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domingo, 18 de abril de 2021

Os milhões enviados da Polônia a conservadores da TFP

 




Juliana Dal Piva, Julia Dauksza, Anna Gielewska, Konrad Szczygiel e Audrey Lebel
Do UOL, em São Paulo, da Reporter's Foundation Polônia, e colaboração da França

28/12/2020

Os valores canalizados ao longo de vários anos pelos fundadores da Instituição Ordo Iuris da Polônia para organizações católicas radicais no exterior chegam a 10 milhões de euros. Só para o Brasil e a França, desde 2004, foram enviados anualmente 500 mil euros. É o que uma investigação internacional produzida pela Reporter's Foundation, da Polônia, com parceiros na França e no Brasil descobriu. O dinheiro doado para rosários e imagens de Nossa Senhora de Fátima apoia o movimento global contra aborto, gênero, LGBTQ+ e valores compartilhados pelo mundo liberal.

Uma mansão luxuosa em São Paulo, um castelo majestoso na França, uma casa do século 19 em Kazimierz, um distrito histórico de Cracóvia: há algo que liga todos estes imóveis e endereços ao redor do mundo? Poderia haver alguma relação entre essas organizações e o endurecimento das leis de aborto na Polônia e o futuro referendo sobre a definição de casamento na Estônia?

Todas as instituições que funcionam nesses locais receberam fundos de uma pouco notada organização polonesa de católicos radicais: a Fundação Skarga, que deseja abraçar tradições medievais, apoia campanhas ultraconservadoras na Polônia e no exterior. Os fundos apoiam uma rede de entidades que organizam manifestações anti-LGBTQ+, petições e marchas antiaborto, campanhas contra a entrega da hóstia na mão. Mas também subsidiou a manutenção de uma organização no Brasil e a sede da TFP (Tradição, Família e Propriedade francesa), no Château de Jaglu, no sul da França, lar de um importante fundador do grupo.

Por anos, pouco se sabia sobre a estrutura financeira desse movimento internacional de radicais católicos, em especial, no Brasil. Nossa investigação revelou, entretanto, que o apoio vital foi fornecido por um centro operacional e financeiro baseado em Cracóvia, na Polônia, e, ainda, como funciona uma rede de entidades ligadas à TFP. O modelo de arrecadação de fundos se baseia em um conceito desenvolvido no Brasil e posteriormente expandido na França e reaplicado nos países centro-europeus.

 

Um sino que chama para a oração na capela

Higienópolis é um dos bairros mais nobres de São Paulo, o coração financeiro da região Sudeste do Brasil e endereço de diversos políticos e celebridades. Neste bairro, fica também o IPCO (Instituto Plínio Corrêa de Oliveira), sediado em uma mansão charmosa cercada por jardins exóticos. A propriedade é aberta apenas aos membros da organização. Apesar de uma missa ser celebrada na capela nos fins de semana, seus moradores ouvem diariamente um sino que chama à oração.

Antes de se tornar sede do IPCO, o imóvel imponente serviu por muito tempo como espaço dos encontros organizados pela Sociedade para a Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) do Brasil. O movimento TFP foi fundado nos anos 60 por Plinio Corrêa de Oliveira, um católico devoto e anticomunista. Se estivesse vivo hoje (ele morreu nos anos 90), ele estaria orgulhoso de seu trabalho.

A TFP se transformou em uma rede global de organizações que promovem valores católicos ultrarradicais, como a condenação de relações de mesmo sexo, divórcio, contracepção e o direito ao aborto. Nos últimos anos, esta rede provou ser particularmente eficaz na Europa Central, inclusive em alguns países pós-comunistas que até 1989 faziam parte da União Soviética.

O IPCO é um clube de homens, de forma que as mulheres, em regra, não são autorizadas a entrar no prédio e não podem ser membros da organização. O Instituto foi criado em 2006, quando um grupo de associados entrou em disputa em torno do legado de Plinio Corrêa de Oliveira e do controle do nome da TFP.

O conflito que sacudiu a divisão brasileira da TFP teve início após a morte do fundador do movimento, em 1995. Seus membros mais velhos entraram em atrito com os líderes jovens, ávidos por poder. Os fundadores originais, expulsos por seus próprios alunos, formaram a Associação dos Fundadores da TFP e agora se concentram desde então na construção de alguma influência no mundo da política brasileira.

Os rivais dos fundadores, que chamam a si mesmos de "Arautos do Evangelho", se concentram em atividades religiosas. Eles foram reconhecidos como uma ordem secular e venceram a disputa legal, em duas instâncias jurídicas, pelo direito de chamarem a si mesmos de TFP na América Latina, em uma tentativa de dar continuidade ao legado de Oliveira. Um recurso dos fundadores da TFP aguarda julgamento no STF há anos.

Com isso, foi criado o IPCO, uma terceira organização resultante da divisão, após a derrota dos antigos fundadores na Justiça. Caio Xavier da Silveira é o verdadeiro tomador de decisões, uma figura chave desta história, cujo nome continuará reaparecendo em nossa reportagem.

bertrandorleans - Folhapress - Folhapress

Apesar dos anos de apogeu do Instituto terem acabado, ele ainda é influente no Brasil. Entre os diretores do IPCO encontramos Dom Bertrand Orleans e Bragança, que tem acesso informal às autoridades e assessores do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (inclusive seu filho, Eduardo). No encontro do G20, Bolsonaro citou as publicações de Dom Bertrand que contestam a mudança climática (enquanto a floresta amazônica estava queimando, Dom Bertrand argumentou que "não se trata de uma crise climática, mas sim de uma ofensiva contra a soberania").

"Ajude-nos a libertar o Brasil do aborto, da agenda homossexual e do comunismo!", é a mensagem usada pela organização em seus esforços de arrecadação de fundos, quando contata doadores potenciais em busca de apoio. Apesar dos relatórios financeiros do IPCO não serem publicamente divulgados, descobrimos que, entre 2004 e 2019, o instituto operou em grande parte devido a recursos provenientes do exterior. A verba vinha, especialmente, de um endereço em Cracóvia, a cidade histórica e antiga capital da Polônia.

 

Movido pela boa vontade e pelo euro

Em maio de 2019, Slawomir Olejniczak escreveu um e-mail aos membros da TFP. O polonês é cofundador da divisão polonesa da TFP, o Instituto Fundação Piotr Skarga, com sede no distrito histórico de Kazimierz, em Cracóvia.

"Caros cavalheiros, Salve Maria!", ele iniciou sua carta aos ativistas católicos ao redor do mundo. Nós obtivemos algumas das comunicações eletrônicas que circularam na rede da TFP. Como resultado, sabemos que papel a divisão polonesa exerceu no financiamento das organizações católicas no exterior.

"Por anos, guiados pela boa vontade e confiança de todos os membros do Conselho da Fundação, a pedido deles apoiamos financeiramente as organizações da TFP no Brasil e em muitos outros países. Ao todo, nosso apoio financeiro chegou a milhões de euros ao longo dos últimos anos. Graças ao nosso apoio fundamental, organizações da TFP foram criadas ou desenvolvidas em países como Austrália, Estônia, Eslováquia, Lituânia, Holanda e Equador. Na Polônia, estabelecemos a organização legal Instituto Ordo Iuris e o Centro pela Vida e Família pró-vida. Além disso, cofinanciamos a renovação das atividades da TFP no Canadá e na África do Sul."

O Instituto Ordo Iuris e o Centro pela Vida e Família exerceram papel ativo no esforço para introduzir uma proibição quase completa do aborto na Polônia.

Por que Olejniczak enviou o e-mail a eles? A mensagem fez parte da disputa pela liderança da organização. Ele tinha sido afastado do conselho diretor da fundação polonesa pelo conselho supervisor presidido por Caio Xavier da Silveira, um brasileiro que fundou e continua sendo uma figura chave do movimento TFP na Europa.

Olejniczak também é uma figura importante. O ex-diretor da Fundação Skarga passou anos supervisionando o desenvolvimento do movimento na Polônia e na Europa Central. Caio Xavier da Silveira, com quem ele permanece em atrito, é ainda mais importante, já que é o fundador e supervisor da maioria das organizações TFP na Europa (incluindo a sediada em Cracóvia) e diretor da Fédération Pro Europa Christiana na França.

O atrito entre eles começou em consequência de uma disputa em torno de dinheiro e controle de ativos substanciais administrados pela Fundação Skarga que, chamando pouca atenção, se transformou em uma fonte de financiamento de toda a rede de entidades ligadas à TFP.

A certa altura, Olejniczak queixou-se a membros da rede que o escritório polonês teve que arcar com os custos de apoio à organização no Brasil e na França desde 2004. "Nosso maior fardo tem sido participar dos custos fixos de manter as organizações no Brasil e França de 2004 até hoje. Eles representavam valores anuais de cerca de 500 mil euros", ele se queixou.

Olejniczak também sugeriu que já que os poloneses ajudaram a sede da TFP em São Paulo a sobreviver por tantos anos, outras também deveriam participar no custo de manutenção da rede. Ele recusou o pedido de entrevista feito pela Reporter's Foundation.

Em vez disso, ele optou por responder nosso e-mail. "A conversa por e-mail era privada", ele escreveu. "Era destinada aos ativistas de organizações católicas que são próximas de nós e que cooperam conosco em outros países. Ela visava apresentar nossa posição na disputa com Caio Xavier da Silveira."

As transferências internacionais de dinheiro sobre as quais Olejniczak falava em seu e-mail também podem ser confirmadas por documentos que obtivemos. Entre eles estão documentos judiciais e relatórios apresentados pela fundação baseada em Cracóvia, assim como documentos financeiros da TFP na França, Estados Unidos e outros países centro-europeus.

A informação está espalhada entre os países e permanece fragmentada, com algumas partes do quebra-cabeça financeiro ainda faltando, mas mesmo assim conseguimos montar parte de um quadro maior.

