo. A la OIT le preocupa de manera muy particular el que, a pesar de los grandes paquetes de estímulos, esas medidas no han conseguido eliminar el incremento de 27 millones de desempleados registrados desde el impacto inicial de la crisis. Evidentemente, las medidas políticas no han apuntado bien a su objetivo y precisan de reformulación y corrección conforme a su eficacia…. Políticas que han probado plenamente su eficacia en la estimulación de la creación de puestos de trabajo son, entre otras: los programas de extensión de las coberturas de desempleo y de trabajo compartido, la reevaluación de los salarios mínimos y de salarios subsidiados, así como el robustecimiento de los servicios de empleo público, los programas de obra pública y los incentivos a las empresas (que tienen impacto observable en el empleo y en los ingresos).”

En cuarto lugar, las solas medidas de apoyo público no bastarán para lanzar una recuperación sostenible del empleo. Quienes toman las decisiones políticas tienen que actuar con determinación y de manera coordinada para reducir el miedo y la incertidumbre que se atraviesan en el camino de la inversión privada, a fin de que el sector privado pueda volver a poner en marcha la máquina principal de la creación global de empleo. Los incentivos a las empresas para invertir en planta y equipo y expandir sus nóminas será esencial para estimular una recuperación robusta y sostenible en el empleo.”

En quinto lugar, para ser efectivos, los paquetes adicionales de estímulos no pueden poner en riesgo la sostenibilidad de las finanzas públicas incrementando más la deuda pública. A este respecto, un gasto público plenamente respaldado por aumentos en la recaudación puede todavía proporcionar un estímulo a la economía real merced al multiplicador del presupuesto equilibrado. En tiempos de demanda caída, expandir el papel del estado en la demanda agregada ayuda a estabilizar la economía y adelanta un estímulo nuevo, aun si el incremento del gasto está plenamente respaldado por aumentos simultáneos en los ingresos fiscales. Como se sostiene en el presente informe, los multiplicadores del presupuesto equilibrado pueden ser amplios, especialmente en el actual ambiente de capacidades masivamente subutilizadas y altas tasas de desempleo. Al propio tiempo, el gasto equilibrado con ingresos fiscales más altos asegura que el riesgo presupuestario se mantiene lo suficientemente bajo como para satisfacer a los mercados de capitales.”
El informe concluye con esta afirmación:

“Al propio tiempo, el gasto equilibrado con ingresos fiscales más altos asegura que el riesgo presupuestario se mantiene lo suficientemente bajo como para satisfacer a los mercados de capitales. Por eso las tasas de interés no se verán afectadas por esta elección de políticas y permitirán que el estímulo desarrolle plenamente sus efectos en la economía.”

Y ese es mi mayor problema con el informe: no hace el menor intento por distinguir entre países obligados a satisfacer a los mercados de capitales y países que no lo necesitan. Como la TMM deja claro, los Estados emisores de “moneda moderna” (dinero fiduciario no convertible) pueden contribuir a restaurar el crecimiento permitiendo que sus déficits se expandan hasta que el sector privado esté satisfecho con su posición de ahorro neto. Sólo los estados que operan con tasas de cambio fijas u otras encarnaciones del patrón oro están obligados a arrodillarse ante los mercados de capitales. Si las gentes entendieran cabalmente la importancia de la soberanía monetaria., podría llevarse a cabo un programa harto más audaz de creación de empleo. 

Stephanie Kelton  es una economista norteamericana que escribe regukarmente en New Economic Perspectuves, la revista postkeynesiana que reúne a muchos partidarios de la Nueva Teoría Monetaria.

Traducción para www.sinpermiso.info: Miguel de Puñoenrostro.
 
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