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segunda-feira, 5 de junho de 2023

Duvidávamos dos oráculos e agora confiamos em máquinas.

 


Artigo de Derrick de Kerckhove

Estamos todos imersos em um turbilhão de palavras, mas não as habituais. Em casa, no trabalho, no lazer, pela rua e por meio da mídia, compartilhamos o oceano das palavras com um novo protagonista: a palavra gerada pela máquina.

O ChatGPT e as suas variantes cada vez mais numerosas estão nos inundando de invenções linguísticas oraculares. O problema é que onde se poderia duvidar dos oráculos, embora nem sempre impunemente, haverá cada vez menos motivos ou oportunidades para duvidar das máquinas. Elas demonstraram sua superioridade em relação ao conhecimento e ao julgamento humanos em um número suficiente de setores cruciais, como a educação, a saúde, as finanças, a política e, não nos esqueçamos, o setor militar.

O desenvolvimento mais recente da inteligência artificial está levando a competição homem-máquina a um novo nível. A linguagem humana é fagocitada pela transformação digital. O papel da linguagem está em questão agora que a inteligência artificial generativa pode produzi-la com um input mínimo por parte do ser humano.

Com poucas palavras como ponto de partida, a inteligência digital pode criar poesias “ao estilo de…”, redigir documentos científicos semelhantes, escrever memórias para os políticos, como ocorreu nos últimos dias, programar softwares funcionais, criar música ou imagens. São muitas as vantagens e os perigos novos.

Mecanizar a linguagem significa assumir o controle dela e, com esse controle, gerir os seres humanos como Stanley Kubrick havia previsto de alguma forma com o HAL, o sistema operacional da missão espacial no filme “2001”. O que muitos temem hoje é que a inteligência artificial se apodere do poder quase algorítmico da linguagem, colonizando os seres humanos para servir a interesses que têm pouco ou nada a ver com os objetivos humanos.

Nós, da Media Duemila, não compartilhamos esse temor, tendo observado e estudado diversos casos de mudanças sociais impulsionadas pela tecnologia e tendo concluído que, depois das previsíveis lutas e adversidades que toda transição acarreta, as sociedades humanas recuperaram, no fim, um equilíbrio, uma nova ecologia, que é a que exploramos. Parece mais plausível que a inteligência artificial esteja se tornando, ela mesma, uma chave de transição entre os sistemas de escrita e o sistema operacional digital. Sem dúvida, é preciso prestar atenção, ter cuidado e regulamentação na distribuição e no uso das novas tecnologias de referência da inteligência artificial, mas não devemos nos deixar guiar pelo medo.

Atualmente, o gato já pulou do saco, por assim dizer, centenas de milhões de pessoas provaram a nova fruta. Não é possível voltar atrás, mas olhemos para a frente e guiemos o planeta Terra em uma direção melhor. E, como disse Giovanni Giovannini em 1983, ano de nascimento da Media Duemilla: “Exaltar e demonizar a tecnologia são ambas atitudes bastante equivocadas, porque isso apenas enfatiza seu poder. Em vez disso, é correto colocar no centro de tudo isso a humanidade e as inúmeras escolhas que ela deve fazer quando se defrontar com as novas tecnologias”.

Fonte do texto: https://www.ihu.unisinos.br/629254-duvidavamos-dos-oraculos-e-agora-confiamos-em-maquinas-artigo-de-derrick-de-kerckhove

Fonte da imagem: https://www.apsf.org/pt-br/article/debate-de-pros-e-contras-pro-inteligencia-artificial-ia-na-area-da-saude/

domingo, 24 de julho de 2022

O mundo depois da Ucrânia

 


Por José Luís Fiori (*)

(Artigo recomendado pelo Amigo Guilherme Barbosa).

Fonte: https://sul21.com.br/opiniao/2022/07/o-mundo-depois-da-ucrania-por-jose-luis-fiori/

 

Desde a década de 70 do século XX está em curso uma grande “explosão expansiva” do sistema mundial. Nossa hipótese é que o aumento da “pressão competitiva” dentro do sistema foi provocado pelo expansionismo imperial dos Estados Unidos, pela multiplicação do número dos Estados soberanos dentro do sistema, e pelo crescimento vertiginoso do poder e da riqueza dos Estados asiáticos, e da China em particular. O tamanho dessa “pressão competitiva” permite prever, neste início do século XXI, uma nova “corrida imperialista” entre as grandes potências.

Fiori, J. L. O sistema interestatal capitalista no início do século XXI. In: Fiori, J. L.; Medeiros, C.; Serrano, F. O Mito do Colapso do Poder Americano. Rio de Janeiro: Editora Record, 2008. p. 24

Após 140 dias do início da guerra na Ucrânia, já é possível identificar fatos, decisões e consequências estratégicas, econômicas e geopolíticas que são irreversíveis, e que podem ser considerados como as portas de entrada da “nova ordem mundial” de que tanto falam os analistas internacionais. Neste momento, do ponto de vista estritamente militar, ninguém mais acredita na possibilidade de vitória da Ucrânia, e muito menos na retirada das forças russas dos territórios que já conquistaram. O mais provável, inclusive, é que os russos sigam avançando sobre o território ucraniano mesmo depois da conquista de Donbass, pelo menos até o início das negociações de paz que envolvam a participação direta dos Estados Unidos em torno da proposta apresentada pela Rússia em 15 de dezembro de 2021, e que foi então rejeitada pelos norte-americanos.

Mesmo assim, não é improvável que as tropas ucranianas se retirem para uma posição defensiva e se proponham a levar à frente uma guerra de atrito prolongada através de ataques e reconquistas pontuais. Neste caso, o conflito pode se estender por meses ou anos, mas só será possível se os norte-americanos e europeus mantiverem seu apoio financeiro e militar ao governo da Ucrânia, que rigorosamente não dispõe da capacidade de sustentar sozinho um conflito dessa natureza. E terá cada vez menos capacidade, na medida em que sua economia nacional vem se deteriorando aceleradamente, e já se encontra à beira do caos. Esta guerra contudo está sendo travada, de fato, entre os Estados Unidos e a Rússia, e é aí que se encontra o núcleo duro do problema da paz. Ou seja, são duas guerras sobrepostas, mas a chave da paz se encontra – nos dois casos – nas mãos dos Estados Unidos, o único país que pode tomar o caminho diplomático de uma negociação de paz, uma vez que a Rússia já fez a sua proposta e entrou em guerra exatamente porque ela foi rejeitada ou simplesmente desconhecida pelos americanos, pela OTAN e pelos europeus. E é aqui que se encontra o impasse atual: os russos já não têm como aceitar uma derrota; e para os norte-americanos, qualquer negociação é vista como um sinal inaceitável de fraqueza, sobretudo depois de sua desastrosa “retirada do Afeganistão”. Por isso mesmo, a posição oficial do governo americano é prolongar a guerra indefinidamente, por meses ou anos, até exaurir a capacidade econômica russa de sustentar sua posição atual na Ucrânia, e mais à frente, de iniciar novas guerras.

Apesar disso, existe uma brecha para a paz que está se consolidando com o avanço da crise econômica e social dos principais países que apoiam a resistência militar do governo ucraniano. Com algumas repercussões políticas imediatas, em alguns casos, como a queda abrupta da popularidade do presidente Biden, nos Estados Unidos; as derrotas eleitorais de Macron, na França, e de Draghi, na Itália; a queda de Boris Johnson na Inglaterra; e a fragilidade notória do governo de coalizão de Sholz, na Alemanha – alguns dos principais países que desencadearam uma verdadeira guerra econômica contra a Rússia, propondo-se a asfixiar sua economia no curto prazo, excluindo-a do sistema financeiro mundial, e aleijá-la no longo prazo, com o banimento do petróleo e do gás russos dos mercados ocidentais.

Esse ataque econômico, fracassou nos seus objetivos imediatos, e pior do que isto, vem provocando uma crise econômica de grandes proporções nos países que lideraram as sanções contra a economia russa, em particular nos países europeus. E o que é mais importante, os Estados Unidos e seus aliados não conseguiram isolar e excluir a Rússia do sistema econômico e político internacional. Apenas 21% dos países-membros da ONU apoiaram as sanções econômicas impostas à Rússia, e nestes quatro meses de guerra, a Rússia conseguiu manter e ampliar seus negócios com a China, a Índia e com a maioria dos países da Ásia, do Oriente Médio (incluindo Israel), da África e da América Latina (incluindo o Brasil).

