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sábado, 14 de agosto de 2021

UM POUCO DE HISTÓRIA: GOLPES MILITARES NO BRASIL

 

Seis golpes militares e um que fracassou

 

Por Pedro Doria, para Canal Meio (canalmeio.com.br)

De tempos em tempos, fechados em seus gabinetes, generais do Exército concluem que têm o direito de decidir quem governará o Brasil. De 1889 para cá, aconteceu mais de uma dezena de vezes. Em seis delas, os oficiais tiveram sucesso. Esta é a história de cada um destes seis golpes de Estado. E de um que fracassou.

1889

O marechal Deodoro da Fonseca estava doente, tomado por uma crise asmática, na manhã de 15 de novembro, em 1889. Ainda assim sua casa foi tomada por militantes republicanos que o puseram num coche. Deodoro, de mau humor. Ao chegar ao Campo de Santana, onde trabalhava o primeiro-ministro, visconde do Ouro Preto, Deodoro deixou a carruagem, montou a cavalo, entrou no palácio, derrubou o premiê dizendo poucas palavras e voltou para casa onde se trancou sem querer receber mais ninguém.

Em momento algum deixou claro se havia derrubado só o gabinete ou se havia encerrado também a monarquia brasileira.

O imperador dom Pedro II, àquela altura, estava longe do Rio, na cidade de Petrópolis, quando recebeu no fim da manhã um telegrama de Ouro Preto informando de sua deposição. Tomou um trem para a capital e, do palácio imperial, mandou convocar Deodoro. Que o ignorou.

Amanheceu o 16 de novembro com sua residência cercada por soldados armados.

A história dos golpes brasileiros é marcada por muitos eufemismos. O de 1964 foi por anos chamado de ‘revolução’, atualmente os militares preferem trata-lo por ‘movimento’. O de 1889 éestá nos livros como ‘proclamação da República’. Alguns dos golpes militares em nossa história foram organizados. Os generais se reúnem, combinam o jogo, destituem o governo e encerram a Constituição. Outros foram confusos, com bateção de cabeças, planos vagos, nenhum acordo claro. Acabaram dando certo mais por omissão dos governantes que decidiram não resistir. Foi, igualmente, o caso de 1889 e 1964.

As Forças Armadas brasileiras se formaram profissionalmente a partir da Guerra do Paraguai e saíram com prestígio. Mas este prestígio não foi retribuído pelo Império na forma de salários e poder. Ao mesmo tempo, principalmente na elite agrária, em fins da década de 1880 havia insatisfação com a abolição da escravatura. As duas forças políticas levaram ao golpe desajeitado que tornou o Brasil uma república e pôs em seu comando um marechal.

1891

Mas era um inepto, Deodoro, como governante. A inflação disparou e ele não conseguiu garantir apoio político. Em 1891, o Congresso entregou uma Constituição para a República e, por uma margem tênue, elegeu indiretamente Deodoro, o que deveria consolidá-lo na presidência. Tinha, porém, a oposição de boa parte dos integrantes do movimento republicano. Numa situação de instabilidade, com líderes políticos regionais ameaçando pegar em armas contra o governo, o marechal tomou a decisão de fechar o Congresso Nacional. Foi o Golpe de 3 de novembro.

Só que havia um problema: ele não contava com a lealdade do Exército.

Quem tinha este apoio era Floriano Peixoto, também marechal, seu vice-presidente, e número dois das Forças Armadas desde os tempos do imperador. Em 23 daquele mês, os navios atracados na Baía de Guanabara voltaram seus canhões para a capital e ameaçaram bombardear a cidade caso Deodoro não renunciasse.

Renunciou, pois, tendo perdido tanto Exército quanto Marinha. Dois golpes seguidos, um após o outro. A República demorou décadas para se estabilizar. Inúmeros movimento armados eclodiram. Alguns populares, outros de suboficiais, muitos rurais, tantos urbanos. Mas aquela instabilidade institucional que marcou o período entre 1889 e 91 passou por um tempo.

Ao menos, até os militares começarem a questionar novamente os civis.

Um golpe fracassado

No início da tarde de 6 de julho, em 1922, ainda antes das 14h, 28 militares deixaram o Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, em direção ao palácio presidencial no Catete. Quatro tenentes, os outros soldados, haviam decidido por um suicídio ritualizado. Pouco mais de um dia antes, na madrugada de 5, havia sido tentado um levante militar para derrubar do poder o presidente Epitácio Pessoa. O líder golpista era um ex-presidente: o marechal Hermes da Fonseca. Sobrinho de Deodoro e o mais condecorado militar do Exército brasileiro. Mas durante uma noite confusa, o levante na Vila Militar havia fracassado e os oficiais amotinados foram presos. Dentre eles, o tenente Arthur da Costa e Silva. Àquela altura, dentre os rebeldes, só haviam sobrado aqueles 28 do Forte de Copacabana. Pois decidiram não se render e marchar contra o Palácio do Catete plenamente conscientes de que no caminho seriam interceptados por tropas leais ao presidente.

Pois foram.

Não se sabe quantos deles chegaram à rua Barroso — alguns foram perdendo a coragem e fugindo pelo caminho. Eram mais de dez, possivelmente menos de 15, mas a história registrou um número mítico. Os Dezoito do Forte. Pois foi àquela altura que soou o primeiro tiro, abatendo um praça que caiu imediatamente morto. Os homens se atiraram na praia, buscando proteção na mureta de concreto que separava a pista da areia. Por mais de uma hora, aquela dezena e pouco resistiu ao assédio de mais de mil soldados. Quem viu lembra que parecia chover no mar de tantas balas que caíam. Foi um massacre — sobraram vivos apenas dois, muito feridos. Os tenentes Antonio Siqueira Campos e Eduardo Gomes. Anos depois, a rua Barroso teria seu nome trocado pelo de Siqueira.

