quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Café em excesso pode reduzir seios


Um estudo sueco sugere que o consumo de café em excesso pode provocar uma diminuição no tamanho dos seios de algumas mulheres.

A pesquisa publicada na revista científica British Journal of Cancer indica que a diminuição ocorre por conta de uma variação genética que atinge cerca 50% das mulheres e apenas entre aquelas que tomam três ou mais xícaras de café por dia e não usam pílulas anticoncepcionais.

Segundo o estudo, a mutação genética seria a responsável pela relação entre o consumo de café e o tamanho dos seios por afetar os hormônios femininos.

Uma das explicações oferecidas pelos cientistas é de que o café contém estrogênios que poderiam afetar diretamente os hormônios das mulheres e causar um impacto no tamanho dos seios.

"Beber café pode ter um impacto grande no tamanho dos seios", disse a coordenadora do estudo, Helena Jernstrom, da Universidade de Lund, na Suécia.

Pesquisa

Para realizar o estudo, os pesquisadores analisaram 300 mulheres que não tomavam pílulas anticoncepcionais e não tinham histórico de câncer. Entre elas, 50% possuíam a variante genética.

Durante dez anos, as voluntárias responderam questionários periódicos sobre consumo de café, uso de contraceptivos e hábitos como o fumo, por exemplo.

Além disso, os pesquisadores mediram os níveis hormonais e o tamanho dos seios das mulheres. Os seios foram medidos como se fossem pirâmides – multiplicando o tamanho da base e das laterais para indicar o volume.

Ao final da pesquisa, os cientistas observaram que as mulheres com a variação genética e que tomam uma quantidade moderada ou alta de café (pelo menos três xícaras por dia) apresentaram uma diminuição no tamanho dos seios.

No entanto, os pesquisadores alertam que as mulheres que bebem café não precisam se preocupar porque a diminuição não é repentina e não fará com que os seios percam todo o volume.

Sucessor de Haider diz que ele era 'o homem de sua vida'


Luis Fernando Ramos de Oliveira
De Viena para a BBC Brasil

O novo chefe do partido de extrema-direita da Áustria vem causando polêmica no país depois de dar a entender que mantinha um relacionamento homossexual com Jörg Haider, o ex-líder do partido que morreu em um acidente de carro no último dia 11.

Stefan Petzner, de 27 anos, era protegido do político e deu uma série de entrevistas emocionadas após a morte de Haider.

No último domingo, em um programa de rádio, Petzner disse que a relação entre os dois ia muito além de uma simples amizade.

"A ligação entre mim e Jörg era muito especial. Ele era o homem da minha vida", afirmou o novo líder do partido Aliança para o Futuro da Áustria (Bündnis Zukunft Österreichs, ou BZÖ, em alemão).

O político foi além e sugeriu que a esposa de Haider, Claudia, não se opunha à relação entre os dois.

As revelações de Petzner alimentaram uma série de rumores sobre a noite da morte de Jörg Haider.

De acordo com testemunhas, os dois teriam discutido na festa de lançamento de uma revista de celebridades. Haider dirigiu-se depois para um bar da cena gay da cidade de Klagenfurt, onde tomou uma garrafa de vodca, acompanhado de um jovem desconhecido.

Horas mais tarde, Haider sofreu um acidente fatal, com volume de álcool no sangue mais de três vezes acima do permitido pelas autoridades austríacas.

A morte de Haider provocou uma série de mudanças na estrutura do BZÖ. Além de chefe do partido, Petzner estará também no Parlamento como um dos representantes do BZÖ – cuja fração será liderada no Congresso pelo ex-tesoureiro do partido, Josef Bucher.

Nesta quinta-feira, o Estado da Caríntia, que era governado por Haider, também escolheu o novo governador: Gerhard Dörfler, também do BZÖ.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

INDICAÇÃO FORA DE CONTEXTO


DERZU USALA

Produção soviética dirigida por Akira Kurosawa


TEMA

As questões filosóficas centrais são as da integração cósmica do homem com seu ambiente natural e da consciência torturada pela crença de que esse pacto de harmonia foi rompido. O tema, desdobrado, engloba a preocupação de preservação do meio-ambiente. O filme enfoca também a amizade e admiração entre dois homens de culturas diferentes.