S?awomir - Divulgação - Divulgação
Os documentos financeiros da fundação baseada em Cracóvia revelam, por exemplo, que, em 2017, ela transferiu 295 mil euros ao Instituto Plínio Corrêa de Oliveira do Brasil. Em 2019, apenas em fevereiro e março, ela transferiu 67.500 euros ao IPCO. O dinheiro de Cracóvia também apoiou duas outras organizações brasileiras que podem ser associadas ao movimento TFP, a Associação dos Fundadores da TFP e a Associação dos Devotos de Fátima.

Nossas estimativas indicam que entre 2009 e 2019 (os dados aos quais tivemos acesso), a fundação com sede em Cracóvia transferiu mais de 9,3 milhões de euros ao exterior. Além disso, o e-mail de Olejniczak confirmou que ela já tinha enviado dinheiro ao Brasil e à França antes (desde 2004). Consequentemente, o valor total transferido de Cracóvia é muito maior.

A fundação com sede em Cracóvia criou uma máquina eficiente para obtenção de fundos em troca de rosários, imagens de Nossa Senhora de Fátima, livros e calendários que atendem aos anseios dos ultracatólicos. Esse "modelo de negócios" adotado pela rede da TFP, reproduzido em outros países ao redor do mundo, revelou ser particularmente bem-sucedido na Polônia católica. No que foi usado o dinheiro transferido para o exterior?

 

Um lustre luxuoso no alto

O majestoso Château de Jaglu fica situado a uma hora e meia de viagem de Paris. Situado no meio da floresta ao lado do tranquilo vilarejo de Saint-Sauveur Marville, ele é de propriedade da divisão francesa da TFP desde 1991. Caio Xavier da Silveira estava à procura de uma residência condizente com os conceitos medievais do movimento. O Château de Jaglu revelou ser o local perfeito para encarnar essas ideias.

chateau - Audrey Lebel - Audrey Lebel
Caio da Silveira, o homem de rosto severo que reside no Château de Jaglu, supervisiona as atividades das organizações que ele controla por toda a Europa. Ele evita publicidade e jornalistas. Quando tentamos marcar um encontro com ele para conversar sobre as finanças da TFP, ele se recusou a conversar conosco. Mas quando não estava ciente de que conversava com jornalistas (nosso repórter conseguiu entrar no castelo sob o pretexto de estar à procura de um local para realização de um casamento), ele rapidamente se abriu. Ele destacou orgulhosamente ser o presidente de uma organização presente em 25 países da Europa.

Lustres extravagantes, vasos de porcelana, poltronas Chesterfield, numerosas bibliotecas e uma capela. Um enorme retrato do guru e fundador do movimento TFP, Plínio de Oliveira, está pendurado no meio. Um dos moradores do Château de Jaglu nos conduziu em uma visita. Fora ele e Silveira, 83 anos, o castelo é lar de uma dúzia de outros associados.

"Foi na França que a TFP primeiro se estabeleceu na Europa", disse Neil Datta, secretário do Fórum para Direitos Sexuais e Reprodutivos do Parlamento Europeu em uma reportagem chamada "Os Cruzados Modernos na Europa".

"Este país (a França) serviu como base para a TFP se espalhar para outros países europeus e criar satélites na Alemanha, Áustria e Polônia no início dos anos 90", ele acrescentou.

Mas os primeiros anos provaram ser difíceis. Quando a divisão francesa da TFP foi criada no final dos anos 1970, ela criou uma associação que abriu um internato para meninos. Dois anos depois, a escola fechou após pais acusarem seus funcionários de doutrinação.

"A direção da escola, em sua maioria brasileira, conduzia um tipo de ação psicológica sobre os jovens alunos para que se tornassem apoiadores militantes de uma organização estrangeira", informou a decisão do tribunal de 1982, que resolveu a disputa civil entre a TFP e o proprietário dos prédios da escola. Após os pais protestarem, a TFP perdeu seu contrato de locação.

Ao longo das décadas seguintes, mais organizações satélites brotaram da TFP francesa. Uma lutava contra a "depravação moral na mídia", outra contra "o direito ao aborto", uma terceira organizava eventos jovens. Todas as três foram criadas por Caio Xavier da Silveira.

 

Processo e busca policial

Em 1979, Caio Xavier da Silveira deixou o Brasil e se estabeleceu na França, dando início à missão de construir uma divisão europeia da TFP. Ele optou por arrecadação de fundos para fins religiosos e essa decisão revelou ser extremamente eficaz.

A divisão francesa da TFP decidiu organizar campanhas de grande escala pelo correio para arrecadação de doações de membros da Igreja Católica.

Nos anos 1990, Avenir de la Culture, uma das três subsidiárias da TFP, prosseguiu na luta contra os direitos LGBT e abarrotou de cartas as caixas postais de políticos. Em 1997, esforços semelhantes resultaram na retirada de apoio de patrocinadores da Parada do Orgulho Gay.

Os anos 1990 foram os anos dourados da TFP na França. Como resultado, dezenas de milhares de pedidos de doação entregues aos moradores do país soaram alarmes entre as instituições do Estado laico francês. Em 1995, uma comissão parlamentar de inquérito incluiu a TFP em um registro de movimentos que se comportam como seitas. Em 1999 e 2006, investigadores da comissão sobre seitas tentaram repetidamente determinar a atual escala e propósito dos empreendimentos de arrecadação de fundos da organização, porém com pouco sucesso.

Em resposta a novas reportagens, a TFP impetrou um pedido junto ao primeiro-ministro francês para que encerrasse a comissão sobre cultos. Ela também impetrou processo por difamação após circularem reportagens sugerindo uma natureza ilegal de suas atividades. Anos depois, em 2016, ela venceu o processo, pois a Justiça francesa decidiu que a agência do governo deveria ter exercido maior moderação em suas declarações.

Campanhas da TFP enfrentaram oposição de vários destinos religiosos na França. Eles incluem a famosa Capela de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa, em Paris, quando a medalha foi enviada pela TFP para milhares de moradores do país, juntamente com uma carta pedindo doações. Os padres encarregados pela capela disseram que algumas pessoas acreditaram que suas doações eram destinadas a apoiar seu santuário.

Em 2005, a polícia entrou no Château de Jaglu e revistou a propriedade. A ação ocorreu após suspeitas de que a TFP tinha obtido ilegalmente informações e dados pessoais sobre as posições religiosas dos cidadãos. Mas a investigação foi posteriormente arquivada.

O desenho da medalha, assim como outras imagens religiosas, não é de propriedade de ninguém e qualquer um pode usá-la. Caio da Silveira, cujo apartamento no Château de Jaglu também foi revistado pela polícia, venceu um processo contra o Estado francês, por violação de seu direito de privacidade e de seus direitos profissionais de advogado, impetrado na Corte Europeia de Direitos Humanos, em Estrasburgo.

Enquanto isso, os sites da Basílica do Sagrado Coração de Paray-le-Monial e da famosa Basílica do Sacré-Coeur, em Paris, contém um aviso. Ele declara que as respectivas igrejas não devem ser associadas aos esforços de arrecadação de fundos de organizações como a TFP. Ele também alerta a comunidade católica que quaisquer medalhas milagrosas, calendários e outros itens devocionais usados nas campanhas não estão ligados às suas atividades.

notredame - Reprodução/IPCO - Reprodução/IPCO

 

Se pagar pelas medalhas, você alimenta a rede

Enquanto as autoridades francesas tentavam reprimir a TFP, o movimento expandiu suas atividades internacionais e fontes de arrecadação, tornando-se independente de doadores locais. No início dos anos 2000, ela era ativa não apenas na França, mas também na Alemanha, Áustria, Itália, Polônia e Portugal. Ela não deixou de usar sua marca, mas também se escondeu atrás de uma fachada de campanhas religiosas, associações cristãs ou grupos antiaborto.

Em 2002, Caio Xavier da Silveira estabeleceu outra organização na França chamada Fédération Pro Europa Christiana (FPEC). A entidade consiste de organizações de outros países. Na Europa, Da Silveira ou seus associados na época controlavam uma rede de organizações, a maioria das quais promove campanhas de arrecadação de fundos em grande escala.

Segundo Victor Gama, um historiador da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, a TFP estabeleceu uma rede internacional de associações. Algumas, porém, não revelam seus laços com o movimento.

"Pessoas em muitos países encontram imagens de santos em suas caixas postais e uma carta pedindo a realização de doação para fins religiosos. Elas acham que estão apoiando instituições católicas locais, mas caso decidam doar, o dinheiro delas alimenta a TFP global. O dinheiro é então canalizado para pessoas associadas ao movimento e às suas divisões. A TFP então recruta novos membros, pessoas jovens", revela Gama.

Segundo Neil Datta, a TFP criou um tipo de franquia internacional para campanhas antiaborto que visam a sexualidade e reprodução.

Uma rede de organizações ligadas à TFP na Europa coletou doações de forma tão eficiente quanto uma corporação religiosa. Ela lançou imensas campanhas postais, nas quais enviavam medalhas ou rosários baratos, calendários (geralmente de aparência quase idêntica) ou imagens de Nossa Senhora de Fátima para pessoas em seus bancos de dados. Elas também pediam para que fizessem pequenas doações.

O sucesso está no tamanho do banco de dados, que inclui doadores potenciais. O modelo pioneiro de arrecadação de fundos foi inspirado por políticos republicanos americanos e ativistas associados ao American Leadership Institute, onde membros da TFP foram treinados e também compartilharam sua experiência realizando palestras. O assunto será tema da segunda parte de nossa reportagem.

 

Milhões gerados pelo coração de Jesus

O Château de Jaglu, onde vive atualmente Da Silveira, não é o único imóvel de propriedade da organização. A sede oficial da Fédération Pro Europa Christiana (FPEC) fica na Villa Notre-Dame de la Clairière, em Creutzwald. O imóvel, situado no leste da França, inclui um parque de 3,5 hectares. Até meados de 2019, a organização também alugava um escritório de representação em Bruxelas para realização de atividades de lobby junto às instituições da União Europeia, para promoção de sua agenda ultracatólica.

A manutenção desses imóveis, a organização de comícios para atrair membros de organizações de todas as partes do mundo para eventos em um ambiente medieval, o treinamento de jovens e a luta contra os valores liberais realizada em várias dezenas de países, tudo isso gera despesas consideráveis.

Fora a arrecadação de doações em países individuais, as organizações que fazem parte da rede enviam dinheiro umas às outras. Uma fonte importante de renda para o movimento TFP inclui "doações de membros e sociedades associadas". Como resultado, o dinheiro que circula ao redor do mundo (grande parte provavelmente não tributado) é canalizado para entidades ultracatólicas.

Os informes financeiros da Fédération Pro Europa Christiana mostram que, desde 2012, a receita da organização triplicou. As contribuições de doadores individuais continuam crescendo: elas somaram 604 mil euros em 2012, enquanto em 2019 chegaram quase a 2 milhões de euros. No ano passado, a FPEC arrecadou um total de mais de 2,3 milhões de euros, 345 mil euros (cerca de 15%) provenientes de "taxas de adesão e fundos de associações relacionadas".

As fontes incluem a Fundação Skarga, com sede em Cracóvia, da qual Caio Xavier da Silveira é membro do conselho supervisor. Os documentos que obtivemos junto a registros poloneses revelam que a Fundação Skarga transferiu centenas de milhares de euros por ano à FPEC, uma organização com sede em Creutzwald, na França.

Em 2017, as transferências totalizaram 220 mil euros, enquanto entre janeiro e maio de 2019 elas chegaram a 74 mil euros. Uma parte das transferências foi rotulada como taxa de adesão e parte como "doações contratuais". As sete fatias seguintes, cada uma no valor mensal de 15 mil euros, seriam transferidas pela divisão de Cracóvia para a FPEC até o final de 2019 (totalizando 105 mil euros).

 

Disputa interna pôs fim às transferências

Mas não ocorreram. Quando estourou um conflito em uma organização polonesa em maio de 2019, um dia antes de Olejniczak ser demitido do conselho diretor, as transferências para as organizações estrangeiras controladas por Da Silveira foram suspensas.

Fora as organizações da França e Brasil, o dinheiro de Cracóvia há muito era usado para apoiar cerca de uma dúzia de organizações por todo o mundo, a lista que agora estamos revelando. A maioria delas é controlada por Da Silveira. Os documentos aos quais tivemos acesso revelam que entre 2009 e 2019, as transferências de dinheiro às organizações supervisionadas por Da Silveira totalizaram mais de 6,8 milhões de euros.

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A quantia anual desse tributo aumentou de 358 mil euros em 2009 para cerca de 1 milhão de euros por ano em 2015, 2016 e 2017. Na época, as transferências, rotuladas como "doações para as organizações controladas por Da Silveira", representavam quase metade de todas as doações feitas pela Fundação Skarga para entidades associadas.

No início de 2020, Caio Xavier da Silveira abriu sua própria empresa de consultoria. Por que precisava dela? Teria algo a ver com a disputa interna de poder na TFP? Nem ele e nem o porta-voz da FPEC, Jean Goyard, chefe da TFP francesa, aceitaram falar. Goyard desligou o telefone assim que perguntamos sobre as finanças da organização.

Perguntamos aos representantes da Fundação Skarga sobre as transferências para organizações estrangeiras, incluindo a Fédération Pro Europa Christiana da França e o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira do Brasil. Essas contribuições foram canalizadas para o movimento TFP internacional? "As doações feitas a essas organizações não diferem das feitas a outras entidades apoiadas ou criadas pela fundação na Polônia e em outros países", respondeu de forma vaga Piotr Kucharski, porta-voz da Fundação Skarga.

Os doadores poloneses estavam cientes de que o dinheiro foi transferido para organizações estrangeiras associadas ao movimento TFP? "Nós informamos sobre o envolvimento da fundação em vários projetos internacionais por meio de nosso site e publicações", respondeu Kucharski em um e-mail.

Ele também disse que os projetos incluíam o patrocínio da anual Academia de Verão para (jovens) Católicos e "outros tipos de treinamento para membros de organizações sociais e religiosas da Polônia e outros países".

bertrand2 - BBC News Brasil - BBC News Brasil

Uma nova abertura

Em agosto de 2020, os membros da TFP da França, Itália, Holanda, Polônia e Belarus chegaram à França para a Escola de Verão Europeia da TFP, organizada na propriedade em Creutzwald. Este é o encontro mais recente, com Escolas de Verão anteriores tendo sido realizadas nos três anos anteriores no sul da Polônia, no Castelo de Niepolomice.

Caio da Silveira foi o foco durante um evento realizado na mansão. Ele usava a capa vermelha tradicional estampada com um leão dourado, o emblema do movimento TFP. Durante um momento para fotos, Ferdinand Aldunate, membro da nova administração da Fundação Skarga, que está processando o grupo de Olejniczak para recuperar o controle financeiro de milhões de euros e propriedades da organização em Cracóvia, posava orgulhosamente na primeira fila.

A velha administração transferiu os ativos mais valiosos para a Associação Piotr Skarga de Cultura Cristã, uma organização irmã, que ela ainda controla. Hoje, ela se tornou uma fonte de financiamento para organizações que permanecem na esfera de influência do grupo de Olejniczak. Durante a foto de "família", Da Silveira sorriu com uma visível reserva, uma indicação de que pode não ser capaz de defender sua posição dominante na TFP.

Seus antigos alunos de Cracóvia superaram o mestre do Château de Jaglu. Foram eles que construíram, financiaram e posteriormente assumiram a nova rede de organizações ultracatólicas, que agora exercem crescente influência sobre o pensamento das sociedades da Europa Central.

"Falando de forma geral, a velha TFP na França, Alemanha e Itália era mais uma forma de ganhar dinheiro do que uma ideologia. Ela fornecia estabilidade e conforto para seus principais membros. A nova geração que vem da Polônia é muito mais profissional", explicou Neil Datta durante uma entrevista.

Recentemente, o grupo celebrou a decisão tomada pelo Tribunal Constitucional da Polônia. No final de outubro, ele reduziu drasticamente o caminho para o aborto legal. Agora, a rede centro-europeia está se preparando para defender os valores cristãos no futuro referendo constitucional na Estônia.

 

Fonte do Texto: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2020/12/28/os-milhoes-enviados-da-polonia-para-radicais-da-tfp-no-brasil-e-pelo-mundo.htm

 Fonte da Imagem: https://br.pinterest.com/pin/571183165347793514/

terça-feira, 12 de junho de 2012

O moderno reacionário é a porta de entrada do velho fascismo

Fonte da imagem AQUI.

Marcelo Semer, para Terra

Se você não entendeu a piada de Rafinha Bastos afirmando que para a mulher feia o estupro é uma benção, tranquilize-se.

O teólogo Luiz Felipe Pondé acaba de fornecer uma explicação recheada da mais alta filosofia: a mulher enruga como um pêssego seco se não encontra a tempo um homem capaz de tratá-la como objeto.

Se você também considerou a deputada-missionária-ex-atriz Myriam Rios obscurantista ao ouvi-la falando sobre homossexualidade e pedofilia, o que dizer do ilustrado João Pereira Coutinho que comparou a amamentação em público com o ato de defecar ou masturbar-se à vista de todos?

Nas bancas ou nas melhores casas do ramo, neo-machistas intelectuais estão aí para nos advertir que os direitos humanos nada mais são do que o triunfo do obtuso, a igualdade é uma balela do enfadonho politicamente correto e não há futuro digno fora da liberdade de cada um de expressar a seu modo, o mais profundo desrespeito ao próximo.

O moderno reacionário é um subproduto do alargamento da cidadania. São quixotes sem utopias, denunciando a patrulha de quem se atreve a contestar seu suposto direito líquido e certo a propagar um bom e velho preconceito.

Pondé já havia expressado a angústia de uma classe média ressentida, ao afirmar o asco pelos aeroportos-rodoviárias, repletos de gente diferenciada. Também dera razão em suas tortuosas linhas à xenofobia europeia.

De modo que dizer que as mulheres - e só elas - precisam se sentir objeto, para não se tornarem lésbicas, nem devia chamar nossa atenção.

Mas chamar a atenção é justamente o mote dos ditos vanguardistas. Detonar o humanismo sem meias palavras e mandar a conta do atraso para aqueles que ainda não os alcançaram.

No eufemismo de seus entusiasmados editores, enfim, tirar o leitor da zona de conforto.

É o que de melhor fazem, por exemplo, os colunistas do insulto, que recheiam as páginas das revistas de variedades, com competições semanais de ofensas.

O presidente é uma anta, passeatas são antros de maconheiros e vagabundos, criminosos defensores de ideais esquerdizóides anacrônicos e outros tantos palavrões de ordem que fariam os retrógrados do Tea Party corarem de constrangimento.

Não é à toa que uma obscura figura política como Jair Bolsonaro foi trazida agora de volta à tona, estimulando racismo e homofobia como direitos naturais da tradicional família brasileira.

E na mesma toada, políticos de conhecida reputação republicana sucumbiram à instrumentalização do debate religioso, mandando às favas o estado laico e abrindo a caixa de Pandora da intolerância, que vem se espalhando como um rastilho de pólvora. A Idade Média, revisitada, agradece.

Com a agressividade típica de quem é dono da liberdade absoluta, e o descompromisso com valores éticos que consagra o "intelectual sem amarras", o cântico dos novos conservadores pode parecer sedutor.

Um bad-boy destemido, um lacerdista animador de polêmicas, um livre-destruidor do senso comum.

Nós já sabemos onde isto vai dar.

O rebaixamento do debate, a política virulenta que se espelha no aniquilamento do outro, a banalização da violência e a criação de párias expelidos da tutela da dignidade humana.

O reacionário moderno é apenas o ovo da serpente de um fascismo pra lá de ultrapassado.


Marcelo Semer é Juiz de Direito em São Paulo. Foi presidente da Associação Juízes para a Democracia. Coordenador de "Direitos Humanos: essência do Direito do Trabalho" (LTr) e autor de "Crime Impossível" (Malheiros) e do romance "Certas Canções" (7 Letras). Responsável pelo Blog Sem Juízo.

segunda-feira, 26 de março de 2012

¿De verdad ha enloquecido la derecha?

Fonte da imagem AQUI.

Rick Perlstein · · · · · 

Parece de pronto que el conservadurismo se hubiera vuelto más delirante que nunca. 

El público de los debates republicanos vitorea las ejecuciones y abuchea a un soldado en servicio activo por ser gay. Los políticos juran lealtad a Rush Limbaugh, un lunático tragapíldoras [influyente presentador radiofónico ultra adicto a los calmantes] que ofrecía recientemente un trato a las "feminazis": "Si vamos a pagar sus anticonceptivos, queremos que subáis los videos a la red para que podemos verlos todos". Miles de "Oath Keepers" ["Fieles al Juramento "] — Policía y Militares Contra el Nuevo Orden Mundial — se juramentan para desobedecer las órdenes ilegales que con seguridad se impartirán una vez instituya Barack Obama la ley marcial. Un candidato presidencial republicano de importancia habla de servidumbre por contrato… y otro propone convertir a los escolares en porteros. Sólo un 12% de los republicanos de Mississippi cree que Obama sea cristiano. Los republicanos de Arizona impulsan una ley que permite a los patronos despedir a sus empleadas por recurrir al control de natalidad.

Y así suma y sigue, metiéndose en cualquier estrambótico delirio político que aparezca en las ondas hoy mismo.

Pero, ¿dan más miedo hoy los derechistas que en el pasado? Desde luego parecen más extraños y feroces. Argüiría, sin embargo, que llevan así de locos mucho tiempo. En los últimos sesenta años, más o menos, veo bastante más continuidades en lo que cree del mundo el 20 o 30% de norteamericanos que se escora a la derecha. Las locuras que creían y querían quedaban obscurecidas por su falta de poder, pero siempre estaban ahí…si sabías dónde había que mirar. Lo que ha cambiado es que los conservadores chalados constituyen ahora la corriente principal republicana, la fuerza dominante del GOP [Grand Old Party, su denominación tradicional].

Estoy en una posición única para poder juzgarlo. Obsesionado por los años sesenta desde la niñez, desperdicié mis años de adolescencia merodeando por un destartalado almacén de cinco pisos de libros usados que conseguía, hasta octubre pasado, ir un paso por delante de la inspección de edificios de Milwaukee, estado de Wisconsin. Allí conseguía libros de una década que enloqueció: textos de los Panteras Negras en los que se condenaba a "AmeriKKKa", o de la Nueva Izquierda, que proclamaba que "el futuro de nuestra lucha es el futuro de la delincuencia en las calles", y de derechistas como el predicador David Noebel, que denunciaba la "subversión comunista de la música" mediante la cual el espionaje ruso aplicaba técnicas pavlovianas para que se pudriera la mente de la juventud norteamericana gracias a sus agentes a sueldo: los Beatles. La gente que pensaba como los Panteras Negras y la Nueva Izquierda demostró, por supuesto, ser flor de un día. Gente como Noebel, empero, han probado que son una constante en la historia norteamericana. De hecho, el mismo Noebel continúa con nosotros. En la década de 1970, se convirtió en fuente preferida de James Dobson, psicólogo radiofónico de la Derecha Cristiana de enorme popularidad todavía y mandamás de los republicanos. Muy recientemente, la reputación de Noebel se disparó gracias a su admirador Glenn Beck en Fox News [importante comentarista televisivo de esta cadena ultraconservadora], y ahora es uno de los favoritos del Tea Party.

Tras quince años de estudiar profesionalmente la derecha norteamericana — sobre todo en sus comunicaciones de unos con otros, en sus propios memoranda y medios de comunicación desde la década de 1950, todavía tengo yo que encontrar un cambio verdaderamente novedoso, una innovación real en el "pensamiento" de la derecha. ¿Presentadores de radio que apuntan con el dedo a multimillonarios liberales como George Soros, que utilizan sus ingentes fortunas – adquiridas gracias a la empresa privada consagrada por la Constitución – con la intención de "socializar" los Estados Unidos? 1954: Hete aquí a un presentador de radio, Pat Manion, que apunta con el dedo a "fortunas gigantescas, construidas gracias a la empresa privada consagrada por la Constitución...que se utilizan para 'socializar' los Estados Unidos". ¿El candidato presidencial Newt Gingrich, "harto de jueces elitistas" que en su arrogancia imponen sus "puntos de vista radicalmente antinorteamericanos" — incluyendo a los jueces del Tribunal Supremo cuyos dictámenes se ha juramentado desafiar? 1958: Nine Men Against America: The Supreme Court and its Attack on American Liberties, [Nueve hombres contra Norteamérica: el Tribunal Supremo y su ataque a las libertades norteamericanas], de Rosalie M. Gordon, todavía a la venta en sovereignstates.org.

Sólo han cambiado los nombres de los ogros…aunque a veces ni siquiera ha cambiado eso. El ultimo proyecto del Dr. Noebel consiste en reeditar un volumen que al parecer encuentra novedosamente pertinente: You Can Trust the Communists: To be Communists, [Puedes confiar en que los comunistas sean comunistas] del Dr. Fred Schwarz. Schwarz, un medico australiano que murió hace tres años, tuvo su momento de gloria a principios de los 60, cuando llenaba auditorios municipales predicando su evangelio preferido: que el Kremlin dominaba a sus súbditos aplicando "técnicas de ganadería animal", y albergaba "planes para hacer ondear una bandera de URSS en cada una de las ciudades norteamericanas para 1973". La nueva versión, puesta al día por Noebel – viene con vivísimos elogios de agradecidas reseñas en Amazon.com como éstos: "Igual de importante que hace cincuenta años"; y esto: "Debería ser lectura obligada para cualquier norteamericano", y "Este libro me hizo conservador" – se titula You Can Still Trust the Communists: To be Communists, Socialists, Statists, and Progressives Too. [Puedes confiar en que los comunistas sean comunistas, socialistas, estatistas y también progresistas]

¿Por qué tiene importancia todo esto? Pues porque la noción de que el conservadurismo ha dado un nuevo giro, más chiflado, tiene adeptos cuyas distorsiones desbaratan nuestra capacidad de comprenderlo y contenerlo. En una reseña reciente de The Reactionary Mind: Conservatism from Edmund Burke to Sarah Palin, [La mente reaccionaria: el conservadurismo, de Edmund Burke a Sarah Palin], el rompedor libro de Corey Robin, publicado en la New York Review of Books, que traza las continuidades del pensamiento derechista hasta el siglo XVII, el distinguido teórico politico Mark Lilla dictaminaba que "la mayor parte de la reciente turbulencia de la política norteamericana es resultado de los cambios en la estructura de clanes de la derecha con el declive de conservadores apegados a la realidad como William F. Buckley". Así pues, ¿qué hizo un "conservador apegado a la realidad" como Buckley con Fred Schwarz? Pues, lector, le escribió la nota publicitaria para la portada del libro, alabando al buen doctor por "instruir a la gente sobre aquello que sus líderes tan claramente ignoran". Lo mismo hizo, de hecho, Ronald Reagan, que en 1990 alabó la "incansable dedicación" del charlatan "a intentar garantizar la protección de la libertad y los derechos humanos". Y he aquí lo que dice el difunto Jack Kemp, peso pesado del GOP, que escribió elogiosamente alabando las memorias de 1996 de Schwarz (Reagan aparece retratado con Schwarz en la solapa): "Cuánto aprecio el hecho de que tanto como cualquier otro, incluyendo al presidente Reagan, el presidente Bush, y el Papa Juan Pablo… [el Dr. Schwarz] haya tenido la oportunidad de educar literalmente a miles de jóvenes, hombres y mujeres, de todo el mundo en la lucha por la democracia y la libertad y la lucha contra la tiranía del comunismo". Los "conservadores del establishment", Reagan y Kemp, y el "chiflado", el Dr. Fred Schwarz, nunca estuvieron tan separados, al fin y al cabo.

Se oye hablar mucho de Ronald Reagan por parte de la multitud que se refiere a los conservadores-están-más-locos-que-nunca: le alaban como hombre de compromiso y apuntan, correctamente, que subió los impuestos siete de sus ocho años como presidente, en llamativa contraposición con los republicanos de hoy, que se niegan por completo a subirlos. He aquí la cosa, tal como escribí entre los hosannas que se le dedicaron a su muerte en 2004, durante el espantoso reinado de Bush: "Constituye una peculiaridad de la cultura norteamericana que cada generación de no conservadores contemple a los derechistas de su propia generación como los que dan miedo, y luego prefiera recordar a los derechistas de la última generación como adorables. En 1964, los observadores, horrorizados por Barry Goldwater, suspiraban por el sensato Robert Taft, el dirigente conservador de los 50. Cuando Reagan era presidente, los liberales hablaban con indulgencia del bueno y viejo Goldwater".