Os Dezoito do Forte deram início a uma onda de revoltas que tomariam o país nos anos seguintes e o movimento ganharia nome. Tenentismo. Aqueles tenentes como Siqueira, Gomes e Costa e Silva eram formados pela turma admitida em 1918 pela Escola Preparatória de Oficiais do Realengo, que anos depois seria substituída pela Academia Militar de Agulhas Negras. Foram, eles, os primeiros oficiais formados profissionalmente pelo Exército Brasileiro, com uma escola própria de nível universitário. Siqueira e Gomes foram líderes importantes do movimento, junto de Luís Carlos Prestes, Juarez Távora e João Alberto Lins e Barros.

Sua geração consolidou a convicção que herdou dos oficiais que os antecederam.

O princípio era simples: militares são formados para dar a vida à nação. São disciplinados. Têm apenas os interesses do país em mente. Nenhuma instituição, portanto, é mais leal ao Brasil do que as Forças Armadas. Quando os políticos traem o país, em nome da pátria são militares que têm o dever de salvá-la. Ao longo dos anos 1920 este modo de pensar impregnou nas Forças Armadas. E, nos três golpes de Estado que marcaram as décadas seguintes, líderes tenentistas estiveram envolvidos.

De alguma forma, o espírito democrático nunca pegou nas Forças Armadas. O atual discurso de generais contra o Supremo Tribunal Federal deixa isto claro.

1930

Na manhã de 24 de outubro, em 1930, deixaram o mesmo Forte de Copacabana um grupo de oficiais liderados por dois generais — Augusto Tasso Fragoso e João de Deus Mena Barreto. Desta vez, não encontrariam qualquer resistência. Ambos estavam numa conversa permanente desde a véspera. Mena havia procurado Tasso para lhe informar que, em discussões com outros generais, haviam concluído que o presidente Washington Luís Pereira de Souza não tinha mais condições de governar. “Já se achavam articulados os elementos necessários à pacificação do país”, afirmou. “Não é justo que Exército e Marinha”, continuou Mena Barreto, “se aferrem à defesa de um governo que a nação já não suporta. A força armada é servidora desta e não daquele.”

Àquela altura, tropas rebeladas compostas por soldados e policiais militares, que tinham entre os líderes Eduardo Gomes e João Alberto, estavam no Paraná prestes a avançar sobre São Paulo. Siqueira Campos havia morrido afogado meses antes e por isso não caminhava com os antigos companheiros. Prestes se juntara aos comunistas e assim escolheu outro caminho. Aquelas topas, não. Sua intenção era colocar no governo o governador gaúcho Getúlio Dornelles Vargas. E era tendo em mente este avanço rebelde que o alto-comando do Exército tomou sua decisão. Ao invés de proteger o presidente e a Constituição, precipitaria sua queda.

Ao chegar ao palácio presidencial, os dois generais já traziam consigo o contra-almirante Isaías de Noronha, representando a Marinha. (A Aeronáutica ainda não havia sido formada.) Apenas na véspera, irritado, Washington Luís havia proibido seus auxiliares de trazerem a ele as histórias que circulavam na capital de que um golpe de Estado estava em marcha. Havia se convencido de que eram boatos, de que o Exército lhe era fiel. Os três oficiais entraram no palácio e pediram que o presidente fosse informado de sua presença. Então se sentaram. E esperaram. Àquela altura, por ordens suas, o palácio já estava cercado. Washington Luís podia ter se movido ao autoengano até aquela manhã, mas já não era mais possível. E, ainda assim, não mandava entrar aqueles oficiais. Os três homens esperaram. E esperaram. Até que desistiram. Se levantaram, atravessaram salas uma após a outra, e simplesmente abriram a porta do presidente. Encontraram-no de pé à cabeceira da mesa, com todos seus ministros também de pé.

“Disse-lhe que ele de certo compreenderia o nosso pesar de sermos obrigados a assumir aquela atitude”, escreveu mais tarde Tasso Fragoso. “Naquele momento só uma coisa me preocupava, a vida dele”, registrou não sem um quê de cinismo. “É a única coisa que não me preocupa”, respondeu o presidente. Mas, com o palácio cercado e aqueles dois generais mais um contra-almirante à frente, não havia escolha. Horas depois, Washington Luís deixou o prédio num automóvel.

A imagem foi registrada por um jovem repórter que havia recebido a notícia de que aquele golpe estava em curso. Roberto Marinho fez ali a foto que se tornou o mais importante furo de sua carreira.

Quando Getúlio enfim chegou ao Rio, Tasso, Mena e Noronha ocupavam o governo federal e o repassaram ao novo presidente.

1937

Foram anos intensos e confusos os primeiros de Vargas no poder. A Primeira República caiu, Washington Luís foi exilado, e em 1932 São Paulo se levantou rebelada. O presidente gaúcho tomou o poder derrubando um presidente paulista, alijara a elite daquele estado e havia prometido uma Assembleia Constituinte. Não aconteceu. A guerra civil veio e foi, deixando quase dois mil mortos, a Constituinte então foi entregue e, em 1934, o país ganhou a Constituição mais democrática que teve até chegar a de 1988. Entre outros temas, determinava eleições presidenciais para dali a quatro anos.