ENREDO

Derzu Usala é um velho caçador nômade, perfeitamente integrado às florestas e lagos gelados da região de Chtokovo, no território de Ussuri: ele percebe e interpreta todos as pequenas alterações ocorridas no seu "habitat"; identifica passagens de pessoas e animais; considera gente o sol, o fogo, o vento, a água, os animais; relaciona-se com todos em total equilíbrio; reconhece-lhes o comportamento; atribui-lhes mudanças de humor; sabe dos problemas íntimos das pessoas que habitam aqueles ermos.

Numa noite, em 1902, ele encontra um destacamento militar russo, comandado pelo Capitão Arseniev, que faz o levantamento topográfico da região; conta que toda a sua família morreu de varíola; revela habilidade com as armas e conhecimento do lugar, sendo contratado como guia.

Derzu e Arseniev, sozinhos, perdem-se na planura árida e uniforme do pântano congelado, porque o vento apaga seus rastros. Entardece e logo o frio da noite os matará, se não se protegerem. Derzu corta grande quantidade de capim alto e seco e faz, em torno do teodolito, um grande mote, sob o qual se abrigam extenuados. A habilidade solidária, a presença de espírito, a intimidade com o ambiente inóspito do humilde Derzu salvam a vida do jovem capitão. Inicia-se, assim, uma sólida amizade entre eles.

Despedem-se e reencontram-se em 1907 para novos levantamentos topográficos e perigosas aventuras: combatem bandidos unhuzes, que matam os aldeões e lhes roubam as mulheres; são apanhados pela correnteza do rio, numa jangada; tiram fotografias e caçam juntos.

Um dia, Derzu, confuso, atira em Amba, o tigre, e passa a sentir medo que Canga, o espírito da floresta, não mais o queira vivendo nessa "taiga". O velho guia torna-se nervoso e deprimido.

Arseniev percebe os sinais da senilidade e o leva para morar com sua família na cidade.

A mulher e o filho do capitão se afeiçoam ao hóspede, mas ele entra em conflito com os hábitos urbanos. Deslocado e infeliz, quer voltar à sua "taiga".

Na despedida, Arseniev presenteia-lhe uma espingarda. Tempos depois, o militar é chamado a reconhecer um morto que porta o seu cartão de visita; um policial conclui que Derzu deve ter sido assassinado pelo ladrão de sua espingarda. Arseniev assiste o sepultamento do amigo fiel.


ASPECTOS CINEMATOGRÁFICOS

Akira Kurosawa dirigiu vários clássicos do cinema ("Os Sete Samurais", "Yojimbo", "Trono Manchado de Sangue", "Kagemusha - a Sombra do Samurai", "Ran"), filmes profundamente japoneses, muito apreciados no ocidente. Homem sensível e amargurado, Kurosawa tenta o suicídio e, recuperado, realiza Derzu Usala, obra cheia de significados filosóficos.

O ritmo lento, as seqüências demoradas, a câmara estática são reflexos de um universo meditativo que nada têm a ver com a agitação de nossas cidades; e permitem apreciar a sutileza dos sentimentos das personagens e a bela fotografia, que valoriza as florestas nevadas, as planuras silenciosas do pântano e do lago congelados, a vegetação rasteira e ressecada, a névoa azul e as rajadas de vento que açoitam as silhuetas humanas, o brilho solar do entardecer, refletido em superfícies úmidas.


INDICAÇÕES

Para as Áreas de Estudos Sociais (Integração do homem ao meio-ambiente, conflito entre as culturas rurais e urbanas, preservação do meio-ambiente); Comunicação e expressão (contato e entendimento entre culturas diferentes, valores universais da amizade e da solidariedade); Educação Artística (o universo mítico e o imaginário popular).


Professor Reynuncio N. de Lima - Ex-professor de Teatro da Escola Técnica Federal de São Paulo

ONGs suíças defendem comércio agrícola regional

Produtos Orgânicos:

A agricultura mundial deve tornar-se ecológica e o pequeno agricultor estar no centro das preocupações. Somente assim a fome no mundo poderá ser remediada.

Três ONGs suíças (Swissaid, Pão para o Próximo e Greenpeace) e a União Suíça de Agricultores (USP) pedem que o governo suíço haja nesse sentido.

"A agricultura industrial, que necessita de uma grande quantidade de energia e de produtos químicos, não tem futuro. A agricultura deve tornar-se mais humana e mais sustentável."

A opinião é do agrônomo suíço Hans Herren, co-presidente do Conselho Mundial da Agricultura, resumindo o relatório publicado em abril sobre a agricultura mundial intitulado Avaliação Internacional dos Conhecimentos, das Ciências e Tecnologias Agrícolas para o Desenvolvimento (IAASTD, na sigla em inglês).

Os autores do relatório são quarenta e cinco cientistas dos cinco continentes, nenhum dos países de língua portuguesa. Trata-se do equivalente para a agricultura do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). Herren falou em coletiva à imprensa, terça-feira (21), em Berna.

Enquanto a produção agrícola mundial aumenta, o acesso à alimentação é cada vez mais desigual, afirmou Hans Herren. A produção intensiva tem conseqüências dramáticas sobre os solos, o clima e os pequenos agricultores. O número de pessoas que sofrem fome não cessa de aumentar. A subnutrição atinge hoje 925 milhões de pessoas.

Moratória sobre os biocombustíveis

Doze por cento dos gases que provocam o efeito estufa são produzidos pela agricultura intensiva e baseada em produtos químicos, afirmou Marianne Künzle, do Greenpeace, na mesma coletiva à imprensa. Ela lamenta que empresas como Monsanto e Syngenta tenham abandonado os trabalhos do grupo de cientistas que elaborou o relatório IAASTD. Era um sinal, segundo ela, que o relatório colocaria em causa as práticas dessas empresas produtoras de adubos e sementes transgênicas.

As três ONGs (Swissaid, Pão para o Próximo e Greenpeace) e a União Suíça de Agricultores (USP) apóiam essas recomendações e pedem que sejam tomadas medidas concretas na Suíça: garantir o abastecimento dos mercados regionais, decretar uma moratória de cinco anos sobre os biocombustíveis e prorrogar a moratória sobre os transgênicos.

A produção de biocombustíveis é responsável por mais de 70% da alta dos alimentos, afirmou Caroline Morel, de Swissaid, citando um estudo do Banco Mundial. Ela agrava, assim, de maneira dramática, a situação das populações mais pobres.

Saber rural

As quatro organizações pedem ainda que o direito fundamental à alimentação prime sobre o livre-comércio. A Suíça também deve garantir seu abastecimento alimentar e reconhecer o mesmo direito aos outros países.

O relatório sobre a agricultura mundial é fruto de quatro anos de trabalho de quatrocentos cientistas e especialistas internacionais, levando em consideração o saber rural. O estudo foi financiado pelas Nações Unidas, pelo Banco Mundial e pelo Fundo Mundial pelo Meio Ambiente (FEM).

Los apestados


Por Juan Forn, para Página/12

Ahí están los dos, sentados en la terraza del Badrutt Palace de Saint Moritz, bebiendo “coloraditos” (gin, campari, una gota de bitter y una cáscara de naranja) y aprovechando el breve sol del mediodía, ella envuelta en su tapado de piel, él en su sobretodo de astrakán (recuerdo de su breve período como embajador de la Francia de Vichy en la Rumania pronazi). Es enero de 1946 y ninguno de los dos puede volver a Francia por su comportamiento durante la guerra. El es el escritor Paul Morand. Ella es Coco Chanel. Ambos han cumplido los sesenta años. El carece de domicilio fijo y no tiene dinero ni para pagar ese trago en la terraza del Badrutt. Tampoco pagará ella, como solía suceder en los buenos tiempos: la casa Chanel lleva seis años cerrada y su dueña se ha declarado en quiebra (es su amante diecisiete años menor el que paga las cuentas ahora, incluidas las tres dosis diarias de morfina que exige Coco).

