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domingo, 28 de março de 2021

UMA CRÔNICA CIVILIZADA

 




Antes de mais nada, devo ressaltar que esta história ocorre em um bairro considerado pelo senso comum como sendo de “classe média” ou “classe média alta” do Município de Porto Alegre, RS.

Episódio 1

Por algum motivo morador ou moradores de um apartamento situado em um prédio alto e bonito, colocam em seu aparelho de som o Hino Nacional Brasileiro. O aparelho de som parece ser de excelente qualidade, pois o som chega até meu apartamento, em outro prédio, não só alto e claro como fazendo tremer os vidros da janela. Não se sabe também por qual motivo uma voz masculina, após a execução do Hino Nacional, começou a emitir brados na janela convidando a vizinhança a fazer turismo em Cuba, juntamente com palavreado que não vou citar aqui para não ser objeto de censura.

 

Episódio 2

Algum tempo depois, o referido cidadão decide realizar uma festinha iniciando em torno das 3 horas da madrugada. Realmente o aparelho de som é de primeira qualidade. O som das músicas escolhidas chegou no meu apartamento, que se localiza em outro prédio, com nitidez impressionante, mesmo com as janelas fechadas. Atualizei compulsoriamente meu repertorio de pagode e de música pop da moda. 



Episódio 3

Passados alguns dias, as mesmas pessoas decidem fazer nova festa, também iniciando na madrugada. Desta vez o som do aparelho sonoro estava com volume baixo. Deduzi que os demais moradores do prédio enviaram recomendação formal a respeito. Mas nossos festeiros não se apertaram. A música era cantada com volume de voz invejável. Digo A MÚSICA, pois a mesma música era repetida constantemente, em sequência. Eu não conhecia, mas aprendi o início do refrão: “deixa acontecer naturalmente, eu não quero ver você chorar...”. De qualquer forma, consegui dar uma cochilada. Acordei às 05:45 horas com uma voz solitária, pastosa e arrastada, bradando: “deixa acontecer naturalmente, etc”.


O processo civilizador da humanidade parece estar longe de chegar a um patamar satisfatório, não é verdade?

 

Imagem:  Hieronymus Bosch

sábado, 3 de outubro de 2020

A CLASSE MÉDIA ESTÁ DE PARTIDA

 


por Zuggi Almeida

A classe média afivelou as malas. Vai fazer uma longa viagem e não sabe se volta (isso, se puder retornar!)

Ela parte deixando para trás a ilusão que pertencia a elite e que imitando hábitos e trejeitos de uma casta superior poderia posar de rica.

Se despede do apartamento de três quartos financiado na zona nobre da cidade. Na garagem fica o carro bacana com as prestações atrasadas. Adeus ao sonho de ver o filho formado fazer uma pós-graduação no exterior.

Ela embarca com a incerteza de adquirir a aposentadoria e sem saber se vai continuar a pagar o plano de saúde da família.

Esse momento exige desapego dos mimos das grifes importadas, dos jantares creditados nos cartões, das viagens internacionais.

A viagem de agora é pra ‘não sei pra onde’.

A classe média tem um semblante de esposa traída, bem pior, o ex-marido já mantinha um casamento oficial, anterior ao dela. Muito duro. Difícil de acreditar.

A classe média perdeu a voz, o ímpeto, a arrogância. Hoje anda disfarçada e correndo das câmaras de TV, das postagens indignadas nas redes sociais. Sumiu das ruas e das sacadas.

A classe média se despede levando apenas duas coisas na mala: uma camiseta da seleção brasileira e uma panela.

Good bye!

 

Em tempo: texto publicado em 12 de outubro de 2016. Mais que atual! 

Fonte da Imagem:  https://www.pikist.com/free-photo-shbdf

 

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Desvendando a espuma: o enigma da classe média brasileira

 
 
Renato Santos de Souza (UFSM/RS)

A primeira vez que ouvi a Marilena Chauí bradar contra a classe média, chamá-la de fascista, violenta e ignorante, tive a reação que provavelmente a maioria teve: fiquei perplexo e tendi a rejeitar a tese quase impulsivamente. Afinal, além de pertencer a ela, aprendi a saudar a classe média. Não dá para pensar em um país menos desigual sem uma classe média forte: igualdade na miséria seria retrocesso, na riqueza seria impossível. Então, o engrossamento da classe média tem sido visto como sinal de desenvolvimento do país, de redução das desigualdades, de equilíbrio da pirâmide social, ou mais, de uma positiva mobilidade social, em que muitos têm ascendido na vida a partir da base. A classe média seria como que um ponto de convergência conveniente para uma sociedade mais igualitária. Para a esquerda, sobretudo, ela indicaria uma espécie de relação capital-trabalho com menos exploração.

Então, eu, que bebi da racionalidade desde as primeiras gotas de leite materno, como afirmou certa vez um filósofo, não comprei a tese assim, facilmente. Não sem uma razão. E a Marilena não me ofereceu esta razão. Ela identificou algo, um fenômeno, o reacionarismo da classe média brasileira, mas não desvendou o sentido do fenômeno. Descreveu “O QUE” estava acontecendo, mas não nos ofereceu o “PORQUE”. Por que logo a classe média? Não seria mais razoável afirmar que as elites é que são o “atraso de vida” do Brasil, como sempre foi dito? E mais, ela fala da classe média brasileira, não da classe média de maneira geral, não como categoria social. Então, para ela, a identificação deste fenômeno não tem uma fundamentação eminentemente filosófica ou sociológica, e sim empírica: é fruto da sua observação, sobretudo da classe média paulistana. E por que a classe média brasileira e não a classe média em geral? Estas indagações me perturbavam, e eu ficava reticente com as afirmações de dona Marilena.

Com o passar do tempo, porém, observando muitos representantes da classe média próximos de mim (coisa fácil, pois faço parte dela), bem como a postura desta mesma classe nas manifestações de junho deste ano, comecei lentamente a dar razão à filósofa. A classe média parece mesmo reacionária, talvez não toda, mas grande parte dela. Mas ainda me perguntava “por que” a classe média, e “por que” a brasileira? Havia um elo perdido neste fenômeno, algo a ser explicado, um sentido a ser desvendado.

Então adveio aquela abominável reação de grande parte da categoria médica – justamente uma categoria profissional com vocação para classe média - ao Programa Mais Médicos, e me sugeriu uma resposta. Aqueles episódios me ajudaram a desvendar a espuma. Mas não sem antes uma boa pergunta! Como pode uma categoria profissional pensar e agir assim, de forma tão unificada, num país tão plural e tão cheio de nuanças intelectuais e políticas como o nosso? Estudantes de medicina e médicos parecem exibir um padrão de pensamento e ação muito coesos e com desvios mínimos quando se trata da sua profissão, algo que não se vê em outros segmentos profissionais. Isto não pode ser explicado apenas pelo que se convencionou chamar de “corporativismo”. Afinal, outras categorias profissionais também tem potencial para o corporativismo, e não o são, ao menos não da mesma forma. Então deveria haver outra interpretação para isto.

Bem, naqueles episódios do Mais Médicos, apesar de toda a argumentação pretensamente responsável das entidades médicas buscando salvaguardar a saúde pública, o que me parecia sustentar tal coesão era uma defesa do mérito, do mérito de ser médico no Brasil. Então, este pensamento único provavelmente fora forjado pelas longas provações por que passa um estudante de medicina até se tornar um profissional: passar no vestibular mais concorrido do Brasil, fazer o curso mais longo, um dos mais difíceis, que tem mais aulas práticas e exigências de estrutura, e que está entre os mais caros do país. É um feito se formar médico no Brasil, e talvez por isto esta formação, mais do que qualquer outra, seja uma celebração do mérito. Sendo assim, supõe-se, não se pode aceitar que qualquer um que não demonstre ter tido os mesmos méritos, desfrute das mesmas prerrogativas que os profissionais formados aqui. Então, aquela reação episódica, e a meu ver descabida, da categoria médica, incompreensível até para o resto da classe média, era, na verdade, um brado pela meritocracia.

A minha resposta, então, ao enigma da classe média brasileira aqui colocado, começava a se desvelar: é que boa parte dela é reacionária porque é meritocrática; ou seja, a meritocracia está na base de sua ideologia conservadora.

Assim, boa parte da classe média é contra as cotas nas universidades, pois a etnia ou a condição social não são critérios de mérito; é contra o bolsa-família, pois ganhar dinheiro sem trabalhar além de um demérito desestimula o esforço produtivo; quer mais prisões e penas mais duras porque meritocracia também significa o contrário, pagar caro pela falta de mérito; reclama do pagamento de impostos porque o dinheiro ganho com o próprio suor não pode ser apropriado por um Governo que não produz, muito menos ser distribuído em serviços para quem não é produtivo e não gera impostos. É contra os políticos porque em uma sociedade racional, a técnica, e não a política, deveria ser a base de todas as decisões: então, deveríamos ter bons gestores e não políticos. Tudo uma questão de mérito.

Mas por que a classe média seria mais meritocrática que as outras? Bem, creio que isto tem a ver com a história das políticas públicas no Brasil. Nós nunca tivemos um verdadeiro Estado do Bem Estar Social por aqui, como o europeu, que forjou uma classe média a partir de políticas de garantias públicas. O nosso Estado no máximo oferecia oportunidades, vagas em universidades públicas no curso de medicina, por exemplo, mas o estudante tinha que enfrentar 90 candidatos por vaga para ingressar. O mesmo vale para a classe média empresarial, para os profissionais liberais, etc. Para estes, a burocracia do Estado foi sempre um empecilho, nunca uma aliada. Mesmo a classe média estatal atual, formada por funcionários públicos, é geralmente concursada, portanto, atingiu sua posição de forma meritocrática. Então, a classe média brasileira se constituiu por mérito próprio, e como não tem patrimônio ou grandes empresas para deixar de herança para que seus filhos vivam de renda ou de lucro, deixa para eles o estudo e uma boa formação profissional, para que possam fazer carreira também por méritos próprios. Acho que isto forjou o ethos meritocrático da nossa classe média.

Esta situação é bem diferente na Europa e nos EUA, por exemplo. Boa parte da classe média europeia se formou ou se sustenta das políticas de bem estar social dos seus países, estas mesmas que entraram em colapso com a atual crise econômica e tem gerado convulsões sociais em vários deles; por lá, eles vão para as ruas exatamente para defender políticas anti-meritocráticas. E a classe média americana, bem, esta convive de forma quase dramática com as ambiguidades de um país que é ao mesmo tempo das oportunidades e das incertezas; ela sabe que apenas o mérito não sustenta a sua posição, portanto, não tem muitos motivos para ser meritocrática. Se a classe média adoecer nos EUA, vai perder o seu patrimônio pagando por serviços privados de saúde pela absoluta falta de um sistema público que a suporte; se advém uma crise econômica como a de 2008, que independe do mérito individual, a classe média perde suas casas financiadas e vai dormir dentro de seus automóveis, como se via à época. Então, no mundo dos ianques, o mérito não dá segurança social alguma.

As classes brasileiras alta e baixa (os nossos ricos e pobres) também não são meritocráticas. A classe alta é patrimonialista; um filho de rico herda bens, empresas e dinheiro, não precisa fazer sua vida pelo mérito próprio, portanto, ser meritocrata seria um contrassenso; ao contrário, sua defesa tem que ser dos privilégios que o dinheiro pode comprar, do direito à propriedade privada e da livre iniciativa. Além disso, boa parte da elite brasileira tem consciência de que depende do Estado e que, em muitos casos, fez fortuna com favorecimentos estatais; então, antes de ser contra os governos e a política, e de se intitular apolítica, ela busca é forjar alianças no meio político.

Para a classe pobre o mérito nunca foi solução; ela vive travada pela falta de oportunidades, de condições ou pelo limitado potencial individual. Assim, ser meritocrata implicaria não só assumir que o seu insucesso é fruto da falta de mérito pessoal, como também relegar apenas para si a responsabilidade pela superação da sua condição. E ela sabe que não existem soluções pela via do mérito individual para as dezenas de milhões de brasileiros que vivem em condições de pobreza, e que seguramente dependem das políticas públicas para melhorar de vida. Então, nem pobres nem ricos tem razões para serem meritocratas.

A meritocracia é uma forma de justificação das posições sociais de poder com base no merecimento, normalmente calcado em valências individuais, como inteligência, habilidade e esforço. Supostamente, portanto, uma sociedade meritocrática se sustentaria na ética do merecimento, algo aceitável para os nossos padrões morais.

Aliás, tenho certeza de que todos nós educamos nossos filhos e tentamos agir no dia a dia com base na valorização do mérito. Nós valorizamos o esforço e a responsabilidade, educamos nossas crianças para serem independentes, para fazerem por merecer suas conquistas, motivamo-as para o estudo, para terem uma carreira honrosa e digna, para buscarem por méritos próprios o seu lugar na sociedade.

Então, o que há de errado com a meritocracia, como pode ela tornar alguém reacionário?

