sexta-feira, 19 de junho de 2009

Opinião: O apoio externo aos manifestantes iranianos apenas os prejudica

Vista de Teerã, capital do Irã:

Nota do BLOG: O artigo abaixo é da Deutsche Welle, agência oficial(osa) alemã, portanto reflete, em determinada medida, o posicionamento do governo alemão. Interessante perceber as divergências entre as "grandes potências" a respeito dos acontecimentos recentes no Irã.

Suspeitas de fraude na eleição presidencial iranianas levam milhares de pessoas às ruas em protesto contra o chefe de governo reeleito. O apoio explícito aos manifestantes é um erro de cálculo, opina Peter Philipp.

Em comparação com certos políticos europeus, o presidente norte-americano, Barack Obama, parece ter mais sensibilidade. Ao menos ele não se dispôs até agora – diante dos últimos acontecimentos no Irã – a tomar partido dos manifestantes, evitando assim acirrar ainda mais o conflito.

E ao se justificar com a constatação de que tanto o presidente Ahmadinejad como seu concorrente Mousavi, derrotado nas eleições, mostram animosidade contra os EUA, não devem pairar dúvidas sobre qual dos dois ele preferiria ver no comando do governo iraniano. Só que são duas coisas bem diferentes querer algo e fazer algo – neste caso apoiar publicamente os adeptos de Mousavi.

Ao mesmo tempo, os políticos europeus se apressam em dizer aos governantes iranianos o que eles devem fazer ou deixar de fazer. Apelos pela suspensão das restrições impostas à mídia iraniana e estrangeira e pelo respeito aos direitos humanos ainda são bem-vindos, mas exigir novas eleições ou mesmo a correção da apuração significa adotar os argumentos dos adeptos de Mousavi sem ter qualquer prova de que eles são verdadeiros.

A situação se torna especialmente crítica quando se começa, como agora, a apelar por sanções contra o Irã – como se represálias tivessem alguma vez surtido algum efeito no mundo, como se até agora Teerã tivesse amansado por causa das sanções a seu programa nuclear. Na atual situação, sanções provocariam justamente o contrário do que se quer atingir.

É claro que, na Europa e na Alemanha, os corações batem mais forte pelos iranianos esperançosos de uma mudança e agora frustrados com a vitória eleitoral de seu candidato favorito. Mas um apoio demasiadamente explícito deixa essas pessoas em dificuldades ainda maiores, pois elas já são acusadas pelo regime de serem marionetes do exterior e estarem a serviço de "poderes sombrios". E Ahmadinejad sabe perfeitamente vender a imagem de quem está disposto a combater tais poderes.

Os manifestantes iranianos não saem às ruas por causa de algum mandante estrangeiro. Eles reivindicam seus direitos e exigem mais liberdade, algo que impressiona os iranianos que inicialmente preferiram se manter à parte.

E por mais que muitas dessas pessoas possivelmente sonhem com uma forma de vida ocidental, uma coisa é certa: elas rejeitam qualquer intromissão estrangeira. Nada mais equivocado, portanto, do que ameaçar justamente isso neste momento.

Além de os europeus não disporem de meios para pressionar Teerã, eles ficaram do lado de George W. Bush no conflito em torno do programa nuclear. Mas não perceberam que Washington mantém há 30 anos sanções contra o Irã, enquanto a Alemanha – por exemplo – só fez prejudicar sua própria economia com isso, sem conseguir absolutamente nada em Teerã.

E o que também parece ter passado completamente despercebido foi a mudança de poder e de rumo nos EUA. Pelo menos no tocante ao Irã.

Autor: Peter Philipp
Revisão: Alexandre Schossler

Policiais israelenses exibem na internet vídeo de abuso a palestino


Jerusalém, 19 jun (EFE).- Policiais israelenses exibiram um vídeo no YouTube no qual mostram imagens de vários de seus companheiros abusando de e humilhando um jovem palestino, a quem obrigam a repetir insistentemente a frase "Eu amo a Polícia de Fronteiras".

A existência do vídeo, de 44 segundos e colocado no portal há cerca de um ano, vazou hoje em uma informação do jornal "Haaretz" sobre o fenômeno de agentes desse corpo de segurança israelense que gravam imagens de humilhações a palestinos para depois compartilhá-las.

Os agentes também falam repetidamente que se dê tapas cada vez mais fortes no palestino, até que aos 40 segundos permitem que ele siga seu caminho.

O jornal denuncia que se trata de um fenômeno preocupante entre os membros da Polícia de Fronteiras, uma corporação que atua nas zonas fronteiriças e integrado majoritariamente por jovens marginalizados.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

¿Un mundo tripolar?


Por Juan Gelman, para Página/12

Sí que pasan cosas en el mundo. La revuelta juvenil en Irán que cuestiona la reelección del presidente Ahmadinejad; la propuesta inviable del primer ministro israelí que, quizá por primera vez, dice “Estado palestino”; las sanciones de la ONU a Corea del Norte por sus ensayos nucleares y otros estrépitos asordinan los movimientos destinados a crear polos de poder económico alternativos al de EE.UU. Por ejemplo, las dos reuniones que tuvieron lugar esta semana al pie de los Urales en Ekaterimburgo. Se llamó Sverdlosk bajo el régimen soviético y no es cualquier ciudad: allí fueron fusilados el zar y su familia en una fría madrugada de julio de 1918 y allí cayó abatido en mayo de 1960 el U2 espía que piloteaba Gary Powers. Hoy la historia es otra.

