As pessoas encontram em si e fora delas bastante coisas que são meios que contribuem não pouco para que alcancem o que lhes é útil, por exemplo, olhos para ver, dentes para mastigar, vegetais e animais para alimentação, sol para iluminar, mar para sustento de peixes. São levadas a considerar todas as coisas da Natureza como meios para a sua utilidade pessoal. E porque sabem que tais meios foram por elas achados e não dispostos, daqui tiraram motivo para acreditar na existência de outrem que os dispôs para que os utilizassem.
Com efeito, depois de haverem considerado as coisas como meios, não podiam acreditar que elas se criassem a si mesmas, e dos meios que costumam dispor para seu uso próprio foram levados a tirar a conclusão de que houve alguém ou alguns regentes da Natureza, dotados como os homens de liberdade, e que cuidaram em tudo que lhes dissesse respeito e para sua utilidade fizeram todas as coisas.
Quanto à compleição destes seres, como nunca ouviram falar nada a tal respeito, também foram levados a julgá-la pela que em si notaram.
Daqui, haverem estabelecido que os deuses ordenaram tudo o que existe para uso humano, a fim dos homens lhes ficarem cativos e de serem tidos em suma honra; donde o fato de haverem excogitado, conforme a própria compleição, diversas maneiras de se render culto a Deus, para que Deus os estime acima dos outros e dirija a Natureza inteira em proveito da sua cega apetição e insaciável avareza.
Assim, este prejuízo transformou-se em superstição e lançou profundas raízes nas mentes.
* Filósofo, também conhecido pela grafia Baruch Spinoza ou Benedito Espinoza.
Fonte da Imagem: https://redhistoria.com/descubre-cual-es-el-dios-del-juego-en-cada-parte-del-mundo/
Sob o pretexto de proteger uma parcela cristã da população, segmentos reacionários colocam em risco a secularização e os direitos individuais. Mas laicidade é liberdade. E premissa importante da democracia.
Por Flávia Tavares, para canalmeio.com.br
“Existe
mais de um tipo de liberdade, dizia Tia Lydia. Liberdade para, a
faculdade de fazer ou não fazer qualquer coisa, e liberdade de, que
significa estar livre de alguma coisa. Nos tempos da anarquia, era
liberdade para. Agora a vocês está sendo concedida a liberdade de. Não a
subestimem.” O Conto da Aia, Margaret Atwood
Laicidade é liberdade. Em sua definição abrangente, um Estado laico é
o que assegura a cada cidadão a liberdade para crer (ou não), cultuar
(ou não) e se organizar (ou não) religiosamente. É o que garante que, em
sua privacidade, o indivíduo possa ser o que quiser para que, no
ambiente público, a todos os indivíduos seja dispensado o mesmo
tratamento. A laicidade é o que afiança a pluralidade individual para
sustentar a igualdade social. A laicidade está em perigo.
Em 2017, o presidente Jair Bolsonaro, ainda em fase de amealhar
seguidores e viabilizar sua candidatura, apelou à base religiosa e
demonstrou seu desprezo pelo Estado laico. “Somos um país cristão. Não
existe essa historinha de Estado laico, não. O Estado é cristão“,
afirmou. E assim, afrontando a Constituição de 1988 que veda, em seu
artigo 19, que União, Estados e municípios adotem uma crença particular,
Bolsonaro se conduz. No mesmo artigo, veda-se também que o Estado crie
”distinções entre brasileiros ou preferências entre si".
O argumento recorrente de segmentos reacionários contra a laicidade
do Estado é uma suposta perseguição a cristãos, o que encontra zero
respaldo na realidade. A perseguição que existe, de fato, é a religiões
de matriz africana — se não promovida, frequentemente consentida pelo Estado brasileiro.
A
laicidade não cerceia o exercício da espiritualidade, da religiosidade
ou da negação a elas. Cerceia apenas a contaminação do debate público
por dogmas religiosos. Na prática, coloca a ética acima da moral.
O valor de um Estado sem uma religião oficial é essencialmente
ocidental. Mas, nas últimas semanas, os EUA obrigaram um estado a garantir recursos para escolas religiosas, impuseram o direito de professores em escolas públicas de trazer orações para o ambiente de ensino e, claro, retiraram a garantia constitucional do direito ao aborto. No Brasil, uma juiza bloqueou acesso ao aborto legal para uma criança, o ministério da Saúde trabalha para dificultar mais o direito, enquanto senadores lutam para abrir uma CPI
e investigar sérios indícios de corrupção de três pastores, um deles
ministro da Educação. A religião está impregnada em todos os Poderes, a
todo tempo.
Proteção mútua
O rompimento entre Igreja e Estado tem uma história permeada de
tensões e tentativas constantes de retomada de espaço e poder. Até o
século XVII, essa não era uma questão. Reis eram ungidos por Deus e
cardeais ditavam os rumos de todos os súditos. Embebidos no Iluminismo,
europeus passaram a buscar formas de deixar emergir, na criação dos
Estados-nação, uma autoridade civil não subordinada às autoridades
religiosas. Enquanto isso, protestantes e católicos guerreavam
em todo o continente. “O Estado laico surgiu para impedir que católicos
e protestantes se matassem uns aos outros. A laicidade assegurou a
liberdade dos próprios cristãos”, explica Joanildo Burity, cientista
político, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e professor da
Universidade Federal de Pernambuco.
O marco fundamental seguinte foram as revoluções liberais do século
XVIII. Tanto a americana quanto a francesa foram sacramentadas com
declarações de direitos dos homens. “Direito à liberdade de crença,
culto e organização religiosa é o primeiro direito humano objeto de
detalhamento jurídico. Todas as revoluções liberais colocam esse direito
entre os fundamentais. E esse é o direito que fornece o modelo aos
demais. As igrejas passam a se sentir extremamente ameaçadas pela
emergência dessa forma de organização política”, acrescenta Burity.
Inaugura-se a era dos direitos humanos no Ocidente. A noção de que esses
direitos são a base fundamental de uma democracia.
