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sábado, 15 de janeiro de 2022

O FUTURO DA INTERNET: Web 3.0

 


A Web 3.0 pode transformar a internet — e toda a sociedade


Por Pedro Doria, para Canal Meio (canalmeio.com.br).

Existem duas teses circulando a respeito de como será o futuro da internet. Uma é o Metaverso. A outra, a Web 3.0. O Metaverso é fácil de explicar — Mark Zuckerberg, fundador e CEO do Facebook, vem batendo nesta tecla com firmeza há vários meses. É uma visão que junta o mundo digital no qual já estamos com realidade virtual. Quase ficção científica: podemos nos reunir com amigos a quilômetros de distância como se estivéssemos num só ambiente. Vemos as pessoas em três dimensões com óculos especiais. Este futuro, do ponto de vista tecnológico, está a no mínimo dez anos de distância, se não for mais. Com a Web 3.0 é diferente. Ela não é simples de explicar, mas boa parte da tecnologia para torna-la viável já existe. Se acontecer, e tudo indica que começará a acontecer brevemente, ela não muda só a internet. Muda a própria estrutura de como a sociedade se organiza. Transforma a economia e a política de formas potencialmente radicais. O que falta para ela não é ser inventada, isso já aconteceu. Falta ser simples para que todos a compreendam e saibam usar.

Como chegamos até aqui

Quem chegou à internet na última década do século 20 conheceu a Web 1.0. Foi ela que criou, em inúmeros pontos do mundo, uma quantidade imensa de pensadores otimistas com o potencial democrático da nova tecnologia. Aquela web inicial era descentralizada. Toda pessoa poderia ter um site, caso trabalhasse para isso. Todo mundo poderia conectar o próprio servidor à internet.

O que muita gente descobriu rápido é que estar na internet dava trabalho. Para manter de pé os negócios iniciais que nasceram ali era preciso manutenção constante de servidores, pesado investimento em segurança, contornar panes a toda hora. Era impossível, naquela web, publicar informação sem muito conhecimento técnico e algum investimento em dinheiro. Cada página tinha de ser escrita em código. Nada era simples.

A Web 2.0 nasceu para resolver todos os problemas que existiam na primeira versão.

As nuvens, por exemplo, atacaram a dificuldade com infraestrutura de hardware. Deixou de ser preciso manter os próprios servidores — basta contratar o serviço de uma nuvem e armazenar nelas seu conteúdo. A provedora de nuvem, uma empresa especializada, resolve quaisquer dificuldades técnicas que surjam.

A exigência do conhecimento técnico para cada pessoa publicar foi resolvida pelas plataformas. Primeiro vieram os blogs. Ninguém precisava mais escrever em código. Depois, quem queria publicar vídeos podia simplesmente abrir seu canal num YouTube. Por fim vieram as redes sociais.

Se os blogueiros, no período de transição da Web 1 para a 2, penavam para encontrar audiência, nas redes este problema foi resolvido. Sempre que uma rede juntava gente o bastante, os algoritmos de inteligência artificial se tornam capazes de achar o público que pode se interessar por aquele tipo de conteúdo. As plataformas trazem o público para quem deseja ser ouvido, assistido ou lido.

As plataformas e seus algoritmos resolveram, assim, dois problemas essenciais que a Web 1 apresentava.

Aquela internet inicial era tão complexa tecnicamente que só gente com conhecimento especializado e empresas conseguiam participar. A Web 2 é a rede na qual todo mundo constrói seu conteúdo, todos podem ter sua voz. Por conta disso, a Web 2 se tornou atraente o bastante para trazer as massas para o mundo digital.

Porque havia pouca gente, e porque era tão difícil publicar online, boa parte da década de 1990 se passou na busca por modelos de negócio que tornassem a internet viável economicamente. Mas os algoritmos da Web 2.0, por serem capazes de encontrar o público certo para cada um que participa, também têm a habilidade de achar os olhos ideais para qualquer peça publicitária. O problema do modelo de negócios desapareceu e, em seu lugar, ergueram-se corporações capazes de crescer em velocidade e escalas que o capitalismo jamais havia testemunhado.

Mas nada vem de graça.

O apelo democratizante da Web 1 se baseava no fato de que aquela rede trazia promessas por ser descentralizada. Cada um conectava seu servidor e disputava de igual para igual o público pela arte do convencimento. Como era difícil, poucos faziam.

No primeiro momento, as plataformas pareceram oferecer facilidades para quem tinha dificuldade técnica de publicar suas ideias. Não bastasse, facilitavam o acesso ao público. Mas, logo ficou claro, de democratizante havia muito pouco ali. Se a Web 1 era descentralizada, a Web 2 começou a centralizar a internet em um número limitado de plataformas. O público está não mais em qualquer lugar da grande rede, mas dentro das quatro paredes virtuais erguidas por um número pequeno de corporações.

