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quarta-feira, 9 de junho de 2021

OBEDECER É PARA OS FRACOS

 

 


Por que Bolsonaro não usa máscara?


Por Roberto DaMatta

09/06/2021


Fiz a pergunta a muitas pessoas de ambos os polos e a uma minoria centrista que procurei como um detetive. Todos se assombraram com minha inocência. Como é que eu — professor titular de Antropologia Social e pesquisador da “alma brasileira” — não sabia que, entre nós, quem manda não obedece?


Como é que eu podia ignorar que, no Brasil, mandar anula o obedecer, essa desagradável anormalidade democrática que inverte a velha ordem? Como é que eu esquecia que “estar no poder” é sinônimo de não seguir coisa alguma, porque obedecer é o carimbo dos fracos e dos pobres?

É claro que Bolsonaro não usa máscara!

Como é que ele aceitaria tal banalidade, se o sinal que envia é que pode tudo? No Brasil, ser superior é não estar com a lei, mas situar-se acima dela, é claro.

É ter o privilégio de não ser cidadão. De provocar e abusar, na certeza de não ser punido. É ser “impunível” e, se preso for, ter a plena confiança de que um jurisconsulto ponderado vai livrá-lo da prisão, que será especial — um xadrez hierárquico e diferenciado...

Ninguém definiu tais condições com mais clareza que o próprio Bolsonaro quando, em 12 de maio do corrente, numa de suas tiradas absolutistas, declarou que “só Deus me tira daqui” e, no dia 17, afirmou ser “imorrível, imbrochável e também incomível”. O incomível é curioso. Ele salienta a qualidade bolsonaresca de ser duro de roer, mas deixa de lado outras implicações que Freud explica, e eu prefiro não comentar...

A arrogância expõe as propriedades conhecidas, mas pouco discutidas, de todos os que “sobem”, “chegam” ou “tomam” o poder no Brasil.

Aqui (como na América Latina), ser irremovível ainda é o sonho de quem encabeça um sistema que transforma eleições em rituais dinásticos, ministros em fidalgos ou criados e o eleito, em salvador (ou matador) da pátria. O populismo é o modelo resistente à igualdade do presidente perante a lei.

Aprendemos que o dono da bola pode mudar as regras do jogo e, sendo contrariado, ele acaba com o jogo.

O “golpe” é uma possibilidade constante em países onde verdade e mentira se contestam. É preciso perceber que crimes políticos hediondos, como “o rouba, mas faz”, ainda são vistos como piadas e folclore.

O que mostra como evitamos examinar o protagonismo dos costumes sobre as instituições. Aquilo que é positivo na família, e até mesmo no partido, contraria a ética democrática.

É preciso compreender como a ambiguidade ética corrói a impessoalidade obrigatória das democracias, cuja disciplina se baseia na separação de pessoas e cargos. O atualíssimo e atrasado “manda quem pode, obedece quem tem juízo” é um mote escravocrata. É uma prova da desigualdade como valor no Brasil.

A decepção bolsonarista tem tudo a ver com a incapacidade de negar o pedido de um amigo e de ver essa incapacidade como normal. Como se lei, civilização, costumes e comportamentos fossem seres de planetas diferentes, quando são dimensões necessariamente relacionadas nos regimes democráticos.

Caso a “casa” continue a englobar a política e a “rua”; caso os elos pessoais sejam mais valorizados que a moralidade coletiva, temos incesto. O que iguala estruturalmente incesto e “corrupção” é romper com uma norma pública universal em favor de desejos particulares. Pois, como adverte sabiamente a revista “Playboy”, “o incesto é legal desde que seja mantido em família”.

Mas como manter a muralha da família (e dos compadrios) ao lado da liberdade do mercado e das gravações reveladoras da verdadeira máscara do invocador do Tribunal de Nuremberg e também das facções de ataque e defesa do governo, que são (com a devida vênia) contumazes potoqueiras? Por que — essa é a grande questão — o campo político virou um espaço de mentiras, malandragens e desenganos?

O abominável no comportamento de Jair Bolsonaro é que ele ainda não conseguiu entender a magnitude do papel de presidente da República. É claro que tudo tem a ver com a crença de que ele se pense, como disse com uma ingenuidade embaraçosa, como “imorrível, incomível e imbrochável”. Delas todas, eu invejo a mais humana, a última.

Como dizia o velho e querido brasilianista Richard Moneygrand, dificilmente se faz democracia com faraós.



Fonte da imagem: https://makaniart.com/portfolio/creation-unleashed

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

A INVASÃO



Por Luis Fernando Verissimo


O Estado de São Paulo
29 de dezembro de 2019

A possibilidade de sermos localizados pelas forças anticultura do governo e presos multiplica-se.

Estou transmitindo isso em código. Se a transmissão for interrompida abruptamente é sinal de que tive que fazer xixi ou fui descoberto. A possibilidade de sermos localizados pelas forças anticultura do governo e presos multiplica-se, e a repressão aumenta dia a dia. Muitos companheiros da resistência estão desaparecidos, como o pessoal do teatro de vanguarda obrigado a desocupar o teatro onde encenavam uma peça de conteúdo social, o que é proibido, e levados em camburões do temido Departamento de Combate à Criatividade com destino ignorado, todos nus. Qualquer manifestação artística com o nome de “vanguarda”, “social” e etc., já era proibida no território nacional e agora, para simplificar, decidiram proibir qualquer manifestação artística no território nacional, salvo a de bispos cantores.

A queima de livros que pregam o evolucionismo, o sexo recreativo, a redondeza da Terra, o ridículo de acreditar em astrologia, o socialismo ou tudo isso ao mesmo tempo, continua e já há uma corrente que julga inútil queimar livros se suas ideias continuam a existir e serem propagadas por mentes doentias, e sugere que se queime escritores, ou na ordem alfabética ou pela sua evidente combustibilidade. Somos obrigados a mudar o código quase que diariamente para evitar a detenção.