Essa nova concepção não resolve tudo. Ela traz em si um dilema explorado lindamente por Hanna Arendt, em Origens do Totalitarismo,
de 1951. “É perfeitamente concebível, e mesmo dentro das possibilidades
políticas práticas, que, um belo dia, uma humanidade altamente
organizada e mecanizada chegue, de maneira democrática — isto é, por
decisão da maioria —, à conclusão de que, para a humanidade como um
todo, convém liquidar certas partes de si mesma. Aqui, nos problemas da
realidade concreta, confrontamo-nos com uma das mais antigas
perplexidades da filosofia política, que pôde permanecer desapercebida
somente enquanto uma teologia cristã estável fornecia a estrutura de
todos os problemas políticos e filosóficos”, diz a autora.
O homem como dimensão inicial e final das regras políticas é um
modelo tão imperfeito quanto o próprio homem. Mas os fundadores da
democracia americana, pensadores e estadistas que eram, anteviram em
alguma medida esse impasse. Em O Federalista, obra basilar da
Constituição dos Estados Unidos, Alexander Hamilton, James Madison e
John Jay insistiram nos “freios e contrapesos” da divisão de Poderes e
das eleições proporcionais para evitar distorções. Hamilton fraseia
assim a questão e a solução: “Há […] momentos particulares nos negócios
públicos, em que o povo, estimulado por paixões irregulares, seduzido
por vantagens ilegítimas ou enganado por argumentos capciosos de homens
interessados, pode solicitar medidas que bem depressa desaprovará e
cujos efeitos virá mais tarde a deplorar. Nestes momentos críticos,
quanto deve ser salutar a interposição de um corpo de cidadãos
respeitáveis e moderados, que reprima o impulso funesto da multidão e
que suspenda o golpe que o povo está para descarregar em si mesmo, até
que a razão, a justiça e a verdade retomem o seu império sobre o
espírito público!”.
Em seu discurso de 2017 (e em tantos outros), Bolsonaro deixa claro o
perigo que “argumentos capciosos de homens interessados” pode
representar. Disse ele: “Vamos fazer o Brasil para as maiorias. As
minorias têm que se curvar às maiorias. As minorias se adequam ou
simplesmente desaparecem.” Para evitar a tirania da maioria, depois mais
bem conceituada por Alexis de Tocqueville, os fundadores americanos
professavam que os poderes deveriam se equilibrar e os homens da
política precisariam ser, no mínimo, “moderados”. E compreender que um
preceito constitucional não se sobrepõe a outro. Algo plenamente
oferecido pela laicidade.
Um
Estado religioso dá ao governo e ao governante o poder de agir em nome
de sua interpretação de leis divinas — e não à toa é associado ao
totalitarismo. Religião não orna com crítica reflexiva.
Basta pensar no que significa ter um “ministro terrivelmente
evangélico” na Corte de resguardo da Constituição. A laicidade impede,
inclusive, que agentes políticos usem da fé alheia, ou das ”paixões
irregulares“ descritas por Hamilton, em benefício próprio. Se um
político não pode usar a fé para pedir voto, ele é obrigado a pensar
política. Política pública, ampla, estruturante. Um Estado laico é
emancipatório.
A própria Arendt tem, em sua obra, a resposta para moderar os ímpetos
do homem. Entre os princípios mais defendidos pela pensadora, está o de
que a política se assenta na pluralidade. De que opiniões somente podem
ser ampliadas e testadas quando confrontadas com as de outros atores
políticos. Arendt não para aí. Ela advoga que, acima dos direitos
humanos, está o direito a se ter direito. Para isso, o indivíduo precisa
estar sob um Estado que não abdique de protegê-lo. Justamente o que faz
um Estado confessional com aqueles que não praticam a fé oficial.
Gilead é hoje
É um tanto aterrador quando, ao escolher usar um trecho de O Conto da Aia,
uma obra distópica em que o Estado confessional de Gilead submete
mulheres oficialmente a estupros para conceber filhos a casais
religiosos, corre-se o risco de ser clichê. Mas aqui estamos, no Brasil
de 2022.
Depois da Segunda Guerra Mundial, a laicidade foi assumindo um novo
caráter, inclusive de defesa da liberdade de quem não tem religião. Aos
poucos, essa noção secular passa a ser de que o Estado deve tomar o
lugar da religião na formação de cabeças. Na educação pública. “No fim
do século XX, com o boom econômico da Europa e do Atlântico Norte,
ficamos com a ideia de que o desenvolvimento científico e cultural havia
superado a religião. Nos anos 1990, percebemos que isso só valia para
um quarto do planeta”, diz Burity. A tensão entre Igreja e Estado,
sempre latente, se intensificou. Os religiosos nunca se afastaram da
esfera pública para valer. Bancadas católicas e, mais recentemente,
evangélicas sempre tiveram relevância; candidatos fazem o beija-mão
cristão em cada ciclo eleitoral. O que mudou mais recentemente, que nos
faz ter essa opressora sensação de que há uma ofensiva religiosa?
Houve uma sequência de eventos globais que chacoalharam qualquer
noção de estabilidade. As grandes migrações pós-guerra, que num primeiro
momento alimentaram a tolerância religiosa, se tornaram alvo da
xenofobia. Guerra do Golfo, Torres Gêmeas, crises econômicas sucessivas,
conquista de direitos de gênero, reprodutivos. Setores de igrejas
reagiram de forma positiva à modernidade. Outros não. E eles aprenderam a
usar a linguagem dos direitos e da participação política para inverter a
lógica da “perseguição”. Para defender ideias retrógradas. “Essas são
as lutas das próximas décadas. Não é incompreensível que as pessoas
busquem encontrar nos discursos conservadores religiosos as garantias
que o mundo ao seu redor não dá mais. Mas a garantia da participação
pública e política de grupos religiosos deve ser acompanhada por
exigências de respeito à lei e desse marco secular de não tomar partido
de uma determinada religião”, conclui Burity.
As religiões são, de forma geral, patriarcais. Um conjunto de dogmas
criado e compilado por homens, celibatários em muitos casos, com
concepções medievais de como se deve conduzir a vida. O que chega no
ambiente político costuma ser a versão mais radical desses dogmas, que é
a que mais comove e tem potencial de se converter em votos. Essa
matemática fica explícita quando se observa o caso americano. Na década
de 1970, quando a Suprema Corte decidiu que o aborto era um direito
constitucional, pesquisas
apontavam que 39% dos republicanos disseram que o aborto deveria ser
permitido por qualquer motivo, em comparação com 35% dos democratas.