É só que, quando a campanha eleitoral já estava em curso e chegava o segundo semestre de 1937, Getúlio Vargas não se sentia ainda disposto a ceder o poder. Apenas um novo golpe de Estado, que pusesse abaixo mais uma Constituição, poderia lhe garantir isso. Só que golpes exigem justificativas. Em 1930, havia exaustão com os fracassos do regime que durava já desde o primeiro presidente eleito, sucessor de Floriano Peixoto. Em 1937 seria necessário contar uma história e ela veio na forma de uma mentira. O Plano Cohen.

Naquele ano, um jovem coronel chamado Olímpio Mourão Filho redigiu um plano que indicava como uma revolução comunista poderia acontecer no Brasil. Mourão Filho não era comunista — na verdade, estava num lugar ideológico diametralmente oposto. Era o número dois da milícia fascista da Ação Integralista Brasileira. Ao longo da vida, o coronel disse que escreveu o texto como um estudo para ter um cenário sobre o qual pudesse pensar a defesa do país perante aquele levante.

Em 1937, a possibilidade de um levante comunista não era apenas hipotética. Apenas dois anos antes, Luís Carlos Prestes havia liderado a Intentona, justamente uma tentativa de revolução financiada pela União Soviética de Josef Stálin. Foi mal planejada e um fracasso completo, mas o alerta estava aceso. E dois generais, justamente os dois mais graduados do Exército, levaram a Getúlio o plano e tomaram a decisão de divulga-lo como se fosse verdadeiro. Eram Pedro de Góes Monteiro e Eurico Gaspar Dutra.

O Congresso Nacional era, principalmente, liberal. Góes Monteiro e Dutra, porém, começavam a sugerir que sua composição tinha disfarçados traços comunistas. Em 28 de setembro de 1937, o presidente Getúlio Vargas recebeu uma delegação de generais. “É preciso agir, mesmo que fora da lei, mas em defesa das instituições”, lhe disse um deles. O político gaúcho assentiu. Mas não bastava o apoio militar, o presidente considerou que precisava ter certeza de que políticos o suficiente apoiariam uma medida de força. No final de outubro, enquanto o Plano Cohen era badalado pelas ondas de rádio e páginas de jornais, encaminhou ao Congresso o pedido de que fosse decretado Estado de Guerra. É quando certos preceitos constitucionais são suprimidos porque o país está sob ameaça externa. Quando deputados e senadores o aprovaram, Getúlio teve a confirmação de que seu golpe não teria resistência.

Na madrugada de 10 de novembro de 1937, as Forças Armadas cercaram o prédio do Congresso Nacional. Inúmeros parlamentares foram presos. Naquela manhã, Getúlio apresentou uma nova Constituição. Tinha por apelido a Polaca, por ter sido inspirada na Carta polonesa. Fascista.

1945

Em finais de 1943, estava ficando já claro que os Aliados venceriam a Grande Guerra. Com o fim do conflito na Europa, era inevitável que uma mudança de rumos precisaria ocorrer no Brasil. A Ditadura do Estado Novo teria de ceder espaço a uma democracia. Sempre hábil, Getúlio tinha planos de ser seu próprio sucessor. Para isso, pôs a máquina do Estado a serviço de cultivar sua imagem e construir uma base popular que pudesse elegê-lo no voto. Assim, do flerte aberto com a direita na década anterior, começou a reconstruir sua imagem à esquerda. Em 1º de Maio de 1943, anunciou o decreto-lei 5.452, que consolidava as Leis do Trabalho. CLT. Formalizava regras para criação de sindicatos, consolidava a carga horária de 8 horas, seis dias por semana, barrava o trabalho infantil, estabelecia o salário mínimo e uma estrutura previdenciária para aposentadoria.

Era um golpe de mestre. Se por um lado consolidava direitos trabalhistas despertando a fidelidade de operários da indústria que nascia, por outro submetia os sindicatos à pesada influência do Estado, afastando os comunistas. Ao fazer com que o Estado repassasse dinheiro para que os sindicatos se sustentassem, criava uma dependência que lhe garantia influência.

Mas conforme 1945 se aproximava, Getúlio não se anunciava candidato. Incentivava o surgimento, na sociedade, de um movimento em seu apoio. Queria ser alçado ao poder. Àquela altura, já haviam se formado três grandes partidos políticos. Dois deles, por suas mãos. Um, o PTB, seria o seu, concentrando funcionários públicos e operários. O PSD reuniria os chefes políticos regionais. A UDN era da oposição, composta por liberais e conservadores. Eurico Gaspar Dutra, que havia sido seu ministro da Guerra e parceiro no golpe de 1937, era o candidato do PSD. O agora brigadeiro tenentista Eduardo Gomes era o candidato da UDN, de oposição. Se o PTB teria candidato seguia em aberto — mas todos sabiam que Getúlio se organizava para ocupar o posto.

Em 28 de outubro daquele ano, o chefe da polícia da capital, João Alberto Lins e Barros, foi informado de que seria substituído no cargo por Bejo Vargas, irmão do presidente. No mesmo momento, informou ao general Cordeiro de Farias da mudança. Os dois haviam sido companheiros de Tenentismo, líderes da Coluna Prestes. Cordeiro havia também comandado a Força Expedicionária Brasileira durante a Guerra. Para os dois, estava claro. Quando pôs o irmão no comando da segurança da capital, Getúlio estava planejando algo. Pois Cordeiro de presto procurou Góes Monteiro — e os generais foram conversando entre si.

Em 29 de outubro de 1945, Cordeiro de Farias e Góes Monteiro entraram no gabinete presidencial e comunicaram Getúlio de que as Forças Armadas não o desejavam mais como presidente.