Bem, como o mérito está fundado em valências individuais, ele serve para apreciações individuais e não sociais. A menos que se pense, é claro, que uma sociedade seja apenas um agregado de pessoas. Então, uma coisa é a valorização do mérito como princípio educativo e formativo individual, e como juízo de conduta pessoal, outra bem diferente é tê-lo como plano de governo, como fundamento ético de uma organização social. Neste plano é que se situa a meritocracia, como um fundamento de organização coletiva, e aí é que ela se torna reacionária e perversa.

Vou gastar as últimas linhas deste texto para oferecer algumas razões para isto, para mostrar porquê a meritocracia é um fundamento perverso de organização social.

a) A meritocracia propõe construir uma ordem social baseada nas diferenças de predicados pessoais (habilidade, conhecimento, competência, etc.) e não em valores sociais universais (direito à vida, justiça, liberdade, solidariedade, etc.). Então, uma sociedade meritocrática pode atentar contra estes valores, ou pode obstruir o acesso de muitos a direitos fundamentais.

b) A meritocracia exacerba o individualismo e a intolerância social, supervalorizando o sucesso e estigmatizando o fracasso, bem como atribuindo exclusivamente ao indivíduo e às suas valências as responsabilidades por seus sucessos e fracassos.

c) A meritocracia esvazia o espaço público, o espaço de construção social das ordens coletivas, e tende a desprezar a atividade política, transformando-a em uma espécie de excrescência disfuncional da sociedade, uma atividade sem legitimidade para a criação destas ordens coletivas. Supondo uma sociedade isenta de jogos de interesse e de ambiguidades de valor, prevê uma ordem social que siga apenas a racionalidade técnica do merecimento e do desempenho, e não a racionalidade política das disputas, das conversações, das negociações, dos acordos, das coalisões e/ou das concertações, algo improvável em uma sociedade democrática e pluralista.

d) A meritocracia esconde, por trás de uma aparente e aceitável “ética do merecimento”, uma perversa “ética do desempenho”. Numa sociedade de condições desiguais, pautada por lógicas mercantis e formada por pessoas que tem não só características diferentes mas também condições diversas, merecimento e desempenho podem tomar rumos muito distantes. O Mário Quintana merecia estar na ABL, mas não teve desempenho para tal. O Paulo Coelho, o Sarney e o Roberto Marinho estão (ou estiveram) lá, embora muitos achem que não merecessem. O Quintana, pelo imenso valor literário que tem, não merecia ter morrido pobre nem ter tido que morar de favor em um hotel em Porto Alegre, mas quem amealhou fortuna com a literatura foi o Coelho. Um tem inegável valor literário, outro tem desempenho de mercado. O José, aquele menino nota 10 na escola que mora embaixo de uma ponte da BR 116 (tema de reportagem da ZH) merece ser médico, sua sonhada profissão, mas provavelmente não o será, pois não terá condições para isto (rezo para estar errado neste caso). Na música popular nem é preciso exemplificar, a distância entre merecimento e desempenho de mercado é abismal. Então, neste mudo em que vivemos, valor e resultado, merecimento e desempenho nem sempre caminham juntos, e talvez raramente convirjam.

Mas a meritocracia exige medidas, e o merecimento, que é um juízo de valor subjetivo, não pode ser medido; portanto, o que se mede é o desempenho supondo-se que ele seja um indicador do merecimento, o que está longe de ser. Desta forma, no mundo da meritocracia – que mais deveria se chamar “desempenhocracia” - se confunde merecimento com desempenho, com larga vantagem para este último como medida de mérito.

e) A meritocracia escamoteia as reais operações de poder. Como avaliação e desempenho são cruciais na meritocracia, pois dão acesso a certas posições de poder e a recursos, tanto os indicadores de avaliação como os meios que levam a bons desempenhos são moldados por relações de poder; e o são decisivamente. Seria ingênuo supor o contrário. Assim, os critérios de avaliação que ranqueiam os cursos de pós-graduação no país são pautados pelas correntes mais poderosas do meio acadêmico e científico; bons desempenhos no mercado literário são produzidos não só por uma boa literatura, mas por grandes investimentos em marketing; grandes sucessos no meio musical são conseguidos, dentre outras formas, “promovendo” as músicas nas rádios e em programas de televisão, e assim por diante. Os poderes econômico e político, não raras vezes, estão por trás dos critérios avaliativos e dos “bons” desempenhos.

Critérios avaliativos e medidas de desempenho são moldáveis conforme os interesses dominantes, e os interesses são a razão de ser das operações de poder; que por sua vez, são a matéria prima de toda a atividade política. Então, por trás da cortina de fumaça da meritocracia repousa toda a estrutura de poder da sociedade.

Até aí tudo bem, isso ocorre na maioria dos sistemas políticos, econômicos e sociais. O problema é que, sob o manto da suposta “objetividade” dos critérios de avaliação e desempenho, a meritocracia esconde estas relações de poder, sugerindo uma sociedade tecnicamente organizada e isenta da ingerência política. Nada mais ilusório e nada mais perigoso, pois a pior política é aquela que despolitiza, e o pior poder, o mais difícil de enfrentar e de combater, é aquele que nega a si mesmo, que se oculta para não ser visto.

e) A meritocracia é a única ideologia que institui a desigualdade social com fundamentos “racionais”, e legitima pela razão toda a forma de dominação (talvez a mais insidiosa forma de legitimação da modernidade). A dominação e o poder ganham roupagens racionais, fundamentos científicos e bases de conhecimento, o que dá a eles uma aparente naturalidade e inquestionabilidade: é como se dominados e dominadores concordassem racionalmente sobre os termos da dominação.

f) A meritocracia substitui a racionalidade baseada nos valores, nos fins, pela racionalidade instrumental, baseada na adequação dos meios aos resultados esperados. Para a meritocracia não vale a pena ser o Quintana, não é racional, embora seus poemas fossem a própria exacerbação de si, de sua substância, de seus valores artísticos. Vale mais a pena ser o Paulo Coelho, a E.L. James, e fazer uma literatura calibrada para vender. Da mesma forma, muitos pais acham mais racional escolher a escola dos seus filhos não pelos fundamentos de conhecimento e valores que ela contém, mas pelo índice de aprovação no vestibular que ela apresenta. Estudantes geralmente não estudam para aprender, estudam para passar em provas. Cursos de pós-graduação e professores universitários não produzem conhecimentos e publicam artigos e livros para fazerem a diferença no mundo, para terem um significado na pesquisa e na vida intelectual do país, mas sim para engrossarem o seu Lattes e para ficarem bem ranqueados na CAPES e no CNPq.

A meritocracia exige uma complexa rede de avaliações objetivas para distribuir e justificar as pessoas nas diferentes posições de autoridade e poder na sociedade, e estas avaliações funcionam como guiões para as decisões e ações humanas. Assim, em uma sociedade meritocrática, a racionalidade dirige a ação para a escolha dos meios necessários para se ter um bom desempenho nestes processos avaliativos, ao invés de dirigi-la para valores, princípios ou convicções pessoais e sociais.

g) Por fim, a meritocracia dilui toda a subjetividade e complexidade humana na ilusória e reducionista objetividade dos resultados e do desempenho. O verso “cada um de nós é um universo” do Raul Seixas – pérola da concepção subjetiva e complexa do humano - é uma verdadeira aberração para a meritocracia: para ela, cada um de nós é apenas um ponto em uma escala de valor, e a posição e o valor que cada um ocupa nesta escala depende de processos objetivos de avaliação. A posição e o valor de uma obra literária se mede pelo número de exemplares vendidos, de um aluno pela nota na prova, de uma escola pelo ranking no Ideb, de uma pessoa pelo sucesso profissional, pelo contracheque, de um curso de pós-graduação pela nota da CAPES, e assim por diante. Embora a natureza humana seja subjetiva e complexa e suas interações sociais sejam intersubjetivas, na meritocracia não há espaço para a subjetividade nem para a complexidade e, sendo assim, lamentavelmente, há muito pouco espaço para o próprio ser humano. Desta forma, a meritocracia destrói o espaço do humano na sociedade.

Enfim, a meritocracia é um dos fundamentos de ordenamento social mais reacionários que existe, com potencial para produzir verdadeiros abismos sociais e humanos. Assim, embora eu tenda a concordar com a tese da Marilena Chauí sobre a classe média brasileira, proponho aqui uma troca de alvo. Bradar contra a classe média, além de antipático pode parecer inútil, pois ninguém abandona a sua condição social apenas para escapar ao seu estereótipo. Não se muda a posição política de alguém atacando a sua condição de classe, e sim os conceitos que fundamentam a sua ideologia.

Então, prefiro combater conceitos, neste caso, provavelmente o conceito mais arraigado na classe média brasileira, e que a faz ser o que é: a meritocracia.

Jornal GGN

Foto de Hélvio Romero

Indicação deste texto realizada pelo Dr. Jorge Vieira. Obrigado!

quinta-feira, 18 de abril de 2013

AFINAL, O QUE É A "CLASSE MÉDIA"?




¿En general qué es la clase “media”? Se trata de una construcción, inventada en Occidente, con el objetivo de destruir el concepto de clases del marxismo. Desde el punto de vista del marxismo no tiene sentido – es una quimera, que existe gracias a los recursos financieros sobrantes, en la que entran tanto la cúpula de la clase obrera, como la pequeña y mediana burguesía, así como los que sirven a las clases altas. Desde el punto de vista del actual estado burgués con su modelo de capitalismo financiero, la clase “media” es el grupo humano con un comportamiento de consumo tipo, y no únicamente en cuanto a los bienes y servicios, sino también en cuanto a los servicios políticos. Hacia este grupo se orienta todo el sistema de publicidad total y educación, dirigido al máximo aumento del consumo y la prohibición de hecho de los valores más meditados. En consecuencia, precisamente este grupo proporciona la base para la estabilidad político-social del actual estado occidental. Señalemos también que su creación también fue posible en parte, gracias al desplazamiento de la industria masiva y “burda” a los países del “tercer mundo”, y la posterior redistribución de los beneficios a favor de los países desarrollados.

Al mismo tiempo hoy ha surgido un serio problema con esta misma clase “media”. Está relacionado con que la principal fuente de su subsistencia tiene poca relación con los ingresos reales percibidos por este grupo de población. Más exactamente, cuando apareció el concepto de la clase “media” durante el período del máximo esplendor de la URSS en los años 60-70, las fuentes para su formación eran la redistribución de los beneficios en el interior de toda la sociedad occidental (en los años 60 en los EE.UU. la tasa superior del impuesto sobre la renta superaba el 90%) y el saqueo de las colonias y de los países del “tercer mundo”. Pero tras la crisis de los años 70 comenzaron los problemas – estos recursos ya no eran suficientes. A principios de los años 70 en Occidente incluso hubo una seria sensación de que la URSS estaba ganando la competición entre los dos sistemas. Entonces aparece la comprensión de que, en primer lugar, había que aumentar considerablemente el volumen de la clase “media” y, en segundo lugar, que la única manera de hacerlo consistía en proporcionar el crédito a los consumidores.

Esta segunda comprensión tenía que ver con el hecho de que en los años 70 los ingresos reales de los hogares habían bajado considerablemente. De hecho, si tenemos en cuenta la inflación real y no la oficial (que la estadística estatal siempre rebaja), veremos que estos por su capacidad adquisitiva no crecen desde los principios de los 80 y se corresponden aproximadamente a los ingresos de 1962-63. Está claro que, teniendo en cuenta el serio aumento de todo tipo de pagos obligatorios, como por ejemplo los seguros, semejantes ingresos no pueden asegurar de ninguna manera una vida confortable en las condiciones actuales. Y todavía menos, aumentar considerablemente el número de personas que viven esta vida confortable.

Como resultado, a principios de los años 80 comenzó a realizarse el programa de “reaganomía”, cuyo principal significado no estaba tanto en la liberalización de la economía, como en la estimulación del consumo privado a costa del crédito. Este programa, como es natural, tenía sus contras, la principal consistía en que los créditos había que devolverlos. Hasta el principio de los años 80 era prácticamente imposible obtener un nuevo crédito si antes no se devolvía el anterior (salvo la excepción de los créditos hipotecarios, pero estos también se tenían en cuenta a la hora de valorar la solvencia del solicitante). Pero en semejantes condiciones era imposible estimular la demanda durante un tiempo prolongado: cuando la persona recibe el crédito a corto plazo, la demanda no crece, sino que cae, dado que además del “cuerpo” del crédito hay que devolver los intereses.

Como resultado, hubo que cambiar todo el sistema de crédito para los particulares, permitiéndose de manera encubierta su refinanciación, cuando el resto del crédito anterior se devolvía a costa del nuevo crédito y como garantía de pago servían diferentes avales, en primer lugar, los bienes inmuebles. Pero, para que dentro del marco de semejante esquema la deuda no se acumulara con excesiva rapidez, había que rebajar continuamente el precio del crédito. Lo que efectivamente ocurría en la práctica: la tasa de descuento del Sistema de la Reserva Federal, el acreedor en última instancia en los EE.UU. y en el mundo, que en 1980 era del 19%, a finales de 2008 había bajado prácticamente hasta cero.