Hoje, conforme o Partido Republicano se viu sequestrado pela
extrema-direita religiosa, uma pesquisa
apontou que democratas e independentes de tendência democrata são 42
pontos percentuais mais propensos do que republicanos a dizer que o
aborto deveria ser legal em todos ou na maioria dos casos (80% contra
38%).
É isso que a contaminação da política pela religião faz. Interfere no
debate público. Impõe visões singulares e autoritárias. Extirpa
direitos. Restringe liberdades. E mina a democracia.
Fonte do Texto: http://www.canalmeio.com.br/notas/bendito-seja-o-fruto/?h=T21hciBSw7ZzbGVyfDEyMjIwNg==
Imagem: The Inquisition, 1981. By Jacek Yerka, in WikiArt.org
Juliana Dal Piva, Julia Dauksza, Anna Gielewska, Konrad Szczygiel e Audrey Lebel Do UOL, em São Paulo, da Reporter's Foundation Polônia, e colaboração da França
28/12/2020
Os
valores canalizados ao longo de vários anos pelos fundadores da
Instituição Ordo Iuris da Polônia para organizações católicas radicais
no exterior chegam a 10 milhões de euros. Só para o Brasil e a França,
desde 2004, foram enviados anualmente 500 mil euros. É o que uma
investigação internacional produzida pela Reporter's Foundation,
da Polônia, com parceiros na França e no Brasil descobriu. O dinheiro
doado para rosários e imagens de Nossa Senhora de Fátima apoia o
movimento global contra aborto, gênero, LGBTQ+ e valores compartilhados
pelo mundo liberal.
Uma mansão luxuosa em São Paulo, um castelo
majestoso na França, uma casa do século 19 em Kazimierz, um distrito
histórico de Cracóvia: há algo que liga todos estes imóveis e endereços
ao redor do mundo? Poderia haver alguma relação entre essas organizações
e o endurecimento das leis de aborto na Polônia e o futuro referendo
sobre a definição de casamento na Estônia?
Todas
as instituições que funcionam nesses locais receberam fundos de uma
pouco notada organização polonesa de católicos radicais: a Fundação
Skarga, que deseja abraçar tradições medievais, apoia campanhas
ultraconservadoras na Polônia e no exterior. Os fundos apoiam uma rede
de entidades que organizam manifestações anti-LGBTQ+, petições e marchas
antiaborto, campanhas contra a entrega da hóstia na mão. Mas também
subsidiou a manutenção de uma organização no Brasil e a sede da TFP
(Tradição, Família e Propriedade francesa), no Château de Jaglu, no sul
da França, lar de um importante fundador do grupo.
Por anos, pouco
se sabia sobre a estrutura financeira desse movimento internacional de
radicais católicos, em especial, no Brasil. Nossa investigação revelou,
entretanto, que o apoio vital foi fornecido por um centro operacional e
financeiro baseado em Cracóvia, na Polônia, e, ainda, como funciona uma
rede de entidades ligadas à TFP. O modelo de arrecadação de fundos se
baseia em um conceito desenvolvido no Brasil e posteriormente expandido
na França e reaplicado nos países centro-europeus.
Um sino que chama para a oração na capela
Higienópolis
é um dos bairros mais nobres de São Paulo, o coração financeiro da
região Sudeste do Brasil e endereço de diversos políticos e
celebridades. Neste bairro, fica também o IPCO (Instituto Plínio Corrêa
de Oliveira), sediado em uma mansão charmosa cercada por jardins
exóticos. A propriedade é aberta apenas aos membros da organização.
Apesar de uma missa ser celebrada na capela nos fins de semana, seus
moradores ouvem diariamente um sino que chama à oração.
Antes de
se tornar sede do IPCO, o imóvel imponente serviu por muito tempo como
espaço dos encontros organizados pela Sociedade para a Defesa da
Tradição, Família e Propriedade (TFP) do Brasil. O movimento TFP foi
fundado nos anos 60 por Plinio Corrêa de Oliveira, um católico devoto e
anticomunista. Se estivesse vivo hoje (ele morreu nos anos 90), ele
estaria orgulhoso de seu trabalho.
A
TFP se transformou em uma rede global de organizações que promovem
valores católicos ultrarradicais, como a condenação de relações de mesmo
sexo, divórcio, contracepção e o direito ao aborto. Nos últimos anos,
esta rede provou ser particularmente eficaz na Europa Central, inclusive
em alguns países pós-comunistas que até 1989 faziam parte da União
Soviética.
O IPCO é um clube de homens, de forma que as mulheres,
em regra, não são autorizadas a entrar no prédio e não podem ser membros
da organização. O Instituto foi criado em 2006, quando um grupo de
associados entrou em disputa em torno do legado de Plinio Corrêa de
Oliveira e do controle do nome da TFP.
O conflito que sacudiu a
divisão brasileira da TFP teve início após a morte do fundador do
movimento, em 1995. Seus membros mais velhos entraram em atrito com os
líderes jovens, ávidos por poder. Os fundadores originais, expulsos por
seus próprios alunos, formaram a Associação dos Fundadores da TFP e
agora se concentram desde então na construção de alguma influência no
mundo da política brasileira.
Os rivais dos fundadores, que chamam
a si mesmos de "Arautos do Evangelho", se concentram em atividades
religiosas. Eles foram reconhecidos como uma ordem secular e venceram a
disputa legal, em duas instâncias jurídicas, pelo direito de chamarem a
si mesmos de TFP na América Latina, em uma tentativa de dar continuidade
ao legado de Oliveira. Um recurso dos fundadores da TFP aguarda
julgamento no STF há anos.
Com
isso, foi criado o IPCO, uma terceira organização resultante da
divisão, após a derrota dos antigos fundadores na Justiça. Caio Xavier
da Silveira é o verdadeiro tomador de decisões, uma figura chave desta
história, cujo nome continuará reaparecendo em nossa reportagem.
Apesar
dos anos de apogeu do Instituto terem acabado, ele ainda é influente no
Brasil. Entre os diretores do IPCO encontramos Dom Bertrand Orleans e
Bragança, que tem acesso informal às autoridades e assessores do
presidente do Brasil, Jair Bolsonaro
(inclusive seu filho, Eduardo). No encontro do G20, Bolsonaro citou as
publicações de Dom Bertrand que contestam a mudança climática (enquanto a
floresta amazônica estava queimando, Dom Bertrand argumentou que "não se trata de uma crise climática, mas sim de uma ofensiva contra a soberania").
