O que é o efeito Dunning-Kruger? Fenômeno descrito e estudado em 1999 pelos psicólogos Justin Kruger e David Dunning da Cornell University, se refere a indivíduos que não têm competência em uma determinada área, mas acreditam verdadeiramente que sabem mais do que os mais preparados e versados no tema. Os especialistas investigaram o que levava essas pessoas a tomarem decisões ruins e alcançar resultados indevidos pela insistência em um conhecimento que não possuem. Dunning e Kruger concluíram que esses indivíduos sofrem com uma superioridade ilusória e que sua incompetência os impede de entender seus próprios erros. São pessoas que superestimam as suas habilidades no campo intelectual e/ou social. As duas principais dificuldades nesse caso são ter que administrar os resultados negativos obtidos de seus erros e a incapacidade cognitiva de perceber que não sabem o que acreditam saber.
Tópicos importantes do efeito
Dunning-Kruger
Os estudos de Dunning e Kruger permitiram tirar algumas conclusões bem
interessantes a respeito de pessoas incompetentes, listei abaixo um
pequeno resumo que permitirá entender melhor a questão.
– Os incompetentes não conseguem reconhecer a sua incompetência, podendo
passar a acreditar que são injustiçados por não conseguirem os
resultados esperados. Mesmo que estejam passando por problemas
decorrentes de erros cometidos por não terem conhecimento, esses
indivíduos pensam que sabem mais do que a maioria e que estão acima dos
demais.
– Outro ponto curioso é que os incompetentes não são capazes de
reconhecer a competência em outros indivíduos, pois tendem a acreditar
que são os mais sabidos no grupo em que se encontram. Se alguém disser o
contrário, é bem provável que eles identifiquem como inveja ou como o
desejo de lhes roubar o seu status diferenciado.
– A incompetência rouba dos indivíduos a
capacidade cognitiva de entender que não têm conhecimento numa área
específica. Dunning comparou essa incapacidade a anosogosia, que é uma
condição em que uma pessoa que possui alguma deficiência simplesmente a
ignora, independente do grau de severidade. O incompetente não tem
exatamente o que precisa para saber que nada sabe.
– Os indivíduos que sofrem com o efeito Dunning-Kruger podem reconhecer e
aceitar que eram incompetentes se passarem por um processo de
qualificação e adquirirem conhecimentos. A melhor solução é sempre o
aprendizado e, quando se percebe que boa parte da população está
caminhando para um efeito Dunning-Kruger coletivo, é um sinal de alerta
para pensar em políticas de educação para essas pessoas.
Ideias preconcebidas e crenças arraigadas
Indivíduos que estão sob o efeito Dunning-Kruger não têm o conhecimento
necessário para reconhecer a sua ignorância, mas, ao contrário do que se
possa imaginar, não são espaços vazios. Esses indivíduos estão repletos
de certezas e crenças preconcebidas que impedem que enxerguem seus
erros.
Por Adriano Oliveira, para Canal Meio (https://www.canalmeio.com.br/)
De cabeça abaixada, os olhos brilham em frente a uma tela acariciada
por dedos que repetem o mesmo movimento de arrastar, de cima para baixo,
de lado a lado, em movimentos pinça para o zoom, a cada poucos
segundos. O almoço chega. Nem é preciso olhar para o prato. A não ser
para fazer uma foto. A rotina segue, agora, apenas com uma das mãos,
enquanto a outra desempenha a mecânica tarefa de segurar o talher para a
displicente alimentação. E assim passam-se minutos de um mergulho em
interações virtuais — e virtualmente zero das reais. Essa cena pode
descrever o almoço de muitos de nós em um dia qualquer. Mas também narra
o cotidiano de crianças e adolescentes.
A geração Alpha, os nascidos a partir de 2010, é a primeira 100%
digital. Embora a geração anterior, a Z, já tenha passado parte da
infância acessando a internet e ostentando seus primeiros smartphones,
os Alphas nasceram em um mundo transformado e dominado pelas inovações
tecnológicas, que mudaram radicalmente as relações sociais. A sociedade
digital não mais depende de mídias físicas para entretenimento ou
informação: consome conteúdo escolhendo o que ver, quando e como quiser.
Essa nova geração simplesmente desconhece o analógico.
O ser humano é um animal relacional. A forma como nos desenvolvemos é
na conexão com os outros. Aprendemos a falar ao ouvir nossos pais,
avós, tios e tias, pessoas do nosso ciclo. Definimos nossas identidades
na troca. Nos exemplos. Conforme reduzimos os componentes familiares e o
trabalho ultrapassa os limites antes mais claros entre vida pessoal e
profissional, a nova leva geracional se desenvolve mirando outros
espelhos. Pais e filhos dividem a atenção entre si com os dispositivos
eletrônicos. A criança Alpha se acostumou a disputar a atenção dos
adultos com as telas. E também a se entreter e perceber o mundo com essa
intermediação.
É um assombro observar a facilidade com que os Alpha operam tablets e
smartphones, transitando com desenvoltura por games, streamings,
diferentes aplicativos e vídeos do YouTube, TikTok e Instagram. A
sensação inicial de quem convive com essas criaturas digitais, mesmo os
mais novinhos, é de que essa é a geração mais inteligente que já
existiu. E há alguma dose de verdade nessa percepção. Ao menos, pode-se
antever como uma das características da geração Alpha
o fato de que ela vai ser a mais bem formada da história. “Eles são
considerados mais inteligentes porque têm uma capacidade de observar o
ambiente, de entender o que está acontecendo e transformar isso em
conhecimento [de maneira] mais habilidosa do que as gerações
anteriores”, explica Maysa Fagundes, mestre em Psicologia Clínica pela
PUC-SP com ênfase no estudo da geração Alpha. “Então, conseguem
transformar o aprendizado em conhecimento com um pouco mais de
facilidade.”
Parte dessa facilidade é inerente à própria visão de mundo desse
tempo. Um mundo absolutamente sem fronteiras, tanto pela globalização
quanto pela integração tecnológica. A vida em rede facilita a troca de
experiências entre pessoas em polos opostos do planeta. Os Alphas se
adaptaram a essa realidade das últimas duas décadas. É um universo tão
novo que até o conceito de tempo e espaço foi alterado. Os Alphas, mesmo
os não inteiramente alfabetizados, sabem trocar mensagens com parentes e
amigos da escola. E ampliam seu entorno para amizades fora do círculo
de convivência, em conversas virtuais esporádicas. Se para a geração X,
dos nascidos entre 1965 e 1980, o contato físico e os papos “olho no
olho” — ou ao menos por telefone — eram mais importantes, para os Alphas
os encontros podem ser espaçados. “O conceito de tempo para eles fica
diferente. Não precisa ser ao mesmo tempo. A gente pode ter uma conversa
com uma diferença de uma semana e se sentir super próximo”, explica
Fagundes.
Vale aqui abrir uma discussão. A teoria geracional criada pelas
ciências humanas busca entender o comportamento de uma sociedade nascida
em um mesmo período ou contexto histórico. Foi assim que os Baby
Boomers, nascidos entre as décadas de 1940 e 1960, começaram a ser
estudados. Foi o momento da explosão demográfica, quando os homens
voltavam para casa após o fim da Segunda Guerra Mundial. Mas definir
gerações, enquadrá-las, é, necessariamente, fazer um recorte. E, assim,
evidente, deixar nuances de lado. Não raro, pode-se cair na armadilha
dos estereótipos. Numa reportagem da The Atlantic
sobre o assunto, Dan Woodman, professor de sociologia da Universidade
de Melbourne que estuda rótulos geracionais, crava: "Provavelmente
ficaríamos irritados se fizéssemos com gênero ou raça o que ainda
conseguimos fazer com gerações”. Por outro lado, rotular uma geração
ajuda a descrevê-la e pode ajudar a compreendê-la. “Uma das coisas que
fazemos com rótulos geracionais é fazer afirmações sobre o quão
diferente essa turma é – eles são tão diferentes, quase estranhos em
suas atitudes, que você precisa pagar alguns especialistas para entrar e
explicá-los para você.” E paga-se muito bem, ele conta. Neil Howe, um
dos criadores do termo Millenials, há cerca de 30 anos, fez uma
lucrativa carreira em consultoria, palestrando e escrevendo sobre
gerações.
De qualquer forma, é com esses recortes que nos acostumamos a tentar
avaliar e prever comportamentos. O próprio Woodman reflete, sobre os
Alphas, que “eles ainda são crianças”. “Muitas coisas que atribuímos a
uma geração estão na maneira como ela começa a pensar sobre política, na
maneira como se envolve com a cultura e [se] é uma fonte de novos
movimentos sociais.” Mas compreende-se mais a fundo uma geração, de
forma mais substancial, quando eles entram na adolescência. Depois dos
Baby Boomers, sociólogos, antropólogos, cientistas sociais e outros
estudiosos das humanidades buscaram compreender como seus filhos se
diferenciavam de seus antecessores. Robert Capa, fundador da agência
Magnum, cunhou o termo geração X, por não encontrar uma definição
específica para os nascidos no pós-guerra. Mas a expressão se
popularizou após o lançamento da banda Generation X, criada pelo cantor
inglês Billy Idol e o lançamento do livro Geração X: contos para uma
cultura acelerada, de Douglas Coupland.
As gerações seguintes sempre foram definidas por letras, como a Y,
entre 1980 a 1995 (que também ficou conhecida como Millenial), e a Z, de
1995 a 2010. Esgotadas as letras do alfabeto romano, o sociólogo
australiano Mark McCrindle, que também tem uma agência de consultoria,
fez, em 2008, uma pesquisa — online, claro. Vários nomes associados à
tecnologia surgiram ali, como os “Onliners”, “Generation Surf” ou
“Technos”. Outros atribuíam à nova geração o peso de redimir os pecados
das anteriores, como “Regeneração”, “Geração Esperança”, os
“Salvadores”, “Geração Y-não”. McCrindle, porém, optou por adotar um
novo alfabeto. Para os bebês que nasceram a partir de 2010, chamou-os de
geração Alpha, a primeira letra grega.