A própria palavra “código” não quer dizer mais código. Procure decifrar seu novo sentido antes que me peguem. Acho que não tenho muito tempo antes de ser lançado na hipotética fogueira. Nosso erro, ao escolher os fatos mais importantes que aconteceram no Brasil em 2019, foi não prestar a devida atenção. Fomos invadidos sem nos darmos conta, quando nos demos conta já era tarde. Deveríamos ter desconfiado que era uma invasão na cerimônia de posse do seu ministério anunciado pelo Bolsonaro. Lembra? Grande parte dos ministros usava longos guarda-pós brancos. Aquilo era estranho, estariam lançando uma nova moda ministerial, com o guarda-pó simbolizando sua disposição de trabalhar pelo País sem personalismo ou vaidade? Mas não. Assim que foram identificados como ministros do novo governo, os de guarda-pós arrancaram seus disfarces – que tapavam fardas militares!

A quantidade de militares em quem ninguém votou, com cargo oficial e poder, perfilados dentro da sede do governo, caracterizava um golpe. Branco como os guarda-pós, mas golpe. Sem armas à vista, sem tanques na rua, mas a invasão de um país por outro assim mesmo. Tudo neste texto é metafórico, da anticultura num país dominado pelo que ele mesmo tem de mais retrógrado, do primeiro parágrafo, aos guarda-pós que não existiram, mas sua única imprecisão está no exagero.



Fonte da Imagem: https://www.wallpaperflare.com/static/11/559/620/monochrome-surreal-digital-art-people-wallpaper.jpg

domingo, 21 de maio de 2017

A IGNORÂNCIA É CONFORTÁVEL

Fonte: http://www.universoracionalista.org/cosmos-e-a-romantizacao-da-ciencia/

As pessoas optam por acreditar no que querem porque não querem admitir que são ignorantes.

Quanto mais aprendemos, mais entendemos que sabemos pouco.

As pessoas que sabem pouco acreditam que sabem tudo.

A rebelião contra o pensamento científico é muito perigosa...

Carlo Rovelli 
(Verona, 3 de maio de 1956. Físico e cosmologista).


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

A medíocre elite social brasileira

Fonte da imagem AQUI.


Ignorante e presunçosa, ela lê pouco, ostenta, cultiva o consumismo e tem profundo preconceito em relação às maiorias

Por Henrique Abel, no Observatório da Imprensa , via Somos Andando

Um dos preconceitos mais firmemente bem estabelecidos no Brasil é aquele que afirma que a culpa de todos os problemas do país decorre da “ignorância do povo”. A elite social da população brasileira, formada pelas classes A e B, em linhas gerais, está profundamente convencida de que o seu status de elite social lhe concede – como um bônus – também o título de “elite intelectual” do país.

Dentro desse raciocínio, a elite brasileira “chegou lá” não apenas economicamente, mas também no que diz respeito às esferas intelectuais e morais – talvez até espirituais. O país só não vai pra frente, portanto, por causa dessa massa de ignóbeis das classes inferiores. Embora essa ideia preconcebida seja confortável para o ego dos que a sustentam, os fatos insistem em negar a tese do “povo ignorante versus elite inteligente”.

O motivo é simples de entender: em nenhum lugar do mundo, a figura genericamente considerada do “povo” se destaca como iluminada ou genial. Por definição, uma autêntica elite intelectual de um país se destaca, precisamente, por seu contraste com a mediocridade (aí entendida como “relativa ao que é mediano”). Ou seja, não é “o povo” que tem obrigações intelectuais para com a elite social, e sim, justamente o contrário: é preferencialmente entre a elite social e econômica que se espera que surja, como consequência das melhores condições de vida desfrutadas, uma elite intelectual digna do nome.

Analfabetos funcionais

Uma elite social que, intelectualmente, faça jus ao espaço que ocupa na sociedade, não apenas cumpre com o seu papel social de dar algum retorno ao meio que lhe deu as condições para uma vida melhor como, ainda, cumpre o seu papel de servir como exemplo – um exemplo do tipo “estude você também”, e não um exemplo do tipo “lute para poder comprar um automóvel tão caro quanto o meu”.

Tendo isso em mente, torna-se fácil perceber que o problema do Brasil não é que o nosso povo seja “mais ignorante”, pela média, do que a população dos Estados Unidos ou das maiores economias europeias. O problema, isso sim, é que o nosso país ostenta aquela que é talvez a elite social mais ignorante, presunçosa e intelectualmente preguiçosa do mundo, que repele qualquer espécie de intelectualidade autêntica precisamente porque acredita que seu status social lhe confere, automaticamente, o decorrente status de membro da elite intelectual pátria, como se isso fosse uma espécie de título aristocrático.

Nenhum país do mundo tem um povo cujo cidadão médio é extremamente culto e devorador de livros. O problema se dá quando um país tem uma elite social que é extremamente inculta e lê/escreve num nível digno de analfabetismo funcional. Pesquisas recentemente divulgadas dão por conta que apenas 25% dos brasileiros são plenamente alfabetizados, e que o número de analfabetos funcionais entre estudantes universitários é de 38%. A elite social brasileira possivelmente acredita que a totalidade desses 75% de deficientes intelectuais encontra-se abrangida pelas classes C, D e E.

Sem diferença

Será mesmo? Outra pesquisa recentemente divulgada noticiava que o brasileiro lê uma média de cerca de quatro livros por ano. Enquanto os integrantes da Classe C afirmavam ter lido 1,79 livro no último ano, os integrantes da Classe A disseram ter lido 3,6. O número é maior, como naturalmente seria de se esperar, mas a diferença é muita pequena dado o abismo de condições econômicas entre uma classe e outra. Qual é o dado grave que se constata aí? Será que o problema real da formação intelectual do nosso país está no fato de que o cidadão médio lê apenas dois livros por ano? Ou está no fato de que a autodenominada elite intelectual do país lê apenas quatro livros por ano? Vou encerrar o argumento ficando apenas no dado quantitativo, sem adentrar a provocação qualitativa de questionar se, entre esses quatro livros anuais, consta alguma coisa que não sejam os últimos e rasos best-sellers de vitrine, a literatura infanto-juvenil e os livros de dieta e autoajuda.