No interior destas paredes, os algoritmos têm viés, incentivam um tipo de informação em detrimento doutra. De sérios problemas de autoimagem para adolescentes à manipulação do debate público que incentiva mentiras com consequências graves em troca de eleição, a tecnologia da Web 2 se mostrou uma ameaça à sociedade.

O modelo de negócios também se mostrou nocivo. Em essência, transforma a venda dos dados pessoais de cada pessoa na fonte de lucro. E quebra um equilíbrio necessário e fundamental para qualquer mercado. São as pessoas, e o que elas produzem, que dão valor às plataformas. Ninguém entra no Facebook ou no YouTube pelo que estas companhias pagam para produzir. Entra-se pelo conteúdo que amigos ou gente interessante apresenta, em muitos caos sem receber nada por isto. Estas mesmas empresas, por conta das consequências de como suas plataformas se estruturaram, ameaçam democracias.

Algumas das plataformas, como o YouTube, ainda distribuem parte de seus lucros a quem cria conteúdo. Outras, a maioria das redes, ou pouco ou nada distribuem. A concentração destas altas margens de lucro nas mãos das plataformas viabilizaram a criação dos maiores oligopólios da história do capitalismo.

Violam privacidade, ameaçam saúde e democracias, concentram lucros como jamais houve. É isto que a Web 3 ambiciona resolver.

Plataformas e protocolos

De cara, há um desafio técnico importante para enfrentar. Uma rede centralizada se baseia em plataformas. Uma descentralizada, em protocolos.

Protocolos são linguagens comuns que todos podem usar. O protocolo 4G, assim como o 5G, é composto por uma série de instruções técnicas sobre como cada aparelho celular precisa ser montado para que possa se conectar àquela rede de telefonia. Assim, Samsung, Apple ou Motorola podem fabricar aparelhos que sejam plenamente compatíveis entre si.

A internet é construída em cima de protocolos. O TCP/IP regula o tráfego dos dados e a comunicação entre cada servidor. O HTTP define como páginas da web encontram umas às outras através de links. E qualquer um pode construir equipamento que se integre à rede ou um software que apresente páginas nesta rede.

Uma plataforma é um ambiente fechado. O Facebook é uma plataforma, o YouTube outra, o Twitter uma terceira. WhatsApp. Instagram. TikTok. Sem a permissão do Facebook, uma empresa privada, ninguém constrói algo que se encaixe livremente em seu espaço. Vale para qualquer plataforma.

Há vantagens. Plataformas, por serem fechadas e privadas, podem evoluir rapidamente. Se os donos do Twitter desejam incluir uma função nova, o CEO manda, dois ou três programadores desenvolvem e logo está no ar. Plataformas se adaptam rápido e se sofisticam com frequência.

Com protocolos não funciona assim. Como são linguagens públicas, para que uma mudança tenha efeito é preciso que todos empenhados nela concordem e a implementem. A governança é complexa. Um novo protocolo para redes celulares demora dez anos para ser criado e posto no ar. Estamos ainda caminhando para a versão 2 do protocolo HTTP, da web.

A capacidade de mexer em protocolos, por ter de ser consensual para um número grande de jogadores, faz deles instrumentos muito lentos de inovação. Eles não têm a agilidade de plataformas.

O desafio da Web 3 é este. Como descentralizar novamente a internet, criando um ambiente no qual todos se encaixem com facilidade, mas sem perder a capacidade de contínua inovação que as plataformas da Web 2 trouxe.

Entra o blockchain

A bitcoin, a primeira criptomoeda lançada em 2009, apresentou ao mundo o que pode solucionar este dilema: o blockchain. Em uma das muitas definições que podem ser encontradas online, o blockchain é definido como “um sistema que permite rastrear o envio e recebimento de alguns tipos de informação pela internet”. Ou “pedaços de código gerados online que carregam informações conectadas – como blocos de dados que formam uma corrente – daí o nome.” Blocos de informação criptografados numa corrente.

Quem tem uma nota de dinheiro na mão e compra algo, entrega aquele papel. O dinheiro sai da carteira e entra na caixa registradora. Com o digital não é tão simples. O dinheiro digital não é físico, é um conjunto de bytes. Quem envia uma fotografia pelo WhatsApp para um amigo não deixa de ter aquela imagem — uma cópia é criada no celular de quem a recebeu. Para dinheiro, não funciona. O dinheiro precisa deixar de existir numa carteira para entrar na outra. É isto que o blockchain resolve. Em cada bitcoin há um blockchain que a identifica como uma moeda única e que carrega sua história, A cada nova transação, um elo novo de informação é incluído no blockchain — de que carteira saiu, em qual entrou, em que momento. E como esta informação é toda criptografada, o dono daquela moeda não tem como modificar esta informação, fraudar a história de cada movimentação.