Nos últimos quatro meses de guerra, os superávits comerciais russos alcançaram sucessivos recordes, e suas exportações de petróleo e gás do último mês de maio foram superiores ao período anterior à guerra (U$ 70,1 bilhões no primeiro trimestre, e U$ 138,5 bilhões no primeiro semestre de 2022, o maior superavit comercial russo desde 1994). O mesmo acontecendo, surpreendentemente, no caso das exportações russas para os países europeus e para o mercado norte-americano, que cresceram neste período, apesar do banimento oficial imposto pelo G7 e seus aliados mais próximos.

A expectativa inicial do mercado financeiro era que o PIB russo caísse 30%, a inflação chegasse à casa do 50% e que a moeda russa, o rublo, se desvalorizasse algo em torno dos 100%. Depois de quatro meses de guerra, a previsão é que o PIB russo caia uns 10%, a inflação foi contida um pouco acima do nível em que estava antes da guerra, e o rublo foi a moeda que mais se valorizou no mundo nesse período. Enquanto isso, do outro lado desta nova “cortina financeira”, a economia
europeia vem sofrendo uma queda acentuada e pode entrar num período prolongado de estagflação: nesses quatro meses de guerra e de sanções, o euro se desvalorizou em 12%, e a inflação média do continente está em torno de 8,5%, alcançando cerca de 20% em alguns países bálticos; e a própria balança comercial da Alemanha, maior economia exportadora da Europa, teve um saldo negativo no último mês de maio, no valor de 1 bilhão de dólares.

Tudo indica, portanto, que as “potências ocidentais” possam ter calculado mal a capacidade de resistência de um país que, além de ser o mais extenso, é também uma potência energética, mineral e alimentar, sendo também a maior potência atômica mundial. Um fracasso (das previsões) econômicas, do ponto de vista “ocidental”, que vem repercutindo também no plano diplomático, onde a deterioração da liderança americana vem ficando cada vez mais visível, como se pode observar na viagem improvisada de Biden à Ásia, no insucesso da “Cúpula da Democracia” e na “Cúpula das Américas”, na baixa receptividade das posições americanas e ucranianas entre os países árabes e africanos, no fracasso americano na sua tentativa de exclusão dos russos da reunião do G20, em Bali, e na mais recente e desconfortável visita do presidente americano à Arábia Saudita e ao seu principal desafeto da Casa de Saud, o príncipe Mohammad bin Salman, que é acusado pelos próprios americanos de haver matado e esquartejado um jornalista que lhe fazia oposição.

Quando se olha para estes fatos e números, consegue-se também visualizar algumas das características da nova ordem mundial que está nascendo à sombra dessa nova guerra europeia, como já aconteceu no caso da Primeira e da Segunda Guerras Mundiais.

i) Pelo “lado oriental”, caso a Rússia não seja derrotada, e o mais provável é que não o seja, seu simples ato de insubordinação contra a ordem imposta na Europa pelos EUA e pela OTAN, depois de 1991, por si só já inaugura uma nova ordenação internacional, com o surgimento de uma potência com capacidade e disposição de rivalizar com o “ocidente” e sustentar, com suas próprias armas, seus interesses estratégicos com suas “linhas vermelhas” e seu próprio sistema de valores. Uma nova potência capitalista que rompe o monopólio da “ordem internacional pautada pelas regras” definidas há pelo menos três séculos pelos canhões e canhoneiras euro-americanas, e sobretudo por seus povos de língua inglesa. A Rússia rompe assim, definitivamente, qualquer tipo de aproximação com a União Europeia, e em particular com os países do G7, optando por uma aliança geopolítica e uma integração de largo fôlego com a China e a Índia. E contribui, desta forma, para que a China assuma a liderança e redefina radicalmente os objetivos do grupo do BRICS+, que era um bloco econômico e agora está sendo transformado num verdadeiro bloco alternativo ao G7, depois da provável inclusão de Argentina, Irã, Egito, Turquia e a própria Arábia Saudita. Com cerca de 40% da população mundial e um PIB quase igual ao do G7, já é hoje uma referência mundial em franco processo de expansão e projeção global do seu poder.

ii. Pelo “lado ocidental”, por sua vez, o fato mais importante – caso se confirme – será a derrota econômica das “potências econômicas ocidentais” que não terão conseguido em conjunto asfixiar nem destruir a economia russa. O uso militar das “sanções econômicas” será desmoralizado, e as armas voltarão a prevalecer na Europa. Primeiro, com a ascendência da OTAN, que substituirá, no curto prazo, o governo dividido e fragilizado da União Europeia, transformando a Europa num “acampamento militar” – com 300 mil soldados sob a bandeira da OTAN – sob o comando real dos Estados Unidos. No médio prazo, entretanto, essa nova configuração geopolítica deve aprofundar as divisões internas da União Europeia, incentivando uma nova corrida armamentista entre seus Estados-membros, liderada provavelmente pela Alemanha, que após 70 anos de tutela miliar americana, retoma seu caminho militarista tradicional. E assim, a Europa volta ao seu velho “modelo westfaliano” de competição bélica, (falta algo – e com isso…) liquida sua utopia da unificação, se desfaz definitivamente de seu modelo econômico de sucesso puxado pelas exportações e sustentado pela energia barata fornecida pela Rússia.

iii. Por fim, pelo lado do “império americano”, a grande novidade e mudança foi a passagem dos norte-americanos e seus aliados mais próximos para uma posição defensiva e reativa. E esta foi ao mesmo tempo a sua principal derrota nesta guerra: a perda de inciativa estratégica, que passou, no campo militar, para as mãos da Rússia, no caso da Ucrânia e no campo econômico, para as mãos da China no caso da Belt and Road. As “potências ocidentais” parecem ocupadas em “tapar buracos” e “refazer conexões” perdidas ao redor do mundo, enquanto o próprio conflito vai explicitando a perda da liderança ocidental no sistema internacional, com o rápido encolhimento da hegemonia secular dos valores europeus e da supremacia militar global dos povos anglo-saxônicos. Nesta crise ficou claro, mais do que nunca, o verdadeiro tamanho do G7, que costuma falar em nome de uma “comunidade internacional” que não existe mais ou que foi sempre uma ficção ou “narrativa” dos sete países que já foram os mais ricos e poderosos do mundo. Mais do que isto, o próprio poder do “capital financeiro” desregulado e globalizado está sendo posto em xeque, com a explicitação da face parcial e bélica da “moeda internacional” e o desnudamento da estrutura de poder estatal que se esconde por trás de dois sistemas internacionais de troca de informações financeira se pagamentos, o SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication), que tem sua sede em Bruxelas, mas que que é controlado, de fato, pelos Bancos Centrais de 10 Estados apenas, os mesmos do G7 e mais Suécia, Suíça e Países Baixos. Ou seja, o mesmo grupo de Estados e bancos nacionais que controlaram o sistema político e econômico internacional nos últimos 300 anos e que agora estão sendo questionados por esta “rebelião eurasiana”, Afinal, um “segredo de Polichinelo” que foi guardado por muito tempo e com muita cautela: o “capital financeiro globalizado” tem dono, obedece a ordens e pertence à categoria das “tecnologias duais”: pode ser usado para acumular riqueza, mas também pode ser usado como arma de guerra.

Resumindo: a nova ordem mundial está cada vez mais parecida com seu modelo original criado pela Paz de Westfália de 1648. A grande diferença é que agora esse sistema incorporou definitivamente a China, a Rússia, a Índia e mais outros 180 países, e não terá mais uma potência ou região do mundo que seja hegemônica e defina unilateralmente suas regras. Em poucos anos, o sistema interestatal se universalizou, a hegemonia dos valores europeus está acabando, o império americano encolheu, e o mundo está passando de um “unilateralismo quase absoluto” para um “multilateralismo oligárquico agressivo”, em trânsito na direção de um mundo que viverá por um tempo sem uma potência hegemônica.

(*) Professor emérito de economia política e de ética Internacionais dos Programas de Pós-graduação em Economia Política Internacional (IE/UFRJ), e em Bioética e Ética Aplicada (PPGBIOS/UFRJ), da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Coordenador do GP do CNPQ, “Poder Global e Geopolítica do Capitalismo”, e do Laboratório de “Ética e Poder Global”, do NUBEIA/ UFRJ; pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (INEEP). Publicou, “Poder Global e a Nova Geopolítica das Nações”, Ed. Boitempo, SP, 2007, “História, Estratégia e Desenvolvimento”, Ed. Boitempo 2014; “Sobre a Guerra”, Ed. Vozes, Petrópolis, 2018; “A Síndrome de Babel”, Ed. Vozes, 2020; “Sobre a Paz”, Ed. Vozes, 2021

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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

TEMA DE MEDITAÇÃO PARA VENDEDORES AMBULANTES DE TODO O PLANETA

 

 



Porque a Rússia está a enlouquecer o ocidente. 


Por Pepe Escobar.


Eurásia. Os historiadores do futuro podem registrar este dia como aquele em que o geralmente imperturbável ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, decidiu que estava farto:

Estamos a habituar-nos ao fato de a União Europeia tentar impor restrições unilaterais, restrições ilegítimas e, nesta fase, partimos do pressuposto de que a União Europeia é um parceiro não confiável.

Josep Borrell, o chefe de política externa da UE, em visita oficial a Moscou, teve de levar o soco no queixo.

Lavrov, sempre um perfeito cavalheiro, acrescentou: “Espero que a revisão estratégica que terá lugar em breve venha a ser centrada nos interesses fundamentais da União Europeia e que estas conversações ajudem a tornar os nossos contatos mais construtivos”.

Ele referia-se à cimeira de chefes de Estado e de governo da UE no Conselho Europeu do próximo mês, onde discutirão a Rússia. Lavrov não abriga ilusões de que este “parceiros não confiáveis” venham a comportar-se como adultos.

Mas algo extremamente intrigante pode ser encontrado nas observações iniciais de Lavrov no seu encontro com Borrell: “O principal problema que todos enfrentamos é a ausência de normalidade nas relações entre a Rússia e a União Europeia – os dois maiores atores no espaço eurasiano. É uma situação doentia, que não beneficia ninguém”. 

Os dois maiores atores no espaço da Eurásia (itálico meu). Deixe isto penetrar na sua cabeça. Retornaremos ao assunto num momento.

Tal como está, a UE parece irremediavelmente viciada em agravar esta “situação doentia”. A chefe da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, arruinou de forma memorável o jogo da vacina em Bruxelas. Essencialmente, ela enviou Borrell a Moscou a fim de pedir direitos de licenciamento para empresas europeias produzirem a vacina Sputnik V – que em breve será aprovada pela UE.

E ainda assim os eurocratas preferem mergulhar na histeria, promovendo as palhaçadas do ativista da NATO e vigarista condenado Navalny – o Guaidó russo.

Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, sob a capa da “dissuasão estratégica” , o chefe do STRATCOM dos EUA, almirante Charles Richard, casualmente deixou escapar que “há uma possibilidade real de que uma crise regional com a Rússia ou a China possa escalar rapidamente para um conflito envolvendo armas nucleares, se eles sentissem que uma perda convencional ameaçaria o regime ou estado”.

Portanto, a culpa pela próxima – e final – guerra já está atribuída ao comportamento “desestabilizador” da Rússia e da China. Presume-se que eles estarão “a perder” – e então, num acesso de raiva, irão para o nuclear. O Pentágono não passará de uma vítima; afinal de contas, afirma o Sr. STRATCOM, não estamos “presos na Guerra Fria”.

Os planeadores do STRATCOM fariam melhor se lessem o excelente analista militar Andrei Martyanov, que durante anos esteve na linha de frente pormenorizando como o novo paradigma hipersónico – e não o das armas nucleares – mudou a natureza da guerra.

Após uma discussão técnica pormenorizada, Martyanov mostra como “os Estados Unidos simplesmente não têm boas opções actualmente. Nenhuma. A opção menos má, no entanto, é conversar com os russos e não em termos de asneirada geopolítica e sonhos eróticos de que os Estados Unidos, de alguma forma, podem convencer a Rússia a “abandonar” a China – os EUA não têm nada, zero, a oferecer à Rússia para isso. Mas pelo menos russos e americanos poderão finalmente resolver pacificamente essa “hegemonia” da asneira entre si e então convencer a China a finalmente sentar-se à mesa como um dos Três Grandes e decidir por fim como governar o mundo. Esta é a única possibilidade para os EUA de permanecerem relevantes no novo mundo. ” 


A marca da Horda Dourada [1]

Por mais insignificantes que sejam as possibilidades de a UE debelar a “situação doentia” com a Rússia, não há evidências de que o que Martyanov delineou será contemplado pelo Estado Profundo estado-unidense.

O caminho pela frente parece inelutável: sanções perpétuas; expansão perpétua da NATO ao longo das fronteiras da Rússia; a acumulação de um anel de estados hostis em torno da Rússia; perpétua interferência dos EUA nos assuntos internos russos – completada com um exército de quinta colunistas; perpétua guerra de informação de espectro total.

Lavrov está a deixar claro como cristal que Moscou nada mais espera. Os factos no terreno, contudo, continuarão a acumular-se.

O Nordstream 2 será acabado – com ou sem sanções – e fornecerá o gás natural tão necessário à Alemanha e à UE. O vigarista condenado Navalny – 1% de “popularidade” real na Rússia – permanecerá na prisão. Cidadãos de toda a UE receberão o Sputnik V. A parceria estratégica Rússia-China continuará a solidificar-se.

Para entender como chegámos a esta horrivel confusão russofóbica, um roteiro essencial é fornecido pelo Conservadorismo Russo , um estudo novo e estimulante de filosofia política de Glenn Diesen, professor associado da Universidade do Sudeste da Noruega, conferencista na Escola Superior de Economia de Moscou e um de meus distintos interlocutores em Moscou.

Diesen começa por se concentrar no essencial: geografia, topografia e história. A Rússia é uma vasta potência terrestre sem acesso suficiente aos mares. A geografia, argumenta ele, condiciona os fundamentos de “políticas conservadoras definidas pela autocracia, um conceito ambíguo e complexo de nacionalismo e o papel duradouro da Igreja Ortodoxa” – algo que implica resistência ao “laicismo radical”.

É sempre crucial recordar que a Rússia não tem fronteiras naturais defensáveis; foi invadida ou ocupada por suecos, polacos, lituanos, pela Horda Dourada mongol, pelos tártaros da Crimeia e por Napoleão. Sem mencionar a imensamente sangrenta invasão nazi.

O que está numa palavra? Tudo: “segurança”, em russo, é byezopasnost. Acontece que isso é negativo, pois byez significa “sem” e opasnost significa “perigo”.

A complexa e única constituição histórica da Rússia sempre apresentou problemas sérios. Sim, havia estreita afinidade com o império bizantino. Mas se a Rússia “reivindicasse a transferência da autoridade imperial de Constantinopla, seria forçada a conquistá-la”. E reivindicar o sucessor, o papel e a herança da Horda de Ouro relegaria a Rússia ao status de apenas uma potência asiática.

Ao longo do caminho russo para a modernização, a invasão mongol provocou não só um cisma geográfico como imprimiu a sua marca na política: “A autocracia tornou-se uma necessidade após o legado mongol e o estabelecimento da Rússia como um império da Eurásia com uma vasta extensão geográfica mal conectada”. 


“Um colossal Leste-Oeste”

Na Rússia o Oriente encontra o Ocidente. Diesen recorda-nos como Nikolai Berdiaev, um dos principais conservadores do século XX, já acertava em cheio em 1947: “A inconsistência e a complexidade da alma russa pode ser devido ao facto de que na Rússia duas correntes da história do mundo – Leste e Oeste – tropeçam e influenciam-se uma à outra (…) A Rússia é uma secção completa do mundo – um colossal Leste-Oeste”.

A ferrovia Transiberiana, construída para solidificar a coesão interna do império russo e projetar poder na Ásia, foi uma grande viragem de jogo: “Com assentamentos agrícolas russos a expandirem-se para o leste, a Rússia estava a substituir cada vez mais as antigas estradas que anteriormente controlavam e conectavam a Eurásia”.

É fascinante observar como o desenvolvimento da economia russa terminou na teoria das Terras Centrais (Heartland) [2] de Mackinder – segundo a qual o controle do mundo exigia o controle do supercontinente euro-asiático. O que aterrorizava Mackinder é que ferrovias russas a conectarem a Eurásia minariam toda a estrutura de poder da Grã-Bretanha como um império marítimo.

Diesen também mostra como o eurasianismo – surgido na década de 1920 entre os émigrés em resposta a 1917 – foi de facto uma evolução do conservadorismo russo.

O eurasianismo, por uma série de razões, nunca se tornou um movimento político unificado. O núcleo do eurasianismo é a noção de que a Rússia não era um mero estado do Leste Europeu. Após a invasão mongol do século XIII e a conquista dos reinos de Tátaros no século XVI, a história e geografia da Rússia não poderia ser apenas europeia. O futuro exigiria uma abordagem mais equilibrada – e envolvimento com a Ásia.

Dostoievski já o havia enquadrado de maneira brilhante, antes de mais ninguém, em 1881:

Os russos são tão asiáticos quanto europeus. O erro da nossa política nos últimos dois séculos tem sido o de fazer os cidadãos europeus acreditarem que somos verdadeiros europeus. Servimos demasiado bem a Europa, participámos demasiado nas suas querelas internas (…) Curvámo-nos como escravos perante os europeus e só ganhámos o seu ódio e desprezo. É hora de nos afastarmos da ingrata Europa. Nosso futuro está na Ásia.

Lev Gumilev foi indiscutivelmente a estrela maior de uma nova geração de eurasianistas. Ele argumentou que a Rússia fora fundada numa coligação natural entre eslavos, mongóis e turcos. The Ancient Rus and the Great Steppe, publicado em 1989, teve um impacto imenso na Rússia após a queda da URSS – como aprendi em primeira-mão com meus anfitriões russos ao chegar a Moscou pelo Transiberiano no Inverno de 1992.

Segundo Diesen, Gumilev estava a apresentar uma espécie de terceira via, para além do nacionalismo europeu e do internacionalismo utópico. A Universidade Lev Gumilev foi fundada no Cazaquistão. Putin referiu-se a Gumilev como “o grande eurasiano de nosso tempo”.

Diesen recorda-nos que em George Kennan, em 1994, reconheceu a luta conservadora por “este país tragicamente ofendido e espiritualmente diminuído”. Putin, em 2005, era muito mais perspicaz. Ele enfatizou, o colapso da União Soviética foi a maior catástrofe geopolítica do século. E para o povo russo foi um verdadeiro drama (…) Os velhos ideais foram destruídos. Muitas instituições foram desmanteladas ou simplesmente reformadas às pressas com controle irrestrito sobre os fluxos de informação, grupos de oligarcas serviram exclusivamente aos seus próprios interesses corporativos. A pobreza em massa começou a ser aceite como a norma. Tudo isso evoluiu num cenário da mais severa recessão económica, finanças instáveis e paralisia na esfera social. 



Aplicando “democracia soberana”

E assim chegamos à crucial questão europeia.

Na década de 1990, liderada por atlantistas, a política externa russa concentrava-se na Grande Europa, um conceito baseado na Casa Comum Europeia de Gorbachev.

E, no entanto, a Europa pós-Guerra Fria, na prática, acabou por configurar-se como a expansão ininterrupta da OTAN e o nascimento – e expansão – da UE. Toda espécie de contorcionismos liberais foram implantados para incluir toda a Europa, mas excluindo a Rússia.

Diesen tem o mérito de resumir todo o processo numa única frase: “A nova Europa liberal representava uma continuidade anglo-americana nos termos das potências marítimas e do objetivo de Mackinder de organizar o relacionamento germano-russo num formato de soma zero para impedir o alinhamento de interesses”.

Não é de admirar que Putin, posteriormente, tivesse de ser erigido como o Espantalho Supremo, ou “o novo Hitler”. Putin rejeitou completamente o papel da Rússia de mero aprendiz da civilização ocidental – e o seu corolário, a hegemonia (neo)liberal.

Ainda assim, ele permaneceu bastante acomodatício. Em 2005, sublinhou Putin, “acima de tudo a Rússia foi, é e será, naturalmente, uma grande potência europeia”. O que ele pretendia era dissociar o liberalismo da política de poder – pela rejeição dos fundamentos da hegemonia liberal.

Putin estava a dizer que não existe um modelo democrático único. Isso acabou por ser conceitualizado como “democracia soberana”. A democracia não pode existir sem soberania; de modo que descarta a “supervisão” ocidental para fazê-la funcionar.

Diesen observa agudamente que se a URSS fosse um “eurasianismo de esquerda radical, algumas de suas características eurasianas poderiam ser transferidas para o eurasianismo conservador”. Diesen observa como Sergey Karaganov, por vezes mencionado como o “Kissinger russo”, mostrou “que a União Soviética foi fundamental para a descolonização e deu os meios para a ascensão da Ásia ao privar o Ocidente da capacidade de impor sua vontade ao mundo através da força militar, a qual o Ocidente impusera a partir desde o século XVI até a década de 1940”.

Isso é amplamente reconhecido em vastas extensões do Sul Global – desde a América Latina e África até o Sudeste Asiático. 


Península ocidental da Eurásia

Assim, após o fim da Guerra Fria e o fracasso da Grande Europa, o pivot de Moscovo para a Ásia para construir a Grande Eurásia não podia deixar de ter um ar de inevitabilidade histórica.

A lógica é impecável. Os dois centros geoeconomicos da Eurásia são a Europa e o Leste Asiático. Moscovo quer conectá-los economicamente dentro de um supercontinente: é onde a Grande Eurásia se junta ao Belt and Road Initiative (BRI) da China. Mas então há a dimensão extra-russa, como nota Diesen: a “transição da periferia usual desses centros de poder rumo ao centro de uma nova construção regional”.

De uma perspectiva conservadora, enfatiza Diesen, “a economia política da Grande Eurásia permite que a Rússia supere sua obsessão histórica com o Ocidente e estabeleça um caminho russo orgânico para a modernização”.

Isso implica o desenvolvimento de indústrias estratégicas; corredores de conectividade; instrumentos financeiros; projetos de infraestrutura para conectar a Rússia europeia com a Sibéria e a Rússia do Pacífico. Tudo isso sob um novo conceito: uma economia política industrializada e conservadora.

A parceria estratégica Rússia-China passa a ser ativa em todos esses três sectores geoeconomicos: indústrias estratégicas/ plataformas tecnológicas, corredores de conectividade e instrumentos financeiros.

Isso impulsiona a discussão, mais uma vez, para o imperativo categórico supremo: o confronto entre a Heartland e uma potência marítima.

As três grandes potências eurasianas, historicamente, eram os citas, os hunos e os mongóis. A razão chave para a sua fragmentação e decadência é que não foram capazes de alcançar – e controlar – as fronteiras marítimas da Eurásia.

A quarta grande potência eurasiana foi o império russo – e seu sucessor, a URSS. Uma razão chave para o colapso da URSS é que, mais uma vez, ela não foi capaz de alcançar – e controlar – as fronteiras marítimas da Eurásia.

Os EUA impediram-no ao aplicar uma combinação de Mackinder, Mahan e Spykman. A estratégia dos Estados Unidos até ficou conhecida como mecanismo de contenção Spykman-Kennan – todos estes “posicionamentos avançados” na periferia marítima da Eurásia, na Europa Ocidental, no Leste Asiático e no Médio Oriente.

Todos nós sabemos agora como a estratégia offshore geral dos EUA – bem como a principal razão para os EUA entrarem na Primeira e Segunda Guerras Mundiais – foi evitar por todos os meios necessários a emergência de uma hegemonia euro-asiática.

Quanto aos EUA como poder hegemónico, em 1997 isso foi brutalmente conceptualizado – com a característica arrogância imperial – pelo Dr. Zbig “Grande Tabuleiro de Xadrez” Brzezinski: “Para evitar conivência e manter a dependência de segurança entre os vassalos, manter os tributários flexíveis e protegidos, além de impedir que os bárbaros se juntem”. O bom e velho Divide e Impera, aplicado via “dominância do sistema”.

É esse sistema que está agora a desmoronar – para desespero dos suspeitos de sempre. Diesen nota como, “no passado, empurrar a Rússia para a Ásia relegaria a Rússia à obscuridade económica e eliminaria o seu status como potência europeia”. Mas agora, com o centro de gravidade geoeconômica a mudar para a China e o Leste Asiático, é um cenário totalmente novo.

A demonização da Rússia-China 24 horas por dia, 7 dias por semana, a par da mentalidade de “doentia” dos apaniguados da UE, só ajuda a impulsionar a Rússia cada vez para mais perto da China exatamente no momento crítico em que a dominação do mundo pelo ocidente que remonta há dois séculos está a chegar ao fim, como André Gunder Frank provou conclusivamente.

Diesen, talvez de modo muito diplomático, espera que “as relações entre a Rússia e o Ocidente no fim das contas também acabem por mudar com a ascensão da Eurásia. A estratégia hostil do Ocidente para com a Rússia está condicionada à ideia de que esta não tem para onde ir e que deve aceitar seja o que for que o Ocidente oferece em termos de “parceria”. A ascensão do Oriente altera fundamentalmente o relacionamento de Moscou com o Ocidente, permitindo à Rússia diversificar suas parcerias”.

Podemos estar a aproximar-nos rapidamente do ponto em que a Rússia da Grande Eurásia apresentará à Alemanha uma oferta do tipo pegar ou largar. Ou construímos a Heartland em conjunto ou a construiremos com a China – e vocês serão apenas um espectador histórico. É claro que sempre há a possibilidade remota de um eixo Berlim-Moscou-Pequim. Coisas mais estranhas já aconteceram.

Enquanto isso, Diesen está confiante em que “as potências terrestres da Eurásia acabarão por incorporar a Europa e outros estados da periferia interna da Eurásia. Lealdades políticas mudarão progressivamente à medida que os interesses economicos se voltem para o Leste – e a Europa está gradualmente a tornar-se a península ocidental da Grande Eurásia”.

Tema de meditação para os vendedores ambulantes peninsulares da “situação doentia”.


NT

[1] A Horda Dourada foi um canato mongol, posteriormente turquizado, estabelecido no século XIII. Com a fragmentação do Império Mongol após 1259 tornou-se um canato funcionalmente separado.

[2] ” The Geographical Pivot of History ” é o título de um artigo apresentado por Halford John Mackinder à Royal Geographical Society. Nele era avançada a Teoria das Terras Centrais (Heartland Theory) e Mackinder estendia o âmbito da análise geopolítica a todo o globo.

Pepe Escobar é jornalista. Muitos dos seus livros estão em Book Depository .

O original encontra-se no Asia Times e em:

www.unz.com/pescobar/why-russia-is-driving-the-west-crazy/

Via: desacato.info

 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

NOVA ORDEM MUNDIAL?




Os EUA experimentam uma virtual guerra civil política, opondo o presidente Donald Trump e um pequeno punhado de assessores ao núcleo duro do Establishment, um amálgama entre o “complexo de segurança nacional” e Wall Street, crescentemente ensimesmado e aferrado à perigosíssima ilusão de que poderá sustentar a sua agenda hegemônica a qualquer custo, mesmo com o risco de provocar um novo conflito global de grandes proporções.

Trump, um jogador pragmático e intuitivo, venceu as eleições de 2016 prometendo “secar o pântano” das tramoias de Washington e questionando a multitentacular presença militar dos EUA em quase todas as regiões do planeta, principalmente, quanto aos custos de tais aventuras. A despeito da sua obsessão com o acordo nuclear com o Irã (mais devida ao fato de ter sido assinado por seu detestado antecessor Barack Obama), prometeu um entendimento com a Rússia de Vladimir Putin e retirar o quanto antes as tropas estadunidenses da Síria de Bashar al-Assad.

Porém, em poucas semanas na Casa Branca, se deu conta de que os presidentes estadunidenses têm influência restrita na formulação da política externa do país. De fato, esta é alienada ao “complexo de segurança nacional” e o último que tentou contrariar a regra, John F. Kennedy (1961-63), não chegou a completar três anos de mandato. Para o complexo, os conflitos permanentes constituem um meio de vida permanente para justificar os colossais gastos com a rubrica “defesa”, que representam mais de metade dos gastos discricionários do orçamento federal.

É conhecido o relato de uma das primeiras reuniões de Trump com os seus assessores e chefes militares, na qual questionou por que os EUA mantinham tantas tropas no Afeganistão (após 16 anos de conflito) e na Coreia do Sul, e por que ainda tinham tropas na Síria. “Vocês caras querem que eu envie tropas a toda parte. Qual é a justificativa?” – perguntou, impaciente. Na ocasião, o secretário de Defesa, general James Mattis, respondeu que a presença estadunidense em tais lugares era necessária “para impedir que uma bomba detone na Times Square [em Nova York]… Infelizmente, senhor, o senhor não tem escolha. O senhor será um presidente de tempo de guerra”.

O resultado das eleições intermediárias de 6 de novembro, que deu o controle da Câmara dos Deputados ao Partido Democrata e deixou o Senado nas mãos dos republicanos, pode sinalizar uma influência ainda maior dos belicistas sobre Trump, uma vez que a Câmara Alta é a caixa de ressonância da política externa vinculada aos interesses do “complexo de segurança nacional”.

Não obstante, como Trump não é um integrante inato do Establishment e tem um interesse real em recuperar parte das capacidades produtivas do país perdidas para a “globalização”, como prometeu em sua campanha eleitoral, é possível que o seu embate com os “ensimesmados” amplie a janela de oportunidades externas para iniciativas tendentes a reforçar a construção da nova ordem cooperativa. Examinemos dois exemplos relevantes.

Nesse contexto, não é casual que os EUA sejam vistos como o maior obstáculo à emergência dessa ordem cooperativa e não hegemônica, baseada em um cenário multipolar de influência política e econômica, em substituição à “unipolaridade” militar e econômico-financeira desfrutada pela superpotência estadunidense desde o fim da Guerra Fria, há mais de um quarto de século.

Afinal, nenhum outro país detém tais prerrogativas: 1) mais de 800 bases militares em 80 países; 2) sete frotas que operam em todos os oceanos do mundo; 3) um orçamento de “segurança nacional” que supera os gastos de defesa combinados de todos os demais países do mundo; 4) um sistema de vigilância eletrônica capaz de interceptar mais de 80% de todas as comunicações eletrônicas feitas no planeta; 5) tem na força militar o seu instrumento favorecido de política externa; 6) detém o privilégio de emitir indiscriminadamente a moeda de reserva e referência internacional (dólar); 7) controla ou influencia de forma determinante as instituições multilaterais (Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional e Organização Mundial do Comércio) e o sistema financeiro internacional, que funcionam como a espinha dorsal da “hiperglobalização” (como a denomina a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento-UNCTAD).

Uma pesquisa realizada em 2017 pelo Pew Research Center de Washington, em 30 países, quase todos aliados dos EUA, 35% dos entrevistados consideraram o poder e a influência dos EUA como uma “grande ameaça” ao mundo, contra 31% que optaram pela Rússia e a China, os únicos outros países citados.

Uma pesquisa anterior, realizada em 2013 pelos institutos WIN e Gallup International, em 65 países, apresentou um resultado ainda mais contundente: 24% dos entrevistados apontaram espontaneamente os EUA como “a maior ameaça à paz mundial”, o único país que conseguiu um percentual de dois dígitos (para comparação, a China ficou com 6%; Irã e Coreia do Norte, 5%; e Rússia, 2%).

Assim, países antagonizados pelos EUA e até mesmo antigos aliados articulam-se em diversas instâncias, para criar alternativas ao empenho de Washington de preservar a sua hegemonia à custa dos interesses legítimos dos demais países. O principal exemplo é a emergência da Eurásia como o novo centro de gravidade geoeconômico do planeta, turbinado pela ativa cooperação estratégica e econômica entre a China e a Rússia, que vem sendo gradativamente estendida a outros países.

Dilemas da defesa da Europa


A Europa, tradicionalmente presa ao arranjo da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), lançou uma iniciativa de defesa coletiva que dificilmente teria ocorrido fora do contexto da “guerra civil” em Washington, mas que, todavia, não responde de forma concreta aos reais desafios de defesa do continente.

Em 7 de novembro, em Paris, ocorreu a primeira reunião da Iniciativa Europeia de Intervenção (EII, na sigla em inglês), coalizão de dez países europeus destinada ao estabelecimento de uma estrutura de defesa fora do marco da OTAN e, consequentemente, da influência dos EUA.

A iniciativa, oficialmente lançada em junho último, é encabeçada pela França e reúne o Reino Unido, Alemanha, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Finlândia, Estônia, Espanha e Portugal. A intenção é dispor de uma estrutura decisória enxuta (ao contrário da OTAN, que exige o consenso dos seus 29 membros), capaz de operar rapidamente em resposta a crises de natureza humanitária e militar, independentemente da OTAN e da própria União Europeia (UE).

Em entrevista à rádio Europa 1, o presidente francês Emmanuel Macron usou palavras surpreendentes para justificar a criação do que chamou “um real exército europeu”. Segundo ele: “Nós temos que nos proteger com respeito à China, Rússia e até mesmo os EUA. Quando eu vejo o presidente Trump anunciando que está abandonando um importante tratado de desarmamento que foi formado depois que a crise dos euromísseis da década de 1980 atingiu a Europa [referência ao Tratado de Mísseis Intermediários-INF], quem é a principal vítima? A Europa e a sua segurança. A Europa pode assegurar a sua própria proteção contra a Rússia e, até mesmo, um imprevisível presidente Donald Trump (Strategic Culture Foundation, 11/11/2018).”

A previsível resposta de Trump às declarações de Macron veio da forma habitual, via Twitter, em 9 de novembro, qualificando-as como “muito insultuosas” e repetindo a sua antiga litania de que, antes de pensar em um exército próprio, “a Europa deveria primeiro pagar a sua justa parcela na OTAN, que os EUA subsidiam grandemente”.

E nem o encontro pessoal com o presidente francês, dois dias depois, na celebração do centenário do final da I Guerra Mundial, em Paris, serviu para reduzir as salvas de tuítes. De volta a Washington, na segunda-feira 12, Trump afirmou que, na I Guerra Mundial, os franceses “estavam começando a aprender alemão em Paris, antes que os EUA chegassem”, em uma referência à chegada da força expedicionária estadunidense à Europa, em 1917, que acabou sendo o fator decisivo para a derrota alemã no conflito.

Por sua vez, de forma sintomática, o presidente russo Vladimir Putin, que também esteve em Paris, saudou a iniciativa europeia, considerando-a positiva para “reforçar o novo mundo multipolar”. Para ele, “a Europa é… uma poderosa união econômica e é apenas natural que queira ser independente e… soberana no campo da defesa e da segurança” (RT, 11/11/2018).

Escrevendo no sítio da Strategic Culture Foundation, o analista Alex Gorka fez uma avaliação otimista sobre a nova organização: “A formação da EII mostra quão profundas são as fraturas que dividem a OTAN e a UE em grupos que perseguem os seus próprios interesses. Essas grandes organizações parecem já ter visto dias melhores. Elas se tornaram muito grandes para ser realmente unidas e fortes… Pode ser que isto nunca seja dito oficialmente, mas as dez nações europeias desfecharam um forte golpe contra a OTAN encabeçada pelos EUA.”

Ademais, afirma, “as tensões e divisões entre a Europa e a Rússia não são para sempre e a EII e a Rússia não têm que ser adversárias, uma vendo a outra através de alças de mira. Afinal, elas enfrentam ameaças de segurança comuns. Cedo ou tarde, a cooperação no campo da segurança estará de volta à agenda”.

Precisamente, as tensões com a Rússia, materializadas de forma clara nas sanções aplicadas a Moscou nos últimos anos, por pretextos que vão desde a retomada da Crimeia ao mal explicado envenenamento do ex-agente de inteligência russo Sergei Skripal e sua filha, no Reino Unido, constituem um dos focos centrais da agenda de segurança europeia, nem de longe contemplado pela formação da EII.

O mesmo argumento vale para o outro problema crucial, a imigração islâmica motivada pelas guerras de destruição implementadas pelas potências da OTAN no Oriente Médio, nas quais os europeus seguiram levianamente a liderança estadunidense e, agora, pagam caro pelas consequências. Aqui, também, é fundamental um entendimento com a Rússia, que, a partir da sua intervenção militar no conflito na Síria, tornou-se o fiel da balança da estabilidade de toda a região. De certa maneira, isso começa a ser admitido, como se mostrou com a recente reunião de cúpula de Macron e sua colega alemã Angela Merkel, em Istambul, com Putin e o turco Recep Erdogan, para discutir a questão síria – emblematicamente, sem a presença de qualquer representante dos EUA.

Em essência, qualquer acordo defensivo na Europa não pode esquivar-se a contemplar os interesses comuns entre o bloco europeu e a Rússia, uma potência cristã que, afinal, também faz parte do continente e faz a sua “ponte terrestre” com a Ásia – condição que os teóricos da geopolítica, de Mackinder a Brzezinski, sempre colocaram na mira das suas maquinações hegemônicas, como pré-condições para a manutenção da hegemonia anglo-americana.

Ásia: audazes movimentos do Japão


Na Ásia, onde a construção da nova ordem cooperativa está mais avançada, impulsionada pela cooperação China-Rússia, o Japão, aliado tradicional dos EUA no pós-guerra, também está se movimentando com insólita independência.

Na última semana de outubro, o primeiro-ministro Shinzo Abe protagonizou uma importante visita de Estado a Pequim, a primeira de um governante japonês em sete anos, acompanhado por uma enorme delegação de quase mil empresários. Das conversas com o presidente Xi Jinping e o premier Li Keqiang, resultaram as seguintes iniciativas: 1) negócios da ordem de 18 bilhões de dólares; 2) um acordo de trocas de moedas no valor de 29 bilhões de dólares, para casos emergenciais de crises; 3) a inclusão do renminbi chinês nas reservas cambiais do Japão; 4) investimentos diretos do Banco do Japão em títulos do governo chinês; 5) a criação de uma linha de comunicação direta (hotline) para eventuais casos futuros de tensões, como as que envolvem as reivindicações chinesas de soberania sobre áreas do Mar do Sul da China.

Igualmente, o governo chinês convidou formalmente o Japão a participar da Iniciativa Cinturão e Rota, o núcleo da agenda de integração eurasiática, que tem sido criticada por países como a Malásia e o Paquistão, este um tradicional aliado da China. Com a participação japonesa, Pequim pretende operar um proveitoso “upgrade” em todo o empreendimento.

Porém, mais significativo do que quaisquer negócios ou acordos do gênero foi o fato de Abe ter transmitido a Xi Jinping a intenção do imperador Akihito de visitar a China antes da sua renúncia, em abril de 2019, para pedir formalmente desculpas pela invasão japonesa ao país, entre 1937 e 1945. Se a visita se confirmar, será um gesto do maior simbolismo para ajudar a reduzir as tensões históricas entre as duas potências asiáticas, cujas recordações daquele acidentado passado têm ressurgido com certa frequência e influenciado negativamente as relações bilaterais, três gerações após o término do conflito. O gesto será ainda mais relevante no âmbito da situação dos dois países em relação aos EUA: a China, oficialmente apontada como potência rival, e o Japão, tradicional aliado em todo o pós-guerra.

Essencialmente, os dois países estabeleceram uma relação de “cooperação, em vez de competição”, expressão usada em ambas as capitais.

Após a visita a Pequim, Abe reuniu-se em Tóquio com o premier indiano Narendra Modi, com que acertou um diálogo regular no âmbito das respectivas chancelarias e ministérios de defesa, além da cooperação em projetos de infraestrutura em Bangladesh, Myanmar e Sri Lanka, e um acordo de trocas de moedas semelhante ao estabelecido com a China, no valor de 75 bilhões de dólares.

E o outro objeto de uma crescente aproximação do Japão é a Rússia, onde Tóquio pretende participar do desenvolvimento econômico da vastíssima região do Extremo Oriente, em projetos de infraestrutura e energia.

Fonte do Texto: https://msiainforma.org/ensimesmamento-estadunidense-abre-espaco-para-ordem-global-cooperativa/

Via: Jeferson Miola

Fonte da Imagem: https://medium.com/@karelovs/a-global-war-seems-unavoidable-10b8b8531d85

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

COMO SÃO FEITAS AS LEIS

 

Setor imobiliário comemora Papai Noel antecipado

Por Paulo Müzell

A “bancada do concreto” da Câmara de Vereadores de Porto Alegre aprovou nova alteração no plano diretor da cidade. Como sempre, ao “apagar das luzes”, em meados de dezembro que é quando, invariavelmente, as votações se acumulam. “A toque de caixa”, dezenas e dezenas de projetos são sumariamente apreciados. Coincidentemente, os mais importantes do ano. Época oportuna, momento adequado já que o porto-alegrense está ligado no 13º, nas compras de natal e nas férias de verão.