"Ajude-nos
a libertar o Brasil do aborto, da agenda homossexual e do comunismo!", é
a mensagem usada pela organização em seus esforços de arrecadação de
fundos, quando contata doadores potenciais em busca de apoio. Apesar dos
relatórios financeiros do IPCO não serem publicamente divulgados,
descobrimos que, entre 2004 e 2019, o instituto operou em grande parte
devido a recursos provenientes do exterior. A verba vinha,
especialmente, de um endereço em Cracóvia, a cidade histórica e antiga
capital da Polônia.
Movido pela boa vontade e pelo euro
Em
maio de 2019, Slawomir Olejniczak escreveu um e-mail aos membros da
TFP. O polonês é cofundador da divisão polonesa da TFP, o Instituto
Fundação Piotr Skarga, com sede no distrito histórico de Kazimierz, em
Cracóvia.
"Caros cavalheiros, Salve Maria!", ele iniciou sua carta
aos ativistas católicos ao redor do mundo. Nós obtivemos algumas das
comunicações eletrônicas que circularam na rede da TFP. Como resultado,
sabemos que papel a divisão polonesa exerceu no financiamento das
organizações católicas no exterior.
"Por
anos, guiados pela boa vontade e confiança de todos os membros do
Conselho da Fundação, a pedido deles apoiamos financeiramente as
organizações da TFP no Brasil e em muitos outros países. Ao todo, nosso
apoio financeiro chegou a milhões de euros ao longo dos últimos anos.
Graças ao nosso apoio fundamental, organizações da TFP foram criadas ou
desenvolvidas em países como Austrália, Estônia, Eslováquia, Lituânia,
Holanda e Equador. Na Polônia, estabelecemos a organização legal
Instituto Ordo Iuris e o Centro pela Vida e Família pró-vida. Além
disso, cofinanciamos a renovação das atividades da TFP no Canadá e na
África do Sul."
O Instituto Ordo Iuris e o Centro pela Vida e
Família exerceram papel ativo no esforço para introduzir uma proibição
quase completa do aborto na Polônia.
Por que Olejniczak enviou o
e-mail a eles? A mensagem fez parte da disputa pela liderança da
organização. Ele tinha sido afastado do conselho diretor da fundação
polonesa pelo conselho supervisor presidido por Caio Xavier da Silveira,
um brasileiro que fundou e continua sendo uma figura chave do movimento
TFP na Europa.
Olejniczak também é uma figura importante. O
ex-diretor da Fundação Skarga passou anos supervisionando o
desenvolvimento do movimento na Polônia e na Europa Central. Caio Xavier
da Silveira, com quem ele permanece em atrito, é ainda mais importante,
já que é o fundador e supervisor da maioria das organizações TFP na
Europa (incluindo a sediada em Cracóvia) e diretor da Fédération Pro
Europa Christiana na França.
O atrito entre eles começou em
consequência de uma disputa em torno de dinheiro e controle de ativos
substanciais administrados pela Fundação Skarga que, chamando pouca
atenção, se transformou em uma fonte de financiamento de toda a rede de
entidades ligadas à TFP.
A certa altura,
Olejniczak queixou-se a membros da rede que o escritório polonês teve
que arcar com os custos de apoio à organização no Brasil e na França
desde 2004. "Nosso maior fardo tem sido participar dos custos fixos de
manter as organizações no Brasil e França de 2004 até hoje. Eles
representavam valores anuais de cerca de 500 mil euros", ele se queixou.
Olejniczak também sugeriu que já que os poloneses ajudaram a sede da TFP
em São Paulo a sobreviver por tantos anos, outras também deveriam
participar no custo de manutenção da rede. Ele recusou o pedido de
entrevista feito pela Reporter's Foundation.
Em vez disso, ele optou por responder nosso e-mail. "A conversa por e-mail
era privada", ele escreveu. "Era destinada aos ativistas de
organizações católicas que são próximas de nós e que cooperam conosco em
outros países. Ela visava apresentar nossa posição na disputa com Caio
Xavier da Silveira."
As transferências internacionais de dinheiro
sobre as quais Olejniczak falava em seu e-mail também podem ser
confirmadas por documentos que obtivemos. Entre eles estão documentos
judiciais e relatórios apresentados pela fundação baseada em Cracóvia,
assim como documentos financeiros da TFP na França, Estados Unidos e
outros países centro-europeus.
A informação está espalhada entre
os países e permanece fragmentada, com algumas partes do quebra-cabeça
financeiro ainda faltando, mas mesmo assim conseguimos montar parte de
um quadro maior.
Os
documentos financeiros da fundação baseada em Cracóvia revelam, por
exemplo, que, em 2017, ela transferiu 295 mil euros ao Instituto Plínio
Corrêa de Oliveira do Brasil. Em 2019, apenas em fevereiro e março, ela
transferiu 67.500 euros ao IPCO. O dinheiro de Cracóvia também apoiou
duas outras organizações brasileiras que podem ser associadas ao
movimento TFP, a Associação dos Fundadores da TFP e a Associação dos
Devotos de Fátima.
Nossas estimativas indicam que entre 2009 e
2019 (os dados aos quais tivemos acesso), a fundação com sede em
Cracóvia transferiu mais de 9,3 milhões de euros ao exterior. Além
disso, o e-mail de Olejniczak confirmou que ela já tinha enviado
dinheiro ao Brasil e à França antes (desde 2004). Consequentemente, o
valor total transferido de Cracóvia é muito maior.
A fundação com
sede em Cracóvia criou uma máquina eficiente para obtenção de fundos em
troca de rosários, imagens de Nossa Senhora de Fátima, livros e
calendários que atendem aos anseios dos ultracatólicos. Esse "modelo de
negócios" adotado pela rede da TFP, reproduzido em outros países ao
redor do mundo, revelou ser particularmente bem-sucedido na Polônia
católica. No que foi usado o dinheiro transferido para o exterior?