Los líderes de los seis países que integran la Organización de Cooperación de Shanghai (OCS) –China, Rusia, Uzbekistán, Kirguistán, Tadjikistán y Kazajstán– examinaron las posibilidades de mutuo intercambio al margen de la esfera estadounidense. El martes 16, el anfitrión, Dimitri Medvedev, inauguró el encuentro –al que asistieron Irán, India, Pakistán y Mongolia en calidad de observadores– y urgió a la Organización a emplear las respectivas monedas nacionales en los pagos recíprocos del comercio intra-OCS y tal vez una divisa supranacional en el futuro. Dólares no.

El presidente Medvedev lo dejó neto en sus declaraciones en la conferencia de abril del G-20 y en el Foro Económico Internacional del 5 de junio último: calificó de artificial el sistema unipolar, basado en “un gran centro de consumo financiado por un déficit cada vez mayor y por deudas cada vez mayores, sin las reservas de divisas que antes poseía y con un régimen dominante de evaluación de bienes y riesgos” (Johnson’s Russia List, 8-6-09). Dicho de otra manera: Rusia no quiere seguir subsidiando el presupuesto estadounidense que, entre otras cosas, alimenta el cerco militar de Eurasia, las guerras en Medio Oriente y un escudo antimisiles a dos pasos de Moscú.

El nudo de la cuestión para la OCS es la capacidad de EE.UU. de imprimir cantidades ilimitadas de dólares que pagan sus importaciones, compran empresas y bienes inmuebles en otros países, mantienen más de 750 bases militares en todo el planeta y terminan en los bancos centrales extranjeros creándoles una disyuntiva de hierro: o subordinación al dólar de la moneda nacional, con las consecuencias por todos conocidas, o “reinversión” en bonos del Tesoro de EE.UU. de bajo interés. Hay cuatro millones de millones de estos bonos entre las reservas de divisas de bancos centrales de todo el mundo. El contribuyente norteamericano no es, desde hace décadas, quien financia al Pentágono y amengua una buena parte del déficit presupuestario de EE.UU. sino las obligadas inversiones foráneas en bonos del Tesoro.

Los países de la OCS desean utilizar sus monedas nacionales –así se beneficiarían de los créditos mutuos– y aplicar el método con otras naciones. China pactó acuerdos comerciales con Brasil y Malasia en yuanes renminbi (Wall Street Journal, 6-09). Zhou Xiaochuan, gobernador del Banco Popular de China, declaró oficialmente que su cometido es crear una reserva de divisas “independiente de cualquier nación individual” (Financial Times, 19-5-09). EE.UU. es el mayor deudor del concierto internacional, pero no parece dispuesto a autoimponerse las reglas de austeridad que el FMI propina a los demás.

El mismo martes 16 nació el BRIC, acrónimo de Brasil, Rusia, India y China, y también en Ekaterimburgo, donde mantuvo su primera reunión. Tal vez sea el único bloque multilateral inventado por un analista de inversiones bancarias, Jim O’Neill, de Goldman Sachs, que en 2001 creó la sigla y explicó que esos cuatro países dominarán la economía mundial en el próximo medio siglo. La declaración final que éstos emitieron dice textualmente: “Creemos muy necesario tener un sistema de divisas estable, de fácil pronóstico y más diversificado” (Wall Street Journal, 16-6-09). Igualito que la OCS y una nueva presión contra el dólar.

El crecimiento económico de los integrantes de BRIC es evidente. En una década duplicaron su participación en el producto mundial: pasó de 7,5 por ciento en los ’90 a más del 15 por ciento en 2008 (Financial Times, 15-6-09). Se acentúa el contraste entre la declinación de las economías superdesarrolladas del G-7 y la emergente de grandes países latinoamericanos y euroasiáticos. Los perfiles de la deuda pública de los unos y los otros así lo muestran: la de EE.UU. asciende al 80 por ciento del PBI, la de Italia a más del 100 por ciento, la de Japón al 199. Del otro lado de la mesa se encuentran, entre otros, Brasil, 45 por ciento, Indonesia 34, Corea del Sur 28, China 18 y Rusia apenas 6 (Global Research, 10-6-09). ¿El monoimperio tendrá entonces que achicarse?

Jorge Furtado e o caso Ford-RBS (IV)


RS URGENTE:
Em maio de 1999, Jorge Furtado publicou um artigo na revista Não (n° 62), intitulado “A Voz do Dono. Fabricando o consenso: o caso Ford-RBS”. O texto trata da campanha midiática promovida pela RBS contra o governo Olívio Dutra em torno do caso Ford e analisa, em particular, uma curiosa pesquisa encomendada pelo grupo. Furtado escreve:

“Não tem precedentes a campanha movida pela RBS para que o governo do estado entregue o máximo de dinheiro público possível para a Ford. Há uma guerra na Europa, duas CPIs no senado, banqueiros e juizes apanhados saqