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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Cuidado com os 'homens de bem'

Por Ruy Castro, para Folha de São Paulo

Incrível como tantos patriotas de Bolsonaro se envolvem com crimes de toda espécie

O patriota com camiseta de Bolsonaro que vandalizou o relógio no Palácio do Planalto tem três passagens pela polícia em Goiás, por ameaça física, tráfico de drogas e receptação de carros roubados. A patriota que, enrolada na bandeira do Brasil na invasão do STF, gabou-se de ter emporcalhado o banheiro dos ministros, também tem uma condenação por tráfico, em Santa Catarina. E outro patriota capturado nos distúrbios, munido de bombas, estilingues e material para coquetel molotov, era foragido por ter matado um homem a facadas no Pará em 2018.

Um patriota do Paraná, suspeito de ter fretado quatro ônibus que levaram golpistas de Londrina a Brasília, já cumpriu dois anos por sonegação de R$ 1,2 milhão em impostos. Outro patriota, este de Mato Grosso, foi acusado em 2021 de ameaçar a ex-mulher com uma barra de ferro e, ao ser preso, jurou matá-la "assim que saísse da cadeia". A quantidade de infratores da Lei Maria da Penha entre os capturados na praça dos Três Poderes é grande, com destaque para um patriota de Minas Gerais, que tentou esfaquear a mãe.

Todos os patriotas de Bolsonaro se dizem "homens de bem". Mas desde quando "homens de bem" estão associados a tantos problemas com a lei?

O cardápio de crimes em que se envolvem é infinito: genocídio dos yanomamis, contrabando de madeira, garimpo ilegal, assassinato de sertanistas, intimidade com milicianos, arsenais domésticos clandestinos, cocaína no avião presidencial, Viagra e próteses penianas para generais, venda de cloroquina, comissão na aquisição de vacinas, Bíblias a peso de ouro, rachadinhas, compra de mansões com dinheiro vivo, cheques para a primeira-dama, militares com salários de seis dígitos, mamatas com o cartão corporativo, empresários financiadores de terrorismo etc. etc.

Desconfie de gente de camisa amarela e ficha na polícia. Pode ser um "homem de bem".

 

No terceiro andar do Palácio do Planalto, um pedaço vivo da história do país, o relógio que Dom João VI trouxe para o Brasil em 1808 foi destruido as 15h33 . imagens inéditas das câmeras de segurança do Palácio do Planalto. As cenas registradas mostram a destruição promovida pelos extremistas bolsonaristas.

 

segunda-feira, 21 de junho de 2021

ESTRATÉGIA DE COMUNICAÇÃO DA EXTREMA DIREITA

 


Estratégia de comunicação da direita alternativa se alimenta do hiato geracional.

“Hiato geracional” – a perda da função de elo geracional dos idosos, cujo ressentimento alimenta a extrema-direita, deixando os jovens expostos às táticas de guerra híbrida alt-right nas redes sociais.

 Por Wilson Ferreira.

Dois eventos sincrônicos: no Brasil, a motociata convocada por Bolsonaro com seis mil motos de luxo de alta cilindrada montada, em sua maioria, por “tiozões”, brancos, com jaquetas de couro preto emulando a gang famosa dos Hell’s Angels, perfil dos atuais apoiadores do presidente que saem às ruas; e na Inglaterra, o gênio da guitarra Eric Clapton, 76, mais uma vez destilando o negacionismo ao afirmar que as vacinas contra a Covid-19 “podem afetar a fertilidade”. O atual estado de coisas começou com as Jornadas de Junho de 2013 com a energia de jovens secundaristas e universitários. Para terminar com senhores calvos segurando bandeiras neo-nazistas ucranianas em manifestações verde-amerelas de rua em apoio ao “tiozão do churrasco”, personagem performado pelo atual presidente. A estratégia de comunicação da direita alternativa (alt-right) é favorecida por um fenômeno: o “hiato geracional” – a perda da função de elo geracional dos idosos, cujo ressentimento alimenta a extrema-direita, deixando os jovens expostos às táticas de guerra híbrida alt-right nas redes sociais.

 “Ficar velho não quer dizer ficar melhor”. É o slogan que abre a série de “vídeocassetadas” envolvendo idosos no canal Failarmy – líder mundial de compilações de vídeos engraçados envolvendo pequenos acidentes domésticos, esportivos etc.

Ironicamente esse humilde blogueiro lembrou desse slogan quando assistiu a um vídeo em que o famoso e veterano guitarrista Eric Clapton, mais uma vez, posicionou-se contra as vacinas contra a Covid-19, afirmando que elas tornariam as pessoas inférteis. Para ele, estudos científicos e as opiniões de organizações médicas não passariam de “propaganda”.

O gênio da guitarra passou toda a pandemia dando declarações contra o isolamento social e questionando a própria existência de uma pandemia global. Mas em se tratando de Clapton, não é uma novidade: em 2004 lamentou a presença de imigrantes no Reino Unido e chamou o político anti-imigração Enoch Powell de “escandalosamente corajoso”.

Como assim? Por que Eric Clapton, aquele que deu um “shot” no xerife virou um velho ranzinza e reaça de extrema-direita? Tá certo que a cabeça dele já não andava boa nos anos 1970 com tantas drogas e álcool, até passar por uma temporada de reabilitação em Antigua… Já em 1976, Clapton havia protestado contra imigrantes num show em Birmigham. Mas ele diz não se lembrar…

O curioso é que ver um senhor tão talentoso de 76 anos como Eric Clapton dando declarações públicas de extrema-direita faz esse humilde blogueiro lembrar de congêneres brasileiros (guardadas as devidas proporções) como Lobão e Roger do “Ultraje a Rigor”: a idade também não lhes fez nada bem. O primeiro, um bolsonarista arrependido, e o segundo, ainda um bolsominion empedernido.

Além de lembrar as atuais manifestações de apoiadores de Bolsonaro, como também aquelas multidões de camisetas da CBF nas ruas querendo o impeachment da presidenta Dilma.

Nas últimas “motociatas” convocadas por Bolsonaro, a maioria dos integrantes eram homens brancos com mais de 50 anos com motos Harley Davidson, Kawasaki, BMW com propulsores de alta cilindrada e jaquetas de couro emulando a famosa gang Hell’s Angels. Esse é o “núcleo duro”, os bolsonaristas renitentes, verdadeiros “tiozões do churrasco” (aquela figura folclórica que fazia todos rirem com piadas misóginas e tiradas políticas extemporâneas), cuja imagem de Bolsonaro é a desforra de todos os tiozões que já foram zoados em todas as churrascadas da história brasileira.

Mesmo entre os manifestantes de verde-amarelo nas ruas mandando a presidenta tomar naquele lugar, era marcante a dominância de casais de meia idade para cima, esquisitões fascistas mais velhos com camisetas de camuflagem militar e senhores calvos segurando uma bandeira rubro-negra com tridente na Avenida Paulista, São Paulo, símbolo do nacionalismo ucraniano de extrema-direita.

Nada a ver com as manifestações que acenderam o rastilho de pólvora que deu em tudo isso: nas Jornadas de Junho de 2013 e manifestações de ruas subsequentes era massiva a participação de jovens estudantes secundaristas e universitários, além de militantes de novos coletivos políticos.

Hiato geracional

Como interpretar essa guinada etária na recente trajetória política brasileira em que… aquilo deu nisso? Por que o núcleo duro, recalcitrante e birrento, da extrema-direita é formado por apoiadores cinquentões, sessentões e setentões?

Essas questões não surgem do nada. Assim como a até aqui vitoriosa estratégia de comunicação da chamada direita alternativa (alt-right) não veio de um golpe do acaso. Há um fator sociológico e geracional pouco discutido na ascensão desse novo extremismo de direita: o hiato geracional – a crise da função dos idosos como elo geracional, ou seja, como transmissora de sabedoria e conhecimento acumulados em uma existência.

É claro que jovens e idosos são os dois lados de uma mesma moeda nessa questão: Bolsonaro contou com 60% de eleitores entre 16 e 34 anos. Desses, 30% tinham menos de 24 anos (clique aqui). Jovens conduziram um ex-militar com 26 anos de atuação do Baixo Clero do Congresso Nacional. Enquanto, hoje, de cinquentões para cima demonstram o apoio irrestrito ao capitão da reserva nas ruas.

Entre esses dois grupos, o hiato geracional, do qual alimentou a estratégia alt-right de comunicação.

Em culturas tradicionais, onde a velhice e a morte eram simbolicamente incorporadas no dia a dia, os idosos sempre foram “elos geracionais” como transmissores de um saber acumulado, conhecimento e sabedoria. Colocados em posição de destaque na sociedade, o natural declínio físico era compensado pela sabedoria, amor e trabalho unidos em uma preocupação com a posteridade na tentativa de equipar os mais jovens para levar adiante as tarefas dos mais velhos.

Narcisismo e cultura jovem

Desde o pós-guerra e a consolidação da sociedade de consumo através da Publicidade criou-se uma sensibilidade inédita na História: pela primeira vez, o jovem tornou-se o modelo de beleza, felicidade e consumo. Ou a sua versão politizada: a rebeldia e a revolução.

O jovem, o novo e a novidade passaram a ser moralmente bom, enquanto o “velho” (o idoso, o antigo) tornam-se ultrapassados, o oposto do progresso, da evolução ou da revolução. 

Toda a indústria da moda e publicidade vai ao longo das décadas glamorizar o “novo” e a “novidade” como moralmente bom, prazeroso e estimulante. O ápice dessa verdadeira engenharia de opinião pública foi a construção da cultura pop e jovem nas décadas de 1950-60. “Não confie em ninguém com mais de 30”, dizia o desafiante lema jovem da contracultura: os “mais velhos” (pais e autoridades) passaram a ser encarados como “quadrados”, ultrapassados e intrinsecamente conservadores.

Se isso foi positivo em um momento histórico como revolução e crítica, por outro lado seus líderes não perceberam a ambiguidade dessa nova cultura: seria a base imaginária (ao lado do crédito no consumo) de toda a descartabilidade e hedonismo necessários para a aceleração da sociedade de consumo.

Aos idosos restou a papel de negarem-se a si próprios, em primeiro lugar, através das “lições de vida” que os idosos nos ensinariam em pautas motivacionais de telejornais: um senhor de 70 anos que pratica maratonas; uma senhora que aos 75 anos retoma a sala de aula para concluir o ensino médio pensando na universidade e nova carreira profissional; outro senhor de 65 anos diz orgulhar-se por aventurar-se no “mundo das atividades físicas”: “faço atividades físicas com força na academia para fortalecer a musculatura e garantir que tão cedo eu não vou ter que ‘pendurar as chuteiras’”, brinca.

E segundo, todo um aparato terapêutico renovado a cada dia pela indústria farmacêutica na qual a função de “elo geracional” é esquecida: os idosos nada têm a dizer para as câmeras em termos de conhecimento ou sabedoria, a não ser negar a si mesmos numa tentativa a todo custo de aparentar uma atitude positiva e ficar parecidos com os mais jovens.

Christopher Lasch chamava a atenção para esse esvaziamento do elo geracional dos idosos por essas transformações trazidas pelas soluções médicas e sociais.

Lasch acredita que a negação em relação à velhice se deve à cultura da juventude, mas principalmente à perda do interesse dos homens pela vida terrena e o medo da velhice pela ascensão de uma personalidade narcísica.

Por ter o narcisista tão poucos recursos interiores, ele olha para os outros para validar seu senso de eu. Precisa ser admirado por sua beleza, encanto, celebridade ou poder – atributos que geralmente declinam com o tempo. Incapaz de alcançar sublimações satisfatórias nas formas de amor e trabalho, ele percebe que terá pouco para sustentá-lo quando a juventude passar (LASCH, Christopher. “A Cultura do Narcisismo”, R. de Janeiro, Imago, 1983, p. 254-55).

O sofrimento central da velhice (o fato de que vivemos vicariamente em nossos filhos ou em gerações futuras) perde suas formas sublimatórias religiosas ou filosóficas como o amor, a sabedoria e o conhecimento, formas que nos faziam se reconciliar com a nossa própria substituição.

Ressentimento e sublimação

Destituído das formas sublimatórias porque destituído da sabedoria e do conhecimento (afinal, vive numa sociedade em deve “nem parecer que é velho”), a frustração e o ressentimento o tornam presa fácil dos valores propagados como isca pela extrema-direita: justiçamento, intolerância, vingança, culto ao poder como sublimação substituta – idolatrar personalidades “fortes” e a simbologia fálica como motos de alta potência, armas etc. 

Sem terem sabedoria ou o quê dizer aos mais jovens, instaura-se o hiato geracional que isola os jovens num presente extenso – sem o passado, porque os idosos se tornaram uma caricatura de “jovens idosos”; e sem futuro, porque não há nenhuma sabedoria transmitida através da qual seja possível projetar um caminho, uma meta ou mesmo uma utopia.

Nesse presente extenso, os jovens serão igualmente presas fáceis dessa cultura que exala juventude e novidade como verdades em si mesmas: a cultura meme, streamer e influencer. Terreno fértil para fake news e pós-verdades das estratégias alt-right.

Claro que o leitor pode se contrapor a esse argumento sócio-geracional dizendo nem sempre esse elo geracional do passado transmitiu sabedorias positivas para a juventude. Pelo contrário, em geral as sociedades se estruturaram em tradições persecutórias, obscurantistas e reacionárias, em torno do discurso da “moralidade” e dos “bons costumes”.

Porém, a diferença é que em última instância, esse elo geracional mantinha uma sociedade organicamente coesa pelas formas de transmissão cultural por meio da tradição.

Ao contrário, o hiato geracional cria isolamento e vulnerabilidade que permitem a manipulação pelas estratégias políticas midiáticas – o ressentimento que promete a recuperação (ou a sublimação) da potência perdida para os idosos por meio do fascínio pelos simbolismos fálicos na política; e para os jovens, o presente extenso hedonista e niilista.

 

sábado, 22 de maio de 2021

ENTENDA PORQUE BOLSONARISTAS MENTEM


 

A mentira do populista dá credibilidade

  Por Pedro Doria, para Canal Meio

O Flow podcast é um dos mais badalados programas digitais de debate da internet brasileira. De segunda a sexta-feira, exibido a partir das 20h, quando os dois apresentadores se reúnem ao redor da mesa para uma longa conversa com convidados. E, na semana passada, um trecho destes debates explodiu. Se tornou um dos mais badalados assuntos das redes sociais. Enquanto isso, na CPI da Covid, o general Eduardo Pazuello se tornava o terceiro ex-ministro do governo Jair Bolsonaro a sentar perante os senadores e mentir. Mentir, inclusive, a respeito de momentos gravados em vídeo. Facilmente desmontáveis.

No Flow, o confronto foi entre Gabriela Prioli, comentarista da CNN Brasil, e um dos apresentadores. Bruno ‘Monark’ Aiub. Monark vinha falando sobre educação no Brasil quando Gabriela questionou suas premissas. “Isso é muito chato”, ele reclamou. “Não poder conversar, falar sobre o que penso porque não tenho números e estatísticas.” Já não era mais uma conversa sobre um tema. Passava a ser uma conversa sobre como funciona o debate público. “Você pode falar tudo”, argumentou Prioli. “Mas pode estar falando uma mentira se não tiver um dado.” (Assista ao episódio.)

Quando confrontado na CPI após ter dito que o presidente jamais havia dado ordens para não comprar vacinas do Butantã, o ex-ministro da Saúde também se livrou da aparente incoerência. Os senadores o lembravam de que havia um vídeo, de ampla circulação, em que ele comentava com Bolsonaro ao lado — “um manda, o outro obedece”. A ordem do presidente era justamente de não comprar vacinas. “Aquilo foi apenas posição de agente político na internet”, argumentou o general. O que o presidente diz na internet não precisa ser verdade. Para Pazuello, era uma constatação natural. Para os senadores não-governistas, soou como ultraje.

A mentira, assim como um debate não baseado em fatos, fazem parte do arsenal de ferramentas dos novos líderes populistas e autoritários do mundo. Pode parecer paradoxal: mas é a fonte de sua credibilidade perante seus eleitores.

Os dois momentos talvez não pareçam relacionados mas revelam justamente este traço de nossa cultura política transformada pela comunicação digital. Em ambos os casos, a indignação de Monark ao ser cobrado e a maneira como o público bolsonarista recebeu os depoimentos dos ex-ministros na CPI, o que há em comum é uma busca por autenticidade. E, para compreender este processo, é útil pensar em populismo de uma forma nova.

Tradicionalmente, populismo é visto como uma ferramenta política. Um estilo de fazer política.

O desafio de todo líder é juntar eleitores e conquistar eleições. O candidato populista faz isso construindo uma relação de identidade entre ele e o público na qual, juntos, formam um mesmo povo que têm um problema. Seus objetivos não têm sido alcançados por conta da elite. O líder é quem será capaz de furar este bloqueio. O populismo é, por esse ângulo, uma performance do líder político. Um jeito de agir no palanque, um jeito de construir o discurso para seduzir eleitores.

A cientista política inglesa Catherine Fieschi, professora da London School of Economics e diretora da consultoria Counterpoint, é uma dentre uma nova geração na ciência política que propõe enxergar o populismo não como método mas como ideologia. O método é uma tática para conquistar um objetivo — a eleição. Candidatos podem lançar mão de um discurso populista quando lhes interessa ou não. Faz parte do arsenal que têm à disposição. Ideologia é bem mais do que isso. Ideologia é toda uma visão de mundo. É a maneira como se compreende a realidade.

A vantagem desta lente, de enxergar populismo como ideologia, é que fica mais fácil entender como mentiras escancaradas se tornam, para os eleitores destes novos líderes, garantia de maior credibilidade.

Na definição de Fieschi, a ideologia do populismo, um pacote fechado e autossuficiente de ideias, começa na crença de que há um mesmo povo, que é homogêneo e soberano. A democracia deveria garantir — a este povo que é homogêneo — controle sobre a sociedade. Como esta visão rejeita a ideia de que há diversidade social grande, qualquer governo que represente outros anseios é visto, automaticamente, como não democrático. Não representa, afinal, o verdadeiro povo. A ideologia do populismo, neste momento, acusa a traição da democracia e busca quem represente autenticidade.

O conceito liberal de democracia não tem nada disso. Pelo contrário: parte justamente da premissa de que há correntes de opinião distintas na sociedade, de que há anseios diversos. Democracia é a forma que permite que estas correntes possam negociar suas diferenças. Quando um líder populista fala de democracia, porém, ele está falando de algo completamente distinto. Ele está falando como representante do único ‘povo verdadeiro’. A crença de que o ‘povo’ é homogêneo, que quem é diferente está à parte deste ‘povo’, é fundamental nesta ideologia. E é aí que esta ideia de autenticidade é o conceito-chave.

O eleitor que segue a ideologia do populismo está em busca de autenticidade em seus líderes. Esta busca é norteada por uma emoção forte — a do ressentimento. A sensação de que elites humilham quem está embaixo. Não se trata de elite apenas no sentido econômico — a elite compõe, aqui, quem tem autoridade em uma sociedade. Quem tem dinheiro, claro, mas também quem tem poder, e quem tem conhecimento. Este ressentimento nasce da percepção de que seus anseios pessoais, os do povo homogêneo, não podem nunca ser atendidos porque estas elites — quem tem dinheiro, poder ou conhecimento — o impedem. Mais do que isso. As elites tratam de forma depreciativa estes anseios. É como se ter acesso ao poder ou mesmo participar do debate público fosse impossível ao verdadeiro povo. Que é homogêneo.

Autenticidade, portanto, é um jeito de pensar e um jeito de agir. O líder autêntico pensa como o povo. Se manifesta como o povo. E desafia as elites no que vê como sua arrogância. Não joga o jogo conforme as regras da elite. É um herói do povo.

E está lá na frase de Monark para Gabriela Prioli. “Quando falo o que penso”, ele se queixa, “você vem com quais são os dados. Se não tenho os dados, pronto, o que penso está inválido, você nem contempla minha opinião.” Ou seja, o senso comum é desvalorizado. Aquilo que ‘todo mundo pensa’ é desprezado pelas elites. É desprezado porque o senso comum não consegue se impor num debate em que argumentar com fatos é exigido.

Aí, o problema da democracia é que, se num debate é preciso sustentar com argumentos uma visão, as regras do jogo se mostram construídas para impedir que este senso comum baste. E faz isso, segue a percepção, humilhando.

O que o líder populista faz é se recusar a seguir as regras do jogo habitual. Ele é grosseiro. Ignora propositalmente a correção política. É abertamente preconceituoso: racista, xenófobo, homofóbico, chauvinista. E, sim, mente. Mas não mente como políticos costumam mentir. A mentira política comum é aquela que tenta esconder algo. Ou justificar uma decisão errada. São mentiras que têm consequências. As mentiras do populista têm outra natureza. Ele não se baseia em fatos para sustentar suas convicções. Se baseia em impressões, no instinto, em histórias de ouvir falar. Ele não tem justificativas que não o sentimento de que está certo. De que sentir esta certo basta.

Quando mente, quando ignora fatos, está em essência desafiando a ‘lógica do sistema’. A lógica que impede ao seu eleitor que participe do debate. Uma lógica, que o eleitor sente, o oprime.

No centro do novo movimento populista e autoritário está a palavra, o diálogo, a linguagem. Não é à toa. O que o multiculturalismo produziu, nas últimas décadas, foi uma nova linguagem que reconhece uma sociedade heterogênea. Faz parte deste conjunto um novo vocabulário — como, por exemplo, nomear LGBTs, pessoas de outras etnias. Uma busca por palavras que não ofendam. Faz parte, também, um jeito de conversar. A garantia de tempo para quem não é ouvido, respeito à legitimidade da opinião de quem traz a vivência de certas experiências.

Na sua forma mais sutil, o multiculturalismo reflete uma particular atenção à cortesia e o respeito aos espaços de fala de quem tem certas experiências de vida. Na forma mais radical, abole a designação de gênero, todes, todxs. Mas, principalmente, o multiculturalismo é esta nova linguagem que existe para reconhecer diversidade. Esta é a essência do multiculturalismo, do cosmopolitismo liberal progressista que se implantou nas últimas décadas. É natural, portanto, que a ideologia que reage a esta mudança comece por uma repulsa à linguagem.

A linguagem do neopopulismo será caricaturalmente grosseira e rejeitará qualquer discussão que, por princípio, reconheça a sociedade como heterogênea. Seu princípio é justamente não reconhecer a diferença. Só o ‘povo homogêneo’ existe.

“Há um paradoxo a respeito da palavra”, escreve Fieschi em Populocracy: The Tyranny of Authenticity and the Rise of Populism (Amazon Brasil), livro que lançou em 2019. Populocracia: A Tirania da Autenticidade e a Ascensão do Populismo, não lançado no Brasil. “Por um lado, muitos dos com quem conversei valorizam a compreensão instantânea um do outro, de pessoas ‘como eles’. Valorizam que se diga as coisas na cara, com clareza ainda que grosseira. Valorizam uma sociedade em que se pode dizer o que se pensa com a garantia de que ninguém será mal compreendido.” E este é o problema percebido no multiculturalismo. Em sociedades europeias nas quais a transformação passa pela chegada de imigrantes, gente com sotaques e tons diversos de cor na pele, o multiculturalismo interdita a conversa sobre o desconforto que muitos sentem com estas pessoas diferentes. Noutras sociedades, como a brasileira, o novo vocabulário da política dificulta a entrada no debate para quem rejeita políticas públicas voltadas para os tradicionalmente excluídos para quem é tradicionalmente excluído — mulheres, negros, indígenas etc.

O foco está, sempre, em rejeitar a ideia de que o povo é composto por grupos com muitas diferenças e reforçar a ideia de um povo verdadeiro e homogêneo.

Daí que ignorar fatos e falar o que se sente é ser autêntico. Ir a um interrogatório de CPI e ignorar por completo as normas habituais — recusar as regras do jogo — é igualmente ser autêntico. Amplia a credibilidade, não a diminui. Porque rejeita a linguagem da democracia liberal, multicultural, para abraçar um outro conceito de democracia. Um significado em todo diferente para a palavra.

“A mentira do populista”, escreveu a cientista no Guardian, “tem por objetivo ser percebida. É o contrário da mentira que quer esconder algo. No jogo que o populista joga, mentir é glorificado. É um instrumento de subversão, seu objetivo é mostrar que o líder cruzará qualquer limite para ‘servir ao povo’. Estas mentiras são símbolos de que estes políticos não se restringem às normas correntes da elite liberal democrata. Enquanto liberais democratas se preocupam em sinalizar virtude, populistas sinalizam repulsa.”

Repulsa à diversidade. A um mundo transformado.

É uma política de apelo aos instintos, não ao cérebro.

 

 

 Fonte da Imagem: https://br.pinterest.com/pin/662169951435691700/


 

domingo, 7 de março de 2021

NA CASA DA TUA MÃE

 


 

Ascânio Seleme

 

Jair, onde você absorveu tanta arrogância? Onde você iniciou o processo involutivo que o transformou no indivíduo tosco que deixa o Brasil atônito? Foi na casa da tua mãe.

Onde você emburreceu tanto e virou esse indivíduo desconectado do mundo civilizado? Onde você encontrou tanta gente obtusa como você para reunir ao seu redor? Foi na casa da tua mãe.

Onde você teve seu caráter desviado de forma tão radical que alcança até mesmo todos os zeros que você criou? Foi na casa da tua mãe.

Capitão, onde você construiu toda a perversidade que escorre em suas veias e baba da sua boca? Onde você foi encontrar tanto ódio que se percebe claramente no seu olhar e na sua risada sádica? Foi na casa da tua mãe.

Onde foi concebido este espírito antidemocrático que o domina de maneira irrevogável e que ameaça um país inteiro? Foi na casa da tua mãe.

Onde o seu coração de pedra foi lapidado, ou dilapidado? Onde foi que o endureceram de tal forma que a empatia não consegue penetrar? Foi na casa da tua mãe.

Diga, onde talharam e envernizaram esta sua lustrosa cara de pau? Onde você aprendeu a mentir tanto, Jair? Foi na casa da tua mãe.

Onde mesmo foi que te ensinaram que chorar por seus mortos é frescura e mimimi?

Onde foi que você descobriu que os corajosos enfrentam o vírus e saem às ruas? Na casa da tua mãe.

Onde você aprendeu a roubar, a desviar dinheiro público para comer gente? Teria sido no mesmo lugar em que você ensinou seus filhos a fazer rachadinhas? Foi na casa da tua mãe.

Jair, onde você se tornou homofóbico e misógino? Onde começou a entender que mulher é filha da fraqueza e gay deve levar porrada? Foi na casa da tua mãe.

Conte onde foi que você descobriu que o Brasil é um país de maricas? Foi na casa da tua mãe.

E onde você percebeu que há excessos de direitos no Brasil? Foi na casa da tua mãe.

Capitão, onde você se afastou da luz e mergulhou nas trevas? Onde você aprendeu que torturar e matar fazem parte da vida? Foi na casa da tua mãe.

Onde te ensinaram que a ditadura errou por torturar e não matar? Aposto que foi no mesmo lugar onde você ouviu que os porões deveriam ter fuzilado 30 mil corruptos e erraram por não matar Fernando Henrique Cardoso. Foi na casa da tua mãe.

Diga, onde você entendeu que Pinochet, o mais sanguinário ditador latino americano, devia ter matado mais gente? Foi no mesmo lugar em que você passou a idolatrar o torturador Brilhante Ustra? Foi na casa da tua mãe.

Onde foi, Jair, que você descobriu que fazer cocô dia sim, dia não, melhora o meio ambiente? Que comer menos resolve o problema das queimadas? Foi na casa da tua mãe.

Explique, onde você percebeu que trabalho infantil, de meninos e meninas com menos de dez anos de idade, não prejudica em nada as crianças? Foi na casa da tua mãe.

Conte, onde foi mesmo que te disseram que é uma grande mentira falar que tem gente passando fome no Brasil? Que isso só acontece em outros países? Foi na casa da tua mãe.

Onde te ensinaram que é correto beneficiar filhos, como os zeros que você tem, quando se exerce cargo público, capitão? Foi na casa da tua mãe.

Finalmente, onde foi mesmo que você virou este monstro que assombra o país e espanta o mundo? Foi na casa da tua mãe.

 



Fonte: https://oglobo.globo.com/brasil/na-casa-da-tua-mae-24912396
Publicado em 06 de março de 2021. 

 

Imagem: Museu do Prado, Madri, Espanha.

domingo, 19 de abril de 2020

ESTUPIDEZ X VAIDADE

(Entenda como pensa a maioria dos seguidores de Bolsonaro).

Efecto Dunning-Kruger, o por qué mucha gente opina de todo sin tener ni idea

 
El efecto Dunning-Kruger puede resumirse en una frase: cuanto menos sabemos, más creemos saber. Es un sesgo cognitivo según el cual, las personas con menos habilidades, capacidades y conocimientos tienden a sobrestimar esas mismas habilidad, capacidades y conocimientos. Como resultado, suelen convertirse en ultracrepidianos; gente que opina sobre todo lo que escucha sin tener idea, pero pensando que sabe mucho más que los demás.



Por Jennifer Delgado Suárez via Rincón de la psicología



El problema es que las víctimas del efecto Dunning-Kruger no se limitan a dar una opinión ni a sugerir sino que intentan imponer sus ideas, como si fueran verdades absolutas, haciendo pasar a los demás por incompetentes o completos ignorantes, cuando en realidad no es así. Obviamente, lidiar con estas personas no es fácil porque suelen tener un pensamiento muy rígido.


El delincuente que intentó volverse invisible con zumo de limón

A mediados de 1990 se produjo en la ciudad de Pittsburgh un hecho que podríamos catalogar, cuanto menos, de sorprendente. Un hombre de 44 años atracó dos bancos en pleno día, sin ningún tipo de máscara para cubrir su rostro y proteger su identidad. Obviamente, aquella aventura delictiva tuvo una vida muy corta ya que el hombre fue detenido rápidamente.

Cuando lo apresaron, McArthur Wheeler, que así se llamaba, confesó que se había aplicado zumo de limón en la cara ya que este le haría invisible ante las cámaras. “¡Pero si me puse zumo de limón!”, fue su asombrada respuesta cuando lo arrestaron.

Más tarde se conoció que la idea del zumo fue una sugerencia de dos amigos de Wheeler, quienes bromearon sobre el hecho de que atracarían un banco usando esa técnica para que no los reconocieran. Wheeler puso a prueba la idea aplicándose zumo en su cara y sacándose una fotografía, en la cual no apareció su rostro. Es probable que se debiera a un mal encuadre, pero aquella “prueba” fue definitiva para Wheeler, quien decidió llevar adelante su plan «genial».

La historia llegó a oídos del profesor de Psicología social de la Universidad de Cornell, David Dunning, quien no podía dar crédito a lo que había sucedido. Aquello le llevó a preguntarse: ¿Es posible que mi propia incompetencia me impida ver esa incompetencia?

Ni corto ni perezoso, puso manos a la obra, junto a su colega Justin Kruger. Lo que hallaron en la serie de experimentos que realizaron los dejaron aún más sorprendidos.


El estudio que dio origen al efecto Dunning-Kruger

En una serie de cuatro experimentos, estos psicólogos analizaron la competencia de las personas en el ámbito de la gramática, el razonamiento lógico y el humor.

A los participantes les pidieron que estimaran su grado de competencia en cada uno de esos campos. A continuación, debían realizar una serie de test dirigidos a evaluar su competencia real.

Entonces los investigadores notaron que cuanto mayor era la incompetencia de la persona, menos consciente era de ella. Aunque es paradójico, las personas más competentes y capaces solían infravalorar sus competencias y conocimientos. Así surgió el efecto Dunning-Kruger.

Estos psicólogos concluyeron además que las personas incompetentes en cierta área del conocimiento:

– Son incapaces de detectar y reconocer su incompetencia.

– No suelen reconocer la competencia del resto de las personas.

La buena noticia es que este efecto se diluye a medida que la persona incrementa su nivel de competencia ya que también se vuelve más consciente de sus limitaciones.


¿Por qué cuanto menos sabemos, más creemos saber?

El problema de esta percepción irreal se debe a que para hacer algo bien, debemos tener al menos un mínimo de habilidades y competencias que nos permitan estimar con cierto grado de exactitud cuál será nuestro desempeño en la tarea.

Por ejemplo, una persona puede pensar que canta estupendamente porque no tiene ni idea de música y no conoce todas las habilidades necesarias para controlar adecuadamente el tono y timbre de la voz y llevar el ritmo. Eso hará que diga que “canta como los ángeles”, cuando en realidad tiene una voz espantosa.

Lo mismo ocurre con la ortografía, si no conocemos las reglas ortográficas, no podremos saber dónde nos equivocamos y, por ende, no seremos conscientes de nuestras limitaciones, lo cual nos llevará a pensar que no cometemos errores ortográficos.

De hecho, el efecto Dunning-Kruger se puede apreciar en todas las áreas de la vida. Un estudio realizado en la Universidad de Wellington reveló que el 80% de los conductores se califican a sí mismos por encima de la media, lo cual, obviamente, es estadísticamente imposible.

Este sesgo cognitivo también se aprecia en el ámbito de la Psicología. Tal es el caso de las personas que afirman que “mi mejor psicólogo soy yo mismo”, simplemente porque desconocen por completo cómo les puede ayudar este profesional y la complejidad que encierran las técnicas psicológicas.

En práctica, creemos que sabemos todo lo que es necesario saber. Y eso nos convierte en personas sesgadas que se cierran al conocimiento y emiten opiniones como si fueran verdades absolutas.


¿Cómo minimizar el efecto Dunning-Kruger, por nuestro propio bien?

Todos cometemos errores por falta de cálculo, conocimientos y previsión. La historia está repleta de errores épicos, como el de la emblemática Torre de Pisa, que comenzó a inclinarse incluso antes de que terminara la construcción. Hace tan solo unos años, el gobierno francés gastó 15.000 millones de euros en una flota de 2.000 trenes nuevos, para después descubrir que eran demasiado anchos para 1.200 de sus estaciones, lo cual les llevó a invertir aún más para acondicionar esas estaciones.

En nuestro día a día también podemos cometer errores por falta de experiencia y por sobreestimar nuestras capacidades. Los errores no son negativos y no debemos huir de ellos sino que podemos convertirlos en herramientas de aprendizaje, pero tampoco es necesario tropezar continuamente con la misma piedra ya que llega un punto en que resulta frustrante.

De hecho, debemos mantenernos atentos a este sesgo cognitivo porque la incompetencia y la falta de autocrítica no solo hará que lleguemos a conclusiones equivocadas sino que también nos impulsará a tomar malas decisiones que terminen dañándonos.

Esto significa que, en algunos casos, la responsabilidad por los “fracasos o errores” que experimentamos a lo largo de la vida no recae en los demás ni es culpa de la mala suerte sino que depende de nuestra deficiente autoevaluación.

Para minimizar el efecto Dunning-Kruger y no convertirnos en esa persona que opina sobre todo sin tener idea de nada, lo más importante es aplicar estas sencillas reglas:

– Sé consciente al menos de la existencia de este sesgo cognitivo.

– Deja siempre un espacio para la duda, para formas diferentes de pensar y hacer las cosas.

– Opina siempre desde el respeto a los demás. Por muy seguro que estés de tu opinión, no intentes imponerla.

Debemos recordar que nadie es experto en todas las materias de conocimiento y ámbitos de la vida, todos tenemos carencias e ignoramos muchas cosas. Por tanto, lo mejor es enfrentar la vida desde la humildad y con la actitud del aprendiz.


¿Cómo lidiar con las personas que no reconocen su incompetencia o desconocimiento?

Las personas que opinan de manera tajante sobre todo sin tener idea y que subestiman a los demás, suelen generar un gran malestar. Nuestra primera reacción suele ser irritarnos o enfadarnos. Es perfectamente comprensible, pero no servirá de nada. En su lugar debemos aprender a mantener la calma. Recuerda que solo puede afectarte aquello a lo que le das poder, lo que consideras significativo. Y sin duda, la opinión de una persona que no es experta en la materia y ni siquiera sabe de lo que habla, no debería ser significativa.

Si no deseas que la conversación vaya más allá, simplemente dile: “He escuchado tu opinión. Gracias”, y zanja el asunto. Si realmente te interesa que esa persona salga de su estado de desconocimiento y sea más consciente de sus limitaciones, lo único que puedes hacer es ayudarle a desarrollar sus habilidades en esa área.

Evita frases como “no sabes de lo que hablas” o “no tienes ni idea” porque de esta forma solo lograrás que esa persona se sienta atacada, asuma una actitud defensiva y se cierre a tus propuestas. En su lugar, plantea una nueva perspectiva. Puedes decir: “ya te he escuchado, ahora imagina que las cosas no fueran exactamente así”. El objetivo es lograr que esa persona se abra a opiniones y formas de hacer diferentes.

También puedes recalcar la idea de que todos somos inexpertos o incluso profundos desconocedores en algunos campos, no es algo negativo sino una increíble oportunidad para seguir aprendiendo y crecer como personas.

Por Jennifer Delgado Suárez
Delgado es psicóloga y divulgadora científica a tiempo completo.

vía Rincón de la psicología

Leia Mais: https://culturainquieta.com/es/inspiring/item/16702-efecto-dunning-kruger-o-por-que-mucha-gente-opina-de-todo-sin-tener-ni-idea.html

domingo, 26 de janeiro de 2020

Política cultural e nazismo: lições da História na Alemanha



Por Fátima Lacerda


Uma das lições da Alemanha pós-nazismo é o artigo 30 da Constituição (GG, na sigla), estipulando que assuntos culturais são de incumbência das regiões geopolíticas Länder (ao todo, dezesseis distritos), garantindo suas respectivas autonomias e respeitando suas nuances culturais.

Logo depois da ascensão de Hitler ao poder como chanceler do Reich, em janeiro de 1933, o setor cultural na Alemanha passou a ser centralizado e submetido a um aparato de controle que, na sequência, foi aperfeiçoado pelo ministro Joseph Goebbels (1897-1945).

Em março de 1933, surgiu o Ministério de Esclarecimento e Propaganda, como instrumento central da política nazista. Quaisquer medidas referentes a ele tinham que passar pelas mãos de Goebbels, que, com essa incumbência, ganhou ainda mais poder dentro do gabinete.

O ministro do Reich para Esclarecimento e Propaganda (RMVP, na sigla) era responsável por todos os setores de arte do país, pela propaganda para o Estado, cultura e ciência, e pela veiculação de informações de cunho nacional e internacional. Como desdobramento desse ministério, foi criada a Câmara de Cultura do Reich (Reichskulturkammer), decretada pelo próprio Hitler em 22 de setembro de 1933, com o objetivo de, meticulosamente, catalogar e monitorar todo o setor cultural. Para isso, foram criados sete setores: filmes, literatura, imprensa, teatro, rádio, belas artes e música.

A partir de então, quem quisesse exercer atividade artística no país tinha que apresentar carteira de membro de sua Câmara específica. Quem não conseguisse provar sua origem ariana não seria aceito e, consequentemente, ficaria proibido de exercer a arte.

Hitler, Goebbels e Garbo

O ditador e seu lacaio preferido eram unidos por mais do que uma ideologia sórdida, mas também pelo cinema. Hitler via nesse setor a chance de dar glamour ao seu regime e Goebbels, um dramaturgo e escritor frustrado, achava que era a ocasião perfeita para desfilar entre estrelas e estrelinhas. Os dois acreditavam piamente no poder persuasivo e na emocionalidade dos filmes.

A paixão pelo cinema de Hollywood também unia o ditador e seu principal articulador. Os dois se tornaram fãs de Greta Garbo depois de assistir ao filme A dama das camélias. Em seu diário, Goebbels escreve, emocionado: “Tudo é só reverência frente grande e solitária mulher”. E acrescenta: “Nós ficamos muito emocionados e tocados sem vergonha pelas lágrimas”.

Adicionada ao nostálgico olhar para a grande fábrica de sonhos, Hollywood, a inveja também era companheira de Goebbels, que tinha de presenciar o triunfo dos filmes em technicolor enquanto a alemã Agfacolor ainda penava no estágio de desenvolvimento e pesquisa.

Ao assistir …E o vento levou, em 1939, Goebbels classificou como “maravilhoso” ver os atores em cores. Ainda de acordo com uma notinha em seu diário, Hitler via no filme colorido “o futuro do cinema”, como publicou uma documentação da revista Der Spiegel em 2011: “Arma propagandista Agfacolor – A lição de cores de Goebbels”, de autoria de Benjamin Maack.