Um lustre luxuoso no alto
O
majestoso Château de Jaglu fica situado a uma hora e meia de viagem de
Paris. Situado no meio da floresta ao lado do tranquilo vilarejo de
Saint-Sauveur Marville, ele é de propriedade da divisão francesa da TFP
desde 1991. Caio Xavier da Silveira estava à procura de uma residência
condizente com os conceitos medievais do movimento. O Château de Jaglu
revelou ser o local perfeito para encarnar essas ideias.
Caio
da Silveira, o homem de rosto severo que reside no Château de Jaglu,
supervisiona as atividades das organizações que ele controla por toda a
Europa. Ele evita publicidade e jornalistas. Quando tentamos marcar um
encontro com ele para conversar sobre as finanças da TFP, ele se recusou
a conversar conosco. Mas quando não estava ciente de que conversava com
jornalistas (nosso repórter conseguiu entrar no castelo sob o pretexto
de estar à procura de um local para realização de um casamento), ele
rapidamente se abriu. Ele destacou orgulhosamente ser o presidente de
uma organização presente em 25 países da Europa.
Lustres
extravagantes, vasos de porcelana, poltronas Chesterfield, numerosas
bibliotecas e uma capela. Um enorme retrato do guru e fundador do
movimento TFP, Plínio de Oliveira, está pendurado no meio. Um dos
moradores do Château de Jaglu nos conduziu em uma visita. Fora ele e
Silveira, 83 anos, o castelo é lar de uma dúzia de outros associados.
"Foi
na França que a TFP primeiro se estabeleceu na Europa", disse Neil
Datta, secretário do Fórum para Direitos Sexuais e Reprodutivos do
Parlamento Europeu em uma reportagem chamada "Os Cruzados Modernos na
Europa".
"Este país (a França) serviu como base para a TFP se
espalhar para outros países europeus e criar satélites na Alemanha,
Áustria e Polônia no início dos anos 90", ele acrescentou.
Mas os
primeiros anos provaram ser difíceis. Quando a divisão francesa da TFP
foi criada no final dos anos 1970, ela criou uma associação que abriu um
internato para meninos. Dois anos depois, a escola fechou após pais
acusarem seus funcionários de doutrinação.
"A direção da escola,
em sua maioria brasileira, conduzia um tipo de ação psicológica sobre os
jovens alunos para que se tornassem apoiadores militantes de uma
organização estrangeira", informou a decisão do tribunal de 1982, que
resolveu a disputa civil entre a TFP e o proprietário dos prédios da
escola. Após os pais protestarem, a TFP perdeu seu contrato de locação.
Ao
longo das décadas seguintes, mais organizações satélites brotaram da
TFP francesa. Uma lutava contra a "depravação moral na mídia", outra
contra "o direito ao aborto", uma terceira organizava eventos jovens.
Todas as três foram criadas por Caio Xavier da Silveira.
Processo e busca policial
Em
1979, Caio Xavier da Silveira deixou o Brasil e se estabeleceu na
França, dando início à missão de construir uma divisão europeia da TFP.
Ele optou por arrecadação de fundos para fins religiosos e essa decisão
revelou ser extremamente eficaz.
A divisão francesa da TFP decidiu
organizar campanhas de grande escala pelo correio para arrecadação de
doações de membros da Igreja Católica.
Nos anos 1990, Avenir de la
Culture, uma das três subsidiárias da TFP, prosseguiu na luta contra os
direitos LGBT e abarrotou de cartas as caixas postais de políticos. Em
1997, esforços semelhantes resultaram na retirada de apoio de
patrocinadores da Parada do Orgulho Gay.
Os anos 1990 foram os
anos dourados da TFP na França. Como resultado, dezenas de milhares de
pedidos de doação entregues aos moradores do país soaram alarmes entre
as instituições do Estado laico francês. Em 1995, uma comissão
parlamentar de inquérito incluiu a TFP em um registro de movimentos que
se comportam como seitas. Em 1999 e 2006, investigadores da comissão
sobre seitas tentaram repetidamente determinar a atual escala e
propósito dos empreendimentos de arrecadação de fundos da organização,
porém com pouco sucesso.
Em resposta a novas reportagens, a TFP
impetrou um pedido junto ao primeiro-ministro francês para que
encerrasse a comissão sobre cultos. Ela também impetrou processo por
difamação após circularem reportagens sugerindo uma natureza ilegal de
suas atividades. Anos depois, em 2016, ela venceu o processo, pois a
Justiça francesa decidiu que a agência do governo deveria ter exercido
maior moderação em suas declarações.
Campanhas da TFP enfrentaram
oposição de vários destinos religiosos na França. Eles incluem a famosa
Capela de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa, em Paris, quando a medalha
foi enviada pela TFP para milhares de moradores do país, juntamente com
uma carta pedindo doações. Os padres encarregados pela capela disseram
que algumas pessoas acreditaram que suas doações eram destinadas a
apoiar seu santuário.
Em 2005, a polícia entrou no Château de
Jaglu e revistou a propriedade. A ação ocorreu após suspeitas de que a
TFP tinha obtido ilegalmente informações e dados pessoais sobre as
posições religiosas dos cidadãos. Mas a investigação foi posteriormente
arquivada.
O desenho da medalha, assim como outras imagens
religiosas, não é de propriedade de ninguém e qualquer um pode usá-la.
Caio da Silveira, cujo apartamento no Château de Jaglu também foi
revistado pela polícia, venceu um processo contra o Estado francês, por
violação de seu direito de privacidade e de seus direitos profissionais
de advogado, impetrado na Corte Europeia de Direitos Humanos, em
Estrasburgo.
Enquanto isso, os sites da Basílica do Sagrado
Coração de Paray-le-Monial e da famosa Basílica do Sacré-Coeur, em
Paris, contém um aviso. Ele declara que as respectivas igrejas não devem
ser associadas aos esforços de arrecadação de fundos de organizações
como a TFP. Ele também alerta a comunidade católica que quaisquer
medalhas milagrosas, calendários e outros itens devocionais usados nas
campanhas não estão ligados às suas atividades.
Se pagar pelas medalhas, você alimenta a rede
Enquanto
as autoridades francesas tentavam reprimir a TFP, o movimento expandiu
suas atividades internacionais e fontes de arrecadação, tornando-se
independente de doadores locais. No início dos anos 2000, ela era ativa
não apenas na França, mas também na Alemanha, Áustria, Itália, Polônia e
Portugal. Ela não deixou de usar sua marca, mas também se escondeu
atrás de uma fachada de campanhas religiosas, associações cristãs ou
grupos antiaborto.