1964

O gaúcho João Belchior Marques Goulart era herdeiro político de Getúlio Vargas. Vice, havia assumido a presidência após a renúncia surpreendente de Jânio Quadros, em 1961. Governou com o país em crise econômica, inflação e com um certo desajeito — não tinha a habilidade política do padrinho. E havia escolhido um duplo confronto. Com o Congresso Nacional, onde abriu mão de adquirir apoio. Também contra o alto-comando do Exército, decidindo insuflar um levante de suboficiais. Enquanto isso, uma onda conservadora tomava a classe média, principalmente em São Paulo, que se organizava em marchas contra o governo. Simultaneamente, líderes comunistas de um lado, e o governador gaúcho Leonel Brizola do outro, faziam discursos defendendo justamente que Jango partisse para a briga. Que acirrasse a disputa. As vozes pedindo moderação ao seu lado eram poucas, mas dentre elas pesava a do líder governista na Câmara, Tancredo Neves. O deputado acreditava que contornar a crise era possível, caso o governo decidisse botar panos quentes.

Se em 1937 era possível dizer que os soviéticos realmente tinham planos de uma revolução comunista, no Brasil, não havia qualquer indício real disso em 1964. Mas, se aproveitando da radicalização do discurso de Brizola e dos comunistas, a direita defendia que o país corria risco real.

E, entre a busca do diálogo defendida por Tancredo e do confronto proposta por Brizola, Jango ficou com o segundo.

Se nos golpes de 30, 37 e 45 havia se formado um rápido consenso no alto-comando do Exército, em 1964 não foi exatamente assim. As conversas ocorriam. Envolviam o marechal da reserva Cordeiro de Farias, os generais quatro estrelas Orlando Geisel, Humberto Castello Branco, Arthur da Costa e Silva. Todos eram conspiradores profissionais desde os anos 1920 e já haviam planejado golpes não concretizados em 1954 e 55. Não conseguiam chegar, porém, a um acordo claro.

Desta vez, não houve uma comissão de generais entrando pelo gabinete presidencial para comunicar o fim do governo.

Na madrugada de 31 de março, começou a se espalhar a notícia de que o agora general Olympio de Mourão Filho havia levantado suas tropas, em Juiz de Fora, e tomara o rumo do Rio de Janeiro para dar um golpe. Nunca aconteceu, mas os boatos eram convincentes e ninguém o negava. Naquela tarde, Castello, chefe do Estado-Maior do Exército, se isolou em um apartamento de Copacabana e passou a tarde em telefonemas para seus pares. Os generais golpistas eram muitos, mas de telefone em telefone, não se entendiam, não chegavam a conclusão alguma. Só que, diferentemente de Washington Luís 34 anos antes, Jango acreditou que o golpe estava em curso.

E desistiu.

Ao fim de dois dias nos quais havia pouca informação, muitos boatos e nenhum acordo, o presidente tomou um avião para o Rio Grande do Sul e o presidente do Senado tomou o microfone no plenário da Câmara, em sessão conjunta do Congresso.

Sem base legal, declarou vaga a presidência da República.

Seis golpes concretizados com a participação do alto-comando do Exército brasileiro. E o fantasma está sendo atiçado novamente. Não custa dizer: o número de golpes planejados e nunca levados adiante, ou mesmo fracassados, é maior do que os de sucesso.

As histórias registradas por aqui foram colhidas dos livros Washington Luís, de Célio Debes; Getúlio 1930—1945, de Lira Neto; A Ditadura Envergonhada, de Elio Gaspari.


segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Anistia Internacional quer que o Brasil revogue Lei da Anistia


29.08.2011


Em comunicado, a Anistia Internacional disse que o Brasil precisa revogar a Lei da Anistia, que impede que aqueles responsáveis por execuções e torturas cometidas durante o regime militar de 1964/1985 sejam investigados e punidos.

Por ANTONIO CARLOS LACERDA

Em sua sede em Londres, Inglaterra, a Anistia Internacional exortou a presidente Dilma Rousseff a revogar a lei de 1979, que protege suspeitos de “torturas, execuções extrajudiciais, desaparecimentos forçados e estupros”.

“Essa lei é um escândalo, e não fazer nada impede que se faça justiça. Ela deve ser declarada nula, e aqueles responsáveis por abusos dos direitos humanos devem ser levados à Justiça sem demora”, disse a diretora da Anistia Internacional para as Américas, Susan Lee.

Ações judiciais contra a Lei da Anistia foram derrotadas em 2010 e a presidente Dilma Rousseff já prometeu publicamente aos militares que ela é “intocável”, apesar de críticas do Tribunal Europeu de Direitos Humanos e do Comitê de Direitos Humanos da ONU – que determinou que leis de anistia como essa são incompatíveis com a proteção dos direitos humanos.

“Ao manter uma lei que permite que crimes como torturas e assassinatos permaneçam impunes, o Brasil está ficando para trás de outros países da região, que fizeram esforços sérios para lidar com essas questões”, disse Susan Lee. As informações são da Dow Jones.

ANTONIO CARLOS LACERDA é correspondente internacional do PRAVDA.RU

Fonte: CB

Mexico: Dimensión de la guerra

Vergonhoso muro na fronteira do México com os EUA

Adolfo Gilly · · · · · 

Es sabido, en buena doctrina militar, que una nación no puede utilizar a su ejército en tareas de combate a la delincuencia sin condenarlo a la desmoralización y la destrucción. La persecución y el control de la criminalidad es tarea de otro órgano del Estado: la policía. Esa tarea y este cuerpo tienen sus propias reglas, sus modos de investigación, persecución y regulación del crimen, así como su ámbito específico de actividad y responsabilidad.

