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quarta-feira, 25 de maio de 2022

Os três "golpes" de Jair Bolsonaro

 







Quais são os fenômenos que compõem a arquitetura golpista do atual governo e suas chances de prosperar
  

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Por Christian Lynch *

O sistema político de 1988 foi construído deliberadamente contra a herança autoritária do regime militar. A Constituição que lhe serve de baliza jurídica consagrou uma arquitetura institucional pautada por princípios e valores capazes de comportar governos liberais democráticos, como o de Collor e Fernando Henrique; social-democratas, como o de Lula e Dilma; e conservadores, como o de Sarney e Temer. A crise de legitimidade do sistema representativo tornada aguda entre 2013 e 2018 tornou possível, porém, a emergência de uma direita radical, inimiga do Estado de Direito da Nova República.

Desde então, o fantasma do golpe tem assombrado nossa democracia. O questionamento do resultado da eleição presidencial de 2014 por Aécio Neves foi denunciado como “tentativa de golpe”; a Lava Jato, como um conjunto de sucessivos “golpes” em formas jurídicas (o “lawfare”); e o impeachment de Dilma Rousseff, como “golpe parlamentar”. A própria eleição de Bolsonaro teria sido possível graças ao “golpe” da cassação dos direitos políticos de Lula pelo STF, intimidado pelo então comandante do Exército. Por fim, marcado por um populismo reacionário, sustentado na exploração da desconfiança crônica da legitimidade das instituições, tendo por modelo de bom governo justamente o regime militar, o governo Bolsonaro é obviamente incompatível com o sistema constitucional de 1988. Não pode governar, portanto, senão tentando burlá-lo.

Desde então, o “golpismo” se tornou conceito básico do vocabulário político, verdadeira ideia-força associada ao modus operandi do novo governo. Ele faz parte da estrutura lógica de governos autoritários, que não reconhece limitações às condições de sua sobrevivência e reprodução. Eles não são orientados pela doutrina do Estado de Direito, mas da Razão de Estado, que preconiza a possibilidade de desrespeito à lei pelo governante em nome do valor supremo da “segurança nacional” (na verdade, a sua própria). Da doutrina da Razão de Estado se extraem duas técnicas: a do segredo de Estado, que autoriza a supressão da publicidade dos atos governamentais pela imposição do sigilo, e o golpe de Estado, ação violenta e fulminante destinada a neutralizar os inimigos da segurança nacional (isto é, do governante).

Embora relacionados todos à arquitetura golpista do governo Bolsonaro, os termos “golpe” ou “golpismo” têm sido empregados para designar três fenômenos que têm sido confundidos, mas que cumpre distinguir para melhor compreender a cena política.

O primeiro desses significados remete às ações praticadas rotineiramente com o objetivo de implantar um programa de governo incompatível com a Constituição e enraizar uma cultura autoritária na administração e na sociedade. São “os golpes nossos de cada dia”. Eles são praticados à luz de um legalismo autocrático que ignora os valores, princípios e precedentes jurídicos, substituindo-os por uma interpretação formalista e seletiva do texto da lei de modo a favorecer a expansão das prerrogativas presidenciais. Governa-se por decretos ilegais, na esperança de torná-los fatos consumados pela lentidão do Congresso e do Judiciário. Aparelham-se os órgãos administrativos, com nomeação deliberada de pessoal inadequado e conivente. Vandalizam-se órgãos da educação, da cultura, da ciência, da saúde, dos direitos humanos e do meio ambiente, transformados em um misto de cabide de emprego e depósito de lixo. O sigilo é imposto a todos os atos cuja publicidade prejudique a administração. Ao mesmo tempo, neutralizam-se pela cooptação e pela intimidação as instituições encarregadas de controlar os malfeitos do governo, como o Ministério Público, a Polícia Federal, o Tribunal de Contas e o Poder Judiciário. Todas esses atos são apresentados pelo legalismo autocrático como constitucionais. É o que Bolsonaro afirma quando diz “jogar dentro das quatro linhas” — ainda que com farta distribuição de catimbas, faltas, agressões e outras jogadas desleais por ele praticadas, sob o olhar complacente de um juiz por ele designado e devidamente comprado.

O segundo sentido da palavra “golpe” remete à sombra do “golpe de Estado” clássico. Dentro da arquitetura golpista, ele visa justamente a desestimular pela ameaça velada de uma ruptura democrática a resistência da sociedade civil e das instituições de controle aos “golpes nossos de cada dia”. Este golpe se daria menos à maneira de 1964, que elevou os militares ao poder — função exercida já pela eleição de 2018 — do que à de 1968, que pelo AI-5 “legalizou” de vez a razão de Estado identificada com a oligarquia militar. Sua pedra de toque reside na interpretação teratológica do art. 142 da Constituição, que em um momento de instinto suicida teria conferido ao próprio presidente da República, na condição de comandante-em-chefe das Forças Armadas, um “poder moderador” que o capacitaria em caso de crise com outros poderes impor sua vontade sobre os demais, na qualidade de “supremo guardião da Constituição”.

Para tornar a ameaça mais verossímil, Bolsonaro não só incentivou manifestações por uma “intervenção militar constitucional” (sic), como tenta transmitir a impressão de que o endosso ao seu governo por alguns generais significaria adesão irrestrita das Forças Armadas à sua pessoa. Afinal, não se desfecha um golpe de Estado sem a participação ativa dos quartéis. Daí que cole sua imagem à dos militares, participando de formaturas, oferecendo-lhes cargos em penca e convertendo o Ministério da Defesa em um “ministério da ameaça de golpe”, encarregado de suscitar “questões militares” sempre que em defesa da vontade contrariada do presidente.

O principal alvo do golpismo é o STF que, na condição de verdadeiro guardião da Constituição, se tornou uma pedra no sapato no projeto bolsonarista de expansão da cultura autoritária.

O terceiro sentido da palavra “golpe”, por fim, remete à insurreição como forma de resistência do povo à fraude de sua vontade soberana. Enquanto o populista moderado alega, em caso de derrota, que o povo foi enganado pelas elites, radicais como Bolsonaro vendem a tese da fraude para reforçar a tese do complô das instituições contra a vontade popular. Daí a necessidade de deslegitimar sua eventual derrota, difundindo a desconfiança nos métodos de apuração eleitoral. A traição à vontade do povo pelas instituições — mais uma vez, o Poder Judiciário — legitimaria uma insurreição à maneira da invasão da sede do Capitólio norte-americano em janeiro de 2021. Também aqui o Ministério da Defesa tem se prestado ao papel de instrumentalizar a suposta competência técnica dos militares para dar credibilidade à possibilidade de fraude. Mas o protagonista deste golpe não seriam os generais do Alto Comando, e sim “povo armado” por Bolsonaro pelos clubes de tiro, bem como militares de baixa patente, principalmente policiais. Este seria o povo encarregado de “resistir à opressão” em defesa de sua “liberdade”.

Estes são os três golpes possíveis de Jair Bolsonaro. Nenhum, porém, passa sem severas complicações. O primeiro, de sabotagem contínua do Estado de Direito, encontra resistências não só dentro dos poderes Legislativo e Judiciário, como no Ministério Público Federal e na própria administração. O segundo, voltado para a eliminação da autonomia dos demais poderes por uma espécie de AI-5, não é do interesse de quase ninguém. Não é da classe política, que ficaria sob a contínua tutela de um autocrata desequilibrado. Também não é da maioria dos generais da ativa, ciosos da preservação de sua autonomia institucional e já satisfeitos com seu retorno ao jogo político, do qual não sairão tão cedo, seja quem vencer a eleição de 2022. Mais provável é sem dúvida a tentativa de insurreição contra os resultados eleitorais, a fim de barganhar alguma forma de indulto ou anistia à cúpula bolsonarista. Mas também aqui o “golpe” tende a encontrar a oposição da própria classe política, cujas lideranças teriam questionadas suas próprias eleições em caso de alegação de fraude. A começar pelo Centrão, que espera “lavar a égua” depois de turbinado pelo orçamento secreto.

Trinta anos de rotina democrática não passam em vão.

 

* Cientista político, editor da revista Insight Inteligência e professor do IESP-UERJ

 

Imagem: "A Persistência da Memória", de Salvador Dali 


Fonte: www.canalmeio.com.br

sábado, 14 de agosto de 2021

UM POUCO DE HISTÓRIA: GOLPES MILITARES NO BRASIL

 

Seis golpes militares e um que fracassou

 

Por Pedro Doria, para Canal Meio (canalmeio.com.br)

De tempos em tempos, fechados em seus gabinetes, generais do Exército concluem que têm o direito de decidir quem governará o Brasil. De 1889 para cá, aconteceu mais de uma dezena de vezes. Em seis delas, os oficiais tiveram sucesso. Esta é a história de cada um destes seis golpes de Estado. E de um que fracassou.

1889

O marechal Deodoro da Fonseca estava doente, tomado por uma crise asmática, na manhã de 15 de novembro, em 1889. Ainda assim sua casa foi tomada por militantes republicanos que o puseram num coche. Deodoro, de mau humor. Ao chegar ao Campo de Santana, onde trabalhava o primeiro-ministro, visconde do Ouro Preto, Deodoro deixou a carruagem, montou a cavalo, entrou no palácio, derrubou o premiê dizendo poucas palavras e voltou para casa onde se trancou sem querer receber mais ninguém.

Em momento algum deixou claro se havia derrubado só o gabinete ou se havia encerrado também a monarquia brasileira.

O imperador dom Pedro II, àquela altura, estava longe do Rio, na cidade de Petrópolis, quando recebeu no fim da manhã um telegrama de Ouro Preto informando de sua deposição. Tomou um trem para a capital e, do palácio imperial, mandou convocar Deodoro. Que o ignorou.

Amanheceu o 16 de novembro com sua residência cercada por soldados armados.