Em 1939, Goebbels anunciou a produção do filme Mulheres são os melhores diplomatas. Com ele, o ministro queria provar ser páreo para a concorrente americana. Com um orçamento muito maior do que o normal para filmes em preto e branco na época, Goebbels colocava todas as suas expectativas na fita. Porém, o material Agfacolor ainda exibia falhas técnicas, com manchas azuis. Deu-se um cenário grotesco no desenvolvimento do material, paralelamente às filmagens. Devido a defeitos na fita, cenas tiveram que ser rodadas várias vezes, aumentando o orçamento do filme. No dia 31 de outubro de 1941, já durante a Segunda Guerra, ocorreu a estreia. A imprensa, na época pasteurizada e neutralizada, falou de “um dia histórico para o filme alemão”, exatamente a retórica desejada pelo ministro. Goebbels elogiou a fita, criticou o enredo e afirmou: “Fizemos um grande avanço”.

Nos anos seguintes, mesmo com a guerra, Goebbels tinha os filmes como sua ferramenta preferida. Determinava todos os itens referentes à produção cinematográfica: da escolha do enredo e dos roteiros até a aprovação de atores e pontas.

Berlim 1936 – Riefenstahl, “a histérica”

As lentes do cinema e da TV foram escolhidas como o melhor instrumento de manipulação do regime. Os Jogos Olímpicos de Berlim seriam o momento perfeito para mostrar para o mundo o lado mundano e liberal do sistema. Para isso, Hitler deu carta branca à sua cineasta preferida: Leni Riefenstahl.

Hitler cumpria os parâmetros do Comitê Olímpico Internacional, como país anfitrião, ao registrar os jogos, e ansiava ter a raça ariana retratada de forma estética por Riefenstahl. Só para realizar o projeto que tinha o maior desafio técnico do momento, Riefenstahl arrecadou 2,8 milhões de reichsmark (a moeda da Alemanha entre 1924 e 1948) de Hitler e a certeza de que ninguém, nem mesmo Goebbels, daria palpites de quaisquer natureza em seu trabalho.

No livro Berlin 1936 (editora Siedler), o autor Oliver Hilmes descreve, de forma meticulosa, os dezesseis dias dos jogos e a agenda dos grandes poderosos da época. Goebbels chama Riefenstahl de “histérica” e diz que “se comporta de forma incabível. Afinal, ela não é um homem”. Várias vezes, o tom ficou acalorado entre os dois. Brigas homéricas, em alto e bom som, pelas exigências meticulosas de Riefenstahl para posicionar sua equipe da melhor forma.

Em seu diário, Goebbels exibia desagrado sobre a posição privilegiada de Riefenstahl, que tinha costas quentes com o ditador. O cachê para Riefenstahl por seu trabalho como diretora foi, inicialmente, de 250 mil reichsmark, até chegar a 400 mil. Para que o governo não aparecesse como empregador, foi especialmente criada a produtora Olympia-Film GmbH, da qual Leni e seu irmão, Heinz, eram os donos.

Roberto Alvim no topo

O vídeo veiculado pelo governo Bolsonaro não deixa nenhum detalhe por acaso: nem a música de Richard Wagner, compositor favorito de Hitler, a foto de Bolsonaro pregada na parede, o discurso sobre a proclamação da arte de cunho nacional a serviço do Estado e sua ideologia, a expressão de subserviência e agradecimento ao seu grande mentor, banhado de patriotismo. Ele esclarece: “Quando eu assumi esse cargo, em novembro de 2019, o presidente me fez um pedido. Ele pediu que eu faça uma cultura que não destrua, mas que salve, a nossa juventude”.

Num discurso pérfido e copiado de uma fala de Joseph Goebbels, Alvim se vê no topo de suas ambições. Existem várias similaridades entre seu anúncio sobre os novos “rumos” da arte, neutralizando o seu DNA, o fomento da subjetividade e o plano diabólico de Hitler ao assumir o cargo de chanceler do Reich.

Na opinião do ex-Secretário Especial, a arte deve servir aos anseios do povo brasileiro. Com a criação da Câmara da Cultura do Reich, Goebbels tinha em mente a neutralização das artes e tomava as rédeas para classificar de “arte desnaturada” (Entartete Kunst) tudo o que fosse contra o sistema.

Demissão

Que Roberto Alvim tenha sido exonerado horas depois da veiculação do vídeo não é nenhum motivo de alívio ou mesmo de euforia. O fato dele ter chegado ao cargo já é um indício quase irrefutável da pérfida política cultural do atual desgoverno. O olhar brilhante e de regozijo decreta que a arte ou será do jeito que o governo quer ou não será.

Em declaração à Rádio Gaúcha, Alvim alegou que teria sido uma “coincidência retórica” referir-se à frase de Goebbels, ao mesmo tempo em que culpou seus assessores por procurar no Google o tema “nacionalismo em arte”.

O alinhavar da retórica fascista

Mesmo separados por fronteiras geográficas, os retóricos fascistas contemporâneos exibem um plano diabólico, mas totalmente transparente. Em sua retórica – sejam eles Roberto Alvim ou Björn Höcke, a face do fascismo alemão que integra o “corredor radical” do partido Alternativa para a Alemanha -, o procedimento é sempre o mesmo. Joga-se num texto uma frase relativizando o Holocausto ou vangloriando algum nazista que a opinião pública sai em manifestações de repúdio, os trending topics do Twitter embarcam na onda de repúdio e revolta e durante dias só se fala naquele assunto. Da próxima vez, o choque já não será tão forte. Assim, em doses entre cavalares e homeopáticas, a retórica fascista vai se enfronhando nas conversas de botequim, nas esquinas, nos clubes de futebol, em toda a sociedade. Ao ser indagado pelo repórter da rede pública ZDF se trechos de seus discursos seriam do livro Minha luta”, de Adolf Hitler, Höcke procurou abrigo na esquina vitimista, como de praxe, e mergulhou na retórica do “mal entendido”, do “mal interpretado”.

A exoneração de Roberto Alvim é somente um paliativo no plano diabólico dos fascistas que governam o Brasil. O plano de neutralização continua na agenda de Bolsonaro, que anseia o triunfo do mediano, simbolizado em filmes apolíticos e superficiais, na intimidação e difamação da classe artística como um todo.

O discurso de Alvim reverberou nos principais veículos de comunicação na Alemanha. Em alguns deles, com a errônea denominação de “ministro da Cultura”, e não Secretário Especial da Cultura:

No canal Euronews, em língua alemã.
No portal Spiegel Online.
No portal da rádio aberta Deutschland Funk.

***

Fátima Lacerda é carioca, radicada em Berlim desde 1988 e testemunha ocular da queda do Muro de Berlim. Formada em Letras (RJ), tem curso básico de Ciências Políticas pela Universidade Livre de Berlim e diploma de Gestora Cultural e de Mídia da Universidade Hanns Eisler, Berlim. Atua como jornalista freelancer para a imprensa brasileira e como curadora de filmes.

Fonte do Texto: http://desacato.info/politica-cultural-e-nazismo-licoes-da-historia-na-alemanha/

Fonte da Imagem: https://www.wallpaperflare.com/static/86/466/462/giant-tentacles-eldritch-monster-wallpaper.jpg

terça-feira, 9 de julho de 2019

UMA GUERRA PERDIDA





O bolsonarismo trava uma guerra perdida: as novas gerações não engolem a agenda moralista


Rosana Pinheiro-Machado
9 de Julho de 2019, 0h03


Existem duas maneiras de narrar e interpretar a reação e os desdobramentos da conferência que ministrei em São Borja, município de grande importância para o imaginário gaúcho, onde estão enterrados Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola, no início de julho. Elas são também duas maneiras de interpretar o Brasil de hoje.

A notícia da 44ª edição da minha palestra Da Esperança ao Ódio, na Unipampa, não foi bem-recebida no “Texas gaúcho”, como São Borja é chamada por seus habitantes. Homens, que têm orgulho de serem “xucros”, diriam que isso ocorreu porque nos pampas tem mais macho valente do que em outros lugares do mundo. Afinal, como comentavam algumas pessoas nas redes sociais: “aqui essa mocreia (sic) não se cria.”

Dei a palestra como de costume. Os ataques seguiram um roteiro conhecido. Alguns bolsonaristas comparecerem ao evento, fotografaram slides fora de contexto da fala e desapareceram. No outro dia, estava na internet a mentira de que eu havia chamado Bolsonaro de vagabundo, mesmo que houvesse centenas de testemunhas para provar o contrário.