O que importa é ter a consciência de que o descalabro intelectual brasileiro não reside no fato de que o típico cidadão médio demonstra desinteresse pela vida intelectual e gosta mais de assistir televisão do que de ler livros. Ora, este é o retrato do cidadão médio de qualquer país do mundo, inclusive das economias mais desenvolvidas.

O que é digno de causar espanto é, por exemplo, ver Merval Pereira sendo eleito um imortal da Academia Brasileira de Letras em virtude do “incrível” mérito literário de ter reunido, na forma de livro, uma série de artigos jornalísticos de opinião, escritos por ele ao longo dos anos. Ou seja: dependendo dos círculos sociais que você frequenta, hoje é possível ingressar na Academia Brasileira de Letras meramente escrevendo colunas de opinião em jornais. Podemos sobreviver ao cidadão médio que lê dois livros por ano, mas não estou convencido de que podemos sobreviver a uma suposta elite intelectual que não vê diferença literária entre Moacyr Scliar e Merval Pereira.

“Vão ter que me engolir”

Apenas para referir mais um exemplo (entre tantos) das invejáveis capacidades intelectuais da elite social brasileira: na semana passada, o jornal Folha de S.Paulo noticiou que uma celebridade global havia perdido a compostura no Twitter após sofrer algumas críticas em virtude de um comentário que havia feito na rede social. A vedete, longe de ser uma estrelinha de quinta categoria, é casada com um dos diretores da toda-poderosa Rede Globo.

Bem, imagina-se que uma pessoa tão gloriosamente assentada no topo da cadeia alimentar brasileira certamente daria um excelente exemplo de boa formação intelectual ao se manifestar em público por escrito, não é mesmo? Pois bem, vamos dar uma lida nas sua singelas postagens, conforme referidas na reportagem mencionada:

“Almas penadas, consumidas pela a inveja, o ódio e a maledicência, que se escondem atrás de pseudônimos para destilarem seus venenos. Morram!”

“Só mais uma coisinha! Vão ter que me engolir, também f…-se, vocês são minurias [sic] e minuria [sic] não conta.”

Em quem se espelhar?

Não vou nem entrar no mérito da completa falta de educação dessa pessoa, que parece menos uma rica atriz global do que um valentão de boteco. Vou me ater apenas a dois detalhes. Primeiro: a intelectual do horário nobre da Globo escreve “minoria” com “u”, atestando para além de qualquer dúvida razoável que se encontra fora do grupo dos 25% dos brasileiros plenamente alfabetizados (ela comete o erro duas vezes, descartando qualquer possibilidade de desculpa do tipo “foi erro de digitação”).

Segundo: ela acha que “minorias não contam”, demonstrando, portanto, que ignora completamente as noções mais elementares do que vem a ser um Estado democrático de Direito, ou mesmo o simples conceito de “democracia” na sua acepção contemporânea. Do ponto de vista da consciência de direitos políticos, sociais e de cidadania é, portanto, analfabeta dos pés à cabeça.

Com os ricos e famosos que temos no Brasil, em quem o mítico e achincalhado “homem-médio” poderia mesmo se espelhar?

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A vitória do 'bundamolismo'



Gusttavo Lima e menina machucada e feliz mostram que o 'bundamolismo' venceu

Regis Tadeu

Uma das coisas mais interessantes da minha profissão é que a velhice que se aproxima cada vez mais da porta do meu apartamento dá uma vontade incontrolável de deixar de lado a visão restrita de um determinado assunto e tentar enxergar as coisas de uma maneira mais ampla, profunda e racional. Principalmente em um mundo em que tudo envelhece muito rápido e que a estupidez virou uma benção para grande parte da humanidade.

Mesmo assim, algumas situações — ou "notícias", se preferir — me deixam perplexo.

Veja o caso do tal Gusttavo Lima, sucessor de Luan Santana na categoria "faça sucesso entretendo gente debilóide sem ter um pingo de criatividade musical". O sujeito, sabe-se lá por qual motivo, resolveu quebrar uma guitarra em cima do palco em um show em Bauru (SP) — na verdade, um megaevento para 40 mil pessoas que reuniu também atrações do quilate de Jorge e Mateus, Michel Teló e do próprio Luan Santana, entre outros - e jogar os pedaços na plateia. Acabou atingindo uma menina de 10 anos, que teve que ser levada a um hospital com cortes na cabeça.

Depois de atendida, a garota foi levada de volta ao local do show, quando foi apresentada ao "cantor", que lhe deu um CD autografado. E a moçoila saiu de lá feliz da vida, a ponto da família da garotinha — que chegou a registrar boletim de ocorrência por lesão corporal culposa, ou seja, sem a intenção de machucar — ter mudado de ideia no dia seguinte e mandado confeccionar uma faixa com a frase "Gusttavo, eu te amo" e colocado o tal pano na porta de casa.

Que raio de mundo é este?

Nem vou questionar o que fazia uma criança desta idade em um show deste porte. Hoje em dia, pais negligentes são totalmente reféns de crianças cada vez mais mimadas e arrogantes. Junte isto a uma fiscalização que beira a desonestidade e o cenário de estupidez está completo. Também não vou comentar a respeito da lavagem cerebral a qual jovens incultos e criados com a ausência de regras básicas de educação são submetidos via TV e internet.

Só que há uma pergunta que não me sai da cabeça: O que teria levado o tal "cantor" a quebrar uma guitarra em cima do palco? Não saber o que fazer com ela é uma hipótese bem provável, mas eu creio que o tal "cantor" tenha protagonizado a última pá de cal em cima de um cadáver que já cheira mal há muito tempo: a rebeldia transgressora que mudou o mundo nos últimos anos.

Quando Pete Townshend e o The Who quebravam todos os seus equipamentos ao final dos shows, quando Jimi Hendrix botou fogo em sua guitarra no festival de Monterey, quando Jerry Lee Lewis fazia o mesmo com seu piano quando estava entupido de álcool, o que estava em jogo em cada ato aparentemente tresloucado era a necessidade de mostrar que a sociedade em que vivíamos estava passando por mudanças comportamentais, sociais e políticas que batiam de frente contra o conformismo e a obediência cega às autoridades.

Hoje em dia, quando vejo bandas de rock quebrando guitarras em cima do palco, sinto uma "vergonha alheia" imensa justamente porque tal ato se transformou em algo puramente cênico, que provoca a mesma catarse histérica de uma convenção de escoteiros. Imagine o que você sentiria se visse o tal Gusttavo Lima fazendo o mesmo perante uma plateia com zero grau de audácia transgressora. É, o 'bundamolismo' venceu.

O que o tal "cantor" e a menina machucada e incrivelmente agradecida fizeram foi esfregar na nossa cara uma verdade sem volta: a cada dia que passa, mais e mais pessoas se entregam ao nefasto e persuasivo ato de esquecer de si próprias, como se a alienação fosse uma "virtude" — para não dizer "necessidade" - social. Para muitos, é mais fácil e seguro ser uma besta alegre e sorridente.

Vivemos no meio de uma geração de pessoas "românticas" que não sabem sequer como dar um abraço sem produzir uma baba retardada, manifestada verbalmente em frases prontas extraídas de livros de autoajuda ou por intermédio de olhos vidrados pela babaquice explícita. Milhões de pessoas se parecem como lagartixas felizes.

Há muitas formas de ser feliz sem tentar blindar o espírito, colocando um insulfilm na alma. Só vamos conseguir exterminar a nuvem negra da ignorância que cobre este planeta no momento em que começarmos a recusar tudo aquilo que nos é oferecido, quando deixarmos de ter a boca molhada pela saliva da gratidão e transformarmos a nossa indignação em atitudes.

Enquanto houver gente que prefere colocar uma venda nos olhos, lacrar o coração e cultivar a estupidez, seremos apenas um monte de babacas...

terça-feira, 4 de outubro de 2011

AS BRUXAS DA SUÍÇA

Quandos as bruxas eram torturadas e queimadas

Por Olivier Grivat, swissinfo.ch

Cinco mil pessoas foram julgadas por bruxaria na Suíça até 1782. Dois terços delas morreram na fogueira após confessar sob tortura um pacto com o Diabo.

Esse é o tema de uma exposição do Castelo de Chillon, a conhecida atração turística do país às margens do lago Léman.

Um nariz adunco sob um chapéu pontudo, sentada em cima de um cabo de vassoura. É assim que a imagem popular retratava as bruxas na Idade Média. Elas chegariam ao número de 100 mil em toda a Europa, homens e mulheres, mesmo se estas últimas formassem a grande maioria dos suspeitos (70%). Através da figura de Eva, mulheres são vistas como grandes pecadoras, fonte de todas as doenças...

Além da caricatura, que banaliza o drama dessas vítimas da ignorância e do sadismo dos juízes, tanto os laicos como os religiosos, católicos ou protestantes, a acusação poderia cair sobre quaisquer pessoas como explicam os organizadores da exposição intitulada "A caça às bruxas no Pays de Vaud" (a região localizada a oeste do país).

Interatividade  

Na saída da exposição os organizadores colocaram um espelho, onde o visitante pode se imaginar sendo queimado vivo em cima de uma fogueira, após ter passado pelo suplício do polé (n.r.: instrumento de tortura que consistia em suspender o supliciado pelas mãos, por cordas, prender pesos de ferro em seus pés e deixá-lo cair abruptamente), o método de tortura mais utilizado no século 15.

A vítima da qual tenta-se obter a confissão "espontânea" é suspensa pelas mãos, os braços amarrados atrás das costas e os pés atados a pesos que aumentam segundo o decorrer do interrogatório: 25 quilos, 50 quilos, 75 quilos. É permitido repetir cada nível de torturas por três vezes até que o acusado decida confessar, quebrado pela dor graças à desarticulação dos membros ou à fratura da clavícula ou das omoplatas.

Após cada sessão, o acusado é levado à sala do processo e deve repetir sua confissão. Se ele se contradiz, é levado ao seu carrasco: "Isso podia acontecer a qualquer pessoa e de qualquer idade. Eles deviam confessar os nomes dos cúmplices que também teriam firmado um pacto com o Diabo, participado de uma missa negra ou comido crianças", comenta Marta dos Santos, diretora-adjunta do Castelo de Chillon.

O número de novos candidatos à confissão sob tortura era sem fim. Mesmo meninas com idades entre 9 e 12 anos não eram poupadas. A "questão" permitia "liberar" a acusada das empreitadas do demônio, como justificou durante muito tempo a Igreja Católica. A partir de 1252, Roma reconheceu a prática como um meio legal de obter as confissões: o acusado jurava dizer a verdade e suas confissões eram, portanto, consideradas verídicas. A Reforma Protestante não acabou com os processos contra a bruxaria, mas foram os juízes laicos que adotaram o sistema inquisitorial.

A "marca do Diabo"

A partir do século 16, uma novidade foi introduzida: além das confissões, os juízes procuravam a "marca do Diabo" nos corpos dos suspeitos e, mais frequentemente, da suspeita. Ela ocorria no início do processo como uma etapa preliminar à tortura.

Sem roupas, geralmente raspada em todo o corpo, o(a) acusado(a) era entregue a um especialista (carrasco, cirurgião, barbeiro ou parteira) encarregada de "sondar" ao picar com uma longa agulha as diferentes partes de seu corpo, frequentemente as mais íntimas, como relatam as gravuras de época.

A marca diabólica poderia ser uma mancha de vinho, uma simples pinta na pele, uma verruga, uma protuberância na pele, uma particularidade física ou ser até mesmo algo praticamente invisível: "Na falta de dor ou escoamento de sangue, os especialistas concluíam a existência de uma ou várias marcas de origem diabólica", revela Martine Ostorero, comissária da exposição.

Segundo seus estudos, essas práticas humilhantes começaram a ser frequentes a partir de 1534, inicialmente no Pays de Vaud e em Genebra, regiões que tinham passado há pouco pela Reforma Protestante, assim como na Savóia e no Franco-Condado vizinhos. Os autos revelam: em 1651, Jeanne Tissot, da comuna de Isle, foi "visitada" para ver se ela havia sido marcada pelo Diabo. A marca foi encontrada sobre o braço esquerdo depois de ter sido "bem testada e analisada". A procura da marca do Diabo conduziu ao desenvolvimento de todo um arsenal de instrumentos, passando por agulhas para perfurar, pinças e até lâminas de barbear.

Os historiadores consideram que os anos que conheceram importantes picos de repressão correspondiam, frequentemente, aos períodos de crises econômicas, epidemias, fomes ou guerras. Dessa forma, em 1599, ano durante o qual 74 pessoas foram condenadas ao carrasco no Pays de Vaud, foi um ano de peste.

Por vezes as bruxas eram acusadas de ter espalhado a peste durante a noite, ao passar nas portas gordura dada por Satanás. Em 1613, Lausanne criou uma patrulha adicional de dois homens para remover o perigo causado pelos "meliantes que passam gordura à noite".

Será necessário esperar até a República Helvética de 1798 para acabar com a prática. A última bruxa da Suíça, a empregada doméstica Anna Göldi, foi decapitada em 1782. Um processo de reabilitação foi aberto pelo cantão de Glarus, que terminou a inocentando em 2008. Já era tempo.

Olivier Grivat, swissinfo.ch
Adaptação: Alexander Thoele

domingo, 19 de junho de 2011

Cão recebe pena de lapidação

le pretre, le-rabin et liman

Jerusalém - Um Tribunal Rabínico de Jerusalém condenou à morte por apedrejamento um cão vira-lata acusado de ser a reencarnação de um advogado já falecido amaldiçoado por insultar juízes religiosos há 20 anos. O advogado foi condenado pelo mesmo tribunal a reencarnar como cachorro e teria retornado (já como cão) para se vingar.  

CP

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

FRASES

Anta, também conhecida como Tapir
"Tenho medo de tentar encontrar onde está passando um filme e descobrir que sou um membro da Al Qaeda".

Atriz Winona Ryder, norte-americana, em entrevista ao programa "Late Night with Jimmy Fallon".

Leia mais AQUI.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

EUA negaram homenagem a criadora de Harry Potter por 'bruxaria'


Um ex-autor de discursos do ex-presidente americano George W. Bush revelou que o governo dos Estados Unidos vetou uma homenagem à autora da série de livros sobre o mago Harry Potter, JK Rowling, porque alguns políticos achavam que ela incentivava a bruxaria.

Matt Latimer afirmou em seu livro Speechless: Tales of a White House Survivor ("Sem Fala: Contos de um Sobrevivente da Casa Branca", em tradução livre) que alguns integrantes do próprio governo Bush acreditavam que a escritora britânica promovia a feitiçaria nos livros.

Como resultado, Rowling nunca foi condecorada com a Medalha Presidencial da Liberdade.

A condecoração reconhece a contribuição dos agraciados para os interesses nacionais dos Estados Unidos, paz mundial ou esforços culturais.

“Pensamento limitado”

Entre os escritores que já receberam o prêmio estão John Steinbeck e Harper Lee.

No seu livro, Latimer escreve que o "pensamento limitado" levou a esta medida das autoridades da Casa Branca.

O autor afirma ainda que o governo Bush também negou a comenda a outras pessoas como, por exemplo, o senador democrata Edward Kennedy, que morreu em agosto deste ano.

Latimer alegou que o político veterano de uma das famílias políticas mais tradicionais e famosas dos Estados Unidos foi excluído da homenagem por ser considerado liberal demais.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Mãe admite culpa em morte de filho que parou de dizer 'amém'


Tradução Livre: "Pela última vez, Vernon. Não é a volta de Cristo. É só uma nuvem passando!"

Uma americana que interrompeu a alimentação do filho de um ano e quatro meses porque ele deixou de falar "amém" antes das refeições, admitiu a culpa na morte da criança, em Baltimore, no Estado de Maryland.

Ria Ramkissoon, de 22 anos, faz parte de um culto chamado 1 Mind Ministries (Ministérios de uma mente, em tradução livre), cuja líder, Queen Antoinnette, havia ordenado em janeiro de 2007, que o bebê não fosse alimentado enquanto não dissesse "amém" antes das refeições. A criança morreu de inanição.

Segundo os promotores do caso, os membros da seita diziam que o bebê estava possuído pelo demônio.

Ria foi condenada a 20 anos de prisão e a cinco de condicional, mas o juiz disse que ela terá a pena reduzida se aceitar testemunhar contra os membros da seita.

O acordo para a redução da pena inclui que ela passará por um programa para se desligar do culto. Segundo os promotores, Ria ainda teria insistido que a Justiça concorde em reduzir sua pena se ela conseguir "ressuscitar o bebê".

"Isto foi algo que ela insistiu e é um claro indicativo de que ainda é vitima deste culto. E até que se desligue de sua influência, não pensará diferente", disse o advogado de Ramkissoon, Steven Silverman, em entrevista à uma rede de TV local.

Segundo o jornal local Baltimore Sun, a promotora Julie Drake relatou que depois da morte do bebê, a líder da seita ordenou que ele fosse colocado em um sofá enquanto membros do culto rezavam ajoelhados e a mãe dançava em volta do corpo.

Uma semana após a morte, o corpo da criança foi embalado em um cobertor e transportado com o grupo dentro de uma mala para a Filadélfia.

Segundo os relatos, a mãe teria rezado por mais de um ano ao lado do corpo da criança para que ela ressuscitasse. O corpo foi encontrado em abril de 2008.

O julgamento de Antoinette, de 40 anos, e de outros três membros do culto estava marcado para a segunda-feira, mas foi adiado porque eles não têm representantes legais.

"Deus é meu defensor", teria dito a líder da seita.

bbc

quinta-feira, 19 de março de 2009

Un experto en despertar críticas

Hupper, o SÁTIRO

Aunque nadie esperaba que dijera lo contrario, la condena de Benedicto XVI al uso de preservativos justo al llegar al continente más afectado por la pandemia de sida generó cuestionamientos en países africanos y en Europa.