A história dos golpes brasileiros é marcada por muitos eufemismos. O de 1964 foi por anos chamado de ‘revolução’, atualmente os militares preferem trata-lo por ‘movimento’. O de 1889 éestá nos livros como ‘proclamação da República’. Alguns dos golpes militares em nossa história foram organizados. Os generais se reúnem, combinam o jogo, destituem o governo e encerram a Constituição. Outros foram confusos, com bateção de cabeças, planos vagos, nenhum acordo claro. Acabaram dando certo mais por omissão dos governantes que decidiram não resistir. Foi, igualmente, o caso de 1889 e 1964.

As Forças Armadas brasileiras se formaram profissionalmente a partir da Guerra do Paraguai e saíram com prestígio. Mas este prestígio não foi retribuído pelo Império na forma de salários e poder. Ao mesmo tempo, principalmente na elite agrária, em fins da década de 1880 havia insatisfação com a abolição da escravatura. As duas forças políticas levaram ao golpe desajeitado que tornou o Brasil uma república e pôs em seu comando um marechal.

1891

Mas era um inepto, Deodoro, como governante. A inflação disparou e ele não conseguiu garantir apoio político. Em 1891, o Congresso entregou uma Constituição para a República e, por uma margem tênue, elegeu indiretamente Deodoro, o que deveria consolidá-lo na presidência. Tinha, porém, a oposição de boa parte dos integrantes do movimento republicano. Numa situação de instabilidade, com líderes políticos regionais ameaçando pegar em armas contra o governo, o marechal tomou a decisão de fechar o Congresso Nacional. Foi o Golpe de 3 de novembro.

Só que havia um problema: ele não contava com a lealdade do Exército.

Quem tinha este apoio era Floriano Peixoto, também marechal, seu vice-presidente, e número dois das Forças Armadas desde os tempos do imperador. Em 23 daquele mês, os navios atracados na Baía de Guanabara voltaram seus canhões para a capital e ameaçaram bombardear a cidade caso Deodoro não renunciasse.

Renunciou, pois, tendo perdido tanto Exército quanto Marinha. Dois golpes seguidos, um após o outro. A República demorou décadas para se estabilizar. Inúmeros movimento armados eclodiram. Alguns populares, outros de suboficiais, muitos rurais, tantos urbanos. Mas aquela instabilidade institucional que marcou o período entre 1889 e 91 passou por um tempo.

Ao menos, até os militares começarem a questionar novamente os civis.

Um golpe fracassado

No início da tarde de 6 de julho, em 1922, ainda antes das 14h, 28 militares deixaram o Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, em direção ao palácio presidencial no Catete. Quatro tenentes, os outros soldados, haviam decidido por um suicídio ritualizado. Pouco mais de um dia antes, na madrugada de 5, havia sido tentado um levante militar para derrubar do poder o presidente Epitácio Pessoa. O líder golpista era um ex-presidente: o marechal Hermes da Fonseca. Sobrinho de Deodoro e o mais condecorado militar do Exército brasileiro. Mas durante uma noite confusa, o levante na Vila Militar havia fracassado e os oficiais amotinados foram presos. Dentre eles, o tenente Arthur da Costa e Silva. Àquela altura, dentre os rebeldes, só haviam sobrado aqueles 28 do Forte de Copacabana. Pois decidiram não se render e marchar contra o Palácio do Catete plenamente conscientes de que no caminho seriam interceptados por tropas leais ao presidente.

Pois foram.

Não se sabe quantos deles chegaram à rua Barroso — alguns foram perdendo a coragem e fugindo pelo caminho. Eram mais de dez, possivelmente menos de 15, mas a história registrou um número mítico. Os Dezoito do Forte. Pois foi àquela altura que soou o primeiro tiro, abatendo um praça que caiu imediatamente morto. Os homens se atiraram na praia, buscando proteção na mureta de concreto que separava a pista da areia. Por mais de uma hora, aquela dezena e pouco resistiu ao assédio de mais de mil soldados. Quem viu lembra que parecia chover no mar de tantas balas que caíam. Foi um massacre — sobraram vivos apenas dois, muito feridos. Os tenentes Antonio Siqueira Campos e Eduardo Gomes. Anos depois, a rua Barroso teria seu nome trocado pelo de Siqueira.

Os Dezoito do Forte deram início a uma onda de revoltas que tomariam o país nos anos seguintes e o movimento ganharia nome. Tenentismo. Aqueles tenentes como Siqueira, Gomes e Costa e Silva eram formados pela turma admitida em 1918 pela Escola Preparatória de Oficiais do Realengo, que anos depois seria substituída pela Academia Militar de Agulhas Negras. Foram, eles, os primeiros oficiais formados profissionalmente pelo Exército Brasileiro, com uma escola própria de nível universitário. Siqueira e Gomes foram líderes importantes do movimento, junto de Luís Carlos Prestes, Juarez Távora e João Alberto Lins e Barros.

Sua geração consolidou a convicção que herdou dos oficiais que os antecederam.

O princípio era simples: militares são formados para dar a vida à nação. São disciplinados. Têm apenas os interesses do país em mente. Nenhuma instituição, portanto, é mais leal ao Brasil do que as Forças Armadas. Quando os políticos traem o país, em nome da pátria são militares que têm o dever de salvá-la. Ao longo dos anos 1920 este modo de pensar impregnou nas Forças Armadas. E, nos três golpes de Estado que marcaram as décadas seguintes, líderes tenentistas estiveram envolvidos.

De alguma forma, o espírito democrático nunca pegou nas Forças Armadas. O atual discurso de generais contra o Supremo Tribunal Federal deixa isto claro.

1930

Na manhã de 24 de outubro, em 1930, deixaram o mesmo Forte de Copacabana um grupo de oficiais liderados por dois generais — Augusto Tasso Fragoso e João de Deus Mena Barreto. Desta vez, não encontrariam qualquer resistência. Ambos estavam numa conversa permanente desde a véspera. Mena havia procurado Tasso para lhe informar que, em discussões com outros generais, haviam concluído que o presidente Washington Luís Pereira de Souza não tinha mais condições de governar. “Já se achavam articulados os elementos necessários à pacificação do país”, afirmou. “Não é justo que Exército e Marinha”, continuou Mena Barreto, “se aferrem à defesa de um governo que a nação já não suporta. A força armada é servidora desta e não daquele.”

Àquela altura, tropas rebeladas compostas por soldados e policiais militares, que tinham entre os líderes Eduardo Gomes e João Alberto, estavam no Paraná prestes a avançar sobre São Paulo. Siqueira Campos havia morrido afogado meses antes e por isso não caminhava com os antigos companheiros. Prestes se juntara aos comunistas e assim escolheu outro caminho. Aquelas topas, não. Sua intenção era colocar no governo o governador gaúcho Getúlio Dornelles Vargas. E era tendo em mente este avanço rebelde que o alto-comando do Exército tomou sua decisão. Ao invés de proteger o presidente e a Constituição, precipitaria sua queda.

Ao chegar ao palácio presidencial, os dois generais já traziam consigo o contra-almirante Isaías de Noronha, representando a Marinha. (A Aeronáutica ainda não havia sido formada.) Apenas na véspera, irritado, Washington Luís havia proibido seus auxiliares de trazerem a ele as histórias que circulavam na capital de que um golpe de Estado estava em marcha. Havia se convencido de que eram boatos, de que o Exército lhe era fiel. Os três oficiais entraram no palácio e pediram que o presidente fosse informado de sua presença. Então se sentaram. E esperaram. Àquela altura, por ordens suas, o palácio já estava cercado. Washington Luís podia ter se movido ao autoengano até aquela manhã, mas já não era mais possível. E, ainda assim, não mandava entrar aqueles oficiais. Os três homens esperaram. E esperaram. Até que desistiram. Se levantaram, atravessaram salas uma após a outra, e simplesmente abriram a porta do presidente. Encontraram-no de pé à cabeceira da mesa, com todos seus ministros também de pé.

“Disse-lhe que ele de certo compreenderia o nosso pesar de sermos obrigados a assumir aquela atitude”, escreveu mais tarde Tasso Fragoso. “Naquele momento só uma coisa me preocupava, a vida dele”, registrou não sem um quê de cinismo. “É a única coisa que não me preocupa”, respondeu o presidente. Mas, com o palácio cercado e aqueles dois generais mais um contra-almirante à frente, não havia escolha. Horas depois, Washington Luís deixou o prédio num automóvel.

A imagem foi registrada por um jovem repórter que havia recebido a notícia de que aquele golpe estava em curso. Roberto Marinho fez ali a foto que se tornou o mais importante furo de sua carreira.

Quando Getúlio enfim chegou ao Rio, Tasso, Mena e Noronha ocupavam o governo federal e o repassaram ao novo presidente.

1937

Foram anos intensos e confusos os primeiros de Vargas no poder. A Primeira República caiu, Washington Luís foi exilado, e em 1932 São Paulo se levantou rebelada. O presidente gaúcho tomou o poder derrubando um presidente paulista, alijara a elite daquele estado e havia prometido uma Assembleia Constituinte. Não aconteceu. A guerra civil veio e foi, deixando quase dois mil mortos, a Constituinte então foi entregue e, em 1934, o país ganhou a Constituição mais democrática que teve até chegar a de 1988. Entre outros temas, determinava eleições presidenciais para dali a quatro anos.

É só que, quando a campanha eleitoral já estava em curso e chegava o segundo semestre de 1937, Getúlio Vargas não se sentia ainda disposto a ceder o poder. Apenas um novo golpe de Estado, que pusesse abaixo mais uma Constituição, poderia lhe garantir isso. Só que golpes exigem justificativas. Em 1930, havia exaustão com os fracassos do regime que durava já desde o primeiro presidente eleito, sucessor de Floriano Peixoto. Em 1937 seria necessário contar uma história e ela veio na forma de uma mentira. O Plano Cohen.

Naquele ano, um jovem coronel chamado Olímpio Mourão Filho redigiu um plano que indicava como uma revolução comunista poderia acontecer no Brasil. Mourão Filho não era comunista — na verdade, estava num lugar ideológico diametralmente oposto. Era o número dois da milícia fascista da Ação Integralista Brasileira. Ao longo da vida, o coronel disse que escreveu o texto como um estudo para ter um cenário sobre o qual pudesse pensar a defesa do país perante aquele levante.

Em 1937, a possibilidade de um levante comunista não era apenas hipotética. Apenas dois anos antes, Luís Carlos Prestes havia liderado a Intentona, justamente uma tentativa de revolução financiada pela União Soviética de Josef Stálin. Foi mal planejada e um fracasso completo, mas o alerta estava aceso. E dois generais, justamente os dois mais graduados do Exército, levaram a Getúlio o plano e tomaram a decisão de divulga-lo como se fosse verdadeiro. Eram Pedro de Góes Monteiro e Eurico Gaspar Dutra.

O Congresso Nacional era, principalmente, liberal. Góes Monteiro e Dutra, porém, começavam a sugerir que sua composição tinha disfarçados traços comunistas. Em 28 de setembro de 1937, o presidente Getúlio Vargas recebeu uma delegação de generais. “É preciso agir, mesmo que fora da lei, mas em defesa das instituições”, lhe disse um deles. O político gaúcho assentiu. Mas não bastava o apoio militar, o presidente considerou que precisava ter certeza de que políticos o suficiente apoiariam uma medida de força. No final de outubro, enquanto o Plano Cohen era badalado pelas ondas de rádio e páginas de jornais, encaminhou ao Congresso o pedido de que fosse decretado Estado de Guerra. É quando certos preceitos constitucionais são suprimidos porque o país está sob ameaça externa. Quando deputados e senadores o aprovaram, Getúlio teve a confirmação de que seu golpe não teria resistência.

Na madrugada de 10 de novembro de 1937, as Forças Armadas cercaram o prédio do Congresso Nacional. Inúmeros parlamentares foram presos. Naquela manhã, Getúlio apresentou uma nova Constituição. Tinha por apelido a Polaca, por ter sido inspirada na Carta polonesa. Fascista.

1945

Em finais de 1943, estava ficando já claro que os Aliados venceriam a Grande Guerra. Com o fim do conflito na Europa, era inevitável que uma mudança de rumos precisaria ocorrer no Brasil. A Ditadura do Estado Novo teria de ceder espaço a uma democracia. Sempre hábil, Getúlio tinha planos de ser seu próprio sucessor. Para isso, pôs a máquina do Estado a serviço de cultivar sua imagem e construir uma base popular que pudesse elegê-lo no voto. Assim, do flerte aberto com a direita na década anterior, começou a reconstruir sua imagem à esquerda. Em 1º de Maio de 1943, anunciou o decreto-lei 5.452, que consolidava as Leis do Trabalho. CLT. Formalizava regras para criação de sindicatos, consolidava a carga horária de 8 horas, seis dias por semana, barrava o trabalho infantil, estabelecia o salário mínimo e uma estrutura previdenciária para aposentadoria.

Era um golpe de mestre. Se por um lado consolidava direitos trabalhistas despertando a fidelidade de operários da indústria que nascia, por outro submetia os sindicatos à pesada influência do Estado, afastando os comunistas. Ao fazer com que o Estado repassasse dinheiro para que os sindicatos se sustentassem, criava uma dependência que lhe garantia influência.

Mas conforme 1945 se aproximava, Getúlio não se anunciava candidato. Incentivava o surgimento, na sociedade, de um movimento em seu apoio. Queria ser alçado ao poder. Àquela altura, já haviam se formado três grandes partidos políticos. Dois deles, por suas mãos. Um, o PTB, seria o seu, concentrando funcionários públicos e operários. O PSD reuniria os chefes políticos regionais. A UDN era da oposição, composta por liberais e conservadores. Eurico Gaspar Dutra, que havia sido seu ministro da Guerra e parceiro no golpe de 1937, era o candidato do PSD. O agora brigadeiro tenentista Eduardo Gomes era o candidato da UDN, de oposição. Se o PTB teria candidato seguia em aberto — mas todos sabiam que Getúlio se organizava para ocupar o posto.

Em 28 de outubro daquele ano, o chefe da polícia da capital, João Alberto Lins e Barros, foi informado de que seria substituído no cargo por Bejo Vargas, irmão do presidente. No mesmo momento, informou ao general Cordeiro de Farias da mudança. Os dois haviam sido companheiros de Tenentismo, líderes da Coluna Prestes. Cordeiro havia também comandado a Força Expedicionária Brasileira durante a Guerra. Para os dois, estava claro. Quando pôs o irmão no comando da segurança da capital, Getúlio estava planejando algo. Pois Cordeiro de presto procurou Góes Monteiro — e os generais foram conversando entre si.

Em 29 de outubro de 1945, Cordeiro de Farias e Góes Monteiro entraram no gabinete presidencial e comunicaram Getúlio de que as Forças Armadas não o desejavam mais como presidente.

1964

O gaúcho João Belchior Marques Goulart era herdeiro político de Getúlio Vargas. Vice, havia assumido a presidência após a renúncia surpreendente de Jânio Quadros, em 1961. Governou com o país em crise econômica, inflação e com um certo desajeito — não tinha a habilidade política do padrinho. E havia escolhido um duplo confronto. Com o Congresso Nacional, onde abriu mão de adquirir apoio. Também contra o alto-comando do Exército, decidindo insuflar um levante de suboficiais. Enquanto isso, uma onda conservadora tomava a classe média, principalmente em São Paulo, que se organizava em marchas contra o governo. Simultaneamente, líderes comunistas de um lado, e o governador gaúcho Leonel Brizola do outro, faziam discursos defendendo justamente que Jango partisse para a briga. Que acirrasse a disputa. As vozes pedindo moderação ao seu lado eram poucas, mas dentre elas pesava a do líder governista na Câmara, Tancredo Neves. O deputado acreditava que contornar a crise era possível, caso o governo decidisse botar panos quentes.

Se em 1937 era possível dizer que os soviéticos realmente tinham planos de uma revolução comunista, no Brasil, não havia qualquer indício real disso em 1964. Mas, se aproveitando da radicalização do discurso de Brizola e dos comunistas, a direita defendia que o país corria risco real.

E, entre a busca do diálogo defendida por Tancredo e do confronto proposta por Brizola, Jango ficou com o segundo.

Se nos golpes de 30, 37 e 45 havia se formado um rápido consenso no alto-comando do Exército, em 1964 não foi exatamente assim. As conversas ocorriam. Envolviam o marechal da reserva Cordeiro de Farias, os generais quatro estrelas Orlando Geisel, Humberto Castello Branco, Arthur da Costa e Silva. Todos eram conspiradores profissionais desde os anos 1920 e já haviam planejado golpes não concretizados em 1954 e 55. Não conseguiam chegar, porém, a um acordo claro.

Desta vez, não houve uma comissão de generais entrando pelo gabinete presidencial para comunicar o fim do governo.

Na madrugada de 31 de março, começou a se espalhar a notícia de que o agora general Olympio de Mourão Filho havia levantado suas tropas, em Juiz de Fora, e tomara o rumo do Rio de Janeiro para dar um golpe. Nunca aconteceu, mas os boatos eram convincentes e ninguém o negava. Naquela tarde, Castello, chefe do Estado-Maior do Exército, se isolou em um apartamento de Copacabana e passou a tarde em telefonemas para seus pares. Os generais golpistas eram muitos, mas de telefone em telefone, não se entendiam, não chegavam a conclusão alguma. Só que, diferentemente de Washington Luís 34 anos antes, Jango acreditou que o golpe estava em curso.

E desistiu.

Ao fim de dois dias nos quais havia pouca informação, muitos boatos e nenhum acordo, o presidente tomou um avião para o Rio Grande do Sul e o presidente do Senado tomou o microfone no plenário da Câmara, em sessão conjunta do Congresso.

Sem base legal, declarou vaga a presidência da República.

Seis golpes concretizados com a participação do alto-comando do Exército brasileiro. E o fantasma está sendo atiçado novamente. Não custa dizer: o número de golpes planejados e nunca levados adiante, ou mesmo fracassados, é maior do que os de sucesso.

As histórias registradas por aqui foram colhidas dos livros Washington Luís, de Célio Debes; Getúlio 1930—1945, de Lira Neto; A Ditadura Envergonhada, de Elio Gaspari.


segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

A INVASÃO



Por Luis Fernando Verissimo


O Estado de São Paulo
29 de dezembro de 2019

A possibilidade de sermos localizados pelas forças anticultura do governo e presos multiplica-se.

Estou transmitindo isso em código. Se a transmissão for interrompida abruptamente é sinal de que tive que fazer xixi ou fui descoberto. A possibilidade de sermos localizados pelas forças anticultura do governo e presos multiplica-se, e a repressão aumenta dia a dia. Muitos companheiros da resistência estão desaparecidos, como o pessoal do teatro de vanguarda obrigado a desocupar o teatro onde encenavam uma peça de conteúdo social, o que é proibido, e levados em camburões do temido Departamento de Combate à Criatividade com destino ignorado, todos nus. Qualquer manifestação artística com o nome de “vanguarda”, “social” e etc., já era proibida no território nacional e agora, para simplificar, decidiram proibir qualquer manifestação artística no território nacional, salvo a de bispos cantores.

A queima de livros que pregam o evolucionismo, o sexo recreativo, a redondeza da Terra, o ridículo de acreditar em astrologia, o socialismo ou tudo isso ao mesmo tempo, continua e já há uma corrente que julga inútil queimar livros se suas ideias continuam a existir e serem propagadas por mentes doentias, e sugere que se queime escritores, ou na ordem alfabética ou pela sua evidente combustibilidade. Somos obrigados a mudar o código quase que diariamente para evitar a detenção.

A própria palavra “código” não quer dizer mais código. Procure decifrar seu novo sentido antes que me peguem. Acho que não tenho muito tempo antes de ser lançado na hipotética fogueira. Nosso erro, ao escolher os fatos mais importantes que aconteceram no Brasil em 2019, foi não prestar a devida atenção. Fomos invadidos sem nos darmos conta, quando nos demos conta já era tarde. Deveríamos ter desconfiado que era uma invasão na cerimônia de posse do seu ministério anunciado pelo Bolsonaro. Lembra? Grande parte dos ministros usava longos guarda-pós brancos. Aquilo era estranho, estariam lançando uma nova moda ministerial, com o guarda-pó simbolizando sua disposição de trabalhar pelo País sem personalismo ou vaidade? Mas não. Assim que foram identificados como ministros do novo governo, os de guarda-pós arrancaram seus disfarces – que tapavam fardas militares!

A quantidade de militares em quem ninguém votou, com cargo oficial e poder, perfilados dentro da sede do governo, caracterizava um golpe. Branco como os guarda-pós, mas golpe. Sem armas à vista, sem tanques na rua, mas a invasão de um país por outro assim mesmo. Tudo neste texto é metafórico, da anticultura num país dominado pelo que ele mesmo tem de mais retrógrado, do primeiro parágrafo, aos guarda-pós que não existiram, mas sua única imprecisão está no exagero.



Fonte da Imagem: https://www.wallpaperflare.com/static/11/559/620/monochrome-surreal-digital-art-people-wallpaper.jpg

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Exército resgata presidente do Equador após dia de fúria

Quadro de Hieronymus Bosch

Por Alexandra Valencia y Santiago Silva


QUITO (Reuters) - Tropas equatorianas resgataram na noite de quinta-feira o presidente Rafael Correa, que esteve mais de dez horas retido em um hospital rodeado por policiais sublevados contra uma lei que corta benefícios.

Correa que abandonou o edifício em cadeira de rodas e com uma máscara antigás, chegou minutos depois ao Palácio do Governo e, perante centenas de seguidores, denunciou uma conspiração contra ele e assegurou que não voltará atrás no seu plano.

"A lei não será revogada, conosco o diálogo tudo, pela força nada", disse Correa, com a voz rouca, falando desde a sacada do Palácio.

O dia de fúria em Quito começou quando policiais tomaram o maior quartel da cidade para protestar contra a lei apoiada pelo governo, que corta benefícios de policiais e militares.

Minutos depois, e fiel ao seu estilo, Correa foi ao quartel e enfrentou com duras palavras os policiais.
O presidente foi empurrado e golpeado em meio a uma tumulto e precisou sair em meio a uma chuva de gases lacrimogêneos para ser tratado em um hospital adjacente ao quartel, que foi cercado rapidamente por policiais.

Correa ficou ali a tarde toda e boa parte da noite, enquanto nas ruas de Quito cidadãos e policiais protagonizavam enfrentamentos que, segundo a Cruz Vermelha, deixaram 51 feridos.

Analistas apostavam que Correa recuperaria o controle da situação, mas avaliam que deverá pagar um preço político e que seu controle sobre o Congresso será afetado.

O governo brasileiro expressou apoio a Correa e disse acompanhar com "profunda preocupação" a crise política no país sul-americano.


Mais cedo, o Itamaraty informou em nota que o ministro Celso Amorim telefonou para membros do governo equatoriano para expressar total apoio e solidariedade do Brasil às instituições democráticas daquele país.
O governo venezuelano disse que Correa conversou com Hugo Chávez por telefone e confirmou que o caos era uma tentativa de golpe.

Equador, país no qual foram depostos três presidentes nos últimos 13 anos, depende da riqueza do seu petróleo. Um portavoz da empresa Petroequador disse que a empresa operava com normalidade, mas informou que nos campos de petróleo e refinaria haviam militares.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

TENTATIVA DE GOLPE MILITAR NO EQUADOR



Claudia Jardim
De Caracas para a BBC Brasil

Centenas de militares e policiais equatorianos tomaram nesta quinta-feira o maior quartel de Quito e o aeroporto internacional da cidade, em protesto contra um decreto aprovado pelo Congresso Nacional.

A medida elimina benefícios sociais e afeta os salários dos policiais, disseram representantes da categoria.

O vice-chanceler do Equador, Kinto Luccas, disse à BBC Brasil que "há risco de golpe de Estado" no país.
"O que estamos vendo é que há setores da oposição que estão insuflando essa situação para levar a um golpe de Estado", afirmou Luccas.                                                                                             

O Aeroporto Internacional da capital equatoriana, o Mariscal Sucre, foi tomado por efetivos da Força Aérea Equatoriana e permanece fechado.

Gás lacrimogêneo

Segundo testemunhas, as forças de segurança usaram bombas de gás lacrimogêneo contra os manifestantes durante os protestos.

O presidente do Equador, Rafael Correa, se dirigiu até o quartel tomado pelos policiais e foi recebido com ofensas e pedras.

“Não daremos um passo atrás, se querem tomar os quartéis, se querem deixar os cidadãos indefesos e se querem trair sua missão de policiais, façam isso", afirmou Correa, diante de centenas de policiais.

“Senhores, se querem matar o presidente, aqui estou, matem-me se quiserem, matem se têm poder, matem se têm coragem, em vez de se esconderem entre a multidão", gritou o presidente, visivelmente irritado com a situação.

Acessos fechados

A imprensa local afirma que os protestos tiveram adesão dos militares e policiais na cidade de Guayaquil (sudoeste do país), reduto da oposição a Rafael Correa. As principais vias de acesso a Quito foram fechadas.

Diante da crise, Correa poderá dissolver o Congresso, nas próximas horas, utilizando um mecanismo legal chamado "morte cruzada" que permite o fechamento do Parlamento e a convocação de eleições antecipadas para Presidente e para o Parlamento.

O vice-chanceler disse ter alertado os governos da região – em especial Brasil, Venezuela e Argentina – sobre a crise política no país, pedindo ações em defesa da ordem constitucional.

"Não estamos pedindo a defesa do governo e sim da democracia equatoriana", afirmou Luccas.

Essa é a primeira grande crise institucional que Rafael Correa enfrenta desde que assumiu o poder, em 2007, e deu início à chamada "Revolução Cidadã" no país.

Condecorações

Os policiais recebiam condecorações a cada cinco anos, o que significava um aumento salarial, além de bônus anuais. O decreto elimina esses benefícios.

Entretanto, Miguel Carvajal, ministro de Segurança, disse que o decreto não afeta os salários dos policiais, ao explicar que os bônus antes recebidos a cada cinco anos passaram a ser nivelados e incorporados ao pagamento dos oficiais.

A seu ver, a crise está sendo gerada por uma campanha de "desinformação" que busca "utilizar" os policiais para obter fins políticos.

"Isso é uma campanha de desinformação. Há que se perguntar quem são os que têm interesse em desinformar", disse Carvajal. "Policiais, não se deixem manipular", acrescentou.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

ENROLARAM ZELAYA


Micheletti anuncia governo sem Zelaya em Honduras

O presidente interino de Honduras, Roberto Micheletti, anunciou na quinta-feira à noite que vai formar um governo de “unidade nacional” sem a participação do presidente deposto Manuel Zelaya, ou dos ministros de seu governo.

O ex-ministro do governo interino, Rafael Pinera Ponce, disse que "Roberto Micheletti é o presidente constitucional da República (...) e corresponde a ele liderar esse gabinete".

Ao ser questionado sobre a ausência do presidente deposto, Manuel Zelaya, na liderança do novo governo, Ponce disse que o acordo firmado entre as duas partes que disputam o poder no país não prevê a restituição imediata do presidente deposto à Presidência.

"É uma decisão (...) do Congresso da República, este tratado estabelece que o Congresso tem plena autoridade para tomar essa decisão", afirmou Ponce.

Repetindo a frase utilizada por Micheletti desde a deposição de Zelaya, Ponce disse que o líder interino está disposto a renunciar se o presidente eleito fizer o mesmo.

O acordo prevê que o Congresso vote o retorno de Zelaya à Presidência, mas não define prazo para a votação.

Renúncia e votação

Na quinta-feira à tarde, o gabinete do governo interino apresentou a renúncia de todos os ministros que haviam assumido o cargo desde o golpe do dia 28 de junho, quando Zelaya foi deposto e expulso do país, abrindo caminho para a formação do novo governo de unidade nacional.

Segundo o cronograma do acordo Tegucigalpa-San José, firmado na sexta-feira passada sob mediação do Departamento de Estado norte-americano - um governo de unidade nacional deveria ser estabelecido até meia-noite de quinta-feira (horário local, 4h de sexta-feira em Brasília) sob vigilância de uma Comissão de Verificação, composta por dois representantes internacionais e dois locais.

O novo impasse na implementação do acordo, no entanto, surgiu na terça-feira, quando líderes do Congresso hondurenho adiaram a votação do acordo sobre a restituição do presidente deposto. Os Parlamentares argumentaram que, antes de submeter o acordo à votação no plenário, queriam ouvir a opinião da Justiça.

Para Zelaya a decisão dos Congressistas é parte de uma manobra para dilatar o acordo enquanto se aproximam as eleições, marcadas para o dia 29 de novembro.

Na quinta-feira, a Frente de Resistência Contra o Golpe em Honduras anunciou que caso Zelaya não fosse restituído até a meia-noite (4h de sexta-feira em Brasília), convocaria a população a não participar do pleito.

Se a orientação for seguida, ao menos dois candidatos presidenciais, Carlos H. Reyes (independente) e César Ham (União Democrática) podem renunciar à disputa.

A Resistência, que protesta nas ruas desde a deposição do presidente, há 131 dias, acusa a Organização de Estados Americanos (OEA) e o governo dos Estados Unidos de "cúmplices do golpe de Estado militar".

Os aliados do presidente deposto convocaram a comunidade internacional a manter a posição de "não legitimar" do processo eleitoral e do governo interino.

Brasil e a maioria dos países da América Latina afirmam que não reconhecerão o resultado das eleições, caso Zelaya não seja restituído.

Para o governo interino, o acordo não prevê o retorno imediato de Zelaya ao poder, mas o presidente deposto acredita que o tratado, necessariamente, prevê sua restituição.

Antes do anúncio, o ministro de governo e negociador de Zelaya, Víctor Meza, disse à BBC Brasil que "se o Congresso não convocar uma sessão para votar a restituição do presidente (Zelaya), damos por terminado esse acordo".

* Com informações de Claudia Jardim

bbc

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

França condena "graves" ataques às liberdades em Honduras


Paris, 28 set (EFE).- A França criticou hoje os "novos e graves" ataques contra as liberdades públicas em Honduras, previstos no decreto em que o do Governo de fato do país suspende as garantias asseguradas pela Constituição.
O decreto do Governo de Roberto Micheletti contém importantes restrições "às liberdades de circulação, reunião e informação", declarou hoje à imprensa um porta-voz do Ministério de Assuntos Exteriores.
A França também condenou a expulsão da missão da Organização dos Estados Americanos (OEA), "que deveria abrir caminho para um novo esforço de mediação do secretário-geral da OEA (José Miguel Insulza)" com vistas ao fim da crise.
O Governo francês divulgou uma declaração na qual pede às autoridades do Governo de fato de Honduras que respeitem a "inviolabilidade das representações diplomáticas" e condenem os "atos de intimidação" contra a sede da embaixada do Brasil em Tegucigalpa, na qual Miguel Zelaya está há uma semana.
Por todas essas razões, acrescentou o porta-voz, a França acompanha com "grande preocupação" a evolução da situação política no país centro-americano.

Deutsche Welle

domingo, 27 de setembro de 2009

Hundidos en Honduras


Por Santiago O’Donnell, para Página/12

Seguramente Manuel Zelaya nunca imaginó que un día su país ocuparía un lugar central en la agenda internacional. Honduras ya es no sólo una referencia obligada en las reuniones de la OEA y las cumbres de Unasur. Importantes presidentes se han ocupado del tema esta semana en la Asamblea General de Naciones Unidas, en el Consejo de Seguridad y, aunque no lo hicieron en público, también en la cumbre del G-20. Hasta los presidentes africanos podrían sumar su condena al golpe en la cumbre sur-sur que empezó ayer en la Isla de Margarita.

Pero a pesar de las presiones de la comunidad internacional, que a partir de esta semana incluye la amenaza del uso de fuerza, la dictadura sigue en pie, sin fisuras aparentes y sin ceder ni un ápice en su postura negociadora. La única concesión que está dispuesta a hacer es la misma de siempre: ofrece la renuncia del dictador Micheletti para que sea reemplazado por un títere del régimen hasta que el nuevo presidente electo asuma en enero. A cambio exige nada menos que la legitimación de las elecciones de noviembre para así dar por terminada la crisis. Por suerte la comunidad internacional no compró. Entonces la dictadura juega a estirar la situación para acortar el mandato de Zelaya, el presidente derrocado hace ya tres meses, ante la eventualidad de una improbable restitución.

Aunque la situación política de Honduras en lo sustancial no ha cambiado, o no todavía, hubo dos novedades importantes esta semana que aumentaron de manera significativa la presión sobre el régimen golpista. La primera, claro, es la aparición de Zelaya en la embajada brasileña. La segunda es la intervención del Consejo de Seguridad de Naciones Unidas exigiendo respeto por la integridad territorial de esa sede diplomática.

La versión oficial que difundió Itamaraty dice que Zelaya se apareció en la embajada sin aviso y golpeó la puerta. La realidad es muy distinta. Lo dice el sentido común y lo confirman dos fuentes muy bien informadas, una en Washington y otra en Brasilia. En realidad se trató de una iniciativa brasileña para torcer el rumbo de una situación que se le escapaba de las manos. Zelaya, asegura una de esas fuentes, se mantuvo en contacto permanente con autoridades brasileñas, desde que inició su retorno hasta que llegó a la embajada. Incluso algunas de esas comunicaciones habrían sido interceptadas y no sería extraño que se den a conocer en un futuro no muy lejano.

Tampoco parece probable que la movida brasileña sea una respuesta política a la instalación de bases estadounidenses en Colombia, o el tan mentado relanzamiento de la IV Flota de la Armada norteamericana. Estados Unidos tenía conocimiento previo y había aprobado la movida brasileña, confirman las fuentes. Ambos países han coordinado sus movimientos a lo largo de toda la crisis y esa coordinación se hizo aún más evidente desde la vuelta de Zelaya.

El de Washington fue uno de los primeros gobiernos en reclamar respeto por el santuario diplomático brasileño. Además, la embajada estadounidense fue la primera en mandar víveres cuando los golpistas le cortaron el agua y la luz al refugio del presidente derrocado, informa una fuente hondureña instalada en la embajada brasileña. Además, para no dejar dudas, el canciller brasileño Celso Amorim se apuró en aclarar que Brasil no asumiría un rol de mediador en el conflicto, sino que ese rol quedaba en manos del delegado de Estados Unidos, Oscar Arias, presidente de Costa Rica. También negocian el secretario general de la OEA, José Miguel Insulza; el embajador estadounidense en Tegucigalpa, Hugo Llorens, y últimamente se han sumado a la mesa representantes del Centro Carter, la ONG liderada por el ubicuo ex presidente estadounidense. Todos ellos tienen línea directa con el Departamento de Estado.

La movida de Zelaya es más bien fruto de un acuerdo entre Brasilia y Washington en sintonía con los principales discursos de política exterior pronunciados por Obama desde que llegó a la Casa Blanca. Tanto en la cumbre del G-20 en Londres como en la cumbre de la OTAN en Estrasburgo, el presidente estadounidense dijo que su país ha perdido influencia y ya no puede ser la policía del mundo, por lo que la nueva política de seguridad internacional consiste en forjar alianzas estratégicas con potencias afines en las distintas regiones del mundo.

Pero la alianza estratégica Estados Unidos-Brasil no empezó con Honduras ni tampoco con Obama. Según documentos recientemente desclasificados, ya en la década de los ’70 Kissinger lo instaba a Nixon a apoyar a la dictadura brasileña para que coordinara la lucha antiguerrillera en toda la región. Y fue Lula quien consoló en su tierra a George W. Bush después de la paliza que éste recibiera en la cumbre de Mar del Plata del 2005. Y fue Lula quien dos años más tarde volvió a recibir a Bush para acordar un reparto del incipiente mercado mundial de biocombustibles.

Lo que nadie discute es que Brasil dio un paso importante esta semana para reafirmar su rol de potencia emergente y líder regional. “Esto es Brasil potencia, Brasil interlocutor mundial, Brasil marcando un rol predominante que consolida su esfera de influencia en América latina”, dice admirada la fuente diplomática con sede en Washington.

En realidad, el proyecto de integración regional liderado por Brasil en la última década terminaba en el estrecho de Panamá, ante la evidencia de que México, Centroamérica y el Caribe habían caído irremediablemente bajo la esfera de dominio hegemónico de Estados Unidos. Siendo Estados Unidos el destinatario casi exclusivo de las exportaciones y los flujos migratorios de esos países, y fuente de las remesas y la asistencia crediticia que sostienen a sus economías, era difícil imaginarse cómo países como Honduras podrían sumarse a un bloque regional con pretensiones autonómicas, como el que soñaba Lula. Por eso Brasil privilegió a la Unasur sudamericana como instrumento de integración en desmedro del Grupo Río latinoamericano.

Pero tal como sucedió en los ’80, cuando Brasil integró el Grupo Contadora, ahora vuelve a intervenir en Centroamérica por la sencilla razón de que los acontecimientos que ocurren allí afectan irremediablemente a sus vecinos sudamericanos, por causa de las raíces políticas y culturales compartidas. Algo similar ocurre en el Caribe, donde en la década pasada Brasil aceptó, a pedido de Washington, asumir el mando de la misión militar multilateral que aún interviene en Haití. Brasil no aceptó la misión para extender su influencia sobre el país más pobre de las Américas, sino para evitar el pésimo ejemplo de otra invasión yanqui en la región, aunque sea para pacificar a un país en estado de guerra civil, como era entonces Haití.

La segunda novedad de la semana con respecto a Honduras es consecuencia de la primera: el Consejo de Seguridad de Naciones Unidas tomó el tema a pedido de Lula e intimó a los golpistas a que cesen las agresiones contra la embajada brasileña. El dato no es menor. “Al entrar en el Consejo de Seguridad, el tema entró en la habitación del capítulo séptimo”, graficó la fuente diplomática, haciendo referencia a la cláusula que habilita una intervención militar bajo el paraguas de la ONU, que sólo puede ser invocada por un acuerdo del Consejo.

Para el veterano diplomático afincado en Washington, esto significa pasar del intento de convencer a los golpistas invocando principios democráticos, a la amenaza lisa y llana de una invasión. Fidel Castro lo entendió más rápido que nadie y un día antes de la resolución del Consejo, disparó un editorial en Cubadebate argumentando en contra de la solución militar.