Em 2002, Caio Xavier da Silveira estabeleceu
outra organização na França chamada Fédération Pro Europa Christiana
(FPEC). A entidade consiste de organizações de outros países. Na Europa,
Da Silveira ou seus associados na época controlavam uma rede de
organizações, a maioria das quais promove campanhas de arrecadação de
fundos em grande escala.
Segundo Victor Gama, um historiador da
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, a TFP estabeleceu uma
rede internacional de associações. Algumas, porém, não revelam seus
laços com o movimento.
"Pessoas em muitos países encontram imagens
de santos em suas caixas postais e uma carta pedindo a realização de
doação para fins religiosos. Elas acham que estão apoiando instituições
católicas locais, mas caso decidam doar, o dinheiro delas alimenta a TFP
global. O dinheiro é então canalizado para pessoas associadas ao
movimento e às suas divisões. A TFP então recruta novos membros, pessoas
jovens", revela Gama.
Segundo Neil Datta, a TFP criou um tipo de
franquia internacional para campanhas antiaborto que visam a sexualidade
e reprodução.
Uma rede de organizações ligadas à TFP na Europa
coletou doações de forma tão eficiente quanto uma corporação religiosa.
Ela lançou imensas campanhas postais, nas quais enviavam medalhas ou
rosários baratos, calendários (geralmente de aparência quase idêntica)
ou imagens de Nossa Senhora de Fátima para pessoas em seus bancos de
dados. Elas também pediam para que fizessem pequenas doações.
O
sucesso está no tamanho do banco de dados, que inclui doadores
potenciais. O modelo pioneiro de arrecadação de fundos foi inspirado por
políticos republicanos americanos e ativistas associados ao American
Leadership Institute, onde membros da TFP foram treinados e também
compartilharam sua experiência realizando palestras. O assunto será tema
da segunda parte de nossa reportagem.
Milhões gerados pelo coração de Jesus
O
Château de Jaglu, onde vive atualmente Da Silveira, não é o único
imóvel de propriedade da organização. A sede oficial da Fédération Pro
Europa Christiana (FPEC) fica na Villa Notre-Dame de la Clairière, em
Creutzwald. O imóvel, situado no leste da França, inclui um parque de
3,5 hectares. Até meados de 2019, a organização também alugava um
escritório de representação em Bruxelas para realização de atividades de
lobby junto às instituições da União Europeia, para promoção de sua
agenda ultracatólica.
A manutenção desses imóveis, a organização
de comícios para atrair membros de organizações de todas as partes do
mundo para eventos em um ambiente medieval, o treinamento de jovens e a
luta contra os valores liberais realizada em várias dezenas de países,
tudo isso gera despesas consideráveis.
Fora a arrecadação de
doações em países individuais, as organizações que fazem parte da rede
enviam dinheiro umas às outras. Uma fonte importante de renda para o
movimento TFP inclui "doações de membros e sociedades associadas". Como
resultado, o dinheiro que circula ao redor do mundo (grande parte
provavelmente não tributado) é canalizado para entidades ultracatólicas.
Os
informes financeiros da Fédération Pro Europa Christiana mostram que,
desde 2012, a receita da organização triplicou. As contribuições de
doadores individuais continuam crescendo: elas somaram 604 mil euros em
2012, enquanto em 2019 chegaram quase a 2 milhões de euros. No ano
passado, a FPEC arrecadou um total de mais de 2,3 milhões de euros, 345
mil euros (cerca de 15%) provenientes de "taxas de adesão e fundos de
associações relacionadas".
As fontes incluem a Fundação Skarga,
com sede em Cracóvia, da qual Caio Xavier da Silveira é membro do
conselho supervisor. Os documentos que obtivemos junto a registros
poloneses revelam que a Fundação Skarga transferiu centenas de milhares
de euros por ano à FPEC, uma organização com sede em Creutzwald, na
França.
Em 2017, as transferências totalizaram 220 mil euros,
enquanto entre janeiro e maio de 2019 elas chegaram a 74 mil euros. Uma
parte das transferências foi rotulada como taxa de adesão e parte como
"doações contratuais". As sete fatias seguintes, cada uma no valor
mensal de 15 mil euros, seriam transferidas pela divisão de Cracóvia
para a FPEC até o final de 2019 (totalizando 105 mil euros).
Disputa interna pôs fim às transferências
Mas
não ocorreram. Quando estourou um conflito em uma organização polonesa
em maio de 2019, um dia antes de Olejniczak ser demitido do conselho
diretor, as transferências para as organizações estrangeiras controladas
por Da Silveira foram suspensas.
Fora as organizações da França e
Brasil, o dinheiro de Cracóvia há muito era usado para apoiar cerca de
uma dúzia de organizações por todo o mundo, a lista que agora estamos
revelando. A maioria delas é controlada por Da Silveira. Os documentos
aos quais tivemos acesso revelam que entre 2009 e 2019, as
transferências de dinheiro às organizações supervisionadas por Da
Silveira totalizaram mais de 6,8 milhões de euros.
A
quantia anual desse tributo aumentou de 358 mil euros em 2009 para
cerca de 1 milhão de euros por ano em 2015, 2016 e 2017. Na época, as
transferências, rotuladas como "doações para as organizações controladas
por Da Silveira", representavam quase metade de todas as doações feitas
pela Fundação Skarga para entidades associadas.
No início de
2020, Caio Xavier da Silveira abriu sua própria empresa de consultoria.
Por que precisava dela? Teria algo a ver com a disputa interna de poder
na TFP? Nem ele e nem o porta-voz da FPEC, Jean Goyard, chefe da TFP
francesa, aceitaram falar. Goyard desligou o telefone assim que
perguntamos sobre as finanças da organização.
Perguntamos aos
representantes da Fundação Skarga sobre as transferências para
organizações estrangeiras, incluindo a Fédération Pro Europa Christiana
da França e o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira do Brasil. Essas
contribuições foram canalizadas para o movimento TFP internacional? "As
doações feitas a essas organizações não diferem das feitas a outras
entidades apoiadas ou criadas pela fundação na Polônia e em outros
países", respondeu de forma vaga Piotr Kucharski, porta-voz da Fundação
Skarga.
Os doadores poloneses estavam cientes de que o dinheiro
foi transferido para organizações estrangeiras associadas ao movimento
TFP? "Nós informamos sobre o envolvimento da fundação em vários projetos
internacionais por meio de nosso site e publicações", respondeu
Kucharski em um e-mail.
Ele também disse que os projetos incluíam o
patrocínio da anual Academia de Verão para (jovens) Católicos e "outros
tipos de treinamento para membros de organizações sociais e religiosas
da Polônia e outros países".
Uma nova abertura
Em
agosto de 2020, os membros da TFP da França, Itália, Holanda, Polônia e
Belarus chegaram à França para a Escola de Verão Europeia da TFP,
organizada na propriedade em Creutzwald. Este é o encontro mais recente,
com Escolas de Verão anteriores tendo sido realizadas nos três anos
anteriores no sul da Polônia, no Castelo de Niepolomice.
Caio da
Silveira foi o foco durante um evento realizado na mansão. Ele usava a
capa vermelha tradicional estampada com um leão dourado, o emblema do
movimento TFP. Durante um momento para fotos, Ferdinand Aldunate, membro
da nova administração da Fundação Skarga, que está processando o grupo
de Olejniczak para recuperar o controle financeiro de milhões de euros e
propriedades da organização em Cracóvia, posava orgulhosamente na
primeira fila.
A velha administração transferiu os ativos mais
valiosos para a Associação Piotr Skarga de Cultura Cristã, uma
organização irmã, que ela ainda controla. Hoje, ela se tornou uma fonte
de financiamento para organizações que permanecem na esfera de
influência do grupo de Olejniczak. Durante a foto de "família", Da
Silveira sorriu com uma visível reserva, uma indicação de que pode não
ser capaz de defender sua posição dominante na TFP.
Seus antigos
alunos de Cracóvia superaram o mestre do Château de Jaglu. Foram eles
que construíram, financiaram e posteriormente assumiram a nova rede de
organizações ultracatólicas, que agora exercem crescente influência
sobre o pensamento das sociedades da Europa Central.
"Falando de
forma geral, a velha TFP na França, Alemanha e Itália era mais uma forma
de ganhar dinheiro do que uma ideologia. Ela fornecia estabilidade e
conforto para seus principais membros. A nova geração que vem da Polônia
é muito mais profissional", explicou Neil Datta durante uma entrevista.
Recentemente,
o grupo celebrou a decisão tomada pelo Tribunal Constitucional da
Polônia. No final de outubro, ele reduziu drasticamente o caminho para o
aborto legal. Agora, a rede centro-europeia está se preparando para
defender os valores cristãos no futuro referendo constitucional na
Estônia.
Fonte do Texto: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2020/12/28/os-milhoes-enviados-da-polonia-para-radicais-da-tfp-no-brasil-e-pelo-mundo.htm
Fonte da Imagem: https://br.pinterest.com/pin/571183165347793514/
E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. (João 8:32)
Prestem muita atenção!
· Em 1940 os Católicos eram 95% no Brasil e os Evangélicos 2,7% (IBGE). · Em 2010 os Católicos eram 64,6% e os Evangélicos 22,2% (IBGE). · Em 2020 os Católicos eram 49,9% e os Evangélicos 31,8% (projeção matemática).
Estima-se que em 2030 Católicos e Evangélicos terão o mesmo tamanho percentualmente (39,8%), restando 20,4% para todas as demais religiões e não religiosos.
Para as pessoas que se interessam por política e/ou têm preocupação com o futuro do País, esse crescimento vertiginoso da influência evangélica deve ser motivo de atenção, muita atenção.
De fato, nos últimos anos os evangélicos passaram a ter crescente influência em vários setores da sociedade brasileira, como é de conhecimento geral.
Pretos e pobres convertidos ascendem socialmente de forma espetacular, e hoje estão presentes no próprio Estado.
Juliano Spyer, antropólogo e historiador, fez um esforço bem sucedido e escreveu o livro “Povo de Deus” (*). Esse livro resume, em linguagem acessível, os principais trabalhos publicados por grande quantidade de estudiosos/as sobre esse importante tema.
O livro tem apresentação de Caetano Veloso e prefácio do antropólogo Gabriel Feltran.
Algumas pessoas talvez “torçam o nariz” para uma referência crítica ao Petista Haddad na apresentação de Caetano ou para comentários de Tábata Amaral e Marina Silva na contracapa.
O livro, porém, é de leitura obrigatória para quem quer entender a realidade da sociedade brasileira nesses tempos de pandemia.
Não se deixe cegar pelo preconceito!
Omar Rösler Janeiro de 2021
(*) Agradeço ao amigo Junico Antunes pela indicação de mais este livro.
La
educación religiosa en las escuelas australianas deberían pasar a examen: la
mayoría de los padres no desean que a los niños se les enseñe Creacionismo o
que a sus hijas les digan que sus pezones son una “tentación para los hombres”.
‘El
director de una escuela primaria victoriana calificó, la semana pasada, las
lecciones de su escuela como “basura”, “huecas y de retórica vacía” y con
“absolutamente ningún valor”. Canceló las clases de Formación Religiosa
Específica y explicó que:
Aprobaba y aceptaba ciegamente
esas actividades en mi escuela hasta que empecé a fijarme en el material y a
fijarme todavía más en las mismas lecciones que los voluntarios estaban
impartiendo. Concluí que tanto el material como los maestros asociados y los
métodos de enseñanza simplemente no alcanzaban los estándares de calidad de la
práctica educativa que esta escuela precisa.
Una
maestra que se encontró con que en la clase de Formación Religiosa Específica de
su hijo se enseñaba que los “dinosaurios nunca existieron” (simplemente Dios
plantó los registros fósiles), calificó las clases de “mal gusto”, “ofensivas”
e “inaceptables”.
Una
directora de escuela primaria exigió una disculpa y ahora está organizando una
investigación departamental después de que los voluntarios para la formación
religiosa dieran a los niños de sexto año un sermón aconsejando a las chicas
cómo evitar que sus pezones fueran “una distracción y tentación para los
hombres”, que explicaba que las esposas deben “someterse” a los maridos y que
instruía a los niños para no caer en la homosexualidad. Ella calificó el
material de “completamente inapropiado”, “en contra de los valores
fundamentales de la escuela” y añadió que “escupe sobre todo lo que hacemos”.