Inquietud, indignación, enojo. Esos fueron las sensaciones expresadas ayer por funcionarios de gobiernos europeos y referentes de organizaciones internacionales de lucha contra el VIH/sida. Sentimientos generados por las declaraciones que el papa Benedicto XVI realizó durante su primer viaje a Africa, el continente que ostenta el procentaje más alto de personas que conviven con el virus del VIH/sida, en las que negó que la pandemia “pueda solucionarse con la distribución de preservativos” y –como si eso no bastara– aseguró que “su uso agrava el problema”. A pesar de los intentos de los voceros del Vaticano de encuadrar sus intenciones en un contexto de “educación en la responsabilidad”, el pontífice logró ganarse el mote de “indiferente” y “autista” en varios países europeos.

Es que el máximo representante de la Iglesia Católica no hace más que encender la polémica con sus expresiones. Todavía no quedó atrás el conflicto iniciado cuando decidió anular la excomunión a un grupo de sacerdotes que niegan la existencia del Holocausto, y ahora salió a negar la eficacia de los preservativos en la prevención del contagio del VIH/sida. Justamente en Africa, donde vive la mayoría de las personas infectadas con el virus.

“¿El Papa vive en el siglo XXI?”, se preguntó Alain Fogue, del Movimiento Camerunés por el Acceso a los Tratamientos (Mocpat), una de las muchas organizaciones que trabajan para paliar la pandemia en ese continente. En ese sentido, consideró que lo esbozado por Benedicto XVI “va a contramano de todos los esfuerzos de los últimos años del gobierno camerunés y de los actores implicados en la lucha contra el sida en el país”. Con él coincidieron referentes de la asociación camerunesa SunAids: “Nos pone en aprietos. Que no nos digan que lo que dijo no tiene un impacto en la lucha contra el sida”, deslizaron.

Las fronteras continentales no limitaron las reacciones, que encontraron mecha en países europeos. Luego de abrir el paraguas y dudar sobre el papel que el gobierno de su país juega en la polémica, Eric Chevallier, vocero del Ministerio de Relaciones Exteriores francés, expresó la “gran inquietud” que despertaron en el gobierno de Francia las declaraciones de Benedicto XVI, sobre todo, por las consecuencias que pueda tener en la lucha contra el sida. Según el funcionario, mensajes de este tipo “ponen en peligro las políticas de salud pública”.

El ex primer ministro francés Alain Juppé fue más allá y opinó que el Papa vive “en una situación de autismo total”. Las frases pontificias resultaron “consternadoras” para la ministra de Sanidad de Bélgica, Laurette Onkelinx, que las consideró “el reflejo de una visión doctrinaria peligrosa”. Desatada la polémica, el Ministerio de Sanidad de España envió un millón de preservativos a Africa.

Sin embargo, Benedicto XVI tampoco parece estar solo –el martes negó su soledad frente al conflicto en torno de los sacerdotes negacionistas– en esta nueva polémica. No pasaron muchas reacciones hasta que el portavoz del Vaticano, Federico Lombardi, saliera en su auxilio al indicar que, con lo dicho, el Papa “destacó el papel de la educación y la responsabilidad”.

Sin embargo, fue sincero frente a la prensa: “Con este viaje no hay que esperar un cambio de postura de la Iglesia Católica frente al problema del sida”, dijo Lombardi. La institución a la que representa sólo acepta la abstinencia como método anticonceptivo y profiláctico. Al respecto, el vaticanista Sandro Magister agregó que “la solución de la Iglesia es la fidelidad sexual; el preservativo es una falsa seguridad que sigue alimentando la promiscuidad sexual”.

El análisis de los referentes de organizaciones internacionales que trabajan en la prevención de la enfermedad a nivel mundial tuvo como expresión común la bronca. El director ejecutivo del Fondo Mundial de Lucha contra el Sida –dependiente de las Naciones Unidas–, Michel Kazatchkine, indignado, pidió al Pontífice el retiro de lo dicho, tras juzgar sus palabras de “inaceptables, ya que niegan la epidemia”. En una frase “se cuestionaron años de trabajo”, opinaron desde Médicos del Mundo.

Página/12

segunda-feira, 16 de março de 2009

Incoerência católica

Inquisição:

por Drauzio Varella, para a Folha de S.Paulo (Sábado, 14 de Março de 2009)

Aos colegas de Pernambuco responsáveis pelo abortamento na menina de nove anos, quero dar os parabéns. Nossa profissão foi criada para aliviar o sofrimento humano; exatamente o que vocês fizeram dentro da lei ao interromper a prenhez gemelar numa criança franzina.

Apesar da ausência de qualquer gesto de solidariedade por parte de nossas associações, conselhos regionais ou federais, estou certo de que lhes presto esta homenagem em nome de milhares de colegas nossos.

Não se deixem abater, é preciso entender as normas da Igreja Católica. Seu compromisso é com a vida depois da morte. Para ela, o sofrimento é purificador: "Chorai e gemei neste vale de lágrimas, porque vosso será o reino dos céus", não é o que pregam?

É uma cosmovisão antagônica à da medicina. Nenhum de nós daria tal conselho em lugar de analgésicos para alguém com cólica renal. Nosso compromisso profissional é com a vida terrena, o deles, com a eterna. Enquanto nossos pacientes cobram resultados concretos, os fiéis que os seguem precisam antes morrer para ter o direito de fazê-lo.

Podemos acusar a Igreja Católica de inúmeros equívocos e de crimes contra a humanidade, jamais de incoerência. Incoerentes são os católicos que esperam dela atitudes incompatíveis com os princípios que a regem desde os tempos da Inquisição.

Se os católicos consideram o embrião sagrado, já que a alma se instalaria no instante em que o espermatozoide se esgueira entre os poros da membrana que reveste o óvulo, como podem estranhar que um prelado reaja com agressividade contra a interrupção de uma gravidez, ainda que a vida da mãe estuprada corra perigo extremo?

O arcebispo de Olinda e Recife não cometeu nenhum disparate, agiu em obediência estrita ao Código Penal do Direito Canônico: o cânon 1398 prescreve a excomunhão automática em caso de abortamento.