Semejante desenlace suena descabellado pero no habría que descartarlo. El regreso de Zelaya tenía dos objetivos posibles. El primero sería provocar una pueblada que derrumbe el régimen. Pero si no lo pudo hacer el mes pasado, cuando fue a la frontera, cerca de las zonas rurales donde Zelaya tiene su principal base de apoyo, difícilmente lo logre en la capital, donde los golpistas cuentan con la simpatía de buena parte de la población, y donde se concentran las fuerzas encargadas de reprimir a los manifestantes.

El otro objetivo posible es provocar un ataque golpista a la embajada brasileña, que a su vez provoque una respuesta militar de fuerzas extranjeras que despejarían el camino para la restitución de Zelaya. No es la estrategia ideal, como dice Fidel, pero parece estar funcionando mejor que el operativo clamor, al menos en el plano discursivo. De ahí la importancia del pronunciamiento del Consejo de Seguridad. Atacar una embajada bancada por la máxima instancia de la ONU parecería una actitud suicida, pero la torpeza de los golpistas no tiene límites. Alguien debería explicarle al dictador Goriletti que ningún gobierno, mucho menos el suyo, tiene derecho a bombardear una embajada con gases tóxicos. Eso se llama pasarse de rosca, cruzar la raya. Cuando los nenes del Consejo de Seguridad salgan de su estupor, seguramente harán algo para que Goriletti no se la lleve de arriba.

Probablemente será una nueva amenaza, una amenaza más explícita. Pero el problema con las amenazas es que no suelen surtir efecto si quienes las lanzan no están dispuestos a concretarlas. Estados Unidos no ha tenido intervenciones militares unilaterales en la región desde la invasión de Panamá en 1989, si por intervención militar se entiende tirar tiros y no ocupar bases, armar flotas, realizar ejercicios militares, apoyar golpes, etc., etc. Según una fuente del Departamento de Estado consultada el mes pasado, esa no intervención militar directa y unilateral es una política de Estado que todos los presidentes estadounidenses han respetado, de Bush padre a esta parte.

La Organización de Estados Americanos sirvió de pantalla para los Marines que invadieron Santo Domingo en 1965, pero en la actualidad no existe ninguna disposición en el sistema de la OEA que contemple el uso de la fuerza. Si algo demostró este golpe es que la Carta Democrática del organismo interamericano no sirve para restituir a un gobierno constitucional derrocado por un golpe de Estado, justamente porque la Carta carece de capacidad coercitiva. En cambio el consejo de la ONU sí la tiene, el famoso capítulo séptimo, pero cuando la usó lo hizo para intervenir en conflictos armados, no para resolver crisis institucionales, mucho menos en un pequeño país como Honduras. Por lo tanto, llegado el caso, el Consejo tendría que desarrollar mecanismos de aplicación para el uso de fuerza que se adapten a la presente situación y que tengan en cuenta que ni Estados Unidos ni la Unasur aceptarían el despliegue de tropas extrarregionales en América latina.

Que hoy se esté hablando y, peor, pensando seriamente en una opción militar para Honduras demuestra hasta qué punto Goriletti y sus secuaces han logrado despertar a los fantasmas del pasado. Ya no hay espacio para soluciones buenas. Si llegan a las elecciones, los golpistas habrán triunfado. El golpe correctivo a plazo fijo se habrá convertido en un golpe clásico que se prolonga en el tiempo indefinidamente a través de un gobierno avalado por una elección ilegítima. Si se negocia un acuerdo que no incluye la vuelta de Zelaya con plenos poderes, también ganaron los golpistas. Si vuelve Zelaya por la fuerza, la opción militar volverá a ser viable en la región más pacífica del mundo.

Lo menos peor que puede pasar es que las amenazas del Consejo funcionen y que Zelaya vuelva por las buenas, por así decirlo. Pero aun así, el costo será inmenso: hundido en Honduras, el pomposamente nombrado “sistema interamericano”, las instituciones que lo integran y la Carta Democrática que lo gobierna habrán demostrado su patética debilidad.

sodonnell@pagina12.com.ar

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Los problemas del viejo golpismo


Por Luis Bruschtein, para Página/12

América latina necesita la derrota del golpe hondureño para desalentar cualquier ilusión de regresar a una práctica que asoló la región durante décadas. Necesitaba el regreso de Manuel Zelaya, tanto como los hondureños mismos. Por eso la decisión comprometida de Lula, acompañado por el gobierno argentino y los de la mayoría de la región. Si se aceptaba la permanencia de Micheletti hasta las próximas elecciones, aunque sólo fueran unos pocos días, se habría legitimado el golpismo al darle un triunfo.

Aunque civil, Roberto Micheletti es un golpista latinoamericano clásico: gorila, anticomunista y proclive a la hegemonía de Washington en la región. Da la impresión de que los paralelismos llegan hasta allí. Porque Zelaya no es la víctima típica del golpismo sino que se trata de un hombre que llegó desde la derecha y en la marcha fue virando tibiamente hacia la izquierda.

Otra diferencia importante fue la reacción de los gobiernos latinoamericanos reunidos en la Unasur. La mayoría de las veces, las víctimas de los golpes eran la mancha blanca en el mapa, rodeados de regímenes protofascistas que inmediatamente reconocían al nuevo gobierno de facto. Esta vez dieron su respaldo al mandatario depuesto.

En ese marco, el elemento más diferenciador ha sido por un lado Brasil y por el otro Washington. En el caso de Brasil, durante las largas décadas de golpes militares, ese país no tenía prácticamente incidencia en la región. Esta vez, Lula decidió un protagonismo muy activo por la restauración democrática. Es evidente que una vez que Brasil optó por la integración, su peso se hace sentir y un síntoma muy claro es que Zelaya eligió su embajada.

Que se haya refugiado en la Embajada de Brasil, que desde allí haya realizado declaraciones y hasta actos políticos son hechos que reniegan de la explicación del canciller Celso Amorim de que Brasil “sólo le abrió la puerta”. Zelaya no se hubiera movido sin tener la seguridad de que sería recibido y Brasil tampoco hubiera asumido ese protagonismo sin sondear antes a Washington. Y hasta es probable que esos antecedentes hayan sido los que convencieron al depuesto mandatario hondureño de regresar y resignar la seguridad del exilio.

Los golpistas siempre habían actuado con el respaldo de la Casa Blanca y de los demás gobiernos de la región. Esta vez, el rol de Obama ha sido diferente, a pesar de lo cual fue criticado. Sobre estas reacciones hizo una ironía: “Antes criticaban a Estados Unidos porque intervenía en la región y ahora me piden que intervenga”.

Lo decía por los que le reclamaban una acción más decidida. Lo cierto es que su posición desconcertó al golpista Micheletti que ahora reclama “respeto a la soberanía de Honduras”. La estrategia para el golpe siguió el viejo molde y una de las acciones previas había sido armar un lobby en el Congreso norteamericano. Varios senadores republicanos, encabezados por Jim DeMint, de Carolina del Sur, a los que se sumó el lobby de los cubanos de Miami, hicieron presión sobre el Departamento de Estado. Su factor de negociación sobre Hillary Clinton fue el bloqueo de la designación del nuevo encargado para América latina, Arturo Valenzuela, y la del nuevo embajador en Brasil, Tom Shannon. Tanto Valenzuela como Shannon, los dos operadores clave de la política de Obama para la región, todavía no han podido asumir porque DeMint los tiene frenados.

No hay ninguna garantía de que el consenso democrático en América latina sea eterno, y mucho menos la posición de Washington. En cambio, el protagonismo de Brasil en estas situaciones ya es algo irreversible y aunque ahora coincide con la corriente mayoritaria, tampoco hay garantías de que suceda lo mismo en el futuro.

Estas coincidencias demuestran que se trata de un momento histórico especial en el continente. Pero el golpe de Micheletti demostró también que en todas estas sociedades sigue palpitando la tentación del golpismo frente a los procesos de cambio.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Caras y voces de la represión en Honduras


A través de medios alternativos fue posible juntar declaraciones que muestran la ferocidad del régimen. Fueron pronunciadas por personalidades conocidas en Honduras y, sin embargo, no tienen lugar en los grandes medios de ese país.

Por Angel Berlanga, para Página/12

“Me dijeron: ¿te duele, perro? ¡Gritá, perro!” “En una bartolina (calabozo) de nueve metros cuadrados había más de treinta compañeros presos, completamente doloridos por la golpiza recibida.” “Veníamos caminando por la carretera, y allí tomamos un desvío para burlar un retén, porque estaban delante, y comenzaron a disparar.” “Le han quitado la vida y ni siquiera nos dejan velarlo en paz.” “Nunca en la historia de Honduras se ha visto a la policía reprimir públicamente de esta manera.”

La mayoría de esas declaraciones fueron pronunciadas por personalidades conocidas en Honduras y, sin embargo, no tienen lugar en los grandes medios hondureños, asociados a empresarios y partidos tradicionales que impulsaron este golpe encarnizado. Para saber qué dicen los reprimidos hay que buscar por otro lado: sitios de información alternativa, blogs, entidades de derechos humanos. Esas parecen ser las vías para anoticiarse de la ferocidad del régimen que encabeza Roberto Micheletti para con quienes reclaman la restitución del presidente Manuel Zelaya.

El primero de los testimonios es parte de una serie recogida en www.defensoresenlinea.com, manifestantes detenidos y reprimidos el jueves 30, el día que el profesor Roger Vallejos recibió el tiro que lo llevaría a la muerte horas después. La violencia policial recrudeció en las tomas de rutas en Tegucigalpa y Comayagua. “Cuando estábamos tendidos en el suelo, boca abajo, nos empezaron a insultar: al que medio levantaba la cabeza le daban un toletazo –contó el maestro Francis Alvarez–. Si alguien se daba vuelta para ver le daban con las botas en la cara. A las mujeres les decían que eran perras que deberían de estar en la casa atendiendo al marido y con los toletes les hurgaban las partes íntimas. Nos decían que ellos mandaban y que si nos volvían a ver en las calles nos iban a matar a todos.” El dirigente Juan Barahona se comunicó desde la cárcel con Radio Liberada: “Somos 75 y estamos detenidos en la posta del barrio Belén, en Tegucigalpa: la mayoría estamos golpeados, heridos, con hematomas en la cara y los ojos, con marcas de garrotazos en la espalda. La policía nos trata como a animales”. Al dirigente Carlos Reyes, avisó, le fracturaron un brazo y lo llevaron al hospital.