Tanto Morand como Chanel piensan que lo peor ha pasado: saben que, después de los fusilamientos de Laval (el temible prefecto de París durante la ocupación) y de Brasillach (el joven estrella de las letras fascistas que denunciaba en el Je suis partout a los sospechosos de colaborar con la Resistencia), De Gaulle ha decidido que no haya más condenas a muerte para los colaboracionistas. Chanel y Morand creen que el tiempo está de su lado: tarde o temprano podrán volver a Francia ambos (como Louis-Ferdinand Céline, que habrá de ser indultado en 1951 luego de seis años de exilio en Dinamarca). ¿Se arrepienten los dos de su conducta durante la guerra? ¿Sienten algún remordimiento, en esa Europa en la que aún no se ha disipado del todo el humo de los crematorios nazis? Más bien lo contrario: Chanel sigue viviendo con el barón Hans Günther von Dincklage, un oficial del servicio secreto alemán que pasó toda la guerra a cuerpo de rey junto a Chanel en una suite del Ritz de París y logró después que los aliados les permitieran huir a ambos a Suiza porque era hijo de una dama de la nobleza británica (Von Din-cklage no fue el único oficial nazi en tener amores con Chanel: también Theodor Momm, un coronel de las SS que supervisaba la producción de las fábricas textiles francesas que trabajaban para los alemanes, e incluso el jerarca de la Gestapo Walter Schellemberg, quien aseguró, cuando fue capturado, que en 1943 había intentado junto a Chanel poner en contacto al sector más moderado de la cúpula nazi con Winston Churchill, para negociar un tratado de paz entre Berlín y los aliados, con el absurdo nombre de Operación Sombrero).

Morand es más pusilánime: adjudica a un gran malentendido la publicación, antes de la guerra, de su libro France la Doulce (una sátira feroz sobre “la invasión judía en el cine francés”), también aquel viaje junto a Drieu la Rochelle y Brasillach a Weimar en 1941 para “estrechar lazos entre los escritores europeos de bien”, e incluso el legajo hallado en el cuartel general nazi en París que lo caracterizaba como un colaborador fiel, de “impecables antecedentes arios”. Pero Chanel se cansa rápido de sus lloriqueos: “Serás un mal muerto, seguirás haciéndote reproches bajo tierra. Aprende de mí”, le dice. Morand toma sus palabras al pie de la letra. Durante la semana siguiente (cortesía del barón Von Dincklage, que ve una oportunidad providencial para tomarse un respiro) los dos amigos conversarán día y noche en el Badrutt Palace sobre los buenos viejos tiempos: cuando Picasso y Stravinsky y Diaghilev y Braque y Satie y Cocteau y el joven Lacan e incluso el mismísimo Winston Churchill acudían todas las noches al departamento de Chanel en la rue Cambon.

Ocho años después, ambos recibirán el indulto que les permite regresar a París. Chanel abrirá de nuevo su negocio y, aunque los parisinos les den la espalda a sus nuevas colecciones de alta costura, los norteamericanos serán sus nuevos fans (Marilyn declarará: “Para irme a la cama sólo me pongo Chanel Nº 5”; Jackie Kennedy vestirá un tailleur Chanel el día en que maten a su marido en Dallas; Katharine Hepburn arrasará en Broadway encarnando a Coco). Morand, por su parte, con su pusilanimidad característica, logrará en 1969 ingresar en la Academia Francesa, luego de dos intentos frustrados (uno por los demás académicos, otro vetado por el mismísimo De Gaulle). Desde su ingreso en la Academia visitará cada vez menos a su amiga, que se ha instalado desde su retorno a París en la misma suite del Ritz que ocupó durante la guerra con Von Dincklage. Chanel morirá el 10 de enero de 1971. Según su mucama, exigió que le inyectaran una megadosis de morfina y murmuró: “Así es como se muere”. Era un domingo: sólo un domingo podía matarla, opinaron unánimemente sus íntimos en el velorio. Morand morirá en 1976, sólo un mes después de publicar en forma de libro las notas que había tomado durante aquellas semanas en Saint Moritz en 1946. Las tituló El allure de Chanel. En francés, allure significa aire, aliento, y también distinción, elegancia. En su último reportaje antes de morir, Chanel había declarado: “Me horroriza ir a acostarme. Hace diez años que no me besan en la boca”. Habrá sido por su allure.

Campanha ateísta quer colocar pôsteres em ônibus de Londres


Alguns ônibus de Londres poderão levar, a partir de janeiro, pôsteres com um slogan pouco comum: "Provavelmente, Deus não existe".

A campanha ateísta é da British Humanist Association (BHA, na sigla em inglês) e tem o apoio do acadêmico britânico Richard Dawkins, autor do livro Deus, um delírio e conhecido pelos seus documentários questionando o papel das religiões.

O objetivo da BHA com a campanha é "promover o ateísmo na Grã-Bretanha, encorajar mais ateístas a assumirem publicamente a sua posição e elevar o astral das pessoas a caminho do trabalho".