Por que cobrar a excomunhão do padrasto estuprador, quando os católicos sempre silenciaram diante dos abusos sexuais contra meninos, perpetrados nos cantos das sacristias e dos colégios religiosos? Além da transferência para outras paróquias, qual a sanção aplicada contra os atos criminosos desses padres que nós, ex-alunos de colégios católicos, testemunhamos?

Não há o que reclamar. A política do Vaticano é claríssima: não excomunga estupradores.
Em nota à imprensa a respeito do episódio, afirmou Gianfranco Grieco, chefe do Conselho do Vaticano para a Família: "A igreja não pode nunca trair sua posição, que é a de defender a vida, da concepção até seu término natural, mesmo diante de um drama humano tão forte, como o da violência contra uma menina".

Por que não dizer a esse senhor que tal justificativa ofende a inteligência humana: defender a vida da concepção até a morte? Não seja descarado, senhor Grieco, as cadeias estão lotadas de bandidos cruéis e de assassinos da pior espécie que contam com a complacência piedosa da instituição à qual o senhor pertence.

Os católicos precisam ver a igreja como ela é, aferrada a sua lógica interna, seus princípios medievais, dogmas e cânones. Embora existam sacerdotes dignos de respeito e admiração, defensores dos anseios das pessoas humildes com as quais convivem, a burocracia hierárquica jamais lhes concederá voz ativa.

A esperança de que a instituição um dia adote posturas condizentes com os apelos sociais é vã; a modernização não virá. É ingenuidade esperar por ela.

Os males que a igreja causa à sociedade em nome de Deus vão muito além da excomunhão de médicos, medida arbitrária de impacto desprezível. O verdadeiro perigo está em sua vocação secular para apoderar-se da maquinária do Estado, por meio do poder intimidatório exercido sobre nossos dirigentes.

Não por acaso, no presente episódio manifestaram suas opiniões cautelosas apenas o presidente da República e o ministro da Saúde.

Os políticos não ousam afrontar a igreja. O poder dos religiosos não é consequência do conforto espiritual oferecido a seus rebanhos nem de filosofias transcendentais sobre os desígnios do céu e da terra, ele deriva da coação exercida sobre os políticos.

Quando a igreja condena a camisinha, o aborto, a pílula, as pesquisas com células-tronco ou o divórcio, não se limita a aconselhar os católicos a segui-la, instituição autoritária que é, mobiliza sua força política desproporcional para impor proibições a todos nós.

Paulopes Íntegras

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Teorias científicas vão aos tribunais


Um tribunal da Pensilvânia, nos Estados Unidos, declarou inconstitucional o ensino da teoria anti-evolucionista do 'intelligent design' ou 'desenho inteligente' em escolas americanas. Teoria tem adeptos e opositores na Alemanha.

Depois de uma ação movida por pais de alunos de uma escola da Pensilvânia, o juiz John Jones declarou inconstitucional o ensino das teorias do intelligent design em escolas norte-americanas.

Os educadores de Dover, na Pensilvânia, haviam decidido implantar o ensino do intelligent design ou "desenho inteligente" nas aulas de Biologia das escolas públicas, como alternativa à teoria evolucionista do inglês Charles Darwin (1809-1882), baseada na seleção natural e na mutação genética.

Opositores da Teoria da Evolução existem desde que ela foi introduzida no século 19. Entretanto, neste começo de século, as teorias oposicionistas ganham, além de ares científicos, um novo aliado: o próprio presidente americano George W. Bush, defensor do ensino criacionista nas escolas americanas.

O que é o intelligent design

A palavra design foi bem escolhida pelos defensores da nova teoria, pois em inglês ela também significa não só desenho, projeto, como desígnio (a exemplo da expressão God's design – desígnio de Deus).

E até mesmo uma instituição especializada em comprovar cientificamente a teoria surgiu na cidade de Seattle, nos Estados Unidos: o Discovery Institute (Instituto da Descoberta).

Os opositores das teorias de Darwin dividem-se basicamente em dois grupos: os criacionistas, que acreditam piamente nos ensinamentos da Bíblia, de que Deus criou o mundo em seis dias e no sétimo descansou.

No segundo grupo, os defensores do intelligent design não discordam da evolução das espécies, mas propagam que o começo desta evolução estaria ligado a uma idéia, ou um projeto, levando à crença de um ente maior, um criador responsável por essa idéia ou desígnio.

Segundo pesquisa do Instituto Gallup, 53% dos americanos acreditam na criação divina como descrita na Bíblia, 38% concordam com as teorias do "desenho inteligente" e somente 12% acreditam que Deus não tem nada a ver com a evolução.

Adeptos também na Alemanha

O propagador mais proeminente das teorias anti-darwinianas na Alemanha é a sociedade de estudos Wort und Wissen (Palavra e Saber), instalada na cidade de Baiersbronn, na Floresta Negra.

O seu diretor, o microbiologista Siegfried Scherer explicou à rede de televisão ZDF que "não seria totalmente impossível pensar que a humanidade teve sua origem em Adão e Eva".

Em seu livro Manual crítico da evolução (Evolution – ein kritisches Lehrbuch), ele desenvolveu a teoria de que os organismos desenvolveram-se de tipos primários criados por um ser superior.

E comparados com os norte-americanos, os alemães são menos crentes: apenas 38% discordam da teoria de evolução de Darwin, dos quais 13% acreditam nos ensinamentos bíblicos e 25% aproximam-se da doutrina do intelligent design.

Reações e exposições

Desde os anos de 1980, que a Suprema Corte americana havia decidido que o criacionismo se tratava de uma teoria religiosa, e não deveria ser levada às aulas de Ciências Naturais.

Com o intelligent design, parece que os criacionistas americanos tentam burlar esta decisão da Suprema Corte e introduzir, nos cursos de Biologia, uma religião que agora ganha ares pseudo-científicos. Entretanto, as reações nos Estados Unidos não ficam somente nos tribunais.

O Museu Americano de História Natural inaugurou a maior exposição já realizada homenageando o criador da teoria da evolução: Darwin, que poderá ser visitada até 29 de maio de 2006, em Nova York.

E segundo o Spiegel Online, as organizações científicas mais importantes dos Estados Unidos – a Academia Nacional de Ciências e a Associação Americana para o Progresso da Ciência – declararam não existir a mínima base científica nas novas teorias propagadas.