Roger Vallejos agonizó 36 horas: un balazo en la cabeza en medio de una manifestación reprimida en el Mercado del Mayoreo. Los familiares denunciaron que fueron hostigados mientras estuvo internado –los desalojaron del hospital– y también luego, durante el velorio. “Le quitaron la vida y ni siquiera podemos velarlo en paz –dijo Salomón, su hermano, a Radio Globo–. Que dejen de enviarnos la policía para agredir, se han ensañado.” “¿Tiene temor?”, le preguntaron. “Y claro, quién no va a tenerlo, cuando ves pasar a una patrulla con los fusiles apuntándonos. Queremos velar a nuestro pariente en tranquilidad, porque no es justo que vengan a amenazar y provocar. Es un hecho cobarde.” Había razones para temer: el domingo a la madrugada fue asesinado otro docente, Martín Rivera. Había ido al velorio de Vallejo y apareció, como Pedro Magdiel Muñoz en El Paraíso, con decenas de puñaladas. La policía informó que detuvo a un adolescente, pero Bertha Oliva, de Cofadeh, asegura que se trata de un modus operandi que instrumentaron los escuadrones de la muerte ya en los ’80: “Comenzaron con asesinatos de cuadros de base a cuchilladas para hacerlos pasar como obra de la delincuencia común”, declaró en el sepelio. “Sabemos que la saña con que los mataron es un mensaje para que el resto de la población se atemorice”, dijo. El lunes el ejército asesinó a otro campesino en un retén militar.

El sindicalista Eliseo Hernández publicó en el sitio www.honduraslaboral.org un relato de la represión en la ruta interamericana. “A la una de la tarde llegó un contingente de unos 400 militares y 200 policías que nos emboscaron; de inmediato procedieron a lanzarnos granadas lacrimógenas, a golpearnos a punta de toletazos y a dispararnos con la idea de matarnos, por lo cual no nos quedó más alternativa que huir por los montes y montañas. Yo me pregunto: si ya nos habían desalojado de manera brutal y salvaje, ¿por qué perseguirnos durante varios kilómetros hasta alcanzar a muchos compañeros y compañeras, y ya en el suelo, completamente indefensos e impotentes, proceder a golpearlos, patearlos, insultarlos y torturarlos sin importarles sus súplicas y ruegos, para después apresarlos de una manera brutal y humillante?”. Hernández dio cuenta de los presos hacinados en una celda: “La policía les tiraba cápsulas que al hacer contacto con la humedad del suelo de la bartolina emanaban fuerte olor a gas mostaza, lo cual se convertía en una cruel tortura, pues la asfixia era casi total”. El episodio fue narrado también por Bertha Oliva.

El veterano líder indígena Salvador Zúñiga relató al sitio nicaragüense www.tortillaconsal.com los padecimientos del grupo de 300 manifestantes que se trasladaron desde Tegucigalpa hacia la frontera para reunirse con Zelaya. “Hay una guerra contra un pueblo desarmado que lo único que hace es reclamar que se reinstale al presidente al que votamos para que gobierne cuatro años”, graficó. “Llegaron a encarcelar diariamente hasta 300 personas –dijo–. En El Paraíso ya no cabían en la bartolina de la policía y llevaron a la gente al estadio.” A la salida de la capital les quitaron los colectivos y siguieron a pie; luego de eludir varios retenes tuvieron que largarse a la montaña, porque empezaron a dispararles. Al llegar a los pueblos los delataban y tenían que seguir huyendo. El ejército los cercó cerca de la frontera, los detuvo, los golpeó y después, hacinados, los remitió en furgones a Tegucigalpa y San Pedro Sula. Solo 40 consiguieron pasar a Nicaragua. “La gente está con miedo: es una situación difícil –explicó–. Cuando va a las manifestaciones está activa. Pero cuando ya está sola entra en una situación de pánico.”

En el sitio Honduras resiste (resistenciamorazan.blogspot.com), uno de los más activos en la difusión de denuncias, se reproduce una entrevista que Radio Progreso le hizo al padre Fausto Milla, un militante de los derechos humanos que trabaja con los indígenas, que fue detenido por los escuadrones de la muerte en los ‘80 y que hoy está a resguardo. “Viví estas situaciones durante doce años, esperaba la muerte en cualquier momento –evocó–. Hace unos días fueron a buscarme a la radio en la que estoy, disimuladamente. Yo no tengo temor pero trato de cuidarme, también, lo razonable. Aunque no sé cuánto aguantaré encerrado, porque no puedo seguir viendo cómo corre la sangre. Yo creo que en la historia de Honduras nunca se ha visto una represión así, en una forma tan pública, tan a la vista de todos.” Milla considera que, de seguir la situación, “la indignación del pueblo se va a desbordar, probablemente en forma desordenada”. “Porque es imposible seguir aguantando esto –señaló–. A veces ni agua dejan pasar a los heridos en la cárcel. Violar los derechos humanos fundamentales para estos grupos, con Billy Joya al frente, es un oficio. Por eso toman con naturalidad y no les importa nada que el mundo entero los esté llamando criminales y bestias. Pero el pueblo se ha levantado, se ha indignado, y está decidido ahora a seguir luchando por la libertad pacíficamente, hasta donde llegue el límite.”

“El sector golpista no se esperaba que la gente haya perdido el miedo y esté preparada para decir los nombres y los apellidos de los que están detrás de este proyecto oprobioso de hostigamiento, persecución y muerte”, señaló Oliva, y aseveró que la Cofadeh contabilizó 2702 detenciones ilegales, gran cantidad de amenazas de muerte directas y nueve asesinatos, “algunos de ellos cometidos por militares disfrazados de civil”. “Los golpistas son pocos, pero es mucho el dinero que manejan, y los medios de comunicación son de ellos –señaló Milla–. Envenenan a la gente y la llenan de odio.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Sabían y ayudaron un poquito


Por Juan Gelman, para Página/12

La Casa Blanca conocía desde hacía meses el golpe que se preparaba en Honduras, aunque ahora los voceros del Departamento de Estado finjan una inocencia sorprendida. El actual embajador estadounidense en Tegucigalpa, Hugo Llorens, lo sabe muy bien: el 12 de septiembre de 2008 llegó al país centroamericano y, nueve días después, el ahora golpista general Romeo Vásquez declaraba por la emisora HRN que lo habían buscado “para botar del gobierno al presidente Manuel Zelaya Rosales” (www.proceso.hn, 21-9-08). Agregó: “Somos una institución seria y respetuosa, por lo que respetamos al Señor Presidente como nuestro Comandante General y nos subordinamos como manda la Ley”. Igualito que Pinochet antes de alzarse contra Salvador Allende. Cualquier semejanza es apenas obra de la realidad.

El 2 de junio de este año, Hillary Clinton acudió a Honduras para participar en una reunión de la OEA. Entrevistó a Zelaya y le manifestó su disconformidad con el referéndum que el mandatario planeaba llevar a cabo simultáneamente con las próximas elecciones presidenciales. Funcionarios norteamericanos señalaron que “no creían que ese plebiscito fuera constitucional” (The New York Times, 30-6-09). Seis días antes del golpe, el diario hondureño La Prensa informaba que el embajador Llorens se había reunido con políticos influyentes y jefes militares “para buscar una solución a la crisis” causada por el referéndum (www.laprensahn.com, 22-6-09). La “solución” encontrada es notoria.

Es difícil suponer que los mandos militares de Honduras, armados por el Pentágono y formados en la Escuela de las Américas, que a tantos dictadores latinoamericanos les enseñó cómo hacerlo, se hayan movido sin el acuerdo de sus mentores. Por lo demás, los golpistas no ocultaron las razones de su acto: Zelaya se estaba acercando demasiado al “comunista” de Chávez, el venezolano más odiado por la Casa Blanca: en julio de 2008, bajo su mandato, Honduras adhirió a la Alianza Bolivariana para las Américas (ALBA), el nuevo “eje del mal” en América latina. Demasiado, ¿verdad?

Demasiado, sí, porque Honduras es territorio estratégico para el Pentágono, que desde la base de Soto Cano, donde se estacionan efectivos de la fuerza aérea y de la infantería estadounidenses, no sólo domina América Central: este verdadero enclave es fundamental en el esquema militar de EE.UU. para una región rica en recursos naturales. Aunque nunca tocó los intereses de las corporaciones extranjeras ni de los dueños locales del poder económico, Zelaya constituía un peligro de “desestabilización”. Cabe señalar que el referéndum sobre la convocatoria o no de una Asamblea Constituyente que podría permitir la reelección de Zelaya no era vinculante. Nadie se molestó en Washington por la reforma constitucional que permitió en Colombia la reelección de Alvaro Uribe, gran aliado de EE.UU., que ni siquiera fue plebiscitada. Es que una cosa es una cosa y otra cosa es otra cosa.