Eu, robô
Voltemos a ela. Com uma exposição tão ostensiva às telas, o
comportamento dos Alphas também é moldado pelo conteúdo consumido nas
plataformas digitais. Os referenciais, dos ideais de beleza do corpo de
mulheres e homens até o de seus adereços, vêm com o filtro da
publicidade e dos influenciadores. “Estamos falando sobre todo um ideal
de existência física, que é manifestado de uma forma totalmente editada
nas redes”, explica Pedro Almeida, mestre em antropologia pela UFBA e
gestor de inovação. Ele ressalta que os conteúdos nesses espaços,
principalmente dos perfis profissionais, são editados para mostrar a
vida sempre por um ângulo positivo. Nas raras vezes em que o aspecto
negativo é abordado, as mensagens são pensadas de maneira a favorecer a
personagem no vídeo. É uma realidade fantasiosa.
Com isso, claro, vem uma crise na construção da autoimagem. A
referência para o jovem, que antes eram os pais e os professores, se
desloca para influenciadores digitais e artistas. Não que antes os
astros de Hollywood não assumissem esse lugar. Mas a convivência entre
fãs e ídolos estava restrita às páginas de jornais e revistas. Agora,
todos têm perfis nas principais redes sociais, compartilham seu
cotidiano, muitas vezes distorcido pelo glamour e a ostentação. São
objetos de desejo ao mesmo tempo acessíveis e inalcançáveis. O
pré-adolescente, sujeito a uma esperada crise de identidade que vem
quando ele não se reconhece mais como igual aos indivíduos de seu
círculo familiar, vai procurar sua “tribo” nesse ambiente. Um mundo
artificial onde os pratos são perfeitos, as pessoas são lindas,
saudáveis, e vivem em constantes viagens a locais deslumbrantes. Na
terra onde a grama do perfil alheio é sempre mais verde e florida. “É
uma crise da representatividade, da referência que antes estava
atribuída a uma paternidade, a um professorado e hoje isso está nas
autoridades digitais”, acrescenta Almeida.
Somam-se a elas os buscadores, como o Google. As dúvidas e os medos
dessa fase são levadas a uma ferramenta que não oferece necessariamente
as respostas, mas apenas interpretações de um algoritmo sobre o que
seria o resultado adequado para as pesquisas. Encontrar material
confiável online não é trivial, principalmente para os que acabaram de
desembarcar ali e ainda não entendem os perigos da desinformação e das
ciladas cibernéticas. A abundância de informação na rede tem evidentes
vantagens. Pode ser uma grande aliada da curiosidade das crianças. Mas a
quantidade não quer dizer que haja qualidade no consumo — tampouco
maturidade, intelectual ou emocional, para lidar com o conteúdo que
recebem. “Isso me preocupa, porque agora as crianças buscam essas
referências na internet e se validam por falas dessas autoridades
digitais. Mas para se construir como autoridade digital, principalmente
para uma criança, você não precisa ter muito conhecimento, bagagem.
Precisa apenas de um atrativo lúdico”, comenta o antropólogo.
Sempre alerta
Os efeitos dessa vida em tela vão além dos comportamentais. Sempre
envoltos em estímulos novas informações, os Alphas estão em permanente
estado de alerta. "Com isso, nós temos algumas questões de transtorno de
déficit de atenção e hiperatividade”, explica a psicóloga Maysa
Fagundes. “Mas também a atenção deles é o tempo todo desviada porque há
um letreiro, uma música, ou um vídeo, que é curto.” Pesquisadores da
Universidade do Sul da Califórnia monitoraram 2,6 mil adolescentes por
dois anos e descobriram
que jovens que fazem o uso excessivo de telas como celulares, tablets e
outras mídias têm duas vezes mais chances de apresentarem sintomas de
Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) que os demais.
Muito tempo com celular na mão, pouco tempo para descanso da mente.
As muitas horas de uso ao longo da noite têm reduzido a qualidade do
sono dos jovens, impactando diretamente no aprendizado e no rendimento
escolar. O professor de pediatria de Harvard,
Michael Rich, conduz estudos e atendimento clínico desse público em
Boston. Ele explica que o cérebro humano, em sua fase de crescimento,
está constantemente construindo conexões neurais. Ao mesmo tempo, vai
eliminado aquelas menos usadas, num processo de limpeza. Acontece que o
uso de mídias digitais desempenha um papel ativo nesse processo, ao
oferecer, nas telas, uma estimulação “empobrecida” em comparação com a
realidade. Ele defende que o mix entre experiências online e offline é
essencial. Mais ainda, o tédio. “O tédio é o espaço em que a
criatividade e a imaginação acontecem”, explica Rich.
Mas separar uma criança ou um adolescente de seu gadget não é
simples. Isso porque eles ativam uma área extremamente prazerosa e
gratificante. “Praticamente todos os jogos e mídias sociais funcionam no
que é chamado de sistema de recompensa variável, que é exatamente o que
você ganha quando vai ao Mohegan Sun [cassino nos Estados Unidos] e
puxa uma alavanca em uma máquina caça-níqueis. Equilibra a esperança de
que você vai se tornar grande com um pouco de frustração e, ao contrário
da máquina caça-níqueis, um senso de que basta melhorar suas
habilidades para chegar lá.”
O futuro
Como o sociólogo Dan Woodman, de Melbourne, explica, os Alphas ainda
são muito jovens para que se façam previsões de sua vida adulta. Mas dá
para se imaginar os desafios. Além de desenvolver algum nível de
controle sobre o uso dos dispositivos e redes sociais, a favor da
própria saúde física e mental, será necessário que os Alphas se
prepararem para as constantes transformações tecnológicas a que já estão
sujeitos. Segundo Pedro Almeida, “existe uma possibilidade muito grande
de termos uma crise no mercado de trabalho em nível global,
potencializada pela aceleração da automação”.
As escolas já começaram a buscar um novo modelo de ensino, mais
focado no desenvolvimento tecnológico e nas habilidades que cada
indivíduo apresenta. A reforma do Ensino Médio permite que os alunos
escolham a área do conhecimento em que queiram focar. Mas ainda há um
longo caminho a ser percorrido. Com a possibilidade de extinção de
profissões existentes e a criação de novas áreas de trabalho, muitos
desses jovens estão em formação para atividades que nem mesmo foram
criadas. “Essa criança, quando terminar o ensino médio, entrar num curso
superior, finalizar, entrar no mercado de trabalho... é uma escala de
tempo em que tudo pode ter mudado. Será que estamos dando uma educação
para essa criança viver o que ela vai necessitar daqui a pouco?”,
questiona Almeida. “Se não estamos preparando para o que já temos como
pontos essenciais da vida de hoje, imagine daqui a 15, 20 anos.”
Um ponto importante para a nova leva de profissionais é a diferença
de visão de carreira no mercado de trabalho. “Eles têm muita dificuldade
hoje no mercado porque a maneira como ele está formatado prevê que as
carreiras tenham uma continuidade. Você precisa de um tempo numa empresa
para crescer, se desenvolver. E eles entendem que o aprender e o se
desenvolver é experiência. Então, eu venho, fico nessa empresa seis
meses, já aprendi como é que faz, posso sair pra uma outra e aprender
outra forma de fazer”, explica Maysa Fagundes. Segundo a psicóloga, um
outro ponto de conflito é a falta de foco em uma única área de ação. “É
um grande desafio para eles conseguirem fazer uma escolha de carreira,
de profissão. Porque para eles, a vida não tem mais isso de você ser uma
coisa só a vida inteira. Você pode ser tudo ao mesmo tempo e parar e
começar de novo, toda hora.” É aquela alteração no conceito espaço e
tempo de que a geração Alpha é ao mesmo tempo vítima e protagonista. Mas
tudo indica que essa também é a geração mais preparada para inventar um
futuro — e um mercado — em que ela se encaixe perfeitamente.
Estratégia de comunicação da direita alternativa se alimenta do hiato geracional.
“Hiato geracional” – a perda da função de
elo geracional dos idosos, cujo ressentimento alimenta a
extrema-direita, deixando os jovens expostos às táticas de guerra
híbrida alt-right nas redes sociais.
Por Wilson Ferreira.
Dois eventos
sincrônicos: no Brasil, a motociata convocada por Bolsonaro com seis mil
motos de luxo de alta cilindrada montada, em sua maioria, por
“tiozões”, brancos, com jaquetas de couro preto emulando a gang famosa
dos Hell’s Angels, perfil dos atuais apoiadores do presidente que saem
às ruas; e na Inglaterra, o gênio da guitarra Eric Clapton, 76, mais uma
vez destilando o negacionismo ao afirmar que as vacinas contra a
Covid-19 “podem afetar a fertilidade”. O atual estado de coisas começou
com as Jornadas de Junho de 2013 com a energia de jovens secundaristas e
universitários. Para terminar com senhores calvos segurando bandeiras
neo-nazistas ucranianas em manifestações verde-amerelas de rua em apoio
ao “tiozão do churrasco”, personagem performado pelo atual presidente. A
estratégia de comunicação da direita alternativa (alt-right) é
favorecida por um fenômeno: o “hiato geracional” – a perda da função de
elo geracional dos idosos, cujo ressentimento alimenta a
extrema-direita, deixando os jovens expostos às táticas de guerra
híbrida alt-right nas redes sociais.
“Ficar velho não quer
dizer ficar melhor”. É o slogan que abre a série de “vídeocassetadas”
envolvendo idosos no canal Failarmy – líder mundial de compilações de
vídeos engraçados envolvendo pequenos acidentes domésticos, esportivos
etc.
Ironicamente esse
humilde blogueiro lembrou desse slogan quando assistiu a um vídeo em que
o famoso e veterano guitarrista Eric Clapton, mais uma vez,
posicionou-se contra as vacinas contra a Covid-19, afirmando que elas
tornariam as pessoas inférteis. Para ele, estudos científicos e as
opiniões de organizações médicas não passariam de “propaganda”.
O gênio da guitarra
passou toda a pandemia dando declarações contra o isolamento social e
questionando a própria existência de uma pandemia global. Mas em se
tratando de Clapton, não é uma novidade: em 2004 lamentou a presença de
imigrantes no Reino Unido e chamou o político anti-imigração Enoch
Powell de “escandalosamente corajoso”.