O vereador Reginaldo Pujol (DEM) elaborou um projeto de lei alterando o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano e Ambiental, lei complementar 434/99. Projeto sumário, de apenas três artigos que eleva índices de aproveitamento, densidades, volumetrias em faixas de 120 metros dos dois lados da terceira perimetral e do traçado do futuro metrô da capital. Devido ao grande atraso na implantação do metrô – que sequer tem concluído o projeto final e nem assegurados os recursos –, foram aprovadas emendas que passaram as faixas da linha do metrô para os trajetos dos eixos sul e leste da cidade – avenidas João Pessoa, Bento Gonçalves, Protásio Alves e Padre Cacique -, onde funcionará o do BRT, o “Bus Rapid Transit”. Aconteceu aí a troca do seis pela meia dúzia. Se o metrô não tem data para começar e certamente não estará em funcionamento antes dos próximos dez anos, o projeto do BRT também caminha a passos de tartaruga. Anunciado há mais de cinco anos tem suas pistas inconclusas, com obras muito atrasadas. As seis estações de transbordo não começaram a ser construídas; os equipamentos e veículos não têm data de aquisição prevista e, muito menos, de início de operação. Os dados constantes nos dois últimos orçamentos da Prefeitura e no Sistema de Despesa Orçamentária (SDO) da Secretaria da Fazenda comprovam o enorme atraso. Em 2014 a previsão era investir 74,8 milhões e só foram aplicados 6,7 milhões. Este ano a previsão foi mais modesta: orçados 13,3 milhões, aplicados apenas 4,9 milhões. No último biênio, dos 88 milhões que deveriam ser investidos no projeto foram gastos menos de 12 milhões (13%).

A óbvia pergunta é: se o BRT não tem data para entrar em funcionamento, o que certamente não ocorrerá antes de quatro ou cinco anos, porque aprovar hoje lei aumentando os índices construtivos?

Foi aprovado nas faixas o índice de aproveitamento máximo (3,0) e o parágrafo único do artigo 2 possibilita a compra da diferença entre o índice de aproveitamento do terreno e o índice máximo “sob a forma de Solo Criado, de forma direta, sem licitação”, o que configura flagrante ilicitude.

Considerando a extensão da terceira perimetral e dos eixos do BRT, a lei amplia até o máximo o potencial construtivo de cerca de 1.000 hectares de área urbana de ocupação intensiva da cidade. O absurdo é que a lei foi aprovada sem que a recentemente criada Secretaria de Urbanismo (SMURB), que substituiu a Secretaria do Planejamento Municipal (SPM) apresentasse os estudos de impacto urbano e ambiental. Um vereador apresentar e aprovar uma lei desta importância sem o aval do órgão do Executivo Municipal é um verdadeiro atestado de omissão da SMURB. Um atestado de óbito, na verdade.

Presentes na sessão no momento da votação 34 vereadores. Destes, oito se abstiveram, o que já é fato preocupante, dada a importância da matéria. Dos 26 votantes, 23 registraram “sim” e apenas três “não”: Sofia Cavedon (PT), Marcelo Sgarbossa (PT) e Alex Fraga (PSOL). A bancada do PT mais uma vez ficou dividida: dois “sim”, dois não”, uma abstenção.

O projeto se encontra na Diretoria Legislativa da Câmara para elaboração da redação final. Finda esta etapa será encaminhado ao Prefeito José Fortunati, sempre muito “simpático e receptivo” às propostas e interesses do “empreendedorismo imobiliário” da cidade. Certamente ele nem vai precisar dos 15 dias – prazo que lhe assegura a Lei Orgânica -, para sancionar e publicar a nova lei.

.oOo.

Paulo Muzell é economista.


segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

10 Estratégias de Manipulação em Massa utilizadas diariamente contra Você

 

1. A estratégia da Distração

O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio, ou inundação de contínuas distrações e de informações insignificantes.

A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir o público de interessar-se por conhecimentos essenciais, nas áreas da ciência, economia, psicologia, neurobiologia e cibernética.

Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado, sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja como os outros animais

 

2. Criar problemas e depois oferecer soluções

Este método também é chamado “problema-reação-solução“. Se cria um problema, uma “situação” prevista para causar certa reação no público, a fim de que este seja o mandante das medidas que se deseja aceitar.

Por exemplo: Deixar que se desenvolva ou que se intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o mandante de leis de segurança e políticas desfavoráveis à liberdade.

Ou também: Criar uma crise econômica para fazer aceitar como um mal necessário o retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços públicos. (qualquer semelhança com a atual situação do Brasil não é mera coincidência).

Este post PORQUE A GRANDE MÍDIA ESCONDE DE VOCÊ AS NOTÍCIAS BOAS? retrata bem porque focar nos problemas é interessante para grande mídia.

 

3. A estratégia da gradualidade

Para fazer que se aceite uma medida inaceitável, basta aplicá-la gradualmente, a conta-gotas, por anos consecutivos. Foi dessa maneira que condições socioeconômicas radicalmente novas, neoliberalismo por exemplo, foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990. Estratégia também utilizada por Hitler  E comumente utilizada pelas grandes meios de comunicação.

 

4. A estratégia de diferir

Outra maneira de se fazer aceitar uma decisão impopular é a de apresentá-la como “dolorosa e necessária“, obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura.

É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrifício imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente.

Depois, porque o público, a massa, tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que “amanhã tudo irá melhorar” e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isto dá mais tempo ao público para acostumar-se à ideia da mudança e aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

 

5. Dirigir-se ao público como crianças

A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discurso, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade, como se o espectador fosse uma criança de pouca idade ou um deficiente mental.

Quanto mais se tenta enganar ao espectador, mais se tende a adotar um tom infantilizante. Por quê? “Se alguém se dirige a uma pessoa como se ela tivesse a idade de 12 anos ou menos, então, em razão da sugestionabilidade, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como as de uma pessoa de 12 anos ou menos de idade.”

 

6. Utilizar o aspecto emocional muito mais do que a reflexão

Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional, e finalmente no sentido crítico dos indivíduos.

Por outro lado, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de acesso ao inconsciente para implantar ou injetar ideias, desejos, medos e temores, compulsões ou induzir comportamentos.

 

7. Manter o público na ignorância e na mediocridade

Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão.

“A qualidade da educação dada às classes sociais inferiores deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que paira entre as classes inferiores e as classes sociais superiores seja e permaneça impossível de ser revertida por estas classes mais baixas.

 

8. Estimular o público a ser complacente com a mediocridade

Promover ao público a crer que é moda o ato de ser estúpido, vulgar e inculto.

 

9. Reforçar a auto-culpabilidade

Fazer com que o indivíduo acredite que somente ele é culpado pela sua própria desgraça, por causa da insuficiência de sua inteligência, suas capacidades, ou de seus esforços.

Assim, no lugar de se rebelar contra o sistema econômico, o indivíduo se auto desvaloriza e se culpa, o que gera um estado depressivo, cujo um dos efeitos é a inibição de sua ação. E, sem ação, não há questionamento!

 

10. Conhecer aos indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem

No transcurso dos últimos 50 anos, os avanços acelerados da ciência têm gerado uma crescente brecha entre os conhecimentos do público e aqueles possuídos e utilizados pelas elites dominantes.
Graças à biologia, a neurobiologia a psicologia aplicada, o “sistema” tem desfrutado de um conhecimento avançado sobre a psique do ser humano, tanto em sua forma física como psicologicamente.
O sistema tem conseguido conhecer melhor o indivíduo comum do que ele conhece a si mesmo. Isto significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos, maior que o dos indivíduos sobre si mesmos.




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segunda-feira, 2 de março de 2015

8 razões pelas quais o preço do petróleo está voltando a subir






Apesar da conspiração entre árabes e americanos para baratear o petróleo e pressionar economicamente a Rússia, Irã e Venezuela, os preços voltam a subir.


Nazanín Armanian *



Se ainda alguém não sabe, a Aramco – a empresa de petróleo da Arábia Saudita, e também a maior do mundo –, até bem pouco tempo, em 1977, se chamava Arabian American Oil Co., sendo de propriedade comum entre a família saudita e várias empresas da Califórnia e do Texas. Por isso, não se pode ficar surpreso se a dupla Washington-Riad tiver algo a ver com a queda brusca dos preços de 115 dólares o barril para 45 dólares entre junho e dezembro passados, levando em conta que o mercado de petróleo não é “livre”: ele é controlado por um cartel chamado OPEP e por grandes empresas petrolíferas ocidentais. E mais, o combustível gorduroso e malcheiroso, antes de tudo, é uma arma que nesse caso foi apontada contra a Rússia, o Irã e a Venezuela com a finalidade de conseguir mudanças em suas políticas via afundamento de suas economias, e ainda resgatar um falecido petrodólar – um dos pilares da hegemonia mundial dos EUA.