É por isto que a bitcoin, como todas as outras moedas que utilizam a tecnologia blockchain, são chamadas de criptomoedas.

Este mundo financeiro do cripto se organizou ao longo da última década. Cada pessoa que tem criptomoedas precisa ter também pelo menos uma carteira digital. Ela pode ser custodiada por uma corretora online, como se fosse uma conta bancária, ou pode estar dentro do computador pessoal de seu dono — como a boa e velha carteira de couro que carregamos conosco. Mas cada moeda, mesmo digital, é única. Não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo.

Nestas corretoras, as exchanges, diariamente negociações são conduzidas como num mercado. Nelas entram reais, dólares, euros para a compra de bitcoin, ethereum, solana, e incontáveis outras criptomoedas. É um mercado como qualquer outro, cuja integridade de cada moeda vendida é garantida pelo blockchain.

A questão, logo se percebeu, é que o blockchain pode ser usado para muito mais do que apenas moedas. Para um contrato, por exemplo. Como se garante um contrato digital que duas pessoas assinam? É preciso, em essência, ter certeza de que as duas pessoas concordaram com os termos e que estes termos não foram modificados. Um blockchain faz isso. Nele ficam criptografadas as duas assinaturas e a garantia de que os termos não foram tocados.

Vale para a escritura de um imóvel. Pertencia a Fulano, desde tal data é de Beltrano, e corresponde ao apartamento de tantos metros quadrados localizado num endereço dado. Também funciona para um acordo de casamento — estas duas pessoas, a partir de tal data, tomaram a decisão de compartilhar seguros de saúde mas preferiram manter suas contas correntes separadas. Pode garantir que a tora de uma árvore foi colhida em uma fazenda legal e não no miolo de uma reserva florestal. A fazenda tal tinha tantas árvores plantadas e registradas, cada uma com seu próprio código único, aquela árvore específica tinha um tamanho que lhe permitia um volume tal de madeira e esta mesa hoje vendida consumiu tantos por cento da tora original.

Nenhum papel foi produzido, nenhum carimbo martelado, nenhum selo destacado e colado. Todo o processo é digital e o blockchain traz em si a garantia de que o acordo existe, é imutável, é único.

Um contrato garantido por blockchain não é a mesma coisa que uma criptomoeda. Afinal, existem muitas bitcoins. Mas cada contrato é único. Estes contratos são chamados de NFT — um ‘token não fungível’ na sigla em inglês. Não fungível quer dizer, justamente, que ele é único.

Uma obra de arte digital é única se está atrelada a um NFT, o contrato que descreve suas características. NFT só pode haver um. O conceito de NFT, que hoje já estabeleceu um mercado de arte digital, serve para qualquer tipo de contrato.

Mas como pode, deste conceito do cripto, surgir uma alternativa para a Web 2?

A estrutura da Web 3.0

O login e a senha que utilizamos para entrar no Facebook, ou no Gmail, funcionam um pouco como nossa identidade na internet. Entramos em inúmeros sites com eles. O Face, como o Google, tem um banco de dados centralizado, que estas empresas controlam, onde estão as informações a nosso respeito. Quando usamos um dos dois para garantir nossa identidade e entrar numa loja virtual, muito da informação sobre o que fizemos naquele ambiente é compartilhada com estas empresas. São estes dados sobre nossos hábitos digitais que as tornam valiosas. Em essência, a informação que elas têm e ninguém mais a respeito de uma parcela imensa da humanidade é o que as transformam em gigantescas corporações como nunca antes vistas.

Mas a identidade pode ser também garantida por um NFT. Um NFT emitido pelo governo de um país, ou por uma corretora de criptomoedas, carrega em si, no blockchain, o que torna aquela identidade única. Não há um banco de dados centralizado. Num mundo cripto, o documento de identidade digital de uma pessoa pode estar em seu computador, no seu celular, num chip, numa corretora. É a pessoa, a portadora daquela identidade, que escolhe. A identidade não estará no banco de dados de uma empresa gigantesca que controla as informações atreladas àquela pessoa.

Esta é uma mudança conceitual forte pois permite a criação daquilo que no mundo cripto chamam DAO — organizações autônomas descentralizadas, na sigla em inglês. É uma organização composta por pessoas que se juntam com algum propósito e aderem a um acordo coletivo registrado, claro, num blockchain.

Os membros desta organização não precisam, necessariamente, ter todos o mesmo poder de influenciar nas decisões. Basta que se crie um mercado interno. Quanto mais alguém contribui para o valor da organização, mais ganha tokens. Como se cada DAO tivesse sua própria criptomoeda. E tokens, esta moeda, podem ser gastos para votar a favor ou contra mudanças internas.