Como assim? Por que
Eric Clapton, aquele que deu um “shot” no xerife virou um velho ranzinza
e reaça de extrema-direita? Tá certo que a cabeça dele já não andava
boa nos anos 1970 com tantas drogas e álcool, até passar por uma
temporada de reabilitação em Antigua… Já em 1976, Clapton havia
protestado contra imigrantes num show em Birmigham. Mas ele diz não se
lembrar…
O curioso é que ver um
senhor tão talentoso de 76 anos como Eric Clapton dando declarações
públicas de extrema-direita faz esse humilde blogueiro lembrar de
congêneres brasileiros (guardadas as devidas proporções) como Lobão e
Roger do “Ultraje a Rigor”: a idade também não lhes fez nada bem. O
primeiro, um bolsonarista arrependido, e o segundo, ainda um bolsominion
empedernido.
Além de lembrar as
atuais manifestações de apoiadores de Bolsonaro, como também aquelas
multidões de camisetas da CBF nas ruas querendo o impeachment da
presidenta Dilma.
Nas últimas
“motociatas” convocadas por Bolsonaro, a maioria dos integrantes eram
homens brancos com mais de 50 anos com motos Harley Davidson, Kawasaki,
BMW com propulsores de alta cilindrada e jaquetas de couro emulando a
famosa gang Hell’s Angels. Esse é o “núcleo duro”, os bolsonaristas
renitentes, verdadeiros “tiozões do churrasco” (aquela figura folclórica
que fazia todos rirem com piadas misóginas e tiradas políticas
extemporâneas), cuja imagem de Bolsonaro é a desforra de todos os
tiozões que já foram zoados em todas as churrascadas da história
brasileira.
Mesmo entre os
manifestantes de verde-amarelo nas ruas mandando a presidenta tomar
naquele lugar, era marcante a dominância de casais de meia idade para
cima, esquisitões fascistas mais velhos com camisetas de camuflagem
militar e senhores calvos segurando uma bandeira rubro-negra com
tridente na Avenida Paulista, São Paulo, símbolo do nacionalismo
ucraniano de extrema-direita.
Nada a ver com as
manifestações que acenderam o rastilho de pólvora que deu em tudo isso:
nas Jornadas de Junho de 2013 e manifestações de ruas subsequentes era
massiva a participação de jovens estudantes secundaristas e
universitários, além de militantes de novos coletivos políticos.
Hiato geracional
Como interpretar essa
guinada etária na recente trajetória política brasileira em que… aquilo
deu nisso? Por que o núcleo duro, recalcitrante e birrento, da
extrema-direita é formado por apoiadores cinquentões, sessentões e
setentões?
Essas questões não surgem do nada. Assim como a até aqui vitoriosa estratégia de comunicação da chamada direita alternativa (alt-right)
não veio de um golpe do acaso. Há um fator sociológico e geracional
pouco discutido na ascensão desse novo extremismo de direita: o hiato geracional –
a crise da função dos idosos como elo geracional, ou seja, como
transmissora de sabedoria e conhecimento acumulados em uma existência.
É claro que jovens e
idosos são os dois lados de uma mesma moeda nessa questão: Bolsonaro
contou com 60% de eleitores entre 16 e 34 anos. Desses, 30% tinham menos
de 24 anos (clique aqui).
Jovens conduziram um ex-militar com 26 anos de atuação do Baixo Clero
do Congresso Nacional. Enquanto, hoje, de cinquentões para cima
demonstram o apoio irrestrito ao capitão da reserva nas ruas.
Entre esses dois grupos, o hiato geracional, do qual alimentou a estratégia alt-right de comunicação.
Em
culturas tradicionais, onde a velhice e a morte eram simbolicamente
incorporadas no dia a dia, os idosos sempre foram “elos geracionais”
como transmissores de um saber acumulado, conhecimento e sabedoria.
Colocados em posição de destaque na sociedade, o natural declínio físico
era compensado pela sabedoria, amor e trabalho unidos em uma
preocupação com a posteridade na tentativa de equipar os mais jovens
para levar adiante as tarefas dos mais velhos.
Narcisismo e cultura jovem
Desde
o pós-guerra e a consolidação da sociedade de consumo através da
Publicidade criou-se uma sensibilidade inédita na História: pela
primeira vez, o jovem tornou-se o modelo de beleza, felicidade e
consumo. Ou a sua versão politizada: a rebeldia e a revolução.
O
jovem, o novo e a novidade passaram a ser moralmente bom, enquanto o
“velho” (o idoso, o antigo) tornam-se ultrapassados, o oposto do
progresso, da evolução ou da revolução.
Toda a indústria da
moda e publicidade vai ao longo das décadas glamorizar o “novo” e a
“novidade” como moralmente bom, prazeroso e estimulante. O ápice dessa
verdadeira engenharia de opinião pública foi a construção da cultura pop
e jovem nas décadas de 1950-60. “Não confie em ninguém com mais de 30”,
dizia o desafiante lema jovem da contracultura: os “mais velhos” (pais e
autoridades) passaram a ser encarados como “quadrados”, ultrapassados e
intrinsecamente conservadores.
Se isso foi positivo
em um momento histórico como revolução e crítica, por outro lado seus
líderes não perceberam a ambiguidade dessa nova cultura: seria a base
imaginária (ao lado do crédito no consumo) de toda a descartabilidade e
hedonismo necessários para a aceleração da sociedade de consumo.
Aos idosos restou a
papel de negarem-se a si próprios, em primeiro lugar, através das
“lições de vida” que os idosos nos ensinariam em pautas motivacionais de
telejornais: um
senhor de 70 anos que pratica maratonas; uma senhora que aos 75 anos
retoma a sala de aula para concluir o ensino médio pensando na
universidade e nova carreira profissional; outro senhor de 65 anos diz
orgulhar-se por aventurar-se no “mundo das atividades físicas”: “faço
atividades físicas com força na academia para fortalecer a musculatura e garantir que tão cedo eu não vou ter que ‘pendurar as chuteiras’”, brinca.
E segundo, todo
um aparato terapêutico renovado a cada dia pela indústria farmacêutica
na qual a função de “elo geracional” é esquecida: os idosos nada têm a
dizer para as câmeras em termos de conhecimento ou sabedoria, a não ser
negar a si mesmos numa tentativa a todo custo de aparentar uma atitude
positiva e ficar parecidos com os mais jovens.
Christopher Lasch
chamava a atenção para esse esvaziamento do elo geracional dos idosos
por essas transformações trazidas pelas soluções médicas e sociais.
Lasch acredita que a
negação em relação à velhice se deve à cultura da juventude, mas
principalmente à perda do interesse dos homens pela vida terrena e o
medo da velhice pela ascensão de uma personalidade narcísica.
Por ter o narcisista tão poucos recursos
interiores, ele olha para os outros para validar seu senso de eu.
Precisa ser admirado por sua beleza, encanto, celebridade ou poder –
atributos que geralmente declinam com o tempo. Incapaz de alcançar
sublimações satisfatórias nas formas de amor e trabalho, ele percebe que
terá pouco para sustentá-lo quando a juventude passar (LASCH,
Christopher. “A Cultura do Narcisismo”, R. de Janeiro, Imago, 1983, p.
254-55).
O sofrimento central
da velhice (o fato de que vivemos vicariamente em nossos filhos ou em
gerações futuras) perde suas formas sublimatórias religiosas ou
filosóficas como o amor, a sabedoria e o conhecimento, formas que nos
faziam se reconciliar com a nossa própria substituição.
Ressentimento e sublimação
Destituído das formas
sublimatórias porque destituído da sabedoria e do conhecimento (afinal,
vive numa sociedade em deve “nem parecer que é velho”), a frustração e o
ressentimento o tornam presa fácil dos valores propagados como isca
pela extrema-direita: justiçamento, intolerância, vingança, culto ao
poder como sublimação substituta – idolatrar personalidades “fortes” e a
simbologia fálica como motos de alta potência, armas etc.
Sem terem sabedoria ou
o quê dizer aos mais jovens, instaura-se o hiato geracional que isola
os jovens num presente extenso – sem o passado, porque os idosos se
tornaram uma caricatura de “jovens idosos”; e sem futuro, porque não há
nenhuma sabedoria transmitida através da qual seja possível projetar um
caminho, uma meta ou mesmo uma utopia.
Nesse presente
extenso, os jovens serão igualmente presas fáceis dessa cultura que
exala juventude e novidade como verdades em si mesmas: a cultura meme, streamer e influencer. Terreno fértil para fake news e pós-verdades das estratégias alt-right.
Claro que o leitor
pode se contrapor a esse argumento sócio-geracional dizendo nem sempre
esse elo geracional do passado transmitiu sabedorias positivas para a
juventude. Pelo contrário, em geral as sociedades se estruturaram em
tradições persecutórias, obscurantistas e reacionárias, em torno do
discurso da “moralidade” e dos “bons costumes”.
Porém, a diferença é
que em última instância, esse elo geracional mantinha uma sociedade
organicamente coesa pelas formas de transmissão cultural por meio da
tradição.
Ao contrário, o hiato
geracional cria isolamento e vulnerabilidade que permitem a manipulação
pelas estratégias políticas midiáticas – o ressentimento que promete a
recuperação (ou a sublimação) da potência perdida para os idosos por
meio do fascínio pelos simbolismos fálicos na política; e para os
jovens, o presente extenso hedonista e niilista.
Uma das lições da Alemanha pós-nazismo é o artigo 30 da Constituição (GG, na sigla), estipulando que assuntos culturais são de incumbência das regiões geopolíticas Länder (ao todo, dezesseis distritos), garantindo suas respectivas autonomias e respeitando suas nuances culturais.
Logo depois da ascensão de Hitler ao poder como chanceler do Reich, em janeiro de 1933, o setor cultural na Alemanha passou a ser centralizado e submetido a um aparato de controle que, na sequência, foi aperfeiçoado pelo ministro Joseph Goebbels (1897-1945).
Em março de 1933, surgiu o Ministério de Esclarecimento e Propaganda, como instrumento central da política nazista. Quaisquer medidas referentes a ele tinham que passar pelas mãos de Goebbels, que, com essa incumbência, ganhou ainda mais poder dentro do gabinete.