Haber encargado, por las razones que fuere, la persecución al narcotráfico como tarea primordial del Ejército Mexicano, y haber confundido y fundido su actividad con la que corresponde a los cuerpos policiales, es una descomunal irresponsabilidad –mido mis palabras– por parte del gobierno federal. Haber convertido la represión de una actividad criminal como el tráfico de drogas en una guerra –una guerra interna contra un enemigo impreciso, ubicuo y enmascarado que ha llevado a las corporaciones militares y policiales del Estado también a enmascararse– es una consecuencia natural de esa irresponsabilidad.

Resulta así que el Estado nacional mexicano está en guerra por decisión exclusiva del Poder Ejecutivo. Está por lo tanto en una situación excepcional, la de un Estado que, en los hechos, actúa una y otra vez por encima y al margen de las normas constitucionales y legales que fijan y delimitan sus poderes y sus relaciones con la sociedad. La proyectada ley de seguridad nacional propone diluir y desvanecer aún más la existencia y la vigencia de dichas normas.

Es el reconocimiento suprajurídico de un ente, llamado El Narco, como un Estado paralelo con fuerza militar propia, con finanzas que operan dentro del circuito financiero legal y en sus márgenes, con capacidad y autoridad impositiva de hecho en regiones del territorio nacional, con un cuasi monopolio de la violencia ilegal, contraparte del monopolio de la violencia legítima que por definición corresponde al Estado nacional. Se trata de una imaginaria construcción del enemigo sobre duros hechos reales así interpretados, similar al Eje del Mal de Baby Bush, para justificar una política sin sustento y sin futuro.

Ese reconocimiento, sintetizado en la fórmula guerra contra el narcotráfico, nos coloca a todos dentro de una realidad brutal: la disputa entre organizaciones de múltiples actividades criminales, enfrentadas y enlazadas en una lucha violenta y sin límites, y empuja a las fuerzas armadas de la nación a involucrarse como parte de ese conflicto.

En esta guerra no se respetan normas jurídicas ni límites morales. El narco por naturaleza no lo hace, ya ni siquiera con los antiguos códigos de honor de las organizaciones mafiosas. El Ejército federal se ve arrastrado al mismo terreno y, quiéralo o no, termina moviéndose fuera de la ley en su propio país. No es la primera ni la segunda vez que esto sucede. Pero ahora se convierte en norma de conducta, en modo y en costumbre desesperada. Los responsables de este proceso en el gobierno federal están destruyendo la fuerza moral de ese Ejército, ya antes lesionada por su utilización en conflictos sociales y políticos interiores.
* * *
Organizaciones armadas que por largo tiempo se combaten entre sí terminan asemejándose en métodos y costumbres. Cualquier novela policial muestra esta relación simbiótica entre los cuerpos policiales y el mundo de la delincuencia al cual la policía tiene que combatir, conocer, contener y regular. No se puede involucrar a un Ejército y una Marina nacionales en ese juego imposible e interminable sin pagar las consecuencias como nación y como sociedad y sin acabar desmoralizando, a la corta o a la larga, a los cuadros militares de cualquier nivel. Esto lo sabe bien y se abstiene de hacerlo Estados Unidos, cuyos gobiernos y cuyo ejército miran con sorna cómo el vecino México se adentra en ese camino, y hasta le dan su buena ayudadita.

La situación se agrava cuando las fuerzas armadas se ven obligadas por el gobierno federal a aceptar la intervención, y en muchos casos la tutoría técnica, de las fuerzas armadas del poderoso país vecino, Estados Unidos. Desde los tiempos de Porfirio Díaz, México rechazó esa dependencia, se negó al establecimiento de bases militares y navales extranjeras incluso en tiempos de guerra mundial y no envió a sus oficiales a recibir instrucción en Estados Unidos.

Esa tradición se ha disuelto. Hoy actúa directamente en nuestro territorio, con la aquiescencia y el beneplácito del gobierno federal, personal militar, policial y de inteligencia de la nación vecina.

Desde siempre, la política nacional de Estados Unidos en esta cuestión ha sido tratar de tener al otro lado de la frontera un Ejército mexicano débil y subordinado. No le basta la inmensa desproporción entre ambas fuerzas. Quiere, aunque sus gobernantes no lo digan, un Ejército convertido en constabularia, en cuerpos de policía temidos y odiados por la población, como la Guardia Nacional de Anastasio Somoza en Nicaragua o el ejército del sargento Fulgencio Batista en Cuba.
* * *
Esa política ha pasado ya todos los límites. El Ejército federal de Porfirio Díaz, sin dejar de mantener sus intercambios con Estados Unidos (que no era la potencia actual), adquiría sus armas en la lejana Europa y allá iban sus oficiales. Hoy México depende de la potencia militar limítrofe, Estados Unidos. Pero sucede que la industria de este país también provee de armas al narcotráfico, y no sólo a través de la operación Rápido y furioso. Un mismo proveedor está surtiendo de material bélico a los bandos enfrentados en la llamada “guerra del narco”, un actividad comercial sin control tal como les conviene a la industria del narco y a sus diversos intereses colaterales en los mundos de las finanzas y de la política.

Por otra parte, por los canales intercomunicados del sistema financiero de Estados Unidos y de México circulan impunemente los miles de millones de dólares de esa industria que figura entre los primeros rubros de exportación de este México de hoy, mientras su Ejército está entrampado en una supuesta guerra sin sentido, sin enemigo ubicable y sin posibilidad alguna de éxito. Este es el estado de cosas que la estrategia del narco provoca y desea como cobertura de sus negocios y sus rentas a ambos lados de la frontera.