Com o dinheiro levantado em doações, o grupo quer colocar pôsteres em dois grupos de 30 ônibus por quatro semanas.

O slogan completo diz: "There's probably no God. Now stop worrying and enjoy your life" (“Provavelmente, Deus não existe. Agora, pare de se preocupar e curta a vida”, em tradução livre).

"Nós vemos tantos pôsteres divulgando a salvação através de Jesus ou nos ameaçando com condenação eterna, que eu tenho certeza que essa campanha será vista como um sopro de ar fresco", disse Hanne Stinson, presidente da BHA.

"Se fizer com que as pessoas sorriam, além de pensar, melhor", concluiu.

Como os organizadores conseguiram arrecadar mais do que planejavam, eles pretendem colocar os pôsteres também do lado de dentro dos ônibus.

A BHA também estuda a possibilidade de estender a campanha para outras cidades, incluindo Birmingham e Manchester, na Inglaterra, e Edimburgo, na Escócia.

"A religião está acostumada a usufruir de benefícios tributários, respeito não merecido, o direito de não ser ofendida e o direito de fazer lavagem cerebral nas crianças", disse Dawkins.

"Mesmo nos ônibus, ninguém pensa duas vezes quando vê um slogan religioso. Esta campanha fará com que as pessoas pensem - e pensar é um anátema perante a religião", completou.

Mas Stephen Green, da organização Christian Voice (Voz Cristã, em uma tradução livre), disse que "ficará surpreso se uma campanha como essa não atrair pichação".

"As pessoas não gostam de receber sermão. Às vezes, é bom para elas, mas, ainda assim, elas não gostam", afirmou.

No entanto, a Igreja Metodista agradeceu Dawkins por incentivar um "interesse constante em Deus".

"Esta campanha será uma coisa boa se fizer com que as pessoas pensem nas questões mais profundas na vida", disse Jenny Ellis, reverenda metodista.

"O Cristianismo é para pessoas que não têm medo de pensar sobre a vida e seu significado", completou a religiosa.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Antropólogo descreve "era das identidades múltiplas"


Em entrevista à DW-WORLD.DE, Constantin von Barloewen fala das diferenças culturais entre as Américas, descreve o ensaio como gênero literário latino-americano por excelência e aposta numa nova sociedade intercultural.

Constantin von Barloewen é professor de Antropologia Comparada da Escola Superior de Design e Artes de Karlsruhe. Nascido em 1952 em Buenos Aires, cresceu na Argentina e na Alemanha, deu aulas em várias universidades da Europa e dos EUA e vive atualmente em Paris.

É autor de diversos livros, como Clown. Por uma Fenomenologia do Tropeço (Clown. Zur Phänomenologie des Stolperns), História da Civilização e Modernidade na América Latina (Kulturgeschichte und Modernität Lateinamerikas) e o recém-publicado na Alemanha Antropologia da Globalização (Anthropologie der Globalisierung). Leia abaixo a íntegra da entrevista com o escritor.

DW-WORLD.DE: Em seu livro Antropologia da Globalização, o senhor afirma que a cultura latino-americana se distingue essencialmente da norte-americana, seja na visão da morte, da natureza ou mesmo nas relações entre os gêneros. O diálogo entre essas culturas é possível?

Constantin von Barloewen: Esse diálogo é, no mínimo, bastante difícil, porque todas as constantes antropológicas – se é que se pode dizer assim – entre as culturas latino e norte-americana são completamente distintas. A América Latina se caracterizou até o século 19 pela Escolástica católica, muito metafísica, espiritual e transcedental. Esse transcedentalismo se opõe à tradição cultural norte-americana pragmática, empírica, lógica e analítica.

Quando foram fundadas as primeiras universidades na América Latina, no fim do século 15 e início do 16, no México e no Peru, que formações eram oferecidas? Além de Medicina, estudava-se Teologia, Filosofia, Ciências Humanas. E quase nenhuma ciência natural ou empírica. Ao contrário da América do Norte, onde, quando da fundação das primeiras universidades (Harvard, Princeton, Yale, etc), cem anos depois da América do Sul, foram oferecidas, de início, formações em Física e Química, por exemplo – ciências úteis e aplicáveis.