Después de que la tasa fue rebajada hasta el cero, la deuda acumulada (para el otoño de 2008 en los Estados Unidos para el hogar medio ya suponía el 130%, cuando antes del comienzo de la “reaganomía” no superaba el 65%), se había convertido en un serio problema, del que nos informan los periódicos prácticamente a diario. Pero lo importante no es eso. Si ya no se puede conceder más créditos, si ahora hay que devolver las deudas ¿qué pasará con la clase “media”?

Recordemos que los ingresos reales de los hogares hoy corresponden a los comienzos de los años 60 (sin contar el peso de la deuda crecido considerablemente). Si los representantes de la clase “media” comienzan a rebajar su consumo, lo cual es prácticamente inevitable, sus ingresos ya de por sí bajos, también descenderán – porque bajarán los salarios y se cerrarán las empresas. Lo que, teóricamente, significa que la estructura de los ingresos tendrá que volver como mínimo a los años 50, pero por entonces no existía ni de lejos ninguna clase “media”. Y lo más importante – la gente estaba acostumbrada a vivir pobremente, aún era desconocida la propaganda del “consumismo”.

Y no se trata de centenares de miles y ni siquiera de millones, sino de decenas o incluso de centenares de millones de personas. Volver a traer la industria llevada al sudeste de Asia no podrá salvar a nadie (en referencia a las promesas de Obama – N. del T.) – podría crear algunos puestos de trabajo, pero no podrá aumentar los salarios – en el caso contrario tal cosa no sería rentable. Es decir, que esencialmente no cambiaría nada.

Así que no se puede hablar de conservar la clase “media” – para ello simplemente no hay recursos. Señalemos que en la Unión Europea la situación es aún peor, porque en general la población es más pobre. La cuestión de cómo los estados burgueses actuales piensan salir de la situación en la que se destruye su principal pilar social no es solamente seria, sino que además es extremadamente actual. Creo que esta cuestión ya se está discutiendo, aunque evidentemente, no en público y, a juzgar por las filtraciones, la solución se reduce al fortalecimiento del control estatal sobre el pueblo (“la plebe” por usar el lenguaje al uso de las clases dominantes). Lo malo es que tal fortalecimiento del control en absoluto puede cambiar el modelo económico – lo que significa que también hacen falta acciones constructivas. Y en esta dirección por el momento nadie hace nada, en primer lugar, debido a que los economicsistas (así llama Khazin a los economistas liberales, de economics, con la que sustituyeron a la economía política – N. del T.) mantienen el monopolio sobre la ciencia económica.

por Mikhail Khazin
Worldcrisis.ru, 14/01/2013

(Traducción de Arturo Marián Llanos)

Fonte da Ilustração: AQUI.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

UFANISMO OU REALIDADE?

Fonte da imagem AQUI.

DILMA TEM A MELHOR AVALIAÇÃO

Pesquisa do Datafolha deste domingo mostra que 59% dos brasileiros consideram a gestão de Dilma Rousseff ótima ou boa, 33% regular e 6% ruim ou péssima. Conforme levantamento do instituto, a presidente registrou índice de aprovação superior ao de todos os seus antecessores no mesmo período, desde a volta das eleições diretas.

SEIS EM DEZ SÃO DA CLASSE MÉDIA

Seis em cada dez brasileiros com 16 anos ou mais pertencem à classe média, segundo o Datafolha. São 90 milhões de pessoas. O acesso a bens como eletroeletrônicos, computadores e carros é o que mais aproxima as esferas B e C. A partir da medição da posse desses itens, a população é divida em grupos nomeados por letras. O Brasil de classe médias é aquele que escapa dos grupos D e E, deixando para trás os excluídos, mas não tem presença na classe A.

CONSUMO DE ENERGIA ELÉTRICA AUMENTA

O crescimento da economia e a ascensão das classes menos favorecidas - que passaram a ter acesso à luz elétrica, chuveiro e equipamentos eletroeletrônicos - turbinaram o consumo de eletricidade no Brasil. Entre 2006 e 2010, o aumento do consumo foi de 11,31%, quase duas vezes mais que o crescimento da população no período, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Os cálculos de 2011 indicam que a expansão chega a 17%.

Apesar dos números, o relatório mostra que no país ainda há mais de 500 mil residências sem luz, mesmo com os avanços do programa Luz para Todos, que inseriu vários brasileiros. Com energia em suas casas, somado ao crescimento do emprego, eles puderam comprar TV e geladeira. Entre 2006 e 2009, o número de residências com esses itens cresceu 10% e 12% respectivamente.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

26 milhões saem da pobreza no país

Clique na imagem para ampliar. Vale a pena.
 A desigualdade de distribuição de renda no país caiu 5,6% e a renda média real subiu 28% entre 2004 e 2009. Os dados estão no comunicado Mudanças Recentes na Pobreza Brasileira, divulgado ontem pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O índice de pessoas com renda mensal igual ou superior a um salário mínimo per capita - consideradas não pobres - subiu de 29% para 42%. O número de pessoas nessa faixa subiu de 51,3 milhões para 77,9 milhões no período. Na época da pesquisa, o salário mínimo era estipulado em R$ 465,00.

Já a camada considerada pobre - classificação que se refere a famílias com renda per capita, na época, entre R$ 67,00 e R$ 134,00 - diminuiu de 28 milhões para 18 milhões. Os extremamente pobres com renda per capita inferior a R$ 67,00 passaram de 15 milhões para 9 milhões.

Uma das conclusões destacadas pelo pesquisador da Diretoria de Estudos e Políticas Sociais do Ipea Rafael Guerreiro Osório é que, apesar de abrangente, o Bolsa-Família não garante ascensão social. O pesquisador, porém, acrescentou que um estudo do Ipea mostra que, dobrando-se o orçamento do Bolsa-Família destinado a pessoas já atendidas seria possível chegar à erradicação da miséria. "Isso corresponde a aumentar de R$ 12 bilhões para R$ 26 bilhões o orçamento destinado ao programa", observou, lembrando que cada vez menos a pobreza é determinada pela baixa remuneração, mas pela desconexão com o trabalho. A parcela de 29% das famílias extremamente pobres não tem nenhuma conexão com o mercado de trabalho.

Fonte: CP.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Nova classe média gasta R$ 1 tri/ano

A chamada nova classe média já é maioria da população (52% dos brasileiros) e gasta R$ 1 trilhão por ano com alimentos, roupas, educação e serviços. Esse consumo equivale aos PIBs de Portugal, Argentina, Uruguai e Paraguai somados, como mostrou pesquisa divulgada pelo instituto Data Popular.