Y así seguimos: a Reagan se le juzga hoy uno de esos conservadores apegados a la realidad cuya desaparición hoy lamentamos. Falso. Hondamente configurado por la extrema derecha más locuela, a Reagan le encantaba en momentos anteriores de su Carrera citar su evangelio: que de acuerdo con los proyectos comunistas "para 1970 el mundo será o todo esclavo o todo libre"; que, tal como dijo en una entrevista de 1975 – rehabilitando una cita supuestamente de Vladimir Lenin, pero, de hecho, elaborada por el fundador de la John Birch Society [asociación de extrema derecha norteamericana de principios de la Guerra Fría] – una vez que Lenin y sus camaradas hubieran organizado a las "hordas de Asia", conquistarían después América Latina, "los Estados Unidos, postrer bastión del capitalismo, cae[rían] en sus manos abiertas como fruta madura". Pero también él era un buen político, y como tal aprendió a evitar decir cosas que le perjudicaban políticamente. La razón por la que no combatió de modo efectivo las subidas de impuestos fue que, con un Congreso demócrata, no tenía capacidad para ello. Cada vez que tenía en efecto que poner su firma a una subida, dejaba perfectamente claras sus preferencias, culpando a los malvados liberales por forzarle a ello y añadiendo que esta era la razón por la que había que derrotar al liberalismo…para no tener que volver a firmar una.

Esto estaba "apegado a la realidad". Pero también lo está, políticamente al menos, el obstruccionismo de los conservadores no apegados a la realidad: si bloquean todas las subidas de impuestos es porque pueden. Y ha funcionado, ¿no? Si así sucede es porque a medida que se ha incrementado el poder conservador desde los años 60, una parte cada vez mayor de lo que los conservadores creen en realidad — y siempre han creído realmente —ha venido a configurar la sociedad norteamericana y sus instituciones.

Esa dinámica se ha visto siempre acompañada de otra: a medida que el extremismo conservador encubierto – véase: la mujeres que recurren al control de natalidad son unas zorras, deberían privatizarse todos los bienes públicos – encuentra el modo de deslizarse en los debates de alto nivel de las cámaras del Congreso, en las decisiones de una judicatura federal crecientemente inclinada a la derecha, en las campañas presidenciales y las secciones principales de los periódicos más importantes de las metrópolis, los entendidos más relevantes declaran que el conservadurismo está en retirada. Cuando Barry Goldwater perdió las elecciones presidenciales abrumadoramente, Tom Wicker, columnista del New York Times, proclamó que "con trágica inevitabilidad" el conservadurismo se había "fracturado como un panel de vidrio". Sin embargo, de algún modo, los conservadores lograron sobrevivir y prosperar, eligiendo a Ronald Reagan durante dos mandatos como gobernador de California, a partir de 1966. Después de que el sucesor escogido por Reagan perdiera la nominación en 1974, Joseph Kraft, del Washington Post, dictaminó que "la desbandada del reaganismo en este estado anuncia lo que parece ser una posibilidad nacional, la posibilidad de cerrar el paréntesis de la era de la política del contragolpe, que tan contundente ha resultado desde que Ronald Reagan dejara de hacer películas para la tele en 1966". En vena similar, en su libro sobre la generación de activistas que estaban detrás de la Revolución Republicana de 1994 de Newt Gingrich, Nina Easton mantenía que la insistencia por parte de dirigentes como Ralph Reed, fundador de la Christian Coalition, de que el liberalismo era "una pendiente resbaladiza que llevaba al socialismo y comunismo" destruiría "el apoyo público que necesitaba para lograr su visión de un movimiento de masas".

No lo destruyó. Y sin embargo, como un reloj, el profeta de hoy del desastre conservador, el periodista Jonathan Chait , concluye que el conservadurismo se hace trizas como un panel de vidrio ahora que, enfrentado a la bomba de tiempo demográfica de un electorado cada vez más joven y moreno que hace, según dice, completamente inevitable el triunfo del liberalismo ilustrado, su extremismo latente está saliendo por fin a la superficie , abriendo "nuevas tierras en el reino de la temeridad", tal como él lo expresa.

He aquí el problema: para este modo de pensar, el triunfo del liberalismo ilustrado es siempre inevitable. Ahora es la demografía la que constituye una fuerza inexorable (desmonto ese argumento en "Why Democrats Have a Problem with Young Voters" [Por qué los demócratas tienen un problema con los votantes jóvenes], Rolling Stones, 28 de febrero de 2012); en la década de los 60, fue la certidumbre de que los norteamericanos nunca abandonarían las ventajas que para ellos tenía el gran gobierno. Y con todo, de algún modo, a lo largo del hilván corriente de la preferencia política norteamericana entre demócratas y republicanos, el conservadurismo continúa prosperando. Se debe a que el poder engendra poder: se puede dar por hecho con que los demócratas encontrarán un compromiso con el delirio conservador, y puede darse por hecho que los medios de información lo normalizarán. Y eso se debe a que siempre habrá millones de norteamericanos a los que aterra el progreso social y verse desposeídos de cualquier ligera ganancia de seguridad psicológica que hayan podido mantener en un mundo aterrador. Y debido a que siempre habrá poderosos agentes económicos a los que compensa explotar ese temor, incertidumbre y duda (y compensa, compensa).

El conservadurismo no está aumentando su locura, y tampoco está desapareciendo. Está, simplemente, haciéndose más poderoso. Se trata de un hecho que un liberal apegado a la realidad no tiene más que aceptar, y a partir de ahí, reunir fuerzas para la lucha.

Rick Perlstein es autor de Before the Storm: Barry Goldwater and the Unmaking of the American Consensus y [Antes de la tormenta: Barry Goldwater y la destrucción del consenso norteamericano] y Nixonland: The Rise of a President and the Fracturing of America. [Tierra de Nixon: el ascenso de un presidente y la fractura de Norteamérica] Escribe una columna semanal para RollingStone.com.
Traducción para www.sinpermiso.info: Lucas Antón
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terça-feira, 4 de outubro de 2011

Cruzada contra los pantalones caídos

Fonte da imagem: AQUI.

El Ayuntamiento de Albany (EE.UU.) sanciona con multas de hasta 200 dólares a quienes muestren su ropa interior por no llevar el pantalón a la altura adecuada 

La Vanguardia

Si todavía hubiera que demostrar la existencia de la ley de la gravedad, la evolución de la moda masculina a la hora de ponerse los pantalones sería un ejemplo: desde la excesiva altura de cintura que mostraba Cary Grant en Con la muerte en los talones a la languidez con la que se visten de cintura para abajo los hijos de la cultura gangsta va un trecho tan amplio como el recorrido por la manzana de Newton.

Pero en Albany (Georgia, EE.UU.) no entienden de moda ni de física. Según el Albany Herald, el consistorio de la ciudad, de 77.000 habitantes, acaba de dictar una norma municipal que considera que mostrar la ropa interior por encima de los pantalones –o lo que es lo mismo: llevar los pantalones más cerca de la parte inferior de las nalgas que de la cintura- es considerado un “exhibicionismo indecente”. Y es sancionado como tal.

Las multas son inversamente proporcionales a la caída de los pantalones en la moda de los últimos 50 años. Una primera infracción está sancionada con el pago de 25 dólares. A la segunda, la cosa se pone seria: la reincidencia está castigada con una multa de 200 dólares. Y para quien pueda permitirse pagar la multa y seguir pecando, el consistorio se reserva la potestad de imponer 40 horas de servicios comunitarios al infractor.

¿Y quién gana en esta polémica? ¿La moda, la sociedad, la política, las buenas costumbres? Por el momento, las arcas municipales. Desde el establecimiento de la medida han recaudado 4.000 dólares y esperan recaudar otros 1.500 en lo que queda de año.

Visto lo visto en Albany, y dada la tenacidad del consistorio, sólo falta saber cuánto tiempo falta para que a algún ciudadano se le encienda una lucecita y abra una tienda de cinturones para sacar beneficio de esta polémica. A 200 euros la reincidencia, es para pensárselo dos veces.

sábado, 11 de junho de 2011

Qual é a graça?

É tênue a linha que separa certas crenças irrefletidas do ódio que leva sionistas a matar de fome crianças palestinas, neoconservadores a ridicularizar todo sujeito que não se encaixe no protótipo do macho moderno e intelectuais orgânicos da velha direita brasileira a desqualificar todo interlocutor que não cheire à tradição, família e propriedade.

Em artigo recentemente publicado nesta Carta Maior (“Os palestinos entendem Kadafi melhor do que nós”, 17/03/2011), Robert Fisk chama nossa atenção para comportamento que representa “tendência crescente e muito cruel no pensamento da direita israelense”.

Segundo o jornalista inglês, Michael Bernstam, membro da Hoover Institution, da prestigiada Universidade de Stanford, teria publicado, há algumas semanas, na revista estadunidense American Commentary, artigo denunciando o que alcunhou de “caldo de cultivo para o terrorismo internacional”.

Conforme Bernstam, o Organismo de Socorro e Obras Públicas das Nações Unidas (UNRWA - United Nations Relief and Works Agency for Palestine Refugees in the Near East, na sigla em inglês), agência que desde os anos 60 ocupa-se da ajuda humanitária a refugiados palestinos, teria criado “refugiados de guerra permanentes” ao fazer desaparecer, através do fornecimento de auxílio-desemprego, os incentivos ao trabalho e ao investimento. Velha ladainha liberal sustentada, de um lado, pelo “laissez-faire” e, de outro, pelo voluntarismo do “self made man”, o argumento de Bernstam supõe que a vontade livre e irresoluta do “homo economicus”, mola-mestra da economia, e o interesse pessoal esclarecido são condições suficientes para que sujeitos empreendam e, desse modo, economia e sociedade evoluam. Incentivos públicos ou privados, portanto, seriam obstáculos ao desenvolvimento, pois tudo o que não é útil não pode ser bom.

Tese de rara selvageria especulativa, esse fatalismo reducionista sustenta que determinadas pessoas preferem viver sob lonas porque é a “condição de refugiado sem limite de tempo” que lhes “põe o pão na mesa, garante a casa sem pagar aluguel, além de um conjunto de serviços gratuitos” e, de quebra, torna-os indolentes. Donde, como “cabeça vazia é ofício do diabo”, ser nesses acampamentos que está, ainda segundo Bernstam, “a garantia de continuidade de um ciclo palestino autônomo destrutivo de violência, de derramamento de sangue fratricida e de uma guerra perpétua contra Israel”.