Acusaram-me de usar dinheiro público para difamar a imagem de Bolsonaro. Um colega especialista no monitoramento de redes sociais, que pediu anonimato, me contou que minha imagem foi uma das mais compartilhadas no WhatsApp naqueles dias no Brasil. Nos comentários de posts que viralizaram, chamavam-me de puta, baranga, corrupta, criminosa e teve até quem lamentasse que eu não estava na Boate Kiss, que pegou fogo em Santa Maria, onde moro, em 2013, matando cerca de 250 jovens e ferindo gravemente mais de 600.

Eles sentiam ódio por eu dizer que no Brasil havia ódio.

Áudios no Whatsapp circulavam denunciando a professora “doutrinadora”, pedindo punição severa. Ao lado da foto de Glenn Greenwald, minha imagem foi estampada no tradicional jornal local, Folha de São Borja, dizendo que eu fazia política na universidade. Eles sentiam ódio por eu dizer que no Brasil havia ódio.

Os posts disparadores dos ataques vinham de homens tradicionalistas da faixa de 50 anos para cima. Todos eles tinham fotos de perfil e de capa no Facebook exibindo cavalos, chimarrão e a bandeira do Rio Grande do Sul. Seguindo a linha dada pelos homens, as mulheres da mesma faixa etária e com fotos de flores na capa do Facebook eram as mais agressivas nos comentários.

Não deve ser mera coincidência o fato que, nas manifestações pró-Moro em 30 de junho, chamava atenção a elevada faixa etária das pessoas que estavam nas ruas. Há um fator geracional que precisamos observar com mais atenção para compreender a radicalização do bolsonarismo. Quem, em última instância, ainda apoia um governo sem projeto e um juiz parcial?


A última pesquisa do DataFolha não deixa dúvida que, quanto mais velha é a pessoa, mais ela tende a apoiar irrestritamente a conduta inadequada da Lava Jato. A reprovação das conversas entre procuradores e o ex-juiz é de 62% entre pessoas de 35 a 44 anos, 50% entre pessoas de 45 a 59 anos e cai para 44% entre pessoas acima de 60 anos.

O Rio Grande do Sul pode ser entendido como um caso extremo e caricato do bolsonarismo. 

Bolsonaro empodera esse homem que se sente perdendo privilégios e nostálgico de um Rio Grande virtuoso. A metade sul do estado, por exemplo, que tanto povoa o imaginário fronteiriço, está economicamente empobrecida, mas se alimenta de histórias de um passado grandioso. O ex-capitão satisfaz esse gaúcho que idealiza o passado, cuja cultura popular exalta um homem armado e orgulhoso de ser tosco, grosso e simples. Bolsonaro é a projeção daquilo que é, ao mesmo tempo, melancolia e frustração.

Em “Como Funciona o Fascismo”, o filósofo Jason Stanley elenca o apreço ao passado mítico, glorioso e puro como a primeira característica do fascismo. Nesse passado, reina a família patriarcal e papéis de gênero tradicionais. (Não estou sugerindo que toda exaltação ao passado é fascista; apenas que a fantasia demasiadamente arraigada a um mundo que não se viveu, somada a um contexto de crise e profunda transformação, pode ser um terreno fértil para o fascismo). Segundo o autor:

“Na retórica nacionalista [ou regionalista], esse passado foi perdido pela humilhação provocada pelo globalismo. Esses mitos geralmente se baseiam em fantasias de uma realidade pregressa inexistente que sobrevive nas tradições das pequenas cidades e do campo (…). A função do passado mítico na política fascista é aproveitar a nostalgia e emoção para princípios centrais da ideologia fascista: autoritarismo, hierarquia, pureza e luta.”

Dada tal fusão de valores morais bolsonaristas com a mítica gaúcha, não estranha o fato de que, segundo a última pesquisa Ibope, ao mesmo tempo em que cresce a reprovação do governo Bolsonaro como um todo no Brasil (de 27% em abril para 32% em junho), cresce a sua aprovação na região sul (de 44% para 52%).

O ataque sofrido por mim é ilustrativo do autoritarismo patriarcal sobre o qual se agarra a geração mais velha de uma região economicamente decadente. Mas contra o que, exatamente, esse núcleo duro bolsonarista está lutando?

A 44ª versão da minha palestra na Unipampa foi inesquecível. Professores e estudantes do curso de Publicidade organizaram um evento impecável pelo profissionalismo. No cerimonial de abertura, um estudante tocou e cantou “Tempo Perdido” de Legião Urbana.

Com duas horas de antecedência, o auditório já estava lotado, fazendo com que muitos estudantes sentassem no chão ou ficassem de pé. Muita gente viajou até 200 km para estar lá. As perguntas dirigidas a mim eram instigantes, dignas de jovens com aguçado espírito acadêmico. Ao final, passei 30 minutos recebendo abraços apertados e palavras de apoio. Os longos aplausos não eram para mim, mas para o significado e a força daquele evento. Havia ali uma verdade tangível: nós poderíamos ver, tocar e sentir estudantes qualificados e mobilizados pela universidade pública. No velho oeste, ocorreu um evento cheio de esperança.

A palestra não ocorreu em qualquer universidade, mas na Unipampa, que é um exemplo da expansão e renovação do ensino superior dos últimos anos. Foi criada em 2008, no governo Lula, para trazer desenvolvimento a uma região empobrecida. Na plateia, havia estudantes negros, LGBTs e muitas meninas feministas. Além disso, chamou-me atenção a presença de estudantes de outros estados, já que o Enem possibilitou uma maior mobilidade geográfica. São Borja, que é uma cidade muito bonita e cheia de história, é hoje também habitada por corpos diversos que renovam a região.

No velho oeste, ocorreu um evento cheio de esperança.

Como já disse por aqui, a gente não pode esquecer que a vitória da extrema direita é também uma reação a muitas conquistas que vieram para ficar.

Quem eram os bolsonaristas que me atacaram? Na palestra, eles eram dois ou três. Por que eles não exerceram seu direito de protestar no evento? Provavelmente porque faltou gente de apoio – e também porque faltou coragem. Na verdade, eu teria incontáveis casos para contar com o mesmo roteiro insosso: jovens de extrema direita agitam nas redes sociais e ameaçam protestar em uma palestra minha, mas raramente comparecem como o alardeado. Quando comparecem, chegam em número insignificante e se sentem intimidados pela maioria. Macho valente? Só nas redes sociais.

O ataque baixo que sofri cheira a desespero. Desespero da radicalização dos que sobraram, da nostalgia bolsonarista de uma geração que se sente perdendo uma cruzada moral. Isso, é claro, após a Vaza Jato e queda da popularidade de Sergio Moro. Os guerreiros estão a postos para defender seu heróis.

Essa é uma guerra perdida. Como disse Fabio Malini sobre as manifestações do dia 30 de junho: “o bolsonarismo é o teto do progressismo dos mais jovens. Com data de validade. É um passado lutando para se manter no futuro. Uma luta, sabemos, inútil”.

As novas gerações são muito mais progressistas do que as anteriores. Basta olhar a pesquisa Datafolha sobre a reprovação da conduta da Lava Jato: 73% de jovens entre 16 a 24 anos acham inadequado o comportamento dos procuradores e do ex-juiz. O abismo geracional é evidente.

A profunda transformação da sociedade brasileira pelas novas gerações é um caminho sem volta. Não há nada que possa impedir isso. Ninguém vai voltar para o armário. Certa vez, o antropólogo Darcy Ribeiro disse a um primo meu: “os velhos irão morrer. Esse é o curso da vida, é para os jovens que temos que focar nossas ações”.

Eu não terminaria esta coluna na posição comodista que repete o clichê: “eu acredito mesmo é na rapaziada”. A responsabilidade de lutar pelas instituições – para que esses jovens possam ocupá-las daqui dez anos – é daqueles que hoje têm cargos nas escolas, universidades, na justiça, na imprensa e em todas as esferas da sociedade civil.

Como me disse a senhora que trabalha na padaria perto da minha casa: “ih… se tu achas a minha neta de 20 (anos) feminista, é porque tu não conheceu a de 12”.