Pero esto no es nuevo. “La
imagen de la educación en religión…es, en el mejor de los casos, una hora
libre; y en el peor, un caos indescriptible”, se quejaba un pastor anglicano de
la Iglesia de Newcastle Synod, según se publicó en el Newcastle Herald en 1969. Las principales iglesias ya se habían
retirado a la hora de ofrecer formación religiosa en el sur de Australia, algo
que ya había comenzado con los metodistas en 1968. Durante los setenta, los
gobiernos de Tasmania, de Victoria, del sur y oeste de Australia llevaron a cabo
una investigación sobre la Formación Religiosa. En 1980, Nueva Gales del Sur
hizo lo mismo.
Todos registraron frustraciones
familiares: la Formación Religiosa segregaba a los niños bajo el criterio de la
religión, cuando la esencia de las escuelas públicas es la inclusión; dando
lugar a múltiples dolores de cabeza para su organización en tanto que aumentaba
el número de familias (y de iglesias) que
no hacían nada al respecto. Se recurrió a voluntarios, cuyas mejores aptitudes
eran la fe y el entusiasmo, en lugar de la capacidad para enseñar o el
conocimiento sobre la materia. Era injusto, ya que las religiones minoritarias
tenían problemas a la hora de encontrar voluntarios, lo que dejaba a los niños
mal atendidos; mientras que las visitas breves, semanales, hacían imposible
construir ninguna relación significativa entre la clase y el monitor.
Las demandas estatales abogaron
por sustituir o complementar la Formación Religiosa con una “Educación General
Religiosa”, en la que maestros profesionales –mejor que voluntarios- enseñaran
sobre las diferentes religiones –no solo una- así como creencias no-religiosas,
como parte del itinerario docente, durante las horas lectivas –no en grupos
segregados por religión-.
En los 34 años tras la última
investigación estatal, la Educación General Religiosa se ha estandarizado en
Inglaterra, Irlanda, en la mayoría de la zona oeste de Europa y en Quebec, pero
en Australia se implementó muy poco o nada, aunque en algunos estados se
imparte entre los 11 y los 12 años. Empeorando todavía más la situación, en la
medida en que las principales iglesias dejaron por imposible la la Formación
Religiosa, los predicadores apocalípticos y los contrarios a las teorías de la
evolución a menudo rellenaron el hueco.
Tras conducir seguimientos y
entrevistas en 23 escuelas públicas de Nueva Gales del Sur y en Queensland
entre 2009 y 2012, la investigadora en educación Cathy Byrne se encontró con
que los voluntarios para la Formación Religiosa Específica “preferían de manera
significativa enfoques conservadores” a sus materias más que los mismos padres,
directores o maestros profesionales.
Por ejemplo, cuando se preguntó
sobre si se conseraba que la Biblia debía enseñarse como “un hecho” y de ahí “ser
aceptada sin cuestionamiento”, los padres y los profesionales de la educación
se inclinaron a favor del
cuestionamiento; mientras los voluntarios de la Formación Religiosa se
inclinaron hacia la “infalibilidad de la Biblia”, por el punto de vista de que
todo el texto de la Biblia está libre de error de ningún tipo. En casi un
cuarto de las escuelas, Byrne se encontró con enseñanzas del tipo en que los
alumnos o sus familias o amigos “arderían en el infierno” si no creían la
versión de los voluntarios.
Los defensores del sistema
actual a menudo sostienen que tales cosas son aberraciones. Evonne Paddison, consejero
delegado de Acces Ministries, cuyos voluntarios distribuyeron el sermón del
aviso sobre los pezones, dijeron que su organización se sentía absolutamente
decepcionada por el incidente y que continuaría investigando qué fue lo que
sucedió.
Sin
embargo, el sistema actual hace imposible eliminar tales farsas por adelantado.
En su lugar, los padres desconcertados son abandonados sin saber adónde ir. Las
quejas a las escuelas tienden a ser desviadas a las organizaciones proveedoras.
A menudo han declarado abrigar intenciones tales como usar las escuelas
públicas como un “campo misionero” en los que “hacer discípulos” (Paddison) o
“bombardear las escuelas estatales de Nueva Gales del Sur con el evangelio” de
manera que “muchas vidas jóvenes se verán transformadas a través del Señor
Jesucristo” (GenR8 Ministries).
En
respuesta a la sugerencia de que “la Formación Religiosa no tiene valor en un
sistema educativo seglar”, Paddison escribió en 2011: “considero que todas las
fes juegan un valioso papel en dar forma a nuestra comprensión de quiénes somos
como individuos y como miembros del pueblo global.” Los padres, los directores
y los maestros están de acuerdo. También los comités de investigación de hace
trenta años o más. Sin embargo, resulta duro pensar en una manera menos
efectiva de fomentar tal “comprensión” que la de segregar a los alumnos por el
criterio de la religión, enseñándoles que el resto de los demás grupos están
equivocados. Las investigaciones del Estado propusieron itinerarios docentes
para ayudar a los niños a aprender sobre las diversas religiones y las
tradiciones no religiosas, en clases impartidas por maestros profesionales,
vinculados a los temas del resto del itinerario docente y con todos los alumnos
aprendiendo juntos.
El informe de Steinle del sur
de Australia, publicado en 1973, propuso la cota de que los estudiantes que
hubieran completado su itinerario docente a los 12 años habrían conseguido “una
mejor comprensión de sí mismos y de sus creencias”, que entenderían “la
presencia y la influencia de la religión en la vida y en la sociedad” y de que
ganarían “un mayor respeto y tolerancia hacia los otros y sus creencias”.
Cuarenta años después, todavía
suena revolucionario.
Marion Maddox escribe regularmente en The Guardian
sinpermiso electrónico se ofrece semanalmente de forma gratuita. No
recibe ningún tipo de subvención pública ni privada, y su existencia sólo es
posible gracias al trabajo voluntario de sus colaboradores y a las donaciones
altruistas de sus lectores. Fonte da Imagem: http://archangels-bloggy.blogspot.com.br/2011_03_01_archive.html