Desde el punto de vista militar y geopolítico, ¿qué mejor para Estados Unidos en tanto poder militar vecino –cuya zona declarada de seguridad se extiende desde Alaska hasta el canal de Panamá, incluido el entero Caribe– que un México débil politica, social y militarmente, donde las violencias paralelas del narco y el gobierno diseminen indefensión, resignación y miedo?

A ese país nos lleva, si no lo detenemos, el actual gobierno federal con sus otras múltiples guerras contra las organizaciones sociales y sus derechos y conquistas; contra las propiedades de la nación en el suelo, el subsuelo y el espacio aéreo; contra el SME, las comunidades zapatistas, las organizaciones comunitarias de Oaxaca, Guerrero, Veracruz, San Luis Potosí, Sonora, los mineros de Cananea, los pueblos de La Parota, y contra cuantos sectores organizados de la sociedad resisten el despojo territorial, salarial y social.
No es inevitable que así sea.

Adolfo Gilly es miembro del Comité de Redacción de SinPermiso.

La Jornada, 17 agosto 2011

quarta-feira, 30 de março de 2011

Militares lançam nota sobre golpe


Sem referência direta à decisão do Exército de retirar a comemoração do 31 de março de 1964 de seu calendário oficial, os presidentes dos clubes Militar, Naval e de Aeronáutica divulgaram ontem uma nota conjunta para lembrar os 47 anos do movimento que tirou do poder o presidente João Goulart e deu início ao regime militar que durou até 1985.

"Os clubes militares (...) homenageiam, nesta data, os integrantes das Forças Armadas da época que, com sua pronta ação, impediram a tomada do poder e sua entrega a um regime ditatorial indesejado pela nação brasileira", diz a nota.

Parecer do Blog: Muito boa essa. Sob pretexto de ameaça de um fantasioso possível regime ditatorial os militares implantaram uma ditadura que torturou, matou e escondeu corpos, dentre outras atrocidades.

Fonte: Correio do Povo  

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

HOMOFOBIA EM GENERAL


"A vida militar se reveste de características que podem não se enquadrar com os homossexuais. A tropa não obedece indivíduos desse tipo"

Raymundo Nonato de Cerqueira Filho, general, ao ser sabatinado no Senado para o preenchimento de vaga do Supremo Tribunal Militar.


A frase, fora do contexto onde foi dita, fica no mínimo estranha nos dias de hoje... Além disso não demonstra exatamente sensibilidade, conhecimento de história, de perfis psicológicos e de características de liderança. Ele desconhece (?!?!?) a história de um dos maiores generais da história da humanidade (Alexandre Magno). Que os espartanos tinham seus companheiros como "pau para toda a obra", para quem literalmente confiavam seu traseiro. Na época isso não era considerado menos. Nem mais. E não dá para dizer que Alexandre não era um grande líder. Muito menos os espartanos...
Dá, general???
:)
Vixe!!

abs

Marcus

PS: Nos Estados Unidos, o tema está em discussão no governo. O secretário de Defesa do país, Robert Gates, disse nesta terça-feira diante do Senado que um grupo de trabalho vai estudar a possível anulação de uma lei de 1993 que proíbe o ingresso de homossexuais nas Forças Armadas do país.

O anúncio foi feito durante audiência no Comitê de Serviços Armados do Senado. O secretário afirmou que a revisão da lei vai considerar o impacto que teria a sua anulação.

O chefe do Estado Maior conjunto Michael Mullen disse à mesma comissão que apoia a suspensão, acrescentando que "isso é o que se deve fazer".
A legislação atual, conhecida como 'Don't ask, don't tell', proíbe que soldados gays e lésbicas assumam sua homossexualidade, bem como que eles sejam questionados sobre isso.

NOTA DO BLOG: Esta postagem é um e-mail recebido do amigo Marcus Rosa, pubicado com a devida autorização, naturalmente.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Exercito americano acha q Twitter poderia ser usado por terroristas


Um relatório preliminar do Exercito americano identificou o Twitter como uma ferramenta terrorista em potencial. Relaciona também os mapas que usam GPS e softwares que alteram a voz. No capitulo 'Potencial Use of Twitter', o documento comenta a rapidez com que a informaçao circula atraves do serviço de microblogging e diz que o Twitter já se tornou uma ferramenta para o "ativismo social de grupos que defendem os direitos humanos, comunistas, vegetarianos, anarquistas, comunidades religiosas, ateus, interessados em política e hacktivists (hackers com propósitos politicos)". Segundo noticia da France Presse, citando a Wired.com, o relatório desenha cenarios de emboscadas ou açoes com explosivos nas quais o Twitter poderia ser usado como ferramenta de comunicaçao aliada ao Google Maps e a videos e fotos via celular.

27/10 Blue Bus

O que é o Twitter?

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Twitter é uma rede social e servidor para microblogging que permite que os usuários enviem atualizações pessoais contendo apenas texto em menos de 140 caracteres via SMS, mensageiro instantâneo, e-mail, site oficial ou programa especializado. Foi fundado em março de 2006 pela Obvious Corp. em São Francisco.

As atualizações são exibidas no perfil do usuário e também enviadas a outros usuários que tenham assinado para recebê-las. Usuários podem receber atualizações de um perfil através do site oficial ou por RSS, SMS ou programa especializado.