O ministro do Reich para Esclarecimento e Propaganda (RMVP, na sigla) era responsável por todos os setores de arte do país, pela propaganda para o Estado, cultura e ciência, e pela veiculação de informações de cunho nacional e internacional. Como desdobramento desse ministério, foi criada a Câmara de Cultura do Reich (Reichskulturkammer), decretada pelo próprio Hitler em 22 de setembro de 1933, com o objetivo de, meticulosamente, catalogar e monitorar todo o setor cultural. Para isso, foram criados sete setores: filmes, literatura, imprensa, teatro, rádio, belas artes e música.
A partir de então, quem quisesse exercer atividade artística no país tinha que apresentar carteira de membro de sua Câmara específica. Quem não conseguisse provar sua origem ariana não seria aceito e, consequentemente, ficaria proibido de exercer a arte.
Hitler, Goebbels e Garbo
O ditador e seu lacaio preferido eram unidos por mais do que uma ideologia sórdida, mas também pelo cinema. Hitler via nesse setor a chance de dar glamour ao seu regime e Goebbels, um dramaturgo e escritor frustrado, achava que era a ocasião perfeita para desfilar entre estrelas e estrelinhas. Os dois acreditavam piamente no poder persuasivo e na emocionalidade dos filmes.
A paixão pelo cinema de Hollywood também unia o ditador e seu principal articulador. Os dois se tornaram fãs de Greta Garbo depois de assistir ao filme A dama das camélias. Em seu diário, Goebbels escreve, emocionado: “Tudo é só reverência frente grande e solitária mulher”. E acrescenta: “Nós ficamos muito emocionados e tocados sem vergonha pelas lágrimas”.
Adicionada ao nostálgico olhar para a grande fábrica de sonhos, Hollywood, a inveja também era companheira de Goebbels, que tinha de presenciar o triunfo dos filmes em technicolor enquanto a alemã Agfacolor ainda penava no estágio de desenvolvimento e pesquisa.
Ao assistir …E o vento levou, em 1939, Goebbels classificou como “maravilhoso” ver os atores em cores. Ainda de acordo com uma notinha em seu diário, Hitler via no filme colorido “o futuro do cinema”, como publicou uma documentação da revista Der Spiegel em 2011: “Arma propagandista Agfacolor – A lição de cores de Goebbels”, de autoria de Benjamin Maack.
Em 1939, Goebbels anunciou a produção do filme Mulheres são os melhores diplomatas. Com ele, o ministro queria provar ser páreo para a concorrente americana. Com um orçamento muito maior do que o normal para filmes em preto e branco na época, Goebbels colocava todas as suas expectativas na fita. Porém, o material Agfacolor ainda exibia falhas técnicas, com manchas azuis. Deu-se um cenário grotesco no desenvolvimento do material, paralelamente às filmagens. Devido a defeitos na fita, cenas tiveram que ser rodadas várias vezes, aumentando o orçamento do filme. No dia 31 de outubro de 1941, já durante a Segunda Guerra, ocorreu a estreia. A imprensa, na época pasteurizada e neutralizada, falou de “um dia histórico para o filme alemão”, exatamente a retórica desejada pelo ministro. Goebbels elogiou a fita, criticou o enredo e afirmou: “Fizemos um grande avanço”.
Nos anos seguintes, mesmo com a guerra, Goebbels tinha os filmes como sua ferramenta preferida. Determinava todos os itens referentes à produção cinematográfica: da escolha do enredo e dos roteiros até a aprovação de atores e pontas.
Berlim 1936 – Riefenstahl, “a histérica”
As lentes do cinema e da TV foram escolhidas como o melhor instrumento de manipulação do regime. Os Jogos Olímpicos de Berlim seriam o momento perfeito para mostrar para o mundo o lado mundano e liberal do sistema. Para isso, Hitler deu carta branca à sua cineasta preferida: Leni Riefenstahl.
Hitler cumpria os parâmetros do Comitê Olímpico Internacional, como país anfitrião, ao registrar os jogos, e ansiava ter a raça ariana retratada de forma estética por Riefenstahl. Só para realizar o projeto que tinha o maior desafio técnico do momento, Riefenstahl arrecadou 2,8 milhões de reichsmark (a moeda da Alemanha entre 1924 e 1948) de Hitler e a certeza de que ninguém, nem mesmo Goebbels, daria palpites de quaisquer natureza em seu trabalho.
No livro Berlin 1936 (editora Siedler), o autor Oliver Hilmes descreve, de forma meticulosa, os dezesseis dias dos jogos e a agenda dos grandes poderosos da época. Goebbels chama Riefenstahl de “histérica” e diz que “se comporta de forma incabível. Afinal, ela não é um homem”. Várias vezes, o tom ficou acalorado entre os dois. Brigas homéricas, em alto e bom som, pelas exigências meticulosas de Riefenstahl para posicionar sua equipe da melhor forma.
Em seu diário, Goebbels exibia desagrado sobre a posição privilegiada de Riefenstahl, que tinha costas quentes com o ditador. O cachê para Riefenstahl por seu trabalho como diretora foi, inicialmente, de 250 mil reichsmark, até chegar a 400 mil. Para que o governo não aparecesse como empregador, foi especialmente criada a produtora Olympia-Film GmbH, da qual Leni e seu irmão, Heinz, eram os donos.
Roberto Alvim no topo
O vídeo veiculado pelo governo Bolsonaro não deixa nenhum detalhe por acaso: nem a música de Richard Wagner, compositor favorito de Hitler, a foto de Bolsonaro pregada na parede, o discurso sobre a proclamação da arte de cunho nacional a serviço do Estado e sua ideologia, a expressão de subserviência e agradecimento ao seu grande mentor, banhado de patriotismo. Ele esclarece: “Quando eu assumi esse cargo, em novembro de 2019, o presidente me fez um pedido. Ele pediu que eu faça uma cultura que não destrua, mas que salve, a nossa juventude”.
Num discurso pérfido e copiado de uma fala de Joseph Goebbels, Alvim se vê no topo de suas ambições. Existem várias similaridades entre seu anúncio sobre os novos “rumos” da arte, neutralizando o seu DNA, o fomento da subjetividade e o plano diabólico de Hitler ao assumir o cargo de chanceler do Reich.
Na opinião do ex-Secretário Especial, a arte deve servir aos anseios do povo brasileiro. Com a criação da Câmara da Cultura do Reich, Goebbels tinha em mente a neutralização das artes e tomava as rédeas para classificar de “arte desnaturada” (Entartete Kunst) tudo o que fosse contra o sistema.
Demissão
Que Roberto Alvim tenha sido exonerado horas depois da veiculação do vídeo não é nenhum motivo de alívio ou mesmo de euforia. O fato dele ter chegado ao cargo já é um indício quase irrefutável da pérfida política cultural do atual desgoverno. O olhar brilhante e de regozijo decreta que a arte ou será do jeito que o governo quer ou não será.
Em declaração à Rádio Gaúcha, Alvim alegou que teria sido uma “coincidência retórica” referir-se à frase de Goebbels, ao mesmo tempo em que culpou seus assessores por procurar no Google o tema “nacionalismo em arte”.
O alinhavar da retórica fascista
Mesmo separados por fronteiras geográficas, os retóricos fascistas contemporâneos exibem um plano diabólico, mas totalmente transparente. Em sua retórica – sejam eles Roberto Alvim ou Björn Höcke, a face do fascismo alemão que integra o “corredor radical” do partido Alternativa para a Alemanha -, o procedimento é sempre o mesmo. Joga-se num texto uma frase relativizando o Holocausto ou vangloriando algum nazista que a opinião pública sai em manifestações de repúdio, os trending topics do Twitter embarcam na onda de repúdio e revolta e durante dias só se fala naquele assunto. Da próxima vez, o choque já não será tão forte. Assim, em doses entre cavalares e homeopáticas, a retórica fascista vai se enfronhando nas conversas de botequim, nas esquinas, nos clubes de futebol, em toda a sociedade. Ao ser indagado pelo repórter da rede pública ZDF se trechos de seus discursos seriam do livro Minha luta”, de Adolf Hitler, Höcke procurou abrigo na esquina vitimista, como de praxe, e mergulhou na retórica do “mal entendido”, do “mal interpretado”.
A exoneração de Roberto Alvim é somente um paliativo no plano diabólico dos fascistas que governam o Brasil. O plano de neutralização continua na agenda de Bolsonaro, que anseia o triunfo do mediano, simbolizado em filmes apolíticos e superficiais, na intimidação e difamação da classe artística como um todo.
O discurso de Alvim reverberou nos principais veículos de comunicação na Alemanha. Em alguns deles, com a errônea denominação de “ministro da Cultura”, e não Secretário Especial da Cultura:
Fátima Lacerda é carioca, radicada em Berlim desde 1988 e testemunha ocular da queda do Muro de Berlim. Formada em Letras (RJ), tem curso básico de Ciências Políticas pela Universidade Livre de Berlim e diploma de Gestora Cultural e de Mídia da Universidade Hanns Eisler, Berlim. Atua como jornalista freelancer para a imprensa brasileira e como curadora de filmes.
Fonte do Texto: http://desacato.info/politica-cultural-e-nazismo-licoes-da-historia-na-alemanha/ Fonte da Imagem: https://www.wallpaperflare.com/static/86/466/462/giant-tentacles-eldritch-monster-wallpaper.jpg
A possibilidade de sermos localizados pelas forças anticultura do governo e presos multiplica-se.
Estou transmitindo isso em código. Se a transmissão for interrompida abruptamente é sinal de que tive que fazer xixi ou fui descoberto. A possibilidade de sermos localizados pelas forças anticultura do governo e presos multiplica-se, e a repressão aumenta dia a dia. Muitos companheiros da resistência estão desaparecidos, como o pessoal do teatro de vanguarda obrigado a desocupar o teatro onde encenavam uma peça de conteúdo social, o que é proibido, e levados em camburões do temido Departamento de Combate à Criatividade com destino ignorado, todos nus. Qualquer manifestação artística com o nome de “vanguarda”, “social” e etc., já era proibida no território nacional e agora, para simplificar, decidiram proibir qualquer manifestação artística no território nacional, salvo a de bispos cantores.