Ou seja, é a ONU a responsável, em última instância, pelo terrorismo de fundamentalistas palestinos, pois é nos acampamentos de refugiados por ela atendidos - “caldo de cultivo para o terrorismo internacional” - que ele se reproduz e se mantém, e isso graças às migalhas a eles distribuídas pela comunidade internacional.

A teoria de Bernstam não consegue dar conta, porém, da existência do sionismo, uma vez que em Israel estão ausentes as condições necessárias para a formação do caldo de cultivo para seu terrorismo ultranacionalista; sionistas não estão acampados, sob sol e chuva, em barracas miseráveis, vivendo à custa de auxílio-desemprego, o que os tornaria indolentes e, por conseguinte, justificaria toda violência física e moral que diariamente despejam sobre os palestinos. Nada como psicologia barata para se explicar a inconsciente tendência sionista de, pela força, invadir e tomar territórios alheios, isolá-los do restante do mundo e matar crianças de fome pelo bloqueio econômico a eles imposto. Como se vê, a solução para a Palestina Ocupada não passa pelo diálogo e nem pela mediação internacional, mas sim pelo estímulo ao trabalho e ao investimento através do cancelamento do auxílio financeiro internacional aos refugiados palestinos. Se disso não se seguir a paz e o desenvolvimento – na medida em que você pode empreender, produzir e gerar empregos em acampamentos - ao menos todos eles morrerão de fome.

Tendência semelhante e não menos cruel pode ser verificada no pensamento da direita brasileira reacionária. A “intelligentsia” de sua elite, perspicaz a ponto de deixar a cargo de seus leões-de-chácara intelectuais o tratamento de questões impopulares tal como o racismo e a homofobia (1) , tem dois alvos principais, sobre os quais não costuma tergiversar.

Recentemente, promotores de justiça gaúchos fizeram questão de deixar isso claro. Ricardo de Oliveira Silva, que atuou como assessor parlamentar de Simone Mariano da Rocha, Procuradora-Geral de Justiça no governo tucano de Yeda Crusius (2007/2010), Benhur Biancon Jr., ex-assessor de Carlos Otaviano Brenner de Moraes – que ocupou as pastas de Transparência e Meio Ambiente nesse mesmo governo - na Associação do Ministério Público e ex-Chefe de Gabinete da então Procuradora, e Luis Felipe de Aguiar Tesheiner, ex-chefe do Núcleo de Inteligência do Ministério Público, foram responsáveis pelo Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) proibindo as escolas itinerantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) no Rio Grande do Sul (RS). Já Biancon Jr. e Tesheiner assinaram, em 2008, a Ação Civil Pública contra o MST que acabou ganhando repercussão nacional e internacional pelo estilo “Guerra Fria” adotado contra o Movimento.

Segundo a referida Ação, os acampamentos Jandir e Serraria, no interior do RS, eram “verdadeiras bases operacionais destinadas à prática de crimes e ilícitos civis causadores de enormes prejuízos não apenas aos proprietários da Fazenda Coqueiros, mas a toda sociedade”. A Ação, que se baseou em um “trabalho de inteligência” composto, na sua maioria, por matérias de jornais, relatórios do serviço secreto da Brigada Militar e livros e cartilhas apreendidas em acampamentos do MST, definiu o Movimento como uma “ameaça à sociedade e à própria segurança nacional” em franca “estratégia confrontacional” com o Estado. Nesta época, comentou então o jornalista gaúcho Marco Weissheimer, “um documento do Conselho Superior do Ministério Público chegou a propor a extinção do MST, iniciativa que não prosperou em virtude da forte reação que surgiu contra ela”. Gilberto Thums, atual Coordenador-Geral da Procuradoria de Justiça Criminal do Ministério Público gaúcho, por sua vez, considera o MST um movimento “fora-da-lei”.

Esse tipo de paranoia ganha força quando nos damos conta que se trata da consequência, e não de causa, de uma predisposição discursiva dessa “intelligentsia”, em regra reproduzida irrefletidamente também, e infelizmente, por parcela de nossa classe média. A hoje senadora "progressista" Ana Amélia Lemos a ilustrou ao comentar a hipótese de revisão dos índices de produtividade rural discutida ainda no governo Lula (2003/2010). “O problema não é a produtividade – sentenciou a então comentarista política do Grupo RBS -, mas sim a interferência do Estado na liberdade do produtor, que pode perder a terra, sob esse manto legal. Breve, o governo poderá tentar resolver o déficit habitacional desapropriando campos de golfe e casas de praia que não cumprem função social”.

Dito de outro modo, pouco importa se o proprietário rural produz ou não de acordo com índices estipulados como razoáveis para que seja cumprido aquilo que nossa Constituição Federal chama de “função social da terra”, uma vez que “a questão é a interferência do Estado na liberdade do produtor, que pode perder a terra, sob esse manto legal“. O direito individual de propriedade – e de se dispor absolutamente mesmo de um bem de interesse público –, por conseguinte, é tratado pelo pensamento pré-colonial (2) de Ana Amélia Lemos como um direito acima dos sociais e coletivos.

Esses intelectuais orgânicos, todavia, não representariam adequadamente a parcela medieval de nossa sociedade se não fossem, também, críticos ferrenhos da mobilidade social de sua base. Todas as políticas públicas afirmativas – de inclusão social e distribuição de renda, como as cotas raciais em universidades públicas e o bolsa-família, p. ex. - postas em prática no governo Lula foram sistematicamente desqualificadas pelos bobos da corte de plantão, a despeito de terem promovido, a olhos vistos e com reconhecimento internacional, a maior distribuição de renda e de dignidade de nossa história.

Nem mesmo o equilíbrio entre desenvolvimento e poder aquisitivo, promovido pela associação entre tais ações afirmativas e as políticas monetária, fiscal e cambial postas em prática nos últimos oito anos – até então mera utopia tucana -, escapou dos menestréis do servilismo; em recente episódio de repercussão nacional, ex-comentarista do Grupo RBS (grupo de empresas que, ao arrepio da legislação em vigor, monopoliza a comunicação nos estados do RS e SC) em Santa Catarina viu como causa do aumento do número de acidentes de trânsito em seu estado o ganho aquisitivo das classes C e D, promovido pelo governo Lula – “Este governo espúrio permitiu que qualquer miserável tivesse um carro”, foram suas palavras. Como se sabe, lugar das classes C e D, como certa feita defendeu preconceituoso cronista do Grupo RBS famoso no bairro Azenha, em Porto Alegre, ao comentar a possibilidade de se discutir publicamente projetos para o trecho do porto fluvial da capital gaúcha conhecido como Cais Mauá, é em “shoppings populares”. O referido Cais, sustentou, “há que ser da nata, da classe A”. Só assim, complementou, “os menos favorecidos” teriam “onde trabalhar e onde flanar, que eles flanam”, referindo-se à atividade de cuidar de carros estacionados na rua exercida por pessoas popularmente conhecidas como “flanelinhas”.

Em matéria de mobilidade social, porém, nada provocou mais a ira dos abutres da miséria alheia do que o “bolsa-família”. E, nesse sentido, qualquer semelhança entre seus argumentos e o de Michael Bernstam não é mera coincidência. A única diferença é que o Governo Federal brasileiro, ao fazer desaparecer, através do fornecimento do referido auxílio, os incentivos ao trabalho e ao investimento, criou não “refugiados de guerra permanentes”, mas uma massa de vagabundos permanentes, condição que lhes “põe o pão na mesa, garante a casa sem pagar aluguel, além de um conjunto de serviços gratuitos”. Donde, por conseguinte, um acampamento do MST, por analogia, não passar de “caldo de cultivo” para a “prática de crimes e ilícitos civis causadores de enormes prejuízos” à toda sociedade”. Nada mais sensato, então, em sintonia com a política externa sionista para a Palestina Ocupada e os refugiados que ela gerou, do que postular a extinção dessas “bases operacionais”, verdadeira “ameaça à sociedade e à própria segurança nacional” em franca “estratégia confrontacional” com o Estado.

Não há diferença substancial entre a intolerância de Michael Bernstam, dos referidos promotores gaúchos, da senadora integrante da bancada ruralista, dos funcionários do Grupo RBS e dos supostos humoristas. Embora quase não possamos distinguir a essência de seus argumentos, tratá-los como mero preconceito de classe seria, na melhor das hipóteses, um cavalheiresco reducionionismo. É mais do que isso; trata-se do caldo de cultivo do ódio fascista que desconhece a humanidade do outro.

Não sei exatamente quando a apologia à violência contra a mulher e o machismo viraram humor, quando a homofobia e o racismo transformaram-se em argumentos e, muito menos, quando a insensibilidade histórica tornou-se algo engraçado. Sei, todavia, que é tênue a linha que separa certas crenças irrefletidas do ódio que leva sionistas a matar de fome crianças palestinas, neoconservadores a ridicularizar todo sujeito de razão que não se encaixe no protótipo do macho moderno – heterossexuais hedonistas metidos a engraçadinhos com suas eternas barbas por fazer, cujo narcisismo niilista asséptico é a própria negação da política e do debate público qualificado como espaço necessário à sua efetivação - e intelectuais orgânicos da velha direita brasileira a desqualificar todo interlocutor que não cheire à tradição, família e propriedade.

NOTAS

(1) Cf., p. ex., os recentes casos de racismo e de homofobia envolvendo o deputado federal progressista Jair Bolsonaro (RJ), a ameaça de processo à blogueira Lola Aronovich por parte de um certo humorista chamado Marcelo Tas, que a acusa de tê-lo caluniado e difamado ao supostamente chamá-lo de misógino, o caso de machismo e de apologia à violência contra a mulher protagonizado pelo humorista conhecido como Rafinha Bastos, que segundo a referida blogueira teria defendido “com todos os dentes piada de estupro (é um favor uma mulher feia ser estuprada, estuprador merece um abraço etc)”, o caso de insensibilidade histórica protagonizado pelo também humorista Danilo Gentili, que teria escrito em seu twitter, ainda segundo Aronovich, que entendia porque os judeus do bairro paulistano de Higienópolis seriam contra a construção do metrô em seu bairro, pois “da última vez que entraram num vagão, foram parar em Auschwitz”, assim como, também, os recentes casos de mobilização de variadas correntes protestantes e de católicos contra decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que equiparou a união de casais homoafetivos à figura civil da União Estável.