Obviamente a diferença hoje não é tão clara como no início do período coloonial, isso é claro. Mas se você pensa nos mal-entendidos, ou melhor, na falta de compreensão da administração norte-americana em relação à América Latina, essas diferenças ainda são visíveis. A falta de compreensão da América do Norte frente à América do Sul não se dá somente devido a fatores econômicos ou políticos, mas é, do ponto de vista antropológico, resultado de uma história cultural, de vários séculos, completamente distinta entre as duas partes do continente.

Hoje, porém, a América Latina mobiliza-se cada vez mais através do Mercosul, por exemplo, ou na oposição à Alca, a zona de livre comércio. Os sul-americanos simplesmente não querem mais ser apenas mercados receptores dos produtos norte-americanos. Hoje, forma-se cada vez mais uma identidade latino-americana frente à hegemonia norte-americana.

Na sua opinião, o culto ao vencedor não faz parte da cultura latino-americana como faz da norte-americana. O senhor diz que a América Latina, ao contrário, cultua mais a "dignidade do derrotado". Poderia citar exemplos concretos que comprovem esse hipótese?

Obviamente a diferença hoje não é tão clara como no início do período coloonial, isso é claro. Mas se você pensa nos mal-entendidos, ou melhor, na falta de compreensão da administração norte-americana em relação à América Latina, essas diferenças ainda são visíveis. A falta de compreensão da América do Norte frente à América do Sul não se dá somente devido a fatores econômicos ou políticos, mas é, do ponto de vista antropológico, resultado de uma história cultural, de vários séculos, completamente distinta entre as duas partes do continente.

Hoje, porém, a América Latina mobiliza-se cada vez mais através do Mercosul, por exemplo, ou na oposição à Alca, a zona de livre comércio. Os sul-americanos simplesmente não querem mais ser apenas mercados receptores dos produtos norte-americanos. Hoje, forma-se cada vez mais uma identidade latino-americana frente à hegemonia norte-americana.

Na sua opinião, o culto ao vencedor não faz parte da cultura latino-americana como faz da norte-americana. O senhor diz que a América Latina, ao contrário, cultua mais a "dignidade do derrotado". Poderia citar exemplos concretos que comprovem esse hipótese?

Penso nas primeiras obras de Ortega y Gasset. Ele esteve em 1917 pela primeira vez na América Latina, viajou pela Argentina e escreveu maravilhosamente sobre os "horizontes abertos", que o impressionaram muito. Penso também em Octavio Paz com seu Labirinto da Solidão, em Borges com seu conto maravilhoso O Sul. E penso também em filmes como os de Fernando Solanas sobre o sul ou de Carlos Sorín, diretor argentino, com seu belíssimo O Cachorro (Bombón, el perro). Essa falta de lugar, que é sempre associada ao sul, é específica da literatura e da arte latino-americanas.

O senhor descreve o ensaio como sendo uma forma de expressão latino-americana por excelência. Esse pensador ensaísta não existe da mesma forma no Velho Mundo?

É claro que existem exemplos europeus de pensadores. No entanto, a especificidade do latino-americano está nessa coesão do pensamento entre literatura, política e ciência, na mistura dessas três formas e também na relação com questões sociais, com questionamentos sobre a justiça. Carlos Fuentes, Octavio Paz, Pablo Neruda, Miguel Ángel Asturias ou Guimarães Rosa (este último no Brasil) – foram diplomatas. Todos, de certa forma, oscilavam entre a política e a literatura. Ou seja, mesmo diante de todos os exemplos europeus, continuo a acreditar que este tipo de pensador é uma especificidade latino-americana.

Seus textos em Antropologia da Globalização se aproximam muito da forma do ensaio. Suas descrições da pequena comunidade de Sosua, na República Dominicana, chega a se assemelhar a um roteiro cinematográfico. O senhor acredita que redige seus textos desta forma devido às suas raízes latino-americanas?

Com certeza. Embora seja preciso dizer que o caráter literário do texto sobre Sosua foi uma opção consciente. Quando estive na Universidade de Harvard, em 1982, fui convidado a ir à República Dominicana. Sosua era, naquela época, uma província completamente desconhecida, cheia de imigrantes judeus. Hoje, o lugar se tornou, infelizmente, quase um ponto turístico.

De forma geral, acredito que a inteligência intuitiva é muito superior e se aproxima, no fim das contas, mais da empiria. Não acredito na chamada objetividade científica nas ciências humanas, como a conhecemos nas ciências naturais. A inteligência intuitiva é para mim, como antropólogo, muito importante.