A queima de livros que pregam o evolucionismo, o sexo recreativo, a redondeza da Terra, o ridículo de acreditar em astrologia, o socialismo ou tudo isso ao mesmo tempo, continua e já há uma corrente que julga inútil queimar livros se suas ideias continuam a existir e serem propagadas por mentes doentias, e sugere que se queime escritores, ou na ordem alfabética ou pela sua evidente combustibilidade. Somos obrigados a mudar o código quase que diariamente para evitar a detenção.
A própria palavra “código” não quer dizer mais código. Procure decifrar seu novo sentido antes que me peguem. Acho que não tenho muito tempo antes de ser lançado na hipotética fogueira. Nosso erro, ao escolher os fatos mais importantes que aconteceram no Brasil em 2019, foi não prestar a devida atenção. Fomos invadidos sem nos darmos conta, quando nos demos conta já era tarde. Deveríamos ter desconfiado que era uma invasão na cerimônia de posse do seu ministério anunciado pelo Bolsonaro. Lembra? Grande parte dos ministros usava longos guarda-pós brancos. Aquilo era estranho, estariam lançando uma nova moda ministerial, com o guarda-pó simbolizando sua disposição de trabalhar pelo País sem personalismo ou vaidade? Mas não. Assim que foram identificados como ministros do novo governo, os de guarda-pós arrancaram seus disfarces – que tapavam fardas militares!
A quantidade de militares em quem ninguém votou, com cargo oficial e poder, perfilados dentro da sede do governo, caracterizava um golpe. Branco como os guarda-pós, mas golpe. Sem armas à vista, sem tanques na rua, mas a invasão de um país por outro assim mesmo. Tudo neste texto é metafórico, da anticultura num país dominado pelo que ele mesmo tem de mais retrógrado, do primeiro parágrafo, aos guarda-pós que não existiram, mas sua única imprecisão está no exagero.
Fonte da Imagem: https://www.wallpaperflare.com/static/11/559/620/monochrome-surreal-digital-art-people-wallpaper.jpg
Como a
tentativa de censura a um livro didático no norte do país mostra que, no
Brasil atual, a ignorância não é apenas uma tragédia nacional, mas um
instrumento político usado por milícias de ódio
Estudantes de uma escola pública no Rio de Janeiro.Silvia IzquierdoAP
No final de março, um grupo de pais de uma escola pública estadual da cidade de Ji-Paraná, no norte do Brasil, entregou um abaixo-assinado ao Ministério Público de Rondônia. Eles exigiam a retirada da sala de aula de um livro de ciências cujo conteúdo de educação sexual seria “impróprio” para alunos da oitava série do ensino fundamental. O desenho de um pênis ereto, usada pelas autoras da obra didática para explicar o funcionamento do órgão, é um dos principais motivos da tentativa de censura. O pinto duro não deveria estar lá.
Neste pequeno grande acontecimento há muitas tragédias. E todas elas contam de nós. Há quem ache bizarro. Eu só consigo achar triste. Seria mais fácil se este fosse um caso isolado, numa escola pública do interior de Rondônia, no norte do Brasil, lugar distante para a maioria. Seria mais fácil, mas falso. É preciso prestar muita atenção ao que está acontecendo no Brasil: incitados pelos novos inquisidores, cada vez é maior o número de fogueiras onde queimam livros, reputações e, principalmente, direitos.
1) Por que querem castrar um livro didático?
Uma das mães afirma ao portal G1, da Globo:
“Neste livro, eles incitam a criança, que está no início da
adolescência, a descobrir a vida sexual. Também vulgarizam a virgindade
da criança, dizendo que ela pode sofrer bullying e que, se ela perder a
virgindade, pode ser melhor”.
O coordenador regional de educação, José Antônio de Medeiros, diz ao portal UOL:
"Este livro traz uma abordagem sobre sexualidade e tem ilustrações, de
certo modo, até um pouco agressivas. Ficou muito explícito as simulações
de carícias, de estímulo sexual, e até umas imagens demonstrando
penetração, mostrando o órgão sexual masculino e feminino...”.
O vereador de Ji-Paraná, Johny Paixão (PRB), afirmou à TV Globo
que os temas do livro podem incitar à prática não consensual do sexo.
“Meu compromisso com eles (pais) é lutar com todas as forças possíveis
para que nós venhamos a retirar esse livro da sala de aula, porque ele é
tendencioso. As imagens são tendenciosas. Elas afloram a sexualidade.
Por que vou aflorar a sexualidade se as crianças não podem fazer sexo?”.
Dito assim, a impressão de quem lê as matérias e assiste às notícias sobre a “polêmica” é de que o livro Ciências 8o ano – Ensino Fundamental II da coleção Projeto Apoema (Editora do Brasil) é uma espécie de Kama Sutra escolar.
2) Mas o que diz o livro ameaçado de fogueira pelos novos inquisidores?
Tenho um hábito cada vez mais raro: antes de opinar sobre um livro ou
um texto, eu o leio. Esta frase pode ser interpretada como ironia.
Gostaria que fosse. Quero deixar explícito que não é. Infelizmente.
A seguir, um trecho do capítulo 5, intitulado “Adolescência”, do livro indicado para adolescentes de 13 anos ou mais:
“Nos últimos 30 anos, tem-se falado muito sobre sexualidade.
Propuseram-se diversas teorias, realizaram-se vários estudos, e o tema é
até hoje explorado nos jornais, nas revistas e nos programas de
televisão. No entanto, muitas vezes, há uma idealização da vida sexual,
dando a falsa impressão de que existe uma fórmula única de viver
plenamente a sexualidade, um padrão sexual, um modelo rígido ao qual
todas as pessoas devem se adaptar (...). Cada um pode viver muito bem, e
plenamente, do seu jeito e conforme sua orientação. O importante é
fazê-lo com responsabilidade e ter direito à informação e espaço para
expressar suas opiniões”.
Num outro ponto, o livro reproduz a fala de um médico ginecologista: “É preciso lembrar que o sexo
é bom quando é bom para os dois”. E segue: “O médico explica que ser
virgem não significa de maneira alguma estar fora do mundo atual, mas
estar em um momento de reflexão: ‘A pessoa virgem ainda não se sente
preparada para enfrentar a relação sexual com a maturidade que ela
merece. E isso independe de idade’”.
Em nenhuma das ilustrações os homens são eunucos: deveriam ser?
Há ilustrações de um homem na fase infantil, adolescente e adulta.
Nenhum deles é eunuco. Deveriam ser? Se fossem, haveria um problema, já
que homens castrados e com pênis decepados, na nossa sociedade, são
vítimas de violência.
Há também o desenho de um pênis “flácido” e de um pênis “em ereção”,
para ilustrar a explicação sobre anatomia e aspectos biológicos: “O
tamanho do pênis varia entre os homens e não tem relação biológica com
fertilidade nem com potência sexual”.
Outra reclamação se refere a uma série de ilustrações que ensinam as
mulheres a realizarem o autoexame de mamas, como um ato de prevenção ao câncer.
E, sim, nas imagens a mulher tem seios. Se não tivesse, haveria um
problema de informação, já que mulheres têm peitos, dos mais diversos
formatos e tamanhos, mas decididamente peitos. Sem contar que seria
difícil ensinar a fazer o toque, no exame preventivo, sem que houvesse
um seio no desenho. Como detectar um caroço ou uma alteração suspeita
num seio sem um seio? E haveria ainda mais uma complicação: mulheres
mastectomizadas, na maioria das vezes, perderam os seios devido ao
desenvolvimento de tumores, exatamente a doença que este capítulo do
livro pretender colaborar para prevenir.
Reproduzi aqui os principais pontos atacados. Mas o livro ainda não
foi proibido e pode ser lido por todos, para que tirem suas próprias
conclusões.
Uma das páginas que gerou o abaixo-assinado.Reprodução
3) Como ler a tentativa de censura?
Minha primeira hipótese é a de que as pessoas que atacaram o livro
não leram o livro. Lembrando que ler é bem diferente de apenas passar os
olhos. A diferença entre o que é dito sobre este capítulo do livro e o
que está de fato escrito no livro é enorme, como se pode ver nos
exemplos citados. Em alguns momentos, o que dizem que o livro disse é
exatamente o oposto do que o livro de fato diz. Como é possível?
Aqui, estamos diante de duas tragédias contemporâneas, explícitas nas redes sociais da internet.
A primeira delas é que as pessoas não leem, mas mesmo assim jogam o
texto na fogueira. Ou leem apenas o enunciado e dão uma olhada nas
imagens e “queimam” o livro. E, como ler exige tempo e atenção, mas
reproduzir o discurso de ódio leva apenas um segundo, em pouco tempo as
chamas já incineraram o alvo do ataque. Isso vale para livros, como é o
caso, vale para reputações. Assim, livros que exigiram anos de pesquisa
de seus autores, como é o caso deste, ou reputações construídas ao longo
de uma vida inteira, são destruídas sem que uma parte dos linchadores
perceba a violência e a amplidão do seu ato.
A segunda tragédia é a da própria educação.
A internet escancarou uma realidade conhecida, mas cujas proporções não
tinham ficado tão claras até então. Muitos leem de fato o texto, o
livro, mas não conseguem interpretá-lo. Qualquer frase um pouco mais
elaborada ou mais longa ou menos direta se torna um enigma. Ironias não
são compreendidas, metáforas são decodificadas como literalidades.
Pessoas têm alcançado a universidade sem conseguir interpretar um texto.
É possível que parte destes pais – parte – tenha lido o capítulo do
livro e não tenha conseguido interpretá-lo, adotando assim a versão que
estava disponível. E se a versão que estava disponível era a da
necessidade de proteger os filhos do mal, ali representado pelo livro,
podemos supor que pode ter se tornado fácil aderir ao protesto. Aderir
sem uma reflexão maior que poderia, inclusive, ter sido proporcionada
pela escola.
Quando alguém passa pelo sistema educacional e
chega à vida adulta sem condições de interpretar o que lê esta pessoa é
também uma vítima
É fácil culpar os pais e apontar uma suposta ignorância.
E, vale a pena deixar claro, uso ignorância neste texto no sentido
daquele que ignora um fato ou informação, daquele que não teve ou não
tem acesso ao conhecimento. Como parte de uma sociedade, somos todos
responsáveis pela tragédia educacional. É muito triste que as pessoas
não consigam ler ou interpretar um texto ou por falta de acesso à escola
ou porque a escola que deveria ensiná-lo não foi capaz de fazê-lo.
Quando alguém passa pelo sistema educacional e chega à vida adulta
sem condições de interpretar o que lê isso representa uma traição àquela
pessoa, com graves consequências para a sua vida e para a vida da
comunidade. Assim, se parte destes pais são algozes de um livro, são
também vítimas de um sistema educacional em que, com poucas exceções, a
escola pública tem prédios precários e cheios de problemas, a maioria
dos professores
é mal paga e uma parcela deles é mal preparada, uma escola pública onde
falta até mesmo o básico. E, ainda assim, contra tudo, muitos
profissionais lutam para criar espaços de qualidade e educar a
população.
É importante lembrar ainda que os pais e mães deste abaixo-assinado
fizeram um percurso. Eles levaram suas questões até a autoridade na área
da educação e buscaram a Câmara de Vereadores. O coordenador regional
de educação e o vereador que assumiu a “causa” têm uma responsabilidade
pública e devem responder publicamente por ela. Como se vê nas matérias,
seguiram o caminho do ataque fácil. Do representante da educação, em
especial, seria legítimo esperar uma abordagem mais responsável.
Contradições não devem ser contornadas, mas acolhidas e enfrentadas.
Este episódio, surgido a partir do susto de uma mãe, poderia ter se
tornado uma oportunidade de encontro, de diálogo e de reflexão coletiva,
inclusive dentro da escola. Mas, por irresponsabilidades variadas, da
qual não escapa a imprensa,
assumiu de imediato contornos de fogueira. É assim que os cada vez mais
escassos espaços de debate estão sendo interditados neste país.
4) O que o pinto duro tem a ver com isso?
Não é possível ignorar o tema que alimentou a fogueira. Fosse outro,
talvez a leitura tivesse se mostrado mais acessível e a interpretação do
texto não sofresse tanta interdição. Mas era de educação sexual que se
tratava. E de um mito (ou seria tabu?) muito difícil de ser desmontado,
que é o da criança assexuada. Ele aparece em todas as falas reproduzidas
pelas matérias da imprensa. A ideia de uma criança sem sexualidade se
confunde com a própria invenção da infância na modernidade, já que em outros períodos históricos pessoas desta faixa etária não eram vistas desta maneira.
Os principais pensadores da infância derrubam esse mito. Mas ele
persiste. E aparece das mais variadas formas, muitas delas
inconscientes. Se alguém observar as matérias de imprensa, por exemplo,
vai descobrir frases como esta: “Homens, mulheres e crianças...”. Ou
seja, as crianças não são homens e mulheres,
mas seres assexuados. Eu mesma cometia esse equívoco, sem perceber o
que fazia, até ser alertada por uma amiga. Passei a usar então “Adultos e
crianças, homens e mulheres...”.
A ideia de que as crianças são “puras” e que uma das provas disso é
que não teriam sexualidade é amplamente difundida no senso comum. E
assim os pais acabam por reprimir qualquer manifestação que desminta
essa crença. Para piorar, a repressão é respaldada por algumas religiões.
Isso não significa que as crianças terão relações sexuais, obviamente.
Seu corpo nem está preparado para isso. Mas significa que vão se tocar,
descobrir o corpo, e que não há nada de errado com isso. Pelo contrário.
É saudável que se descubra também o próprio corpo na idade em que tudo
se descobre.
Aos pais cabe orientar e respeitar seus filhos e filhas, ajudando-os a
se tornarem adultos capazes de respeitar o corpo e o desejo do outro e
capazes de respeitar seu próprio corpo, fazendo do sexo uma experiência
prazerosa e responsável quando o momento chegar. E é também pelo
conhecimento que se conhece e se respeita o próprio corpo e o corpo do
outro. A ignorância é uma grande aliada da violência que se faz consigo
mesmo e com o outro.
Se é mais fácil reprimir as crianças exatamente porque são crianças e
dependem para tudo dos pais, o mesmo não se pode dizer dos filhos na
fase que se nomeou “adolescência”. E este talvez seja o susto de parte
destes pais. Não há nenhum mistério nisso. Qualquer um, eu e você,
estivemos lá (na adolescência) e nos lembramos muito bem. Estes pais
também devem se lembrar que um dos principais interesses – ou talvez o
principal interesse – era justamente sexo.
Assim, acusar o livro, como fez uma mãe e o vereador, por fazer
“aflorar o sexo” em adolescentes de 13 anos ou mais é uma negação
completa da realidade. Aos 13 anos, a maioria dos humanos quase só pensa
nisso, o que não significa que vai fazer sexo com um parceiro ou
parceira de imediato, passar do pensamento ao ato, da masturbação à
relação sexual com outro corpo. Esta é uma decisão que cada um deverá
tomar no seu tempo, com conhecimento e responsabilidade e respeito com
seu corpo e com o corpo do outro, como o próprio livro tão bem sublinha.
Do mesmo modo, considerar que o desenho de um pênis ereto vai
surpreender algum adolescente não faz qualquer sentido. Com permissão
para uma brincadeira, porque o tema deveria ser também lúdico, o que
talvez surpreenda mais um menino nesta faixa etária é o desenho do
“pênis flácido”. Do mesmo modo, é comum uma menina conferir várias vezes
por dia no espelho se seu peito cresceu, apalpando-o e acariciando-o,
sem qualquer problema em ter prazer com isso. Assim como é natural tocar
seu pênis ou sua vagina para descobrir o que lhe dá prazer e conhecer
seu corpo, o que também vai ajudá-lo a ter prazer e dar prazer ao outro
quando o dia chegar.
Debater este tema é responsabilidade também da escola. E os pais
deveriam enxergar nela uma aliada para que seus filhos tenham de fato
educação sexual não apenas em uma disciplina, mas em todas. E, assim,
sentirem-se à vontade para discutir as transformações que lhe causam
angústia e conhecer o seu corpo não só pela biologia, mas por todas as
áreas que atravessam o tema da sexualidade. O conhecimento é o principal
fator de prevenção de gravidez adolescente indesejada, doenças sexualmente transmissíveis, violências sexuais e bullying.
É pelo conhecimento e pelo diálogo que adolescentes poderão tomar as
melhores decisões sobre a sua vida e construir, no seu tempo, uma vida
sexual responsável e prazerosa.
Quem lê o livro jogado na fogueira percebe claramente o esforço das
autoras para cumprir este papel. É uma pena que seus detratores não
consigam – ou não queiram – enxergar que livros como este, assim como
professores que ajudem os estudantes
a interpretá-los e debatê-los, são justamente os que não deixam os pais
sozinhos num mundo tão complicado e violento, em que os adultos têm se
sentido tão desamparados para educar crianças e adolescentes. É abrindo
os livros – e não fechando-os – que os pais estariam melhor
acompanhados.
5) Onde se esconde a maldade?
Ainda que seja improvável (mas não impossível) que o livro seja
formalmente banido das salas de aula, como quer uma parcela dos pais
desta escola, a obra já foi “queimada” publicamente. A fogueira já foi
acesa e ardeu, porque as fogueiras hoje são sem matéria (por enquanto),
mas suas labaredas têm longo alcance e graves consequências.
Diante da repercussão, é possível que o Ministério da Educação,
numa próxima seleção, não escolha este livro. É possível que os
professores das escolas privadas prefiram pular esta obra para não se
arriscar a polêmicas. E é possível que os autores de livros didáticos
passem a contornar o tema da educação sexual em suas obras, para se
protegerem de eventuais inquisidores. Assim como jornalistas,
políticos e intelectuais já começam a evitar certos temas para se
protegerem de linchamentos que atingem não só a eles, mas começam a
alcançar suas famílias.
Depois da fogueira pública, o resto acontece em silêncio. E acontece
(também) por causa do silêncio. É desta maneira insidiosa que a
ignorância se infiltra. É por esse caminho sombrio que o medo penetra e
domina. É por essa técnica que historicamente os fascismos subjugaram as mentes e os corpos e produziram seus crimes. É preciso prestar muita atenção ao que está acontecendo no Brasil.
Por décadas a escola pública foi abandonada, enquanto o ensino
privado foi se tornando um negócio cada vez mais lucrativo, cada vez
menos pedagógico e mais empresarial. Por décadas os professores foram
desvalorizados, os prédios foram sendo depredados, a escola se afastando
mais e mais da comunidade – e a comunidade se afastando mais e mais da
escola. Por décadas muito poucos se perguntaram seriamente como se
sentiam alunos em escolas às vezes literalmente caindo aos pedaços, sem
equipamentos básicos, em salas de aula ocupadas por professores mal
pagos, sobrecarregados e, em alguns casos, despreparados. Por décadas um
número crescente de pais passou a se esfalfar para conseguir dinheiro
para matricular os filhos numa escola particular, mesmo que ruim, e
aqueles que tinham mais condições de fazer a disputa por qualidade de
educação deixaram a escola pública. Permaneceu quem não pôde sair – e
permaneceram os idealistas, sempre em menor número. A escola pública
passou a ocupar o lugar de resto. E como resto professores e alunos
foram tratados.
Nos últimos anos, um movimento com muita potência surgiu. Estudantes passaram a ocupar as escolas e, transgressão das transgressões, passaram a cuidar delas e a exigir qualidade na educação. Como restos eles não incomodavam. Como protagonistas, cidadãos, foram criminalizados como “invasores” e “vândalos”.
Mas também nos últimos anos um movimento muito mais articulado se
organizou. Ele não é novo, mas ganhou uma articulação nova. E sua
principal arma é justamente a deseducação que a escola no lugar de resto
produziu. Sua principal arma é a ignorância e a falta de conhecimento,
que geram adesão em vez de reflexão, gritos em vez de diálogo. Fogueira.