(2) O pensamento da senadora gaúcha é pré-colonial porque, como nos ensina Raimundo Faoro, “(…) vibra, nas normas jurídicas que orientaram a distribuição do solo aos colonos, a velha lei consolidatória de D. Fernando I (provavelmente 1375), lei de transação entre a burguesia rural e a aristocracia agrária, não aplicada no tempo, mas incorporados seus princípios nas Ordenações Alfonsinas, Manoelinas e Filipinas. A feição mais importante do instituto – a reversão da terra não cultivada à Coroa – conservou-se graças à revolução de Avis, com o perfil de predomínio da coisa pública – dos fins e objetivos públicos – sobre a ordem particular. A terra se desprende, desde o século XIV, de seu caráter de domínio, adstrito ao proprietário, para se consagrar à agricultura e ao povoamento, empresas promovidas pelo rei a despeito da concepção de propriedade como prolongamento da pessoa, da família ou da estirpe (…)“ (Raimundo Faoro. Os Donos do Poder – Formação do patronato político brasileiro. Vol. 1, Capítulo IV, p. 140). Ou seja, a manutenção da sesmaria recebida pelos então colonos estava condicionada ao seu aproveitamento, quadro jurídico assegurado pelas Ordenações, Direito então vigente na Colônia. Havia, portanto, uma noção de função social e de utilidade da terra mesmo entre nossos colonizadores. Ana Amélia Lemos consegue, na defesa dos proprietários rurais, ser mais atrasada socialmente do que se era há 500 anos. Daí sua defesa da propriedade absoluta, sem função social alguma, ser um pensamento pré-colonial.

* Mestrando em filosofia. Mantém o blog www.laviejabruja.blogspot.com

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O Tea Party e o cha cha cha


Lucas Mendes
De Nova York para a BBC Brasil

O Tea Party não é um partido nem uma festa nem um clube de chá. Parece um movimento em plena fervura, mas tem folhas podres. Christine O'Donnel, candidata azarão apoiada pelo Tea Party à senadora em Delaware, tem um currículo de desfalques e calotes, grau zero na chaleira política, um passado ridículo de bruxaria na universidade. Uma de suas campanhas foi contra a masturbação. É uma das peças decisivas no plano de retomada do Senado pelos republicanos.

Outros candidatos com folhas podres e zero em experiência são Sharon Angle, ao Senado de Nevada, que promete acabar com a Previdência Social, o plano de saúde Obamacare e a assistência médica para os velhos.

Carl Paladino, candidato a governador de Nova York, até agora era mais famoso pela conexões suspeitas e pelos e-mails pornográficos e racistas. Jim Miller, candidato a senador pelo Alasca, acusa o governo federal de gastos extras, mas escondia que recebia subsídios para suas fazendas. Nenhum deles ocupou cargo político e este é o maior dos encantos deles. Anti-Washington, são politicamente "puros".

Alguns destes revolucionários do Tea Party, como Christine O'Donnel, foram eleitos em primárias que tiveram menos do que 10% de participação dos eleitores - 3 % no caso de O'Donnel.

Ganharam com o endosso da rainha não coroada do Tea Party - o movimento não tem lideres formais -, Sarah Palin, que foi deputada e prefeita, mas renunciou antes de terminar o mandato de governadora do Alasca. Sarah é um fenômeno do culto da celebridade, genial na autopromoção.

Vamos mudar de chaleira. O rei do chá é um homem que nunca foi político, mas foi pioneiro da autopromoção, do culto da celebridade e revolucionou o consumo de massa na Inglaterra com suas folhas frescas de chá.

Thomas Lipton, descendente de imigrantes irlandeses, saiu da Escócia e da escola aos 17 anos e chegou em Nova York sem ter onde cair morto. Fazia qualquer tipo de trabalho até conseguir um emprego fixo num grande mercado de secos e molhados, o A.T. Stewart, em Manhattan. Os pais em Glasgow tinham um mercadinho sujo e escuro numa favela que Friedrich Engels chamou de "pior vizinhança industrial do mundo".

Thomas Lipton, depois de 4 anos em Nova York, voltou para Glasgow com três lições básicas para ensinar aos pais e ao país: publicidade, apresentação dos produtos e muita luz. Num país que escurece às 3 da tarde no inverno, o novo mercadinho podia ser visto de longe graças ao gás de Lipton. Com estantes sempre abastecidas e impecáveis, em pouco tempo ele tinha uma pequena rede de mercados.

Naquela época, os ingleses já consumiam 140 litros de chá por ano, mas a qualidade não era confiável. Muitos comerciantes misturavam folhas usadas no café da manhã com folhas frescas. A importação era controlada por um monopólio, Mincing Lane.

Thomas Lipton entrou no páreo e seus mercados ofereciam um pacote bem embalado, sempre fresco, pela metade do preço. estruiu a concorrência e em menos de duas décadas, conta o biografo Michael D'Antonio, tinha 300 super mercados na Grã-Bretanha.

Tornou-se um dos maiores anunciantes nos jornais e, na fase pré-rádio, inventava truques: uma fileira de homens gordos carregavam cartazes com o slogan "vim do Lipton". Do outro lado da rua, uma fileira de homens magros carregavam cartazes "vou para Lipton". Naquela época, gordura era sinal de prosperidade.

À publicidade, acrescentou a autopromoção. Lipton foi um do pioneiro no uso do esporte para promover seus produtos. O grande evento esportivo da época era a corrida de iatismo America's Cup. Disputou cinco e perdeu todas.

Já bilionário, adorável, Thomas investiu sua energia em se tornar uma celebridade. Era vaidoso e egocêntrico, mas com seu bigodão, sua simpatia, gravata borboleta, chapéu de capitão de iate, era atração em Londres e Nova York. Circulava com mulheres lindas, tinha acesso ao palácio. Era amigo do rei.

Nos últimos trinta anos, as folhas de Lipton começaram a apodrecer. As mulheres eram apenas um disfarce. Era gay enrustidíssimo como convinha na época. No iatismo, só o chapéu era verdadeiro. A cadeia Lipton se envolveu em escândalos e corrupção, perdeu dinheiro e Thomas Lipton, folha podre, foi jogado no lixo pela própria empresa.

A Unilever comprou a divisão de chá, que está próspera como nunca .

Qual a conexão com o Tea Party de Sarah Palin? A genialidade dela, como Lipton, é a autopromoção e a ótima embalagem, mas, como os candidatos do Tea Party, pode ser folha podre no partido republicano.

Graças ao Tea Party, o partido democrata, hoje ameaçado pela fervura dos radicais conservadores, talvez comemore com um cha-cha-cha as eleições de novembro.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Novo currículo para os alunos do Texas

Cena do Filme The Wall (Pink Floyd):

Alessandra Correa, para BBC

Uma decisão anunciada nesta sexta-feira reforçou a imagem que muitos americanos têm do Texas como um dos Estados mais conservadores do país.

Depois de meses de polêmica e protestos, o Conselho de Educação do Estado aprovou uma revisão dos currículos de Estudos Sociais e História nas escolas públicas.

Muita gente não gostou da mudança e diz que é resultado da influência de uma ala republicana religiosa no conselho e que vai politizar o ensino e impor visões conservadoras.

Uma das modificações prevê que os professores do Texas deem maior ênfase ao ensino dos benefícios do sistema de livre mercado americano.

Outra proposta é a de que as aulas ressaltem como os ideais americanos beneficiam o mundo, enquanto organizações como a ONU podem representar uma ameaça às liberdades individuais.

A revisão no currículo das escolas texanas ocorre a cada dez anos. Isso significa que as mudanças aprovadas nesta semana só poderão ser modificadas daqui a uma década.

A preocupação dos críticos dessa reforma é também de que as mudanças possam respingar em outros Estados, já que, com quase 5 milhões de alunos, o Texas tem grande influência na indústria de livros didáticos do país.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Cañizares considera peor el aborto que los abusos a menores en Irlanda por parte de la Iglesia


Barcelona. (EUROPA PRESS).- El cardenal prefecto de la Congregación por el Culto Divino y la Disciplina de los Sacramentos, Antonio Cañizares, consideró que "no es comparable" el caso de los abusos a menores en escuelas católicas irlandesas entre los años 50 y 80 con el aborto, porque el primero afecta a "unos cuantos colegios" y el segundo supone que "más de 40 millones de seres humanos se han destruido legalmente".

Sobre lo sucedido en Irlanda, dijo que estas conductas son "totalmente condenables" y hay que pedir perdón. En una entrevista a TV3, Cañizares señaló ayer que la reforma de la ley del aborto del Gobierno central tiene como punto de referencia el desconocimiento de la verdad del hombre y de los derechos humanos.

En su opinión, cuando un gobierno pretende legislar con un proyecto como este, está "debilitando los cimientos de una misma sociedad". Remarcó que el Gobierno de José Luis Rodríguez Zapatero pretende llevar a cabo un cambio social y cultural muy grande, "hacer una sociedad y una cultura totalmente nuevas".

En cuanto a las polémicas declaraciones del Papa sobre el uso del preservativo en África para combatir el Sida, compartió las tesis de Benedicto XVI porque, dijo, los preservativos no son la solución a la enfermedad, y consideró que hace falta más educación sobre la sexualidad, el matrimonio y la familia.

La ministra de Sanidad y Política Social, Trinidad Jiménez considera "muy grave" e "irresponsable" relacionar los abusos sexuales a menores con el aborto, como ha hecho el cardenal Antonio Cañizares.