O levantamento considera classe C o grupo com renda familiar em torno de R$ 2.295,00 ou algo entre R$ 323,00 e R$ 1.388,00 por integrante. O estudo foi apresentado ontem em evento pela Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), da Presidência.

A classe C tem um potencial de consumo maior que as mais ricas, A e B, do topo da pirâmide.

Renato Meirelles, sócio do instituto, diz que foi criado um novo padrão de consumo para esse grupo. "São 7 milhões de brasileiros viajando de avião pela primeira vez apenas em 2011. Isso é o dobro do que as pessoas que viajaram para a África do Sul."

Os dados mostram que a nova classe média gasta 23% com serviços; 18,6% com alimentação; 8,7% com saúde e beleza; 8,1% com transportes; 5,1% com vestuário; 2% com educação; e 1% com entretenimento. Na última década, estima-se que 40 milhões tenham subido à classe média, que hoje reúne 104 milhões, num universo de 190 milhões de brasileiros. O cálculo é de que até 2014 serão 114 milhões.

CP

quarta-feira, 23 de março de 2011

Classes sociais brasileiras


A classe C recebeu 19 milhões de brasileiros vindos da DE em 2010 e manteve o posto de maior do país, com mais de 101 milhões de pessoas, ou 53% da população total de 191,79 milhões, segundo o Observador 2011, pesquisa encomendada pela Cetelem BGN a Ipsos Public Affairs.

A segunda classe com maior número de brasileiros é a DE (com 47, 90 milhões), seguida pela AB (42,19 milhões).

O levantamento mostra ainda que 12 milhões de brasileiros alcançaram as classes AB no ano passado. Em 2005, as classes AB e C correspondiam a 49% da população. Em 2010, passaram a 74%.

Segundo a pesquisa, houve grande aumento da renda média mensal dos brasileiros de todas as classes e regiões, uma alta que se mostrou mais acentuada nas DE. A renda familiar média deste estrato ficou em R$ 809, valor 48,44% maior do que em 2005.

Os brasileiros da classe AB ficou em R$ 2.983 e da C em R$ 1.338. Os gastos dos brasileiros acompanharam o crescimento da renda.

No ano passado, os cidadãos gastaram em média R$ 165 a mais do que em 2009, totalizando R$ 1.231. Entre os principais gastos tiveram destaque prestação da moradia (R$ 367), pagamentos de crédito bancário (R$ 330), educação (R$ 274), empregada doméstico (R$ 232) e seguros (R$ 231).

Sobre perspectivas para 2011 a pesquisa aponta que 53% dos entrevistados acreditam que haverá aumento do consumo e 52% avaliam que haverá maior oferta de crédito para a população.

Affonso Ritter

quarta-feira, 2 de março de 2011

CARACTERÍSTICAS DA CLASSE MÉDIA DE PORTO ALEGRE


Lendo o RS URGENTE me deparei com uma lista de fatos que supostamente caracterizam a maioria dos membros da classe média-alta da capital gaúcha (postada por um leitor chamado Hugo). No meu ponto de vista a listagem, além de ser bastante divertida, se aproxima da realidade. Assim, resolvi publicá-la para ver se alguém tem alguma sugestão de incremento ou de exclusão em relação a seus itens. Será que essas característiscas se restringem a Porto Alegre?

1- Carro
2- Carro com opcionais
3- Camionete (mesmo se só rodar no asfalto)
4- Lavar o carro com água do DMAE
5- PUC
6- Pink Elephant/Wish/Meat Club/Chairs
7- Vodca Absolut com Red Bull
9- Nike Shox
10- Litoral só em condomínio murado
11- Padre Chagas (e arredores)
12- Sushi
13- Comida Tailandesa
14- Academia
15- Punta del Este
16- Jet-Ski e lancha no Delta do Jacuí
17- Zero Hora
18- Foto no RS Vip
19- Miami/Nova York
20- Curso de inglês na Inglaterra/Austrália
21- Reclamar dos impostos
22- Sonegar impostos
23- Iguatemi/Barra Shopping/Shopping Moinhos
24- Suquinho no Parcão
25- iPhone/Blackberry
26- Falar mal da Venezuela
27- Falar mal de Cuba
28- Mas adorar a prosperidade Chinesa
29- Mandar o Carnaval de Porto Alegre para o Porto Seco
30- Chamar Lula de analfabeto
31- Chamar Dilma de abortista
32- Ler a FSP para posar de culto
33- Assinar a Veja/Época
34- Assistir BBB
35- Detestar software livre(mesmo sem nunca ter usado)
36- Clericot
37- Óculos Oakley para eles, D&G para elas
38- Pôquer com Johnnie Walker
39- Fazer todos os concursos com salários acima de oito mil reais
40- Dizer que só idiotas fazem concurso para professor
41- Reclamar da empregada doméstica/jardineiro/caseiro
42- Tia Carmem/Gruta Azul/Dominó
43- Juntar a papelada da família para ter um passaporte europeu
44- Luzes e bronzeamento artificial
45- Ódio ao MST (e qualquer outro movimento social)
46- Saudade da ditadura
47- Racismo (Colorado é macaco)
48- Homofobia (Gremista é gaymista)
49- Cirurgia Plástica
50- Ter uma arma ilegal
51- Horror aos carroceiros
52- Horror aos papeleiros
53- Tomar ecstasy nas baladas selecionadas da cidade
54- SKY/NET para ver Manhattan Connection
55- “Findi” em Gramado
56- Ser sócio do Leopoldina Juvenil
57- Sonhar em ser sócio do Country Club
58- Moinhos de Vento/Bela Vista/ Mont`Serrat/ Vila Assunção
59- Iatismo/Tênis/Hipismo e quem sabe um dia golfe
60- Churrasco no Barranco
61- Pizza na Fratello Sole
62- Cachorro/Gato com pedigree
63- House Music/Psy/Trance
64- Ir a Buenos Aires ver o U2
65- Freixenet
66- Ir comprar pneus em Rivera
67- Adesivo de Punta no carro (mesmo se não esteve lá)
68- Nextel (Ah, todo mundo em SP e Rio usa)
69- Chamar a Cidade Baixa de chinelagem
70- Justificar o voto nas eleições

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Gangue da Matriz


Para quem não sabe, a Gangue da Matriz era uma bando agressivo, oriundo de filhos de famílias de classe média alta, que ameaçava os vizinhos e visitantes do território que ia da Praça da Matriz, localizada em frente ao Palácio Piratini, até a Praça General Osório, também conhecida como Alto da Bronze, e imediações.
Essa gangue foi praticamente dissolvida devido ao assassinato do jovem Alex, conforme está relatado na Wikipedia:

Caso Alex Thomas

O Caso Alex Thomas refere-se ao assassinato do jovem Alex Thomas na praia de Capão da Canoa, no estado do Rio Grande do Sul em 1986, um fato que causou grande repercussão na imprensa e opinião pública gaúcha.
Na madrugada de 26 de fevereiro de 1986, o jovem Alex Thomas, então com 16 anos, caminhava pelas ruas de Capão da Canoa quando foi atacado por jovens integrantes de uma gang porto-alegrense conhecida como "matrizeiros" ou "gang da Praça da Matriz", composta por membros de famílias influentes da alta sociedade gaúcha.[1] [2]

Fato

Uma menina de 13 anos e um rapaz de 17 - caminhavam pela Avenida Paraguassu, em Atlântida, quando um grupo de sete rapazes passaram em dois veículos, gritando palavras obscenas para a menina. De acordo com os relatos do processo, os gritos foram respondidos com um gesto pelos acompanhantes de Clarice. Irritados, os ocupantes dos dois automóveis desceram e cercaram o garoto.
Alex sofreu traumatismo craniano e colapso pulmonar ao ser violentamente espancado e faleceu logo em seguida. Interrogados após o assassinato, os membros da gang confessaram ser adeptos das artes marciais e de terem usado táticas e golpes de karatê para matar Alex.
A morte de Alex Thomas causou revolta em todas as camadas sociais do Rio Grande do Sul, primeiro pela violência pela qual o jovem foi morto, mas também pela covardia e perfil dos criminosos envolvidos. O próprio juiz responsável pelo caso, José Antônio Paganella Boschi, sentiu-se em delicada posição devido à expectativa popular[3]. Todos foram condenados, exceto os rapazes, que apresentavam problemas mentais, e o futuro ator Ricardo Macchi, conhecido na gangue como "Chinês", foi liberado por ser menor de idade.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

DEBATE PÓS-ELEITORAL


Gabeira e os canibais do Jobi

São múltiplas as significações da candidatura Gabeira e da “onda verde" nas eleições municipais do Rio de Janeiro, mas a mais expressiva de todas aponta para uma parcela da classe média em permanente crise de identidade.

Gilson Caroni Filho, para Carta Maior

Para Dani Tristão, que conheceu a ferocidade dos bronzeados que pontificam na orla, e não desistiu da militância.

Em processos eleitorais há quem veja determinadas posturas e discursos como expressões de coerência e determinação, quando o mais correto seria falar em oportunismo político com base social objetiva. São múltiplas as significações da candidatura Gabeira e da “onda verde" nas eleições municipais do Rio de Janeiro, mas a mais expressiva de todas aponta para uma parcela da classe média em permanente crise de identidade.

Um estrato que se enxerga como inovador no trabalho, nas manifestações artísticas e na política, mas como nenhum outro representa a cultura da submissão ao poder e de intolerância a quem não partilha sua cultura de classe.

Esconde seu conservadorismo autoritário empunhando bandeiras que vão da liberação sexual a movimentos ecológicos e descriminalização de usuários de drogas, mas, quando confrontada com perda de privilégios, não hesita em expressar a verdadeira face ideológica: aquela que revela seu caráter histórico submisso e seu velho hábito de festejar formas de poder que recusam a cidadania, não distinguindo o público do privado.

É dessa tensa dialética entre ideal do eu e sua verdadeira subjetividade que nasce a identidade entre a classe média carioca e Fernando Gabeira. Ambos sabem que não são como se apresentam, mas não podem viver sem a auto-imagem construída por meio de omissões espertas.

Precisam repetir como mantra: ”Somos éticos, progressistas e democratas". E se a realidade não confirmar nada disso, não haverá problema. Pois tal como na letra de Adriana Calcanhotto, “cariocas são modernos/cariocas são espertos/ cariocas são diretos/ cariocas não gostam de dias nublados”.

Se há quem diga que a passagem de Gabeira pela luta armada “teve a marca da imaginação", não há motivos para não destacar que ela só foi pródiga no seu primeiro sucesso memorialístico: "O que é isso companheiro?"

Se a narrativa não o apresenta como figura central, as interpretações posteriores, que lhe deram um protagonismo que nunca teve, nunca foram desmentidas pelo autor. Pra quê? Mais importante que o fato é a versão.

De fato, jamais sustentou ter sido o autor do texto - manifesto que jornais, rádios e TVs foram obrigados a tornar público, mas nem pensou em desautorizar os que lhe conferiram uma autoria indevida. Isso é de conhecimento dos freqüentadores do Jobi, bar de boa qualidade do Leblon, onde entre cenas de canibalismo, a nata bronzeada da sociedade carioca celebra seu socialismo de salão. Afinal, “cariocas são atentos/ cariocas são tão claros/ cariocas não gostam de dias fechados”.

Como destaca Alfredo Sirkis, em entrevista a Mário Augusto, pesquisador da Unicamp, "foi ele que contou a história e ficou com a notoriedade, ficou como referência daquela geração com idéias que não correspondem às deles". Nada mais justo. Uma discreta apropriação indébita não é pecado capital para "os inocentes da orla carioca"

As especulações sobre sua sexualidade não foram desmentidas por conta de uma estratégia efetiva de trazer a intolerância sexual para o debate político, mas, como revela Sirkis, por um cálculo erótico prosaico. "O que acontecia naquela época era que... estava na moda ser bissexual! Inclusive, dava prestígio entre as mulheres você dizer que era bissexual".

Foi assim, prezado leitor, que Gabeira se tornou o primeiro heterossexual enrustido do Ocidente. Mais uma vez se comprova que “cariocas são bonitos/ cariocas são sacanas/ cariocas são dourados”... e adoram o arbítrio de uma falsa narrativa que os fazem parecer mais "modernos" do que são.

Gabeira não tem sido diferente na campanha. Usa imagens do dia em que mandou o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti, calar a boca, como se tivesse vencido uma batalha que não travou. O mesmo com as cenas em que, aos trancos, entra na Sessão do Senado onde se votava a cassação de Renan Calheiros. São ações que não ultrapassaram o marco do espetáculo, mas que se encaixam bem no acordo tácito com suas bases.

Os canibais do Jobi precisam se sentir desassombrados e importantes. Sabem que Gabeira é uma construção farsesca, mas isso pouco conta. Eles, em busca de suas ilusões perdidas, também são.

Redivivo, Lacerda vê com satisfação o PV assumir, enfim, o seu destino histórico: ser a tanga de crochê que faltava à direita carioca.

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Observatório da Imprensa.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Brasil já é país de classe média, diz Economist


Na edição que chega às bancas nesta sexta-feira, a revista britânica The Economist destaca o crescimento da classe média no Brasil, que hoje ultrapassa metade da população.