Os alemães também reagem

No Deutsches Hygiene-Museum, de Dresden, poderá ser visitada, até 23 de julho de 2006, a exposição Evolução. caminhos da vida (Evolution. Wege des Lebens), mostrando os efeitos da evolução sobre o homem, a sociedade e a vida no nosso planeta.

E como afirma o professor de Teologia da Universidade de Tübingen, Hans Küng, tanto as Ciências Naturais como a Teologia devem reconhecer suas fronteiras.

Criticando a posição dos defensores do "desenho inteligente", que acreditam que um ser maior direciona a evolução, o professor afirma que a questão da fé também poderia ser levada às constantes da natureza, como por exemplo, a velocidade da luz.

O fato de elas existirem não significa necessariamente a existência de um Deus, atrás de todas as leis da natureza. Isto é uma questão de fé e não de ciência, afirma o teólogo.

Carlos Albuquerque, para Deutsche Welle

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Miss é barrada em júri de concurso de beleza por causa de "bruxaria"

Ter, 29 Jan, 04h21

Toronto (Canadá), 28 jan (EFE).- A miss Stéphanie Conover não poderá ser uma das juradas do concurso de beleza Miss Toronto Turismo por gostar de "bruxaria", informou nesta segunda-feira a organização do evento.

Stéphanie, de 23 anos e vencedora de um concurso de miss no Canadá em 2007, já tinha tudo preparado para fazer parte do júri que decidirá em fevereiro a vencedora do concurso Miss Toronto Turismo, mas recebeu uma carta da organização afirmando que ela tinha sido eliminada por gostar de tarô.

A organização do evento afirmou que a "leitura do tarô e do reiki (uma prática originada no Japão) fazem parte do oculto e não é aceitável por Deus, os judeus, muçulmanos ou cristãos".

A organização reafirmou à imprensa sua decisão através de sua porta-voz, Karen Murray.

"Aceitamos (pessoas de) todas as religiões e todas as nacionalidades, mas as rejeitaríamos se estivessem envolvidas em bruxaria", afirmou.

Aparentemente Stéphanie forneceu detalhes sobre suas crenças quando a organização do concurso de beleza lhe pediu uma pequena biografia.

"Disse tudo o que faço; que sou uma artista, cantora e dançarina.

Contei sobre meu trabalho com a caridade e também falei sobre meus hobbies, como escrever canções, tecer, pintar, praticar ioga, reiki e as cartas do tarô", disse Stéphanie ao jornal "The Toronto Star".

Para Murray, estas características, especialmente as duas últimas, são suficientes para desqualificar Stéphanie.

"Queremos alguém com os pés na terra, não alguém no lado obscuro ou no oculto", afirmou a porta-voz. EFE jcr/mh

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

RS QUER PRENDER O HOMEM QUE PODE SALVAR O PLANETA...

DO RS URGENTE:

Ayrton Centeno escreve: Henry Saragih passou por maus bocados em março de 2006, em Porto Alegre. A começar por uma entrevista coletiva onde baixou o Caboclo Paulão e alguns dos perguntadores, possuídos pela Entidade, só faltaram dizer “Mentiu pro tio, contou pro vô? A casa caiu, a cobra fumô!” e bater com o jornal na mesa. Ali mesmo, Saragih foi intimado pela polícia a se apresentar em uma delegacia. Deu explicações durante horas. Acabou indiciado com mais 34 pessoas. Deixou o Rio Grande do Sul com um processo no lombo e sob o ladrar uníssono dos cães de guarda do pensamento único.
...
Seria uma cena bastante pitoresca e, mais do isso, paradoxal, de interesse muito além do Mampituba. Sim, porque a História, esta dama volúvel, arrumou outra tarefa para Saragih, bem mais nobre do que aquecer o cimento do Presídio Central. E ela manifestou tal capricho através de um painel de especialistas convocado pelo jornal londrino The Guardian. Pois não é que esta turma apontou Saragih como uma das 50 pessoas que podem salvar o planeta? Santa Monocultura! Por mil eucaliptos! Como é que os ingleses fizeram isso?

Pois é. Não só fizeram como colocaram o diabo do Saragih acolherado com gente de fino trato, que faria a mídia provinciana escorrer rios de saliva gravata abaixo. Com sua cara redonda e risonha de mexicano escalado para morrer em faroeste gringo, Saraigh aparece lado a lado com o ator Leonardo Di Caprio, o ex-vice presidente norte-americano e Prêmio Nobel da Paz, Al Gore, a primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel e o ex-vocalista da banda Midnight Oil, Peter Garrett, hoje ministro do Meio-Ambiente da Austrália, entre outros e outras.

Saragih foi escolhido, segundo o jornal britânico, porque, líder de milhões de camponeses indonésios, é o sujeito que está no caminho das grandes companhias que devastam florestas tropicais para produzir óleo de palma. Pondera que Saragih, secretário-geral da Via Campesina – que comanda campanhas pela reforma agrária em 80 países – defende os pequenos agricultores junto às Nações Unidas e à Organização Mundial do Comércio (OMC). O resultado desta luta, diz The Guardian, será responsável pela sobrevivência ou não das florestas no sudeste asiático e, possivelmente, determinará o futuro político de muitos países em desenvolvimento.

Na imprensa local, nem um pio, um gemido, um ameaço de vírgula sobre o assunto. Apesar do sabor da pauta, que explicita, de modo brutal, o abismo que separa duas visões dos movimentos sociais, aqui pintados como a décima-primeira praga do Egito e não uma expressão da sociedade civil organizada. Como demonstra, aliás, a rastejante matéria (18/01) de Zero Hora sobre a patética operação de guerra da BM em Pontão, pulsante de desprezo pelos mais fracos e de uma adulação babosa por quem tem o mando e o comando. Quanto à Saragih há duas interpretações para o silêncio. Sob a inspiração de São Francisco, que antecedeu Saragih em alguns séculos na proteção à natureza, fico - mesmo sabendo-a a menos provável - com a mais piedosa delas: a simples, boa e velha ignorância.