No entanto, a festa durou pouco e os promotores da “conspiração Aramco” se deram conta de que os prejuízos dessa queda de preços são maiores do que seus benefícios político-econômicos. Por isso, o preço de venda do petróleo para o mês de março teve uma notável melhora nos três mercados de Brent, dos EUA e da OPEN, oscilando por volta de 59 dólares o barril.

Aqui vão alguns motivos:

1. Os membros dos Brics, com exceção da Rússia, foram os principais agraciados pela compra de um petróleo barato.

a) China, o principal rival dos EUA e o segundo consumidor mundial de petróleo, bateu seu recorde de importações de petróleo, apesar de seu crescimento econômico ter sido o mais frouxo desde 1990 (mas registrou, no primeiro trimestre de 2014, um crescimento de 7,2%): começou a comprar 6,2 milhões de barris por dia, e acabou o mês de dezembro com 7,2 milhões de barris por dia, injetando-os em sua Reserva Estratégica de Petróleo (o armazenamento ocorre para afrontar as emergências, como a interrupção do abastecimento). Com isso, a China não só deixou os EUA nervosos, mas contribuiu para empurrar os preços para o alto, por dois outros fatores: tirar boa parte do excedente de petróleo que nadava no mercado e gerar incerteza sobre seu passo seguinte no mercado.

b) Beneficiou o Brasil, a principal potência rival dos EUA na América, e que agora está decidida a recuperar sua influência no seu “quintal”, e a África do Sul, o principal competidor de Washington na África. Os Brics decidiram abandonar o dólar em suas transações e criaram um banco com a finalidade de debilitar as instituições financeiras ocidentais.

2. Não conseguir mudar a postura de Moscou nos casos da Ucrânia, Crimeia e Síria. Pois se os setores belicistas ocidentais desferiram o primeiro ataque à Rússia, provocando um golpe de Estado na Ucrânia, levando à surpresa da integração da Crimeia à Federação Russa, eles pensaram que uma drástica queda nos preços do petróleo – triturando o rublo e a economia russa – fosse provocar a rendição do Kremlin. Estratégia ruim, já que o golpe à economia do país eslavo, assim como a dramática guerra da Ucrânia, deixou cerca de 6 mil mortos e milhões de desabrigados, e teve um efeito negativo sobre os países europeus aliados de Washington, que enfrentam uma ameaça de recessão: estão perdendo o mercado russo e também os investimentos, tanto dos magnatas russos como de seu Estado. Na Espanha, por exemplo, os milionários russos estavam comprando prédios inteiros herdados da era da especulação mobiliária. Além disso, é incompreensível que não previssem uma aproximação Moscou-Pequim (sem precedentes após a morte de Stalin) e Moscou-Teerã: os presidentes Vladimir Putin e Hassan Rouhani, que compartilham o sofrimento pelas sanções impostas pelos EUA e seus sócios, assim como pela “Conspiração Aramco”, tiveram quatro encontros em um ano, algo também sem precedentes na história dos dois vizinhos.

3. Quanto ao Irã, não conseguiram pressioná-lo para conseguir mais vantagem nas negociações nucleares em curso e subtrair suas forças na região porque:

a) Teerã não deixou de apoiar o governo de Bashar al-Assad (a Síria representa a profundidade estratégica do Irã enquanto ele está no poder), e inclusive já fala abertamente dos generais iranianos que trabalham em solo sírio;

b) nem aceitou o fechamento total de seu programa nuclear, e isso apesar de John Kerry ter lançado um ultimato a Teerã para assinar um acordo político global até o final de março – se não, não retomariam as negociações. O certo é que a administração Obama está muito consciente da luta pelo poder no seio da República Islâmica entre os setores militares – contrários a um acordo com os EUA – e o governo do presidente Rouhani, que tenta, por um lado, driblar as sanções que estão afogando a economia iraniana e, por outro, evitar um confronto bélico (tentou baixar a tensão depois que o míssil israelense matou um general iraniano na Síria, no último dia 20 de janeiro). Se Obama pretende impedir um Irã nuclear, um petróleo com preços no chão, aumentará a tensão social em um Irã monoprodutor e fortalecerá a posição dos céticos e dos setores que querem guerra (assim como EUA e Israel). As medidas de Rouhani diante da manobra da Aramco foram incentivar a exportação dos produtos não petrolíferos, investir no turismo, aumentar os impostos, manter os subsídios aos principais produtos de consumo e a ajuda às famílias desfavorecidas, além de uma política externa agressiva na região com um ramo de oliveira nas mãos – que inclui sobretudo os países árabes “inimigos” e membros da OPEP, como Kuwait ou Catar.

4. A perda de centenas de milhões de dólares por parte das grandes empresas petrolíferas ocidentais, como as que operam no Iraque, Líbia, Nigéria, entre outros.

5. O déficit orçamentário gerado pela queda do preço do petróleo criou dificuldades para os xeiques sauditas, em pelo menos estes três cenários:

a) No interior do país: seus orçamentos foram elaborados com base no barril de 72 dólares, e agora se enfrenta um aumento importante dos preços dos produtos básicos. Além disso, previu-se, desde a repressão da primavera de 2011, realizar uma série de projetos que melhorariam a vida dos cidadãos – como a construção de moradias, a criação de postos de trabalho, ou a chegada de água e luz a milhões de pessoas que vivem na pobreza absoluta – e que agora estão paralisados.

b) No Egito: a promessa feita em 2011 aos militares encabeçados pelo general Al-Sisi de receber 160 bilhões de dólares anuais acabam com a Irmandade Muçulmana do presidente Mohammed Mursi, preso após o golpe de Estado. O que acontecerá no Egito, seu grande aliado contra Irã, se não cumprir?

c) No Iraque e na Síria: dificuldade para pagar os honorários de milhares de jihadistas do Estado Islâmico e grupos parecidos, cuja missão é acabar com os governos de Damasco e de Bagdá, ambos próximos a Teerã, e arrastar o Irã para uma guerra regional sectária. Desde 2011 até hoje, investiu bilhões de dólares nesses terroristas, com um êxito parcial: destruiu o Estado sírio, mas ainda não conseguiu levantar um novo e afim.

6. Nos EUA, dois fatos contribuíram para o aumento dos preços do barril:

a) Os cortes nos investimentos de capital por parte das multinacionais na extração do petróleo de xisto como resposta à queda dos preços. Pois cada barril lhes está custando entre 70 e 80 dólares (diante dos 15-20 dólares no Oriente Médio) e um petróleo por menos desse preço, obviamente, não é rentável. Com isso, nos EUA e no Canadá, cerca de 90 plataformas de exploração fecharam. BP perdeu bilhões de dólares em todo o mundo e planeja reduzir suas atividades de exploração à metade e os investimentos até 20%. A Chevron está em situação parecida.

b) A greve de cerca de 4 mil trabalhadores das empresas Royal Dutch Shell Oil e BP em nove refinarias em Ohio, Califórnia, Kentucky, Texas e Washington, iniciada em 1° de fevereiro. Exigem um convênio coletivo para o setor, a redução do número de trabalhadores não sindicalizados e melhorias nas condições de segurança e saúde, em uma greve que é a primeira dessa envergadura há várias décadas.

7. O aumento da tensão na Líbia e a perda de 800 mil barris em um incêndio.

8. O perigo de instabilidade social em países aliados aos EUA, como Iraque (incluindo seu Curdistão) ou Nigéria, pela queda dos petropreços.

O único e grande triunfo dos EUA e da Arábia Saudita nessa história até o momento foi transformar a OPEP em espectro do que foi entre 1960 e 1990, e não apenas porque sua cota de mercado caiu de 62% para os 30% de hoje, mas porque a Arábia, o Kuwait e os Emirados Árabes Unidos fizeram uma frente contra pesos pesados da organização, tais como Irã, Iraque, Argélia, Venezuela e Equador.

Os preços do petróleo tocaram fundo. É perfeitamente lógico que o “Naft” (seu nome em persa, e do qual vêm palavras como “naftalina”) não apenas recupere seu preço – que hoje é mais barato do que uma garrafa de bom vinho –, mas também seu valor: é o resultado de milhões de anos do esforço “não renovável” da natureza.

Profesora de Relaciones Internacionales en la UNED, Licenciada en Ciencias Políticas y doctora en Filosofía, he trabajado en la UNED como tutora de Ciencias políticas, y  desde el  2008 estoy impartiendo clases  en los cursos on-line de la Universidad de Barcelona.