O senhor afirma em seu livro acreditar que a América Latina pode se tornar "um exemplo, no futuro, da superação das cancelas religiosas ou raciais" para o resto do mundo. No entanto, em vários países, como no Brasil, o racismo é inerente à sociedade.

Tenho consciência de que o Brasil não é, de forma alguma, apenas a democracia étnica descrita com um excesso de otimismo por Gilberto Freyre nos anos 1930. Por outro lado, não acredito mais num mundo sob a hegemonia norte-americana, mesmo quando eles insistem em espalhar canhões, como fizeram no Iraque.

Acredito num mundo multipolar, num mundo de arquipélagos, como a América Latina já conhece há muito tempo. A América Latina é caracterizada por uma lógica híbrida (talvez seja possível explicar desta forma), onde o logos e o mito se unem e onde não há lugar para um logocentrismo puro, para o racionalismo e para o utilitarismo como na América do Norte.

O senhor diz acreditar na "incompatibilidade entre a cultura latino-americana e as exigências de uma civilização tecnológica“. O que o senhor quer dizer exatamente com isso?

A compatibilidade entre tecnologia e cultura é distinta nas Américas do Norte e Latina. Da mesma forma como a esprititualidade também é uma outra, o que leva a uma ética de trabalho também distinta. O caráter retórico da Constituição democrática ilustra a situação. Na América Latina, copiou-se muito da Europa, mas tudo aquilo era só papel, maculatura.

O continente tem, até hoje, uma relação debilitada com a modernindade. E as constituições têm, com freqüência, até hoje, um caráter meramente retórico, sem que haja uma identidade entre Constituição e realidade. É como uma cobertura sobre o bolo. O bolo é a herança cultural dos 400 anos. A modernidade é apenas a calda que cobre, mas não chega a adentrar o bolo.

Há em determinadas regiões da América Latina uma forma circular de lógica e uma outra forma de racionalismo, outras metáforas antropológicas. Pacha mama, a mãe natureza, tem outros significados. A natureza não está lá para ser militarmente subjugada, como na América do Norte, mas o homem precisa se curvar à ela, devido a seu caráter sagrado. A modernidade, neste caso, é, para mim, o mesmo que violentar a tradição cultural.

O senhor defende uma identidade que seja fortemente permeada pela interculturalidade. As tendências políticas na Europa, pelo menos em relação ao não-europeu, parecem seguir outro caminho. Como o senhor vê essa situação?

Acredito que haja cada vez mais gente que não tem mais uma raiz, mas sim um entrelaçamento de raízes e identidades. Vivemos numa civilização na qual há cada vez mais pessoas viajando – através do turismo, viajar se tornou relativamente barato. É possível pertencer a diversas culturas ao mesmo tempo.

Há identidades múltiplas e o homem não será nunca mais membro de uma determinada cultura. Um habitante da Indonésia, por exemplo, pode ser ao mesmo tempo muçulmano, cidadão indonésio e amante da música clássica ocidental. Um japonês pode facilmente amar os filmes neo-realistas italianos.

Na civilização atual, temos automaticamente várias identidades. Este é o ponto: a identidade intercultural é sempre mais do que uma ou outra identidade. Ela é um terceiro fator, algo novo muito mais abrangente, porque abarca em si várias identidades e tradições culturais distintas.

O senhor cita Relato de um Certo Oriente, romance do escritor brasileiro Milton Hatoum, como uma obra de traços transculturais, onde se cria uma ponte entre Ocidente e Oriente. Tais cenários híbridos são também possíveis no chamado Velho Mundo?

Acho que sim. Quando você pensa nos milhões de africanos do norte do continente que vivem hoje na França, ou nos paquistaneses e hindus em Londres ou nos mexicanos na América do Norte, percebe que está havendo uma deslocamento elementar.

A provável eleição de Barack Obama à Presidência dos EUA é somente a expressão dessa mudança de paradigmas, dessa nova atribuição de significado do mundo multipolar. Obama como negro na Presidência iria simbolizar uma nova civilização. Uma mudança geopolítica de paradigmas não apenas na economia, mas também em toda a postura étnica dos EUA. Ele pode se transformar no rosto antropológico de uma nova civilização mundial.

Soraia Vilela