Um Instagram, na Web 3.0, jamais seria uma plataforma fechada. Seria uma DAO, uma organização descentralizada. O like que uma foto recebe é um token, uma criptomoeda devidamente armazenada na carteira digital. E não há motivo para que esta ‘moeda’ não seja negociada num mercado aberto em troca de outras criptomoedas. O valor de um like dum Instagram-DAO flutuaria naturalmente em valor, de acordo com a percepção coletiva da importância do que é produzido ali.

Mas não precisa ser um Instagram. Uma DAO pode ser uma empresa de software em que o percentual de trabalho de cada programador no produto final seja devidamente registrado e a cada vez que alguém compre o direito de uso do programa o valor seja redistribuído de acordo com os termos estabelecidos pela organização.

DAOs muito populares, que produzam qualquer coisa que seja percebida como valiosa por muita gente, distribuirão para seus membros estes tokens, estas criptomoedas, que representam valor real em dinheiro.

Partidos políticos, ONGs, empresas privadas, clubes de livro, em essência qualquer agrupamento humano pode se organizar coletivamente na forma de uma DAO. E os termos de cada contrato não precisam necessariamente passar pela remuneração financeira. Podem, mas não precisam. Os estatutos de ONG podem estabelecer que o trabalho não é remunerado, é sempre voluntário. A identidade nacional de qualquer cidadão, por exemplo, pode garantir para ele o direito ao voto a partir de uma idade e o contrato, a Constituição ancorada num blockchain daquela nação, determina que este direito não é negociável. O cidadão nunca perde seu direito de votar e seu voto nunca vale mais do que o de qualquer outro cidadão.

Em teoria, democracias inteiras podem se organizar porque, ao menos tecnicamente, será possível promover eleições e consultas com muita facilidade, a baixo custo, e com integridade garantida. Democracias diretas, onde todas as decisões emanam do voto, tendem a se tornar ditaduras da maioria sem garantias para minorias. Mas isto não quer dizer que eleições ou consultas não possam ser mais frequentes, que a estrutura de Parlamentos não possa ser modificada, as possibilidades são muitas.

O blockchain muda a maneira como se organiza tanto o mundo virtual quanto o físico. Esta é uma característica fundamental da Web 3.0. Ela é uma internet com o potencial de alterar a economia, a política e, por fim, toda a sociedade. Por ser descentralizada, distribui o poder que hoje as grandes corporações digitais mantém pelo controle de plataformas.

É enfim a democracia digital?

A tecnologia por trás da Web 3.0 já existe — ela só é difícil. Difícil de implementar tecnicamente e difícil de explicar, conceitualmente. Mas criptomoedas já estão na publicidade da TV e começam a se tornar populares entre investidores. E um mercado de arte digital baseado em NFTs já se formou, embora seja pequeno. É o início da popularização do conceito. Como tudo na história do digital, primeiro vêm os pioneiros, depois vira aquele tema sobre o qual todo mundo fala mas pouca gente experimentou e aí, enfim, chegam as massas. Estamos na segunda fase.

Há, porém, um debate intenso ocorrendo. No último mês, Jack Dorsey, fundador e há até pouco tempo CEO do Twitter entrou num debate público virulento com Marc Andreessen, sócio do fundo da Andreessen Horowitz, um dos principais investidores em novas companhias do Vale do Silício. As emoções ferveram e o Vale se dividiu.

São, ambos, estrelas de gerações distintas da internet. Quando estudante, Marc Andreessen escreveu o código do primeiro browser gráfico, o Mosaic, e depois fundou a primeira startup gigante da Web 1.0, a Netscape. Foi o primeiro bilionário da era da internet. Dorsey é criador de uma das principais marcas da Web 2.0, o Twitter, e é também fundador e CEO da Block, uma das maiores empresas americanas de pagamentos digitais.

Dorsey acusa de hipocrisia os proponentes da Web 3. Argumenta que, embora muito distinta da Web 2, é uma ilusão dizer que ela seja mais democrática. O poder, ele argumenta, estará nas mãos de quem controla as corretoras de criptomoedas e que os sistemas que interpretam o blockchain serão também poucos. Se este futuro se concretizar, haverá uma infraestrutura central que todos terão de utilizar. Quem controlar esta infraestrutura central poderá até ser menos visível do que os controladores das grandes plataformas, hoje. Mas o poder estará nas mãos destes.

Andreessen e seu sócio, Ben Horowitz, evidentemente discordam. Estão investindo pesado no setor e, ora, apontam que Dorsey mantém suas fichas no modelo atual. A Web 3 ameaça seus negócios.