Fonte da Imagem: https://www.miniedmonton.com/2018/11/08/squishing-the-bug/young-business-girl-looks-through-telescope/

Agradeço a meu amigo Jorge Vieira pela indicação deste texto.

domingo, 7 de abril de 2019

DEZ TÁTICAS DE MANIPULAÇÃO



por Chomsky

1. Distração (desviar a atenção daquilo que é realmente importante); 

2. Método Problema-Reação-Solução (criar uma situação de terra arrasada para impor medidas de suposta solução); 

3. Gradação (aplicar medidas impopulares de forma gradativa e imperceptível); 

4. Sacrifício Futuro (é mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que imediato); 

5. Discurso Infantilizado (tratar a opinião pública de forma afetuosa ou humorística);
 

6. Sentimentalismo e Temor (apelar para o medo e emoção para impedir uma resposta racional ou crítica; 

7. Valorizar a ignorância (dar espaço na mídia pessoas medíocres e ignorantes para que o estúpido e o vulgar sejam um exemplo para os mais jovens); 

8. Desprestigiar a inteligência (apresentar na produção audiovisual o cientista como vilão e o intelectual como pedante); 

9. Incentivar introjeção da culpa (incutir a culpa no indivíduo para dividir a sociedade entre vencedores e perdedores); 

10. Monitoramento (pesquisas de opinião e as atuais mineração de dados e análises psicométricas em redes sociais para controle de opinião pública). 

Fonte da Imagem: Pink Floyd, The Wall.



domingo, 4 de novembro de 2018

ALGUMAS TÁTICAS PARA LIDAR COM PESSOAS IRRACIONAIS



A maioria das pessoas vai lidar, pelo menos, com uma “pessoa irracional” em sua vida. Ou seja, alguém que com frequência age de forma ilógica ou estúpida. Se essa pessoa for um chefe irritadiço, um amigo fanático ou um adolescente emocionalmente volúvel, “não é difícil que sua conduta nos leve nós mesmos a perder o controle”. Essa é a opinião de Mark Goulston, psiquiatra e professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA, EUA) durante 25 anos. Dessa forma, para preservar nossa saúde, é preciso saber como tratar ou enfrentar essas condutas detestáveis que podem alterar o nosso equilíbrio emocional. (A paciência nunca é tão importante como quando se está a ponto de perdê-la).




São muitas as vítimas que sofrem essas nocivas relações pessoais e que acreditam ser possível controlar as condutas irracionais. Quando têm de enfrentar essas situações, reagem de forma automática se colocando na defensiva ou sendo agressivas. E, em muitos casos, inclusive pretendem mudar os comportamentos irracionais de tais pessoas tentando fazê-las entrar na razão. Buscam fazê-las ver que suas opiniões ou pontos de vista são errôneos ou absurdos. Mas essa estratégia piora ainda mais as coisas. Nas palavras de Goulston, “em vez de aceitar nossa lógica, a pessoa irracional reage ainda mais irracionalmente e a situação pode se encrespar de ambas as partes até uma discussão louca que não leva a lugar nenhum”.

Essa maneira de lidar com o problema é realmente frustrante, estressante e improdutiva. Nenhuma dessas relações produz resultados satisfatórios. Mas a maioria das pessoas não conhece outra opção. No entanto, tentar convencer com argumentos uma pessoa de conduta irracional não tem sentido porque, do seu ponto de vista, sua conduta é racional. Esse tipo de pessoa tem padrões de pensamento profundamente arraigados em sua (in)consciência. E sua conduta é uma resposta à ameaça que percebe quando alguém põe em dúvida ou discute sua forma de raciocinar.
Render-se não é uma derrota...

Uma forma eficaz de tratar a pessoa irracional é a que propõe a psicóloga clínica Judith Orloff, também professora da UCLA: “Renunciar à necessidade de controlar essas situações difíceis e desistir de obrigar alguém a mudar. Ou seja, aceitar a pessoa irracional tal como ela é, especialmente se já se tentou reverter sua conduta e não se conseguiu nada de positivo”.
...é ser mais tolerante

A atitude de renunciar a mudar comportamentos irracionais pode parecer para muitas pessoas um sintoma de rendição ou fraqueza. Mas, ao contrário do que se pode pensar, a rendição é uma escolha ativa que a vida nos oferece. Uma opção para ser mais flexível e tolerante. Ver além daquilo que nos incomoda ou irrita para descobrir que o que nos convém é desdramatizar as condutas irracionais dos demais para não perdermos nós mesmos a calma. Como apontava a escritora britânica George Eliot, “a maior força para crescer é nossa capacidade de escolher”.

No mesmo sentido se expressa Lauren Zander, professora do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT, EUA): “Se alguém decidiu que uma pessoa lhe faz mal, então também é capaz de renunciar à aversão que sente com relação a essa pessoa”. Não necessariamente tem que transformá-la em sua melhor amiga, mas flexibilizando nosso ponto de vista podemos aprender a tolerar essa pessoa de conduta irracional sem que tenhamos que sofrer um ataque de nervos. Isso significa ignorar seus aspectos negativos e pensar em algo positivo que ela possa ter.



COMO CONTROLAR AS CONDUTAS IRRACIONAIS

As pessoas que agem frequentemente de forma irracional na verdade não querem te prejudicar ou complicar a sua vida. Nem te deixar louco. Só estão preocupadas por suas frustrações e necessidades. Portanto, para enfrentar suas condutas, evitar a escalada do conflito e se manter calmo, o melhor é seguir as orientações dos psicoterapeutas:

Parar: Se está tenso e incomodado ante uma conduta irracional, não diga nada. Você não é obrigado a reagir imediatamente. Respire fundo. Inale e expulse o ar devagar. Isso contraria o impulso a reagir que provoca a irritação e o estresse. Repita para si mesmo: essa é uma oportunidade para aprender a ficar tranquilo.

Escutar sem interromper: Ante uma conduta verbal irracional, o primeiro impulso é cortar o discurso para gritar que a razão está do nosso lado. Mas interromper só intensifica a hostilidade. Não discuta nem tente fazer seu interlocutor entrar na razão. Sua interrupção não mudará a mente de ninguém e só alimenta o conflito. É muito mais fácil o outro mudar sua maneira de agir do que de pensar.

Usar a imaginação: Imagine a água de um rio. Observe como a água não para na mesma pedra, mas sim flui ao redor dos obstáculos que encontra. Da mesma forma, não resista à força irracional de seu interlocutor. Deixe que flua por seu corpo e mente sem que te provoque feridas. “Aquele que não imagina é como quem não sua, armazena veneno”, disse Truman Capote.

Respirar para se acalmar: Pense na primeira coisa que gostaria de dizer ou fazer perante uma pessoa irracional, mas não o faça. Respire e exale o ar devagar. Concentre-se nisso.


Fonte: El País

sexta-feira, 16 de março de 2018

ARMAS






Ilona Szabó: “O Brasil possui o maior número absoluto de mortes por armas de fogo no planeta — cerca de 44 mil em 2017. Sabemos que o custo de matar aqui é baixo. Menos de 10% das mortes violentas resultam em condenação. Ao contrário do que seu nome fantasia sugere, o Estatuto do Desarmamento não desarma o cidadão. Hoje, um brasileiro maior de 25 anos pode possuir até seis armas em casa ou local de trabalho, desde que cumpra requisitos. No entanto, é importante que se entenda que possuir uma arma é um ato de grande responsabilidade. Armas são instrumentos de ataque e raramente de defesa, e aumentam o risco de acidentes, suicídios e assassinatos de parceiros íntimos em lares onde estão presentes. Se sua escolha é possuir uma, não subestime os riscos. O estatuto proíbe o porte de armas para civis, isto é, cidadãos comuns não podem andar armados nas ruas. Faz todo sentido. A ideia de que armar civis torna as sociedades mais seguras é um mito. Estudo do Ipea em São Paulo mostra que o aumento de 1% de armas de fogo eleva em até 2% a taxa de homicídio. Um último esclarecimento sobre o referendo de 2005. Nele, a população decidiu que civis poderiam continuar a comprar armas no Brasil. E seu resultado foi respeitado, uma vez que a posse continua permitida no país.” (Folha) via Pioneiros

Enquanto isso... Dezenas de milhares de secundaristas, em todos os Estados Unidos, deixaram ontem suas salas de aula em escolas de grandes centros urbanos como Nova York e Chicago, mas também em cidades médias e pequenas. Levantaram-se, abriram as portas e desceram corredores reunindo-se em silêncio no lado de fora. Nenhum ato reuniu tanta gente num gesto político simultâneo desde os protestos contra a Guerra do Vietnã, nos anos 1960. O walkout marcou um mês da morte de 17 estudantes num high school da Flórida. Daqui a dez dias uma grande passeata está marcada para Washignton. Pedem maior controle na venda de armas.

Fonte: https://www.canalmeio.com.br/