Devido ao sucesso do Twitter, um grande número de sites parecidos foram lançados ao redor do mundo. Alguns oferecem o serviço para um país específico, outros unem outras funções, como compartilhamento de arquivos no Pownce.

sábado, 28 de junho de 2008

Movimento condena ação do MP contra MST


O Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH) condenou a intenção do Ministério Público do Rio Grande do Sul de criminalizar lideranças do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Esta semana, o MST denunciou que o Ministério Público gaúcho teria discutido, em reunião do seu Conselho Superior, estratégias para proibir qualquer deslocamento de trabalhadores sem-terra, intervenção em escolas de assentamento, criminalização de lideranças e de integrantes e desativação de todos os acampamentos no Rio Grande do Sul.

O coordenador geral do Movimento Nacional de Direitos Humanos, Gilson Cardoso, mostrou preocupação com o debate considerando que esse tipo de atitude pode se estender a outros movimentos. "Já não é mais a criminalização de uma pessoa, de uma liderança, de uma ação. No meu entendimento, isso é muito grave", afirmou Cardoso.

Já o coordenador de formação do MNDH, Ricardo Barbosa, disse que o Ministério Público está agindo de maneira contrária à definida por lei, que é de proteção dos direitos constitucionais da população. "Esse tipo de ação assusta porque é o próprio Ministério Público, que tem uma função constitucional, diferente daquela que está exercendo neste caso. Em vez de uma defesa intransigente e radical da democracia, a gente vê as forças de reação tentando criar um estado de exceção dentro do Estado democrático", acrescentou.

Os coordenadores também criticaram a ação do Exército no morro da Previdência, no Rio de Janeiro, onde moravam três jovens que foram entregues a traficantes por militares da Força. Os jovens teriam sido levados a traficantes que fazem parte de uma facção criminosa rival.

"Só porque está em curso uma obra de urbanização, porque o Exército tem que garantir a segurança. No Rio de Janeiro tem uma série de obras que estão acontecendo e não precisou o Exército estar lá. Isso é uma aberração", disse o coordenador geral do MNDH.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

"Lutamos contra o preconceito de que não existem militares gays"


DW:
Como o Exército lida com a homossexualidade na Alemanha? Sobre o tema, DW-WORLD.DE entrevistou o primeiro-tenente Peer Uhlmann, representante dos interesses dos afiliados homossexuais do Exército alemão.

O caso dos sargentos gays do Exército brasileiro que assumiram publicamente seu relacionamento homossexual acendeu no Brasil uma questão que vem sendo tematizada há décadas nos assim chamados países industrializados. Em entrevista exclusiva à DW-WORLD.DE, o primeiro-tenente Peer Uhlmann, membro da diretoria do Círculo de Trabalho dos Afiliados Homossexuais do Exército alemão (AHsAB e.V.), respondeu sobre a situação no país.

DW-WORLD.DE: Como membro da diretoria do Círculo de Trabalho dos Afiliados Homossexuais do Exército alemão (AHsAB e.V.), o senhor poderia nos relatar como o Exército alemão lida com a homossexualidade?

Primeiro-tenente Peer Uhlmann, do Exército alemãoPeer Uhlmann: Desde fins do ano 2000, existe no Exército alemão um decreto feito para regulamentar a forma de relacionamento, sobretudo entre homens e mulheres, dentro e fora do expediente. Graças à então iminente abertura do Exército para mulheres e graças a um militar combatente, a liderança do Exército foi obrigada a discutir intensamente o tema da tolerância. Pela primeira vez, um decreto do Exército tematizou explicitamente o relacionamento privado dos militares.

Anteriormente, a sexualidade em si não existia, ela era assunto privado e não tinha nada a ver com o serviço. O decreto deveria sobretudo esclarecer as conseqüências dos contatos privados, principalmente entre mulheres e homens. Mas também a homossexualidade foi abordada no decreto.

Segundo a diretiva, é indiferente para os superiores quem tem uma relação com quem e de que forma a desfruta. O importante é que o trabalho não seja prejudicado por esta relação. No que concerne a isto, o Exército alemão não difere das empresas da economia livre.

Até que ponto o decreto sexual de dezembro de 2000 atingiu o objetivo da igualdade de tratamento entre os sexos?

Em um exército, em princípio, a patente, a performance e a capacidade dos soldados são mais importantes que suas preferências pessoais. Se um soldado é gay ou não, isto não interessa à execução de suas tarefas. Também na avaliação de seu rendimento e nas promoções, isto não deveria ter nenhuma importância. Escapa a qualquer controle, no entanto, o fato de preconceitos escondidos exercerem aí influência. O mesmo vale, por exemplo, para militares femininos e masculinos de origem migratória.

O que os militares fazem depois do serviço, em casa ou em sua acomodação, é desinteressante desde que outros não sejam perturbados. Tanto faz se um soldado recebe seu namorado ou sua namorada em sua casa.

O decreto é um bom ponto de partida, mas ele não pode combater a intolerância – encontrada em todos os níveis hierárquicos – nas cabeças das pessoas. Nesse caso, principalmente a responsabilidade dos superiores é requisitada. Apesar do decreto, faltam aí, em muitos casos, a necessária sensibilidade e um tratamento sem preconceitos do tema. Sobretudo discriminações veladas não se deixam excluir.

Existem casos de transferências ou queixas de militares femininos e masculinos que assumem abertamente sua homossexualidade e por isto são discriminados?

Até os anos de 1980, era normal excluir homossexuais masculinos do serviço militar por serem inaptos. Em 1999, um oficial apelou ao Tribunal Federal Constitucional contra sua transferência devido à sua tendência homossexual. A justificativa do Ministério estava cheia de preconceitos: o moral da tropa não poderia ser prejudicado, a autoridade de um superior homossexual seria minada, etc. A Justiça não apoiou esta argumentação. Encontrou-se então em consenso extrajudicial.