Ambos têm razão.

A Web 3.0 é uma ideia, um conceito, a imaginação de como a internet pode vir a ser muito diferente de como se apresenta hoje. Não é certo que será assim. Mas, no momento, é o caminho que o futuro parece estar seguindo.

 

Fonte da Imagem:  https://medium.com/machinevision/overview-of-neural-networks-b86ce02ea3d1

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

¿Quién ha de beneficiarse de la compra de un iPhone?



El “iPhone” no sería un teléfono tan inteligente sin GPS, sin pantalla táctil o Internet. ¿Y quién financió el desarrollo de esas tecnologías? El contribuyente norteamericano, observa Mariana Mazzucato, que cree que el Estado puede ser el más audaz innovador, y que ignorar eso en la mitificación de Silicon Valley resulta “extremadamente peligroso”. Apunta que incluso la dilatada biografía autorizada de Steve Jobs escrita por el periodista Walter Isaacson “no tenía ni una página, ni un párrafo, ni una frase, ni una palabrita sobre cualquiera de estas inversiones públicas”.

Mazzucato, de 50 años, fundadora y directora del Instituto de Innovación y Fines Públicos [Institute for Innovation and Public Purpose] del University College de Londres (UCL), quiere dejar claro que no considera un parásito a Apple o gente sin importancia a Jobs y otros emprendedores. Conjuntan la tecnología existente de forma novedosa y en productos fantásticos, pero los beneficios que provienen de vender esos productos, argumenta, deberían reflejar ese esfuerzo colectivo.

“¿Por qué no tendría que conservar el gobierno algo de participación en la propiedad en algo de la fase inicial para financiar la parte final?” Esta pregunta ha creado tensión entre los economistas, hasta entre aquellos que coinciden con Mazzucato respecto a las inversiones del gobierno, afirma. “Mi modelo es un modelo de capitalismo de accionistas orientado a misión en el que el valor se crea colectivamente”.

La noción del estado empresarial — título también de un libro de Mazzucato — le ha traído muchas críticas.

“El gobierno tiene su papel financiando la ciencia básica y apoyando la investigación y el desarrollo mediante el sistema impositivo”, afirma Sam Dumitriu, jefe de investigación del Adam Smith Institute. “No creo que sus recomendaciones sobre medidas políticas se deduzcan de lo que cuenta”. Dimitriu, entre cuyos intereses se cuentan las tecnologías emergentes y las reformas fiscales empresariales, añade que “dejando a un lado la complejidad de convertir al gobierno en una empresa de capital riesgo, tener participación en empresas innovadoras reduciría de modo efectivo los incentivos de fundar o invertir en una empresa intensiva en I+D”.

Pero el modelo de Mazzucato de este tipo nuevo de capitalismo es resultado de lo que considera como uno de los problemas fundamentales de las economías modernas: la línea difusa entre la creación y la extracción de valor. “Al no plantear un encendido debate sobre ‘¿qué significa valor?’, se hace facilísimo que los creadores de riqueza se refieran a sí mismos recurriendo a estos términos, y en el proceso confundimos la extracción de valor con la creación de valor o las rentas con los beneficios”, afirma.

En su nuevo libro The Value of Everything, publicado el mes pasado en los EE.UU., Mazzucato explica el concepto de extracción de valor — también denominado como apropiación de rentas — como cobrar de más por un bien o un servicio, en lugar de producir algo nuevo, y bloquear la competencia: “Los ‘tomadores’ que se imponen a los ‘hacedores’, y el capitalismo ‘predador’ que se impone al ‘capitalismo productivo’”. Entre los ejemplos se cuentan los bancos y otras instituciones financieras que a la vista está que se benefician de actividades especulativas que se basan en poco más que comprar barato y vender caro, o en comprar y luego desmontar los activos productivos simplemente para venderlos de nuevo sin valor añadido real.

Reconoce que existe una distinción entre diferentes géneros de extractores de valor. En Wall Street o en la ciudad de Londres, hay figuras financieras que en realidad impiden el crecimiento. La historia de la Costa Oeste resulta un tanto diferente. Hay agentes productivos en Silicon Valley que reciben mucho crédito por lo que han hecho, pero parecen ocultar la verdadera historia que hay tras las demás fuentes que han hecho su aportación a ese valor.

Las opiniones de Mazzucato le han ganado también acérrimos aliados. Carlota Pérez, profesora de tecnología y desarrollo en diversas universidades, entre ellas la London School of Economics, elogia en su colega su “insólita capacidad de ver la esencia de lo que ocurre por detrás de lo que es la creencia convencional”.