Depois da corrosão da educação pública produzida pela ditadura civil-militar
(1964-1985), a resposta dos governos democráticos que vieram a seguir
foi insuficiente para a urgência do problema. Houve avanços
significativos em algumas gestões, como a de Fernando Henrique Cardoso e de Luiz Inácio Lula da Silva,
mas muito menores do que seria necessário para uma mudança que
produzisse transformação estrutural. E, como todo vazio acaba sendo
ocupado, ressurgiu o velho engodo embalado em papel novo e disseminado
para milhões de seguidores nas redes sociais: o problema da escola
pública é “moral” – e “de doutrinação ideológica”. Percebendo o risco,
era preciso ocupar. Isso fica explícito no momento em que os estudantes
tomam o partido da escola pública e restauram o valor da política, mas são duramente reprimidos não só pela polícia, mas também pelas milícias de ódio em defesa do projeto nomeado “Escola Sem Partido”.
Nesta manipulação, vendida à sociedade como um projeto restaurador da
ordem (mas qual ordem?), o problema não seria a escola caindo aos
pedaços, os professores mal pagos, a falta de estrutura material e
pedagógica, mas uma suposta “doutrinação ideológica” praticada por professores “esquerdistas”, “comunistas”
e moralmente desvirtuados a serviço do mal. (Com a esquerda mal parando
em pé, isso deveria ser piada, mas não é, já que uma das consequências
da ignorância é sua vítima não entender piada, muito menos humor ou
ironia.)
Diante do medo e do desamparo, sentimentos que crescem em qualquer
crise, a resposta moral sempre cola. Assim como um inimigo forjado. E
cola mais ainda quando não existe uma proposta alternativa que as
pessoas possam compreender e confiar. O problema então torna-se o outro
– e ele deve ser destruído. Diante de pais assustados, com todo o
direito tanto de querer que seus filhos sejam bem educados como de
concluir que não estão sendo, qualquer mão estendida, mesmo que seja na
forma de uma resposta estapafúrdia e violenta, geradora de mais
desconhecimento e ignorância, é agarrada.
E assim pais são incitados por milícias de ódio na internet a
tornarem-se inquisidores. Em vez de irem à escola para dialogar,
compartilhar e reivindicar, construir junto, são estimulados a apontar o
dedo e a linchar. Na época da ditadura, este serviço odioso era
realizado nas escolas públicas por professores cooptados pelas forças da
repressão, que espionavam os colegas e faziam seus relatórios, enquanto
ganhavam pontos na carreira. Hoje, o que antes acontecia nos cantos
escuros é amplamente incitado nas redes. A infâmia é vendida como
virtude moral.
Construir é difícil, lento e dá trabalho. Queimar é imediato. E nada
mais cômodo do que poder extravasar sua frustração culpando o outro e,
se possível, eliminando-o. Ou deletando-o do espaço público. A
estratégia é velha, muito velha. A única novidade é a entrada da
internet na equação. Mas como a história não foi bem ensinada para as
gerações que aí estão, ela é vendida e comprada como nova.
6) O que diz a autora do capítulo atacado?
Nos últimos anos, episódios de censura ou tentativas de censura a
livros didáticos e de literatura têm pipocado pelo país. Alguns casos se
tornam conhecidos, outros são abafados. É raro professores,
bibliotecários e autores se arriscarem a defender a obra publicamente.
Em geral, temem a demissão e, mais recentemente, o linchamento pessoal.
Algumas editoras costumam aconselhar seus autores a silenciar, na
expectativa de que o incêndio se extinga com menos prejuízos. Na minha
opinião, isso é um erro e uma omissão de responsabilidade pública.
Tentativas de censura e ataques a livros e autores dizem respeito a toda
sociedade e devem ser enfrentados como o que são.
O livro de Ciências para o 8o ano, da coleção Projeto
Apoema, é assinado por Ana Maria Pereira, Margarida Santana e Mônica
Waldhelm. O capítulo atacado foi escrito por Mônica. Ela é professora do
Ensino Médio, titular de Biologia no Centro Federal de Educação
Tecnológica do Rio de Janeiro (CEFET/RJ). Tem 50 anos de idade e 33 de
magistério. É doutora em Educação pela PUC-Rio e consultora da Unesco.
Enviei a ela algumas perguntas por e-mail e ela respondeu a todas elas. A
seguir, os principais pontos: Pergunta.Como você se sentiu ao tomar conhecimento deste episódio? Resposta. Confesso que custei a entender o motivo
alegado para o abaixo-assinado feito pelo grupo de mães e pais. Ao ler e
ouvir as declarações não reconhecia naquelas palavras o conteúdo do
livro: Pornografia?
Vulgarização do sexo? Estímulo à promiscuidade? Imagens fortes? Sabia
de todo cuidado que tivemos ao produzir cada volume e constatei que
havia um ruído na comunicação ou algo mais preocupante por trás desta
ação. Foi um misto de surpresa, perplexidade e tristeza. P. O livro já havia sofrido algum tipo de ataque antes? R. Esta coleção em questão não. Recebemos um parecer
muito positivo na última avaliação do MEC no âmbito do Programa
Nacional do Livro Didático (PNLD), e os livros são adotados por escolas
públicas e privadas de todo o Brasil. Contudo, este campo da sexualidade
é tradicionalmente espinhoso. Ao longo de 20 anos como autora,
visitando escolas de Norte a Sul e conversando com os colegas
professores, já ouvi alguns relatos de situações delicadas. Em uma
escola, embora os professores manifestassem explicitamente o desejo de
utilizar nossos livros, a presença de imagens de vulvas e pênis foi
motivo de controvérsia por parte da coordenação pedagógica. Também
soubemos de uma escola na qual uma professora de Ciências venceu a
resistência da coordenadora e adotou a coleção, mas depois teve
problemas com a mãe de uma aluna. Esta mãe simplesmente grampeou as
páginas do livro que continham figuras de vulvas, pênis, camisinha e
similares. Mas foram casos isolados e resolvidos com conversa e
mediação. P. Você escreveu a parte relativa à educação sexual. Quais são os cuidados que toma nas suas escolhas? R. Como docente – e até quando fui aluna – sempre me
incomodou a maneira como o corpo historicamente é apresentado e, deste
modo, estudado nos livros didáticos de Ciências. O tema sexualidade
humana quase sempre é abordado nos capítulos finais dos livros, onde o
professor em geral nunca chega durante o ano letivo – e de modo reduzido
ao aspecto da reprodução. As figuras aparecem quase sempre na forma de
esquemas em cortes transversais ou longitudinais. Com seu corpo ainda
desengonçado e com acne, o adolescente se depara, nos livros
didáticos, com figuras e modelos “perfeitos”, bem torneados e com
dentes corretos e, então, não se reconhece como tal. Também acho
difícil um aluno da Educação Básica reconhecer-se nas estranhas figuras
assexuadas. Ainda hoje, em muitos livros, pênis e vulvas/vaginas, em
geral, só aparecem em cortes "estratégicos", expondo apenas sua
anatomia interna. Além disso, com imagens humanas idealizadas e
retocadas no computador, os livros acabam por reforçar o que faz a
produção mídiatica predominante, que hipervaloriza a aparência física
e acaba por determinar padrões estéticos. Estes “padrões” são
buscados febrilmente por jovens nas academias de ginástica e no uso de
anabolizantes. Também se refletem nos consultórios médicos, onde vão
em busca de "reparos", assim como no avanço de distúrbios como bulimia e anorexia. P. Esta foi a razão para a sua investigação no mestrado? R. Este incômodo com certeza motivou minha pesquisa no mestrado em Educação realizada na Universidade Federal Fluminense
(1998), na qual investiguei a produção sociopolítica do corpo nos
livros didáticos de Ciências editados nas décadas de 1960 e 1990. Ao ser
convidada logo depois para escrever livros didáticos, tive a
oportunidade de propor um material que modificasse, ainda que em parte,
este cenário preocupante. Hoje é consenso no meio educacional que o
currículo escolar não pode estar desvinculado da realidade dos alunos,
tendo em vista que uma das funções da escola é a preparação para a
vida cidadã. No contexto desta discussão, entendo que as questões
relativas ao corpo, gênero, sexualidade e papeis sociais devem ser
trazidas para sala de aula, dado o impacto que provocam na vida dos
alunos. Muitas vezes, porém, as angústias e tabus acerca da
sexualidade estão baseadas no desconhecimento da anatomia e da
fisiologia do próprio corpo. Daí a importância de criar condições
para que os professores possam conversar com os alunos, levando-os a
expressar suas crenças e seus mitos em relação ao corpo e à
sexualidade como ponto de partida para o estudo dos aspectos biológicos
do sexo. No volume didático alvo da polêmica, num total de seis
unidades, optamos por abordar a sexualidade na terceira unidade.
Queríamos evitar que este tema fosse relegado a segundo plano caso
ficasse no fim do livro. O texto escrito por mim foi objeto de cuidadosa
análise também das outras autoras e da equipe da editora, pois não
queríamos correr o risco de produzir nem reforçar subjetividades
hegemônicas que levassem a preconceitos e discriminação por gênero,
etnia, orientação sexual etc. Em diversos momentos, na versão para o
professor, colocamos “bilhetes” sinalizando para a importância de
debater determinados tópicos e atentar para atitudes preconceituosas.
Ao abordar as características anatômicas femininas e masculinas
incluímos também representações de corpos inteiros e com as
estruturas externas visíveis. Cuidamos para não reforçar a “pedagogia
do terror”, associando sexualidade somente à doença ou à gravidez
indesejada. Destacamos a importância do cuidado com o corpo,
associando-o à promoção da saúde e à vivência prazerosa e
responsável da sexualidade. P. Como você insere esse episódio no contexto mais amplo do país? R. Não há como negar que uma onda conservadora vem
assolando nosso país. E isto tem provocado repercussão e embates
travados tanto no campo das ideias quanto das ações e até das políticas
públicas. No campo educacional não é diferente. Tentativas de censura e
cerceamento de práticas docentes e uso de materiais didáticos têm sido
recorrentes e até apoiadas por representantes políticos que se dizem
“defensores da moral e bons costumes” das famílias brasileiras. A
retirada dos termos “gênero e orientação sexual” da última versão do
texto da Base Nacional Comum Curricular entregue ao Conselho Nacional de
Educação não será inócua. Embora o MEC insista que as escolas terão
autonomia para construir seus currículos, a não explicitação do termo
esvazia sua legitimidade e importância. Currículo é um território de
poder e de embates. Esta omissão no documento norteador deixa autores de
livros didáticos e docentes sem respaldo legal para abordar o tema. E
pode simplesmente impedir a discussão sobre diversidade sexual,
estereótipos de gênero e atitudes homofóbicas
nas escolas. Iniciativas como a tentativa de censura ao nosso livro de
Ciências, a livros de Geografia que incluem famílias homoafetivas, a
periódica conclamação em redes sociais a famílias para que induzam seus
filhos a filmarem episódios de “doutrinação” nas escolas, assim como um
vereador querendo “fiscalizar” as aulas e vários projetos de lei em
andamento são elementos de um cenário que causa extrema preocupação com a
liberdade de expressão dos educadores em geral. A propagada
neutralidade religiosa, sexual e política não tem nada de neutra.
Reflete as visões e crenças de um grupo conservador na sociedade. P. Como você interpreta a manifestação destes pais? O que, afinal, eles temem, a ponto de querer proibir o livro? R. Acho que há vários aspectos envolvidos. Um deles é
o que envolve o desejo e a crença de controle total sobre os filhos
(incluindo seus corpos, sexualidade, formas de pensar e ver o mundo). E
sei que este desejo não é mal intencionado. Um outro se refere ao fato
de cada pai e mãe como pessoa ter seu conjunto de crenças e referências
culturais influenciado por experiências pessoais, familiares, religiosas
e outras. E embora a escola pública seja para todos, alguns pretendem
impor sua forma de ver o mundo como verdade absoluta. Então o racista
não quer ver o racismo discutido, o homofóbico não quer que se aborde
gênero e preconceito, o misógino acha desnecessário falar sobre feminismo
e por aí vai. Paradoxalmente, constato que enquanto em várias escolas e
livros de Ciências a questão da sexualidade é ignorada ou abordada
superficialmente, no dia-a-dia é crescente a erotização da infância e
da adolescência. A realidade é bem diferente do que muitos pais querem
admitir. Adolescentes procuram informações onde podem. E a escola pode
trazer esta informação de modo adequado. Sabemos que não basta informar,
é preciso debater, problematizar, levá-los a refletir, a construir
projetos de vida. Enquanto os pais acham que seus filhos com 13-15 anos
ainda não devem discutir sexualidade e ver imagens de pênis, o
Ministério da Saúde reduziu a idade mínima para a vacinação contra HPV
para 9 anos para garantir imunização antes do início da vida sexual.
Soma-se a isso o alarmante número de grávidas adolescentes, o
crescimento do HIV entre jovens, o suicídio e homicídio de jovens
homossexuais... P. E como você avalia a relação entre escola e comunidade? R. Ainda existe falta de diálogo entre muitas
escolas e as famílias dos alunos. Uma maior aproximação, buscando
esclarecer a proposta pedagógica, a realização de projetos envolvendo a
comunidade e trabalhos intersetoriais (com o posto de saúde local, por
exemplo) são estratégias que reforçam a parceria e trazem sinergia ao
processo educativo. Nosso livro propõe várias atividades envolvendo a
comunidade por reconhecer a importância desta interação. A sexualidade
envolve pessoas e, consequentemente, sentimentos, que precisam ser
percebidos e respeitados. Envolve também crenças e valores, assim como
ocorre em um determinado contexto sociocultural e histórico, o que tem
papel determinante nos comportamentos. Nada disso pode ser ignorado
quando se debate a sexualidade com os jovens. O papel de problematizador
e orientador do debate, que cabe ao educador, é essencial para que os
adolescentes aprendam a refletir e a tomar decisões coerentes com seus
valores, no que diz respeito à sua própria sexualidade, ao outro e ao
coletivo, conscientes de sua inserção em uma sociedade que incorpora a
diversidade. Consideramos que silenciar – nos discursos e práticas – no
âmbito das questões relativas à sexualidade humana tem implicações
gravíssimas na formação de nossas crianças e jovens. P. Como você nomearia o que está acontecendo? E como um professor pode enfrentar essa conjuntura? R. Como autora, professora, mãe e cidadã, reforço e
valorizo a necessidade de um movimento de resistência organizado e
coletivo – e portanto com mais impacto e eficiência – por parte dos
educadores, frente às recentes e sistemáticas ações que buscam tirar a
autonomia docente e isolar a sala de aula e a escola da vida real,
alijando os alunos do debate acerca de questões contemporâneas cada vez
mais relevantes. A busca por uma sociedade pautada na solidariedade, na
alteridade, na justiça social, no respeito e na convivência pacífica
passa pelo reconhecimento da diversidade como positiva. Questionar as
muitas formas de preconceito
e de exclusão social é papel de uma escola que pretende ajudar a
construir um Brasil menos sexista, menos racista e menos homofóbico – e
isso deve começar na Educação Infantil.
7) Por que a ONU se manifestou?
Apenas nas últimas semanas, vários golpes articulados acentuaram a
crise educacional e ética do país. E colaboraram para aumentar a
violência e ampliar a ignorância no âmbito da escola pública. Tanto que,
em 13 de abril, a ONU fez um comunicado
manifestando sua preocupação com ameaças ao direito à educação e à
liberdade de expressão no Brasil e pedindo que o governo brasileiro se
manifeste em 60 dias.
No documento, os relatores das Nações Unidas apontam o projeto
“Escola Sem Partido” e as “visitas-surpresa” a escolas municipais feitas
pelo vereador de São Paulo Fernando Holiday
(DEM) como motivos de apreensão. O vereador entrou nas escolas para
“analisar se há doutrinação no conteúdo que está sendo dado nas salas de
aula”. No vídeo divulgado por ele se anuncia: “Escola Sem Partido.
Holiday faz visitas supresas em escolas de SP e quer que você denuncie
casos de doutrinação”.
Segundo a Folha de S. Paulo, o episódio provocado pelo vereador quase causou a demissão do secretário de Educação de São Paulo, Alexandre Schneider.
O secretário, respeitado na área educacional, repudiou com veemência a
tentativa de intimidação dos professores, citando a Constituição. Em
seguida, foi vítima de uma campanha de desqualificação promovida por grupos articulados na internet. Segundo o jornal, o secretário não teria se sentido apoiado pelo prefeito João Doria
(PSDB). O prefeito pode ter preferido manter o apoio das milícias de
ódio na internet, que o inflam nas redes como o grande “gestor”.
No comunicado, os relatores da ONU afirmam que, se os projetos de lei
baseados no Escola Sem Partido forem aprovados, isso pode significar
restrição indevida ao direito de liberdade de expressão de alunos e
professores no Brasil, com impacto no ensino do país em diversos temas.
Alertam ainda que o Escola Sem Partido pode representar “censura
significativa” e restringir o direito do aluno a receber informação. O documento
manifesta ainda a preocupação com o impacto destas ideias sobre as
políticas públicas, como a retirada da expressão “orientação sexual” da
Base Nacional Comum Curricular do país, que define as competências e os
objetivos do aprendizado dos estudantes em cada etapa da vida escolar.
Os relatores afirmam também que a mudança contraria a recomendação da
ONU para que o país reforce os programas de combate à homofobia.
Escola Sem Partido é um projeto idealizado pelo advogado Miguel Nagib
em 2004, nos últimos anos adotado como bandeira pelas milícias de ódio
na internet e por algumas das vozes mais atrasadas do Legislativo. A
escolha do nome é esperta. Ela sugere uma finalidade legítima: a de
impedir que professores façam proselitismo político-partidário em sala
de aula ou o que tem sido difundido como “doutrinação ideológica”. Na
prática, o Escola Sem Partido propõe exatamente o que afirma combater:
doutrinação ideológica e proselitismo. Mas para isso é preciso
capacidade de interpretar texto e de “ler” a realidade, justamente o que
a Escola deveria promover, mas tem fracassado por todos os motivos
conhecidos.
O nome do projeto, que já era esperto quando foi concebido, tornou-se
ainda mais eficiente num momento em que os principais partidos
políticos do país estão atolados na lama exposta pela Operação Lava Jato
e parte da classe política virou caso de polícia. Assim, em vez do
“político”, estes grupos lançam a figura do “gestor”, aquele que
supostamente está “limpo” porque não foi enlameado pela política,
reduzida por eles a palavrão.
Se há dificuldade de interpretar textos, como esperar que exista
interpretação de subtextos e de entrelinhas? Quantos vão perceber que
negar a política, uma das criações mais potentes do pensamento humano,
responsável por alguns dos maiores avanços da humanidade, é um ato
político? E que se autodenominar “gestor” é uma esperteza política de um
político esperto?
De novo estamos de volta à tragédia da educação. E agora ela ecoa
para muito além dos muros das escolas. A ignorância não é apenas uma
tragédia, mas um instrumento. E, no Brasil, este instrumento nunca foi
usado de forma tão articulada como hoje.
8) Quem silencia?
Como a história ensina, para quem teve a chance de aprender, a
opressão se instala devagar. É um acontecimento aqui, outro lá,
aparentemente sem conexão. E assim ela vai se infiltrando primeiro nas
franjas do cotidiano, nas periferias dos debates. E depois vai avançando
para a área central até tornar-se o próprio centro. A cada novo
linchamento, a cada nova fogueira, e elas são ateadas pela direita, mas
também pela esquerda, muitos têm se calado. Há gente demais se
esquecendo de sua responsabilidade pública e soprando as brasas para
longe de si. Muitos que têm espaço para falar e ressonância para ser
escutado têm silenciado, na esperança de que a vítima mais recente da
inquisição promovida nas redes sociais e em certa mídia se incinere
sozinho na fogueira da sua reputação e que nenhuma brasa caia no seu
quintal. Lamento dizer, mas vai cair. E aí, talvez, seja tarde demais
para reagir.
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum/ Facebook:@brumelianebrum