Conhecemos casos em que militares homossexuais, bissexuais ou também transgêneres foram zombados, evitados ou desacreditados às escondidas. Aí se encontra o verdadeiro problema. Esta forma de discriminação é difícil de controlar, ela prejudica o ambiente de trabalho e influencia outras pessoas que, em princípio, não tinham preconceitos. Se os superiores não agirem corretamente, um tratamento aberto do tema homossexualidade é quase impossível.

É possível avaliar quantas pessoas homossexuais fazem parte do Exército alemão?

Também o Exército é um perfil da população. Quase todas as facetas da nossa sociedade estão representadas, só que estas não são reconhecidas, por baixo do uniforme, à primeira vista. É alto o número daqueles que renegam sua orientação sexual no Exército alemão, por medo de conseqüências negativas. Somente poucos têm a coragem de assumi-la abertamente e, por exemplo, registrar perante seus superiores uma parceria civil homossexual. Acreditamos que cinco a dez por cento dos membros do Exército alemão são homossexuais.

Em 2006, a revista Der Spiegel relatou que o Ministério alemão da Defesa queria evitar que soldados em viagens de serviço freqüentassem áreas próximas a bares gays, impedindo assim conseqüências negativas para a imagem do Exército alemão. Isto não seria uma forma de discriminação?

Esta tentativa do Ministério alemão da Defesa foi novamente marcada por preconceitos. O caso mostra claramente que, sobretudo em escalões mais altos, também na política, as pessoas ainda têm muitas reservas. Mas, em vez de discutir os problemas de forma construtiva, eles são transformados em tabu. Claro que isto é uma forma de discriminação.

E sempre há novos casos. Há pouco, a organização que representa os interesses dos membros do Exército, a Federação Alemã dos Militares, exigiu no tocante ao tema igualdade de direitos a exclusão das parcerias civis homossexuais, no parecer que deu sobre a lei de realinhamento dos serviços públicos. A justificativa foi que isto seria muito complexo e precisaria de uma lei própria.

Então nos perguntamos para quê. Isto poderia ser muito fácil: igualdade de direitos – e pronto! A passagem "parcerias civis são equivalentes em todos os pontos ao casamento" poderia esclarecer todas as questões de uma só vez. Mas isto é demais para muitos conservadores.

Esta forma de discriminação através de leis não é rara na Alemanha. Atualmente, existem muitos casos de tratamento desigual no tocante à remuneração, benefícios e aposentadorias. Eu mesmo estou lutando pelo complemento familiar. Casados o recebem, eu e o meu parceiro não – e isto, ainda que nos encontremos objetivamente em situação semelhante.

Que atividades e objetivos persegue o Círculo de Trabalho de Afiliados Homossexuais do Exército? Quantos membros possui?

Nós temos atualmente por volta de 100 membros. Como o Exército alemão está presente em todo o país, também estamos representados em toda a Alemanha. Nós estamos à disposição dos soldados no local – não somente dos homossexuais que têm problemas com seus camaradas e superiores – também dos superiores que precisam de ajuda para lidar com soldados, soldadas e funcionários civis homossexuais.

Em seminários para superiores, nós estimulamos a desmontagem de preconceitos e intolerância. Nossa organização existe desde 2002 e agora se engaja na discussão política. Estamos em troca ativa com outras representações de interesses e estabelecemos contatos com a política para defender os interesses dos nossos membros. Também procuramos a divulgação pública, por exemplo, nas paradas de orgulho homossexual, e lutamos contra o preconceito que não existem militares gays.

Assumir uma tendência homossexual é muito difícil para muitos soldados jovens. Nós os aconselhamos e os acompanhamos para que possam desfrutar das nossas experiências.

Como é a situação em outros países europeus? Existem organizações como a AHsAB em outros países?

Cada Exército é único. As preocupações e necessidades dos soldados diferem de país para país. Em muitos países, existem organizações que ajudam os afiliados homossexuais das Forças Armadas – em alguns países de forma mais ofensiva, em outros, mais escondida. Para isto, a situação política e a aceitação social são decisivas. A longo prazo, nos engajamos naturalmente por cooperações e pela troca de experiência com estas representações de interesses, também no estrangeiro.

Na sua opinião, por que os Exércitos de muitos países têm problemas com militares homossexuais?

Os Exércitos formam sua coesão através da tradição e do espírito de corpo. Muitas das formas de comportamento se assemelham a rituais. E aí a homossexualidade não tem espaço.

É um tema que não é tratado abertamente. Nestas unidades marcadas por uma masculinidade exacerbada, a homossexualidade é considerada uma fraqueza. Principalmente nas unidades em que a forte coesão é importante, como no caso de unidades de combate. Que soldado forte quer escutar isso sobre ele?

Os processos de dinâmica de grupo levam a um banimento de comportamentos que variam da maioria. Por isso, soldados gays não assumem freqüentemente sua homossexualidade. O resultado é que esta não é tematizada. Quando ele ou ela a assume, isto é visto como fraqueza, como exceção. Teme-se o desconhecido e evita-se o contato. Em caso extremo, o militar está, de repente, isolado.

O pedagogo Peer Uhlmann, nascido em 1980, é membro da AHsAB e.V. desde 2004 e a partir de 2008 faz parte de sua diretoria. Ele entrou no Exército em 1998, tendo agora o posto de primeiro-tenente. Atualmente, Uhlmann trabalha no serviço de imprensa em Mayen, próximo a Koblenz.


Carlos Albuquerque