“Creo que es más sólida que [Thomas] Piketty”, añade Pérez, refiriéndose al economista francés cuyo libro de 2014 sobre la desigualdad de ventas constituyó un inesperado éxito de ventas. “Su potentísima descripción de la desigualdad sacó a la luz un problema grave del siglo XXI, pero no ofrecía ninguna vía de salida, aparte de gravar fiscalmente la riqueza. El trabajo de Mariana revela la raíz de los problemas, muestra las soluciones prácticas y lucha luego por ellas, trabajando con los que toman las decisiones”.

Están tomando nota organizaciones internacionales y gobiernos. A principios de este año, la Comisión Europea publicó un informe redactado por Mazzucato con el título de “Investigación e innovación orientadas a misión en la Unión Europea” [“Mission-Oriented Research & Innovation in the European Union]”. Hoy documento legal de la UE, se le denomina “Informe Mazzucato”. Lleva asesorando al gobierno escocés desde 2016, al que ayuda a incentivar sus planes para crear un banco de inversión nacional para 2020.

Mazzucato nació en Italia un día de verano de 1968. La familia se mudo a Princeton, en el estado de Nueva Jersey, a causa del trabajo de físico nuclear de su padre. Su madre, que había sido especialista en ciencias políticas, decidió no trabajar tras su traslado, convirtiéndose en cambio en un pilar de la comunidad italiana en Princeton. Mazzucato siente su identidad como algo en conflicto.

“No me siento norteamericana en Norteamérica”, afirma. “No me siento italiana en Italia. Y decididamente no me siento británica en el Reino Unido, pero me siento muy de Londres”. Eso de no sentirse británica suena a cierto en la época del Brexit, que considera “insensato”. Licenciada por la Tufts University de Boston y la New School en Nueva York, Mazzucato fue escalando puestos académicos en el Reino Unido, y el año pasado se convirtió en profesora del UCL.

En su tiempo libre, Mazzucato todavía sigue jugando con Lego y le encanta dibujar. Tiene cuatro hijos. Como corresponde, todos han ido a colegios públicos.

Cinco preguntas a Mariana Mazzucato:

¿Cuál es el último libro que ha leído? Factfulness, de Hans Rosling, que me escribió una carta muy bonita la semana antes de morir.
¿Cuál es su preocupación? Me preocupa preocuparme. Y los adolescentes.
¿Qué es eso sin lo que no puede vivir? Los abrazos.
¿Quién es su heroe? Rosa Luxemburg. Una mujer de gran complejidad, que era muy mujer, femenina, pero que luchó políticamente, que era economista.y murió por aquello en lo que creía.
¿Algo que figure en su lista de deseos? Hago mucho senderismo. Me gustaría darme una caminata sola a un pico elevado, por ejemplo, al Mont Blanc. Y no tiene que ser yendo sola.







Ali May
periodista y escritor de relatos británico, es colaborador de la revista digital Ozy

Fuente: Ozy, 4 de octubre de 2018 Traducción: Lucas Antón

Imagem: Pablo Picasso

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Apple y el comercio con China

Fonte da Imagem AQUI.

Behzad Yaghmaian · · · · · 

Revelaciones recientes en los medios de información sobre abusos de los proveedores de Apple han reavivado el debate público sobre China y los costes humanos de la globalización.  Entretanto, el Presidente Obama, preocupado por el empleo en un año electoral, ha pedido que China juegue limpio en el comercio internacional y mejore su comportamiento en derechos humanos.

China ha sido un vehículo para la creación de una globalización basada en bajos salarios y bajas normas de trabajo que ha costado muchos puestos de trabajo a Estados Unidos. En años recientes, sin embargo, China se ha esforzado en dar al “made in China” un nuevo significado y rechazar la imagen negativa del país como centro de un capitalismo abusivo propio del siglo XIX en la era de la globalización.

 China está abandonando gradualmente sus anteriores prácticas laborales a medida que se dirige hacia  la creación de un mercado nacional y de una sociedad de clase media. Dado el tamaño de la fuerza de trabajo china y la importancia del país en la economía mundial, cualquier mejora de las relaciones laborales tendrá un efecto substancial sobre los salarios y las normas laborales del resto del mundo. China y la economía mundial se encuentran en una encrucijada histórica.

El gobierno chino ha venido apoyando de forma sostenida la mejora de salarios y normas laborales. En la ciudad de Shenzhen, sede de Foxconn, el principal proveedor local de Apple, el salario mínimo establecido por el gobierno se multiplicó por más de tres desde 70$ mensuales en 2005 hasta 240$ en 2012. Los aumentos de salarios han sobrepasado la tasa de inflación y han continuado haciéndolo incluso después de la crisis del 2008.