Para la ministra de Sanidad, las declaraciones del cardenal "son absolutamente inadecuadas e inoportunas, porque estamos hablando de asuntos completamente diferentes y es muy grave que se compare una cosa con la otra".

"Los abusos sexuales normalmente se cometen en menores, se cometen contra su voluntad, afectan a una manera terrible a su vida, comparar una situación con otra es irresponsable y completamente inadecuado, sobre todo en una persona que ocupa una posición como la del arzobispo", ha asegurado Jiménez, tras asistir al I Premio Intregra de BBVA.

La Vanguardia

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Cardeal de Colônia critica alemães por depreciar papa Bento 16


Neste domingo (19/04) na catedral de Colônia, o arcebispo da cidade, cardeal Joachim Meissner, criticou o tratamento dado pelos alemães ao papa Bento 16. Em nenhum outro país o sumo pontífice seria tão depreciado como na Alemanha, afirmou Meissner, em alusão ao debate sobre a anulação da excomunhão de quatro bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio 10 e à visita do papa ao continente africano

O cardeal de Colônia afirmou não ser possível deixar de ter a impressão de que dentro e fora da Igreja "o que se espera é a ocasião para poder atacar o papa". Meisser acresceu que isso o feriu e entristeceu. Nas críticas ao papa, faltaram, sobretudo, respeito e paciência, criticou o prelado.

Deutsche Welle

domingo, 5 de abril de 2009

Nasce uma estrela na rede Fox News


Nos dias, semanas, meses e anos que se seguiram ao 11 de setembro de 2001, a Fox News - do império de mídia do magnata australiano Rupert Murdoch - funcionou como uma espécie de fonte irradiadora de um terrorismo oficial patrioteiro, que ao mesmo tempo glorificava a figura do presidente George W. Bush como herói combatente de três guerras, uma delas meramente metafórica. O objetivo do canal, agora, é denunciar o "rumo socialista de Obama". O artigo é de Argemiro Ferreira.

Argemiro Ferreira

O nome da nova estrela é Glenn Beck. Chamei atenção para ele em texto anterior para Carta Maior, a 25 de fevereiro. Ele tinha sido apresentado no canal Headline News, da CNN, onde entrevistou Sarah Palin em setembro. E neste ano de 2009 foi lançado com barulho pela Fox News, onde criou um quadro fixo sobre o governo Obama: The Road to Socialism (A Rota para o Socialismo).

Nos dias, semanas, meses e anos que se seguiram ao 11 de setembro de 2001, a Fox News - do império de mídia do magnata australiano Rupert Murdoch - funcionou como uma espécie de fonte irradiadora de um terrorismo oficial patrioteiro, que ao mesmo tempo glorificava a figura do presidente George W. Bush como herói combatente de três guerras, uma delas meramente metafórica.

A guerra de mentirinha - ou marca de fantasia - consagrada na expressão bushista global war on terror (guerra global ao terrorismo, ou então GWOT), conviveu com as duas de verdade - a do Afeganistão, hoje agravada e deteriorada, e a do Iraque, resultante da invasão ilegal seguida de ocupação, em desafio aberto à Carta das Nações Unidas, onde o Conselho de Segurança negara apoio à aventura.

Para desespero do presidente Bush e seu onipresente gênio do mal, o vice Dick Cheney, uma das primeiras decisões do presidente Barack Obama, primeiro negro na história a chegar à Casa Branca, consistiu em “desencantar” a guerra da fantasia bushista - enquanto, paralelamente, reforçava as tropas no Afeganistão e abreviava o prazo para a retirada dos soldados que ainda permanecem no Iraque.

O rumo “socialista” de Obama
Um problema incômodo para o novo governo, no entanto, é a sobrevivência nos EUA da barulhenta máquina de informação - ou desinformação - manipulada antes pelo governo Bush para “defender o país do terrorismo”. Nela atua, incansável, o grupo neoconservador que produzira a ficção bélica e comandara a campanha contra o Iraque. Pois agora esses neocons reciclam o terrorismo - contra o governo.

A Fox News de Murdoch mantém esse terrorismo no ar, das primeiras horas do dia até o final da noite. Da mesma forma como nos anos Bush aterrorizava as pessoas contra as poucas vozes da oposição que ousavam expor violações das liberdades civis nos EUA, prática e terceirização da tortura em Guantánamo e nas prisões secretas da CIA espalhadas pelo mundo, agora vê comunismo no governo.

Na nova fase, reciclada, do terrorismo patrioteiro, cujo alvo central é o próprio governo, estão alguns dos mesmos combatentes retóricos inflamados do período bushista, do campeão de audiência Bill O’Reilly, que nega ser ideológico, ao vorazmente ideológico Sean Hannity, que se livrou do incômodo penduricalho liberal Alan Colmes. E eles ganharam um reforço de peso: Glenn Beck.

Beck não assusta por ser louríssimo e de olhos azuis. Apavora pela aparência de charlatão sem escrúpulos, capaz de qualquer excesso exibicionista. Se necessário, chora. Derrama lágrimas abundantes, verdadeiras. Enquanto a Fox News criou uma Fox Nation (Nação Fox), ele lançou seu próprio Projeto 12 de Setembro - esforço explícito para reviver a histeria que se seguiu ao terrorismo de 11/9.

O terrorismo e a raiva conservadora
É difícil adivinhar aonde isso tudo vai parar. Os indícios são de que se pretende, tirando partido da incerteza trazida pela crise econômica, legado da dupla Bush-Cheney, produzir certo populismo, apoiado nos setores pos-11/9 mais histéricos, para um desafio nacional maciço ao governo Obama - retratado como “ameaça comunista” às liberdades, atribuídas ao capitalismo.

Ver tudo isso como mero entretenimento da mídia seria subestimar os resultados já obtidos pela Fox News. O próprio New York Times registrou a 30 de março que Beck, mesmo na periferia do horário nobre - de 6 às 10 da noite pontificam jornais em rede nacional e talk shows de mais sucesso, como O’Reilly e Hannity - já é uma das vozes poderosas a refletir “a raiva populista conservadora da nação”.

Em período pouco superior a dois meses, o programa de Glenn Beck, no horário ingrato de 5 da tarde, é um fenômeno: atrai 2,3 milhões de telespectadores e supera todos os demais das redes de notícias na TV a cabo, excetuados os de O’Reilly e Hannity no horário nobre (8 e 9 da noite). Segundo o Times, significa uma façanha para a Fox News, que sofrera uma queda na campanha eleitoral.

Beck, como outros donos de talk shows, nega ser jornalista (a profissão parece em baixa junto ao público). Diz que começou como “palhaço de rodeios” e compara-se a Howard Beale, aquele âncora de noticiário de TV no filme Network (Rede de Intrigas). Esse personagem anunciou no ar a intenção de matar-se diante das câmeras, numa reação à queda de audiência de seu programa.

“Ele está louco como o diabo”
Como a ameaça de suicídio causa impacto, Beale (interpretado por Peter Finch) ganha um horário para falar de sua revolta (“I’m mad as hell”) contra o que está errado no país e em sua vida. O "Projeto 12/9", de Beck, pretende isso. Com ele Beck encoraja pessoas em todo o país a reeditar em sua cidade a tea party de Boston, o evento que marcou em 1773 o início da rebelião dos colonos contra a Coroa.

O populismo de Beck e Rush Limbaugh, o rei do talk show de rádio desde os anos 1990, lembra o do padre católico Charles Coughlin, cujo sucesso começou com pregações pelo rádio em 1927. Contratado pela CBS em 1930, atraia 40 milhões de ouvintes para suas palestras semanais, que no início exaltavam o New Deal de Roosevelt e depois aderiram ao anti-semitismo, apoiando Hitler e Mussolini.

O Times definiu Beck no título de sua reportagem como a “louca, apocalíptica e lacrimosa estrela em ascensão da Fox News”. Segundo a reportagem de Brian Stelter e Bill Carter, ele faz uma salada de ultraje, lições baratas de moralismo e visão apocalíptica do futuro. Não por acaso, gente como ele e Coughlin costumam chegar ao centro do palco em meio a crises como a de 1929 e a de agora.

Haverá casamento de interesses mais perfeito? De um lado o potencial do império Murdoch, com o poder (testado depois do 11/9) de aterrorizar. Do outro, o populismo moralista, ultrapatriota, religioso, hipócrita e capaz de atrair a preconceituosa massa conservadora, golpeada pela derrota do Partido Republicano e pronta a acreditar que um complô subterrâneo liderado na Casa Branca por Obama vai comunizar o país.

Blog do Argemiro Ferreira
Carta Maior

segunda-feira, 9 de março de 2009

VATICANO: Máquina de lavar fez mais pela mulher do que a pílula


CIDADE DO VATICANO (Reuters) - Feministas do mundo todo, é melhor sentarem-se para ler isso: o jornal do Vaticano diz que a máquina de lavar talvez tenha feito mais pela liberação da mulher no século 20 do que a pílula anticoncepcional ou o acesso ao mercado de trabalho.

A conclusão consta em um longo artigo publicado na edição do fim de semana do jornal semioficial do Vaticano, o L'Osservatore Romano, por ocasião do Dia Internacional da Mulher. O título era "A Máquina de lavar e a liberação das mulheres -- ponha detergente, feche a tampa e relaxe".

"O que no século 20 fez mais para liberar as mulheres ocidentais?", questiona o artigo, escrito por uma mulher. "O debate é acalorado. Alguns dizem que a pílula, alguns dizem que o direito ao aborto, e alguns (dizem que) o direito a trabalhar fora de casa. Alguns, porém, ousam ir além: a máquina de lavar."

O texto então conta a história da máquina de lavar, desde um modelo rudimentar de 1767 na Alemanha, até os modernos equipamentos com os quais a mulher pode tomar um capuccino com as amigas enquanto a roupa é batida.