Los golpistas hondureños son impresentables. El general Romero Vásquez Velásquez, echado por Zelaya, de regreso con el golpe y autor del secuestro y expulsión del presidente, fue alojado en la penitenciaría nacional en 1993 junto con otros diez miembros de una banda acusada de robar 200 automóviles de lujo (www.elheraldo.hn, 2-2-93). Era entonces mayor del ejército; como general, se dedica a robar un gobierno elegido en las urnas. Otro impresentable es el ministro consejero Billy Joya, que no hace honor a su apellido (o sí, según se mire): fue jefe de la división táctica del batallón B3-16, el escuadrón de la muerte hondureño que torturó y “desapareció” a numerosas personas en los años ’80. El “Licenciado Arrazola” –uno de sus alias– es un experto en la materia: estudió los métodos de las dictaduras argentina y chilena (www.michelcollon.info, 7-7-09). Son antecedentes conocidos, pese a lo cual, o por eso mismo, fue elegido para formar parte del régimen golpista, tan democrático pues.

La represión en Honduras continúa. El jueves de la semana que pasó fue detenido el padre de Isis Obeid Murillo, el joven de 19 años asesinado por el ejército en el aeropuerto de Tegucigalpa: tuvo la peregrina idea de exigir públicamente justicia para su hijo (www.wsws.org, 11-7-09). Los salvadores de la democracia expulsaron a periodistas de Associated Press, desaparecieron de la pantalla al Canal 21 y efectivos armados ocuparon el canal 36 (Miami Herald, 1-7-09). Es la concepción de la libertad de prensa que caracteriza a los golpistas.

La Casa Blanca sigue blanda con lo que calificó de “acto ilegal”. Hillary se niega a llamarlo “golpe de Estado” porque eso implicaría automáticamente el cese de la ayuda económica y militar estadounidense a Honduras. Las conversaciones sobre un arreglo pacífico que tienen lugar en Costa Rica, en las que el presidente Oscar Arias actúa de mediador a pedido de Obama, son una farsa. Pero tienen un costado importante: entrañan un reconocimiento oficioso del régimen impuesto. Arias ya anunció que tratará de “presidente” tanto al golpista Micheletti como al mandatario elegido en las urnas y depuesto. Esto sí que es ecuanimidad.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Zelaya puso contra las cuerdas a Micheletti

Tegucigalpa:

Crítica Digital

Dio una semana de plazo al "régimen" usurpador para acordar su regreso al país. Si no, está dispuesto a recuperar "a cualquier costo" la presidencia.

Ya lo había anticipado el domingo el venezolano Hugo Chávez, cuando habló de la posibilidad de un “regreso sorpresivo de Manuel Zelaya” a Honduras. Ayer, el desplazado presidente hondureño declaró que considera estancada la mediación del costarricense Óscar Arias y que está dispuesto a tomar “otras medidas” para recuperar “a cualquier costo” el poder en su país. Luego de llegar a Managua procedente de Washington, Zelaya dio un ultimátum al “régimen de facto” para que en el transcurso de esta semana acepte su regreso y el restablecimiento del orden constitucional en Honduras. De lo contrario, declarará “fracasada” las negociaciones diplomáticas y buscará otra vía para ser reinstaurado como jefe de gobierno del país del que fue expulsado por fuerzas militares el 28 de junio.

“Damos un ultimátum al régimen golpista para que a más tardar en la próxima reunión que se realizará esta semana en San José, Costa Rica, se cumplan los mandatos expresos de las organizaciones internacionales y de la Constitución hondureña”, dijo Zelaya al leer un comunicado en la embajada hondureña en Managua. El gobernante derrocado advirtió que si el presidente de facto, Roberto Micheletti, no cumple con las resoluciones de la OEA y la Asamblea General de las Naciones Unidas, sobre el restablecimiento del orden constitucional y su inmediata restitución en la presidencia, “se considerará fracasada la mediación” de Arias. Si eso ocurre, “procederá con otras medidas que se anunciarán en las próximas horas o días” y sobre las cuales no dio detalles, pero subrayó que el “heroico pueblo” hondureño está dispuesto a “sacar” del poder a los “golpistas” y que la Constitución de su país establece el “derecho a la insurrección”.

Evo acusó a los militares estadounidenses por el golpe de Estado en Honduras


El presidente boliviano, Evo Morales, aseguró que el Comando Sur de la Armada de Estados Unidos intervino en el golpe de estado en Honduras que derrocó al presidente Manuel Zelaya el 28 de junio último.

"Hay información de primera que el imperio mediante el Comando Sur de Estados Unidos hace al golpe de Estado en Honduras. Por tanto (es) el imperio contra el pueblo y los pueblos históricamente derrotaron a los distintos imperios", dijo Morales.

"Lo que el año pasado tenía que pasar en Bolivia, un golpe civil, ahora está pasando en Honduras. Es una agresión del imperio", añadió el mandatario anoche poco antes de finalizar una visita a Uruguay, reseñó ANSA.

Morales estuvo ayer en la capital uruguaya para cumplir una rápida visita en la que se reunió con su colega Tabaré Vázquez para tratar temas bilaterales y firmar un comunicado conjunto de repudio al golpe contra Zelaya.

En su declaración los mandatarios reiteraron la decisión de no reconocer otro presidente que Zelaya.

"Tras lo acontecido en Honduras -agregó- tenemos la obligación de hacer una profunda reflexión sobre cómo se vive en las dictaduras" ya que "tal vez la niñez, la juventud, las nuevas generaciones no lo saben", sostuvo.

En su visita, Morales firmó acuerdos con Vázquez y conversó sobre salud, educación e integración así como en el tema de la salida al mar por los puertos de Nueva Palmira o Montevideo y la venta de gas.

Página/12

sexta-feira, 10 de julho de 2009

HONDURAS: Las salidas posibles


Por Modesto Emilio Guerrero *, para Página/12

Si algo queda claro luego de semana y media del golpe, es que estamos ante una suerte de empate a favor de Micheletti. Este contrasentido dialéctico se ordenó en una acelerada sucesión de pasos que instalaron un statu quo donde ninguna de las partes es capaz de avanzar más de lo que puede, aunque quisiera, ni retroceder más de lo que debe, aunque pudiera.

Zelaya no pudo volver al poder en Tegucigalpa, a pesar de su decisión indeclinable, de las crecientes movilizaciones internas y del apoyo del sistema hemisférico de Estados. La doble ronda del avión que no pudo aterrizar en Tegucigalpa fue apenas la señal de una relación de fuerzas que no dio para imponerlo en tierra.

El gobierno dictatorial no pudo ganar ningún apoyo, excepto de Israel, de una minoría de la población y de sí mismo frente al espejo de su propia condición de clase. Pero logró una posición política de fuerza en la constitución inmediata de un gobierno de facto 32 horas después del porrazo militar.

Ese gobierno se apoya en tres poderes de Estado: el Congreso Nacional, la Corte Suprema y las Fuerzas Armadas. Y cuenta con el respaldo de cinco fuerzas que resultaron decisivas en la caída del presidente Manuel Zelaya: tres de las cinco empresas multimedia, la Iglesia, dos de las tres cámaras empresarias de Honduras, la jefatura de la Base Militar de Soto Cano y las multinacionales de medicamentos que controlan el 82 por ciento de ese mercado.

La expresión argumental de este estado de cosas la dieron los propios jefes contendientes cuando aceptaron la mediación del Premio Nobel y presidente de Costa Rica, Oscar Arias. Eso sí, asegurando cada uno por su lado que ninguno cedería en nada. Esto se traduce como que Zelaya sigue afuera y el golpe sigue adentro.

El gobierno de Estados Unidos, por mucho que quisiera, no apoya este golpe. Simplemente no lo controla ni le sirve en su objetivo latinoamericano actual. Tal actitud no le resta nada a su naturaleza de nación opresora, y sólo agrega puntos al pragmatismo de su condición imperialista.

Esta vez prefirió apostar a la búsqueda de una entente lo más cordial que se pueda con los nuevos actores del continente: Unasur, ALBA, PetroCaribe, Brasil desafiando al G-8 y otros de viejo esquema como el G-Río.

Sus manos están demasiado ocupadas en la incontrolable recesión internacional, la nueva ofensiva militar contra un Talibán que parece inexpugnable, la necesidad de una salida ordenada de Irak, el desafío coreano-iraní y la urgencia de una Rusia fuerte que lo ayude a controlar la siempre díscola Eurasia. No son los únicos factores de riesgo, pero sí mayores al de un gobierno amigo de Chávez en la pequeña Honduras.

Entre las cosas que aprendió el sistema imperialista en sus primeros 100 años de actuación sobre el mundo, una fue retroceder para avanzar.

En contradicción con lo previsto, la crisis hondureña se hizo latinoamericana desde el primer día. En ese punto comienza la perentoria necesidad estadounidense de darle una salida a su favor, así sea sacrificando relaciones con varios (o muchos) de sus amigotes hondureños. No es la primera vez que vemos esto en la historia contemporánea. Es una cuestión de cálculo, de interés geopolítico, que para los imperios siempre vale más que cualquier amigo.

De este mapa de hilaciones complejas nacen los indicios que conducen a las posibles respuestas a la pregunta de dónde va Honduras.

La más peligrosa de las salidas en curso es la que solicita una intervención de EE.UU. en Honduras. Este llamado tiene base social en una parte de los seguidores de clase media de Zelaya, como se puede verificar en pancartas que piden esto en las marchas, algo que recuerda a la Panamá de 1989.

Este equívoco sentimiento alimenta el objetivo de Wa-shington y de varios gobiernos de la OEA: reinstalar a Zelaya en el gobierno mediante un pacto controlado por EE.UU. con el gobierno de Micheletti. Establecer una transición hasta la culminación del mandato presidencial en diciembre de 2009. A ello abonan la reunión con Hillary Clinton y las declaraciones de tres jefes empresarios el día 6, y la dicha por la Corte Suprema el día 8 de julio anunciando que el Congreso podría concederle una amnistía al Presidente depuesto.

Si esto ocurre, aunque Manuel Zelaya se vuelva a sentar en Tegucigalpa, sería un desempate, pero a favor de Estados Unidos. La otra salida está por verse.

* Escritor y periodista venezolano.