Beijing también ha hecho esfuerzos concretos para mejorar las prácticas laborales en el lugar de trabajo. En abril del 2006, el gobierno sacó a debate público el primer proyecto de Ley de contrato de trabajo. El proyecto de ley fue un paso importante para la protección de los derechos de los trabajadores y para establecer reglas básicas de juego limpio, tal como deseaba el Presidente Obama.

El proyecto de ley restringía el uso del trabajo temporal, limitaba la potestad de los empresarios para despedir arbitrariamente a sus trabajadores y concedía a los trabajadores el derecho a la negociación colectiva respecto a salarios y  beneficios. Obligaba a todos los empresarios a dar a sus trabajadores un contrato de trabajo.

La Cámara de Comercio americana en Shanghai (AmCham) y el Consejo de Negocios U.S.-China presionaron contra el proyecto en beneficio de muchas grandes corporaciones norteamericanas a las que representaban. Criticaban el proyecto porque reducía la flexibilidad del mercado de trabajo y aumentaba los costes de producción. En un comunicado público, el Consejo de Negocios U.S.-China se oponía al proyecto de ley por reducir las oportunidades de empleo de los trabajadores chinos y por tener efectos negativos para la competitividad de la China y su atractivo como destino de la inversión extranjera.

En las décadas de los 80 y 90 las multinacionales norteamericanas utilizaron la amenaza de relocalización hacia China como un recurso en la negociación sobre salarios y beneficios con sus trabajadores de Estados Unidos. Años más tarde utilizaron la amenaza de India, Vietnam y otros contra los trabajadores chinos. La amenaza fue efectiva en parte. Después de meses de presiones y de negociaciones una versión más débil del proyecto se convirtió en ley en Abril del 2007.

China ha recorrido un gran trecho desde las tremendamente abusivas prácticas laborales del pasado. El camino hacia una transformación más profunda de las relaciones laborales y la aplicación de los derechos laborales al uso en las democracias occidentales será difícil y tortuoso. Sin embargo, el viaje ya ha comenzado. Es imperativo que las multinacionales norteamericanas no debiliten esta tendencia. El Presidente Obama y la legislación norteamericana pueden jugar un papel constructivo.

La política económica de Estados Unidos respecto a China está en gran parte configurada a través del prisma del comercio internacional. Sin embargo, el comercio de los Estados Unidos con la China ha experimentado cambios estructurales profundos en los últimos años. Una parte creciente del aumento de las importaciones y la consiguiente pérdida de trabajos norteamericanos son debidas actualmente a la inversión y producción global  de las grandes firmas norteamericanas. Para escapar a la normativa laboral progresista nacional, las corporaciones norteamericanas han ido estableciendo complejas cadenas de suministro globales con diferentes grados de abusos respecto a los derechos laborales. La política comercial convencional es inadecuada para el tratamiento de las pérdidas de trabajo y el comercio generados por la globalización.

Al permitir importaciones con prácticas laborales por debajo de la norma, el libre comercio penaliza a quienes cumplen las normas y premia a los otros. Sin embargo, la política proteccionista tradicional penaliza tanto a los violadores como a los no violadores de los derechos laborales. El Presidente Obama puede salvar trabajos norteamericanos y ayudar a la creación de una globalización más justa apoyando la política comercial que se centra en las prácticas del lugar de trabajo de las grandes firmas norteamericanas  y de sus proveedores en China y en otras partes.

La nueva política será específica para el empleador ya que se centrará en cómo se producen las importaciones. Se impondrán tasas de importación sobre las marcas que violen, en algún punto de la cadena de suministros, las leyes laborales nacionales existentes o los estándares mínimos establecidos por un comité de la OIT. Los Estados Unidos presentarán la nueva política para ser debatida y promulgada por la OIT.

Se trata de una política en la que todos ganan, que ayudará a la China a avanzar hacia normas de una mayor aceptación internacional, a reducir la capacidad de las grandes corporaciones para mercadear a través del mundo bajos salarios y normas laborales  y a salvar empleos norteamericanos que se perderían a causa de prácticas laborales inaceptables en otras partes del mundo.

Behzad Yaghmaian es  profesor de economía política en el Ramapo College de New Jersey, y es el autor de Embracing the Infidel: Stories of Muslim Migrants on the Journey West (Aceptar al infiel: historias de inmigrantes musulmanes viajando al Oeste) y  el próximo The Accidental Capitalist: A People’s Story of the New China (El capitalista accidental: una historia popular de la nueva China) (Marzo 2012).