“O Brasil, antes notório por seus extremos, é agora um país de classe média”, diz a reportagem, que cita dados da Fundação Getulio Vargas.

“Esta escalada social é vista, principalmente, nos centros urbanos do país, revertendo duas décadas de estagnação econômica iniciada nos anos 80.”

Citando Marcelo Neri, da FGV, a revista aponta duas principais razões para o crescimento da classe média: a melhora no nível de educação, com os alunos permanecendo nas escolas por mais tempo do que no início dos anos 90, e a migração de empregos do mercado informal para a economia formal.

“O ritmo da criação de empregos formais está se acelerando, com 40% mais empregos criados nos 12 meses até julho do que no mesmo período do ano passado, o que, em si mesmo, é um recorde”, afirma a Economist.

“Junto com a transferência de renda para famílias pobres, isso ajuda a explicar o fenômeno - o que não ocorre com o desenvolvimento econômico e social da Índia ou da China. Com o crescimento da classe média brasileira, a desigualdade diminuiu no país.”

Consumo

A reportagem segue dizendo que a nova classe média é particularmente preocupada com o consumo e que, apesar de não procurar as lojas caras voltadas para um mercado mais rico, ela também não quer comprar em lojas que pareçam “baratas”.

A Economist ainda cita as novelas e seus belos atores como responsáveis pelo estabelecimento do padrão de gosto em moda e beleza, afirmando que talvez elas expliquem a popularidade da cirurgia plástica no Brasil, mesmo entre a nova classe média, que pode pagar pelas operações a prestação.

A recente disponibilidade de crédito para a população, facilitado pela queda nas taxas de juros, ajudou a aumentar o pode de compra desta nova classe média, diz a reportagem, mas a revista afirma que o rápido crescimento está assustando alguns.

“Mas que impacto esta classe média mais numerosa vai ter sobre a política?”, pergunta a Economist lembrando que, no passado, pessoas nesta faixa de renda costumavam votar no PSDB.

“De acordo com Mauro Paulino, do Datafolha, a popularidade pessoal de Lula e seus programas sociais de governo mexeram nessa equação. ‘Aqueles que subiram das classes C e D e experimentaram a ajuda do governo neste caminho, devem ficar com o PT’, diz ele.”

“Ao mesmo tempo a classe média deu nova forma ao PT à sua própria imagem: a retórica econômica desnorteante do partido emudeceu. Ele também tem que prestar atenção ao grupo de eleitores que chegou à classe média e trouxe com ele as atitudes socialmente conservadoras em relação a aborto e casamento gay”, diz a revista.

“Mas permanece irônico que essa grande transformação social, conquistada em parte pela maior abertura comercial com o resto do mundo, pode acabar fortalecendo um partido que, até recentemente, era a favor da autarquia”, conclui a Economist.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Vergüenza de clase


Alejandro Seselovsky

Jamás, de ninguna manera, se me ocurriría mandar un poquito bien a la concha de su madre a la clase media de Buenos Aires. Inflo el pecho para decirlo: mi clase media. La que ahora se siente satisfecha de sí misma cuando boquea con suficiencia su nueva y tan saludable proclama: ¡Qué bien Cobos! La clase media que puteaba a los piqueteros del hambre porque la hacían llegar tarde a la terapia y que ahora se compra la banderita y va al acto del campo para sentirse solidaria, para sentirse una hermana federal. La que lee La Nación en la barcito de GEBA y que siente que Grondona ya fue, pero qué bien este Joaquín Morales Solá, cómo piensa. O lee Crítica de la Argentina, y entonces lo que piensa es qué bien el gordo, cómo le pega a estos turros. La que de ninguna manera se espanta con los negros que llegan en los camiones del conurbano pero en el fondo preferiría que hubiera menos camiones, menos negros y de paso menos conurbano. Así, de un plumazo, que no hubiera: por qué tiene que seguir habiendo. La que putea a los chicos del call center cuando el celular no le manda bien los mensajes de texto. La clase media que en el 95 votó a Menem porque se quería seguir yendo a Nueva York con los 1000 pesos de su salario dolarizado mientras rosarinos desclasados carneaban vacas sobre la avenida Circunvalación o neuquinos expulsados de sus empleos tras la privatización de YPF cortaban caminos en Cutral Có, pero que cuando le tocaron los plazos fijos sintió que lo que le estaban tocando era el culo, y salió a cacerolear porque con el hambre de gente que vive en esos taperíos no sé, pero con los plazos fijos no se jode.

Esa mezquina, desmemoriada, garca, egoísta, autoindulgente, vigilante y un poco bastante gallina clase media que se indigna con la marca de la cartera de nuestra señora presidenta, que ve allí, en esa exaltación del consumo por el que muere mil veces, los grandes males de la patria. Y entonces se sube con la virgencita a gritar Argentina, Argentina y le estampa un beso a Luciano Miguens y le agradece por defendernos del gobierno que le cae mal: cuestión de piel, ¿viste? Nos cae mal.

La clase media vecinalista que está pensando en los destinos del país y que cree fervientemente que nos vamos a ir para arriba el día que saquen a patadas en el culo a todos los cuidacoches de Palermo, porque te rayan el auto y el auto de la clase media es la proyección de un ser supremo nacional, incluso por encima de los plazos fijos, fíjense.

En el 82 llenó la plaza porque creía en sus generales y en que la guerra era una guerra ganada y en 2004 le firmó las papeletas al ingeniero Blumberg porque creía que de verdad era ingeniero y que iba a terminar con la inseguridad, esa cosa mala que inventaron los pobres y sobre la cual la clase media no siente que tenga ninguna responsabilidad social, por qué iba a tenerla.

Supongo, como ya ha supuesto el chico Salmón en uno de esos talksongs radiográficos que tiene, que será el destino divino, tan fino, tan occidental y cristiano. Cosmopolita y parisino. Tan típico Matute pero no el de Don Gato. Supongo que el vigilante argento además es barato: además es barato. Y que así deber ser el estilo tan fino, del vigilante medio argentino.

Nací y crecí en esa clase media. La que vive en barrios con poca voluntad de serlo. (San Juan y Boedo es la esquina de un barrio, y no hay Norte que alcance para convencerme de que Laprida y Mansilla es la esquina de otro, mal que le pese a la memoria de Xul Solar). La clase que se siente bien de sí misma porque no se mete en política, nunca se ha metido, siempre fue antiperonista. A esa clase le conozco sus clubes y sus colegios. Yo soy ella, así que no, jamás. Mandarla a la concha de su madre. Cómo se me va a ocurrir.