Traducción para www.sinpermiso.info: Anna Maria Garriga

sinpermiso electrónico se ofrece semanalmente de forma gratuita. No recibe ningún tipo de subvención pública ni privada, y su existencia sólo es posible gracias al trabajo voluntario de sus colaboradores y a las donaciones altruistas de sus lectores. Si le ha interesado este artículo, considere la posibilidad de contribuir al desarrollo de este proyecto político-cultural realizando una DONACIÓN o haciendo una SUSCRIPCIÓN a la REVISTA SEMESTRAL impresa

domingo, 9 de outubro de 2011

Steve Jobs: inimigo da colaboração


Steve Jobs morreu, após anos lutando contra um câncer que nem mesmo todos os bilhões que ele acumulou foram capazes de conter. Desde esta quinta-feira, após o anúncio de seu falecimento, não se fala em outra coisa. Panegíricos de toda sorte circulam pelos meios massivos e pós-massivos. Adulado em vida por sua genialidade, é alçado ao status de ídolo maior da era digital. É inegável que Jobs foi um grande designer, cujas sacadas levaram sua empresa ao topo do mundo. Mas há outros aspectos a explorar e sobre os quais pensar neste momento de sua morte.Jobs era o inimigo número um da colaboração, o aspecto político e econômico mais importante da revolução digital. Nesse sentido, não era um revolucionário, mas um contra-revolucionário. O melhor deles.

Com suas traquitanas maravilhosas, trabalhou pelo cercamento do conhecimento livre. Jamais acreditou na partilha. O que ficou particularmente evidente após seu retorno à Apple, em 1997. Acreditava que para fazer grandes inventos era necessário reunir os melhores, em uma sala, e dela sair com o produto perfeito, aquele que mobilizaria o desejo de adultos e crianças em todo o planeta, os quais formam filas para ter um novo Apple a cada lançamento anual.

A questão central, no entanto, é que o design delicioso de seus produtos é apenas a isca para a construção de um mundo controlado de aplicativos e micro-pagamentos que reduz a imensa conversação global de todos para todos em um sala fechada de vendas orientadas.

O que é a Apple Store senão um grande shopping center virtual, em que podemos adquirir a um clique de tela tudo o que precisamos para nos entreter? A distopia Jobiana é a do homem egoísta, circundado de aparelhos perfeitos, em uma troca limpa e “aparentemente residual”, mediada por apenas uma única empresa: a sua. Por isso, devemos nos perguntar: era isso o que queríamos? É isso que queremos para o nosso mundo?

Essa pergunta torna-se ainda mais necessária quando sabemos que existem alternativas. Como escreve o economista da USP, Ricardo Abramovay, em resenha sobre o novo livro do professor de Harvard Yochai Benkler The Penguin and the Leviathan, a cooperação é a grande possibilidade deste nosso tempo.

“Longe de um paroquialismo tradicionalista ou de um movimento alternativo confinado a seitas e grupos eternamente minoritários, a cooperação está na origem das formas mais interessantes e promissoras de criação de prosperidade no mundo contemporâneo. E na raiz dessa cooperação (presente com força crescente no mundo privado, nos negócios públicos e na própria relação entre Estado e cidadãos) estão vínculos humanos reais, abrangentes, significativos, dotados do poder de comunicar e criar confiança entre as pessoas”.

Colaboração: essa, e não outra, é a palavra revolucionária. E Jobs não gostava dela.

CB

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Furo no Windows, mais lenha na fogueira da batalha dos gigantes da web


E agora, Microsoft?

Depois de admitir a falha de segurança no Internet Explorer, que possibilitou o ataque aos servidores do Google, uma nova falha detectada no Windows pode trazer mais lenha pra fogueira da batalha entre as gigantes da internet. Resumidamente, um usuário com acesso restrito poderia explorar o furo para adquirir perfil de administrador - o que lhe daria total controle sobre a máquina. Para usuários domésticos, isso nao trará muita dor de cabeça. Já para administradores de TI em grandes empresas, a semana promete ser cheia.

Desde o ano passado, a Microsoft já havia sido alertada sobre o problema - que compromete a segurança de todos os sistemas operacionais da empresa nos últimos 17 anos, do Windows NT 3.1 ao Windows 7. Sob o argumento de que o time de Bill Gates ainda nao conseguiu dar conta do pepino, um membro da equipe de segurança do Google (Tarvis Ormandy) aparece de herói, resolvendo tornar pública a falha, e dizendo ainda saber como 'dar um jeitinho' (basta desabilitar o MS-DOS e/ou rodar alguns comandos). Sei que é um pouco técnico o assunto, mas acredite em mim: a declaraçao de Ormandy é um pouco mais do que um tapa com luva de pelica :- ).

Depois da China e da França, outros personagens estao trazendo uma nova dinâmica à esta novela. Apple, Microsoft e Yahoo!, que nunca foram grandes amigas, se preparam para enfrentar um inimigo em comum. O roteiro já está mais ou menos traçado. Agora nos resta aguardar cenas dos próximos capítulos.

21/01 Marcelo Albagli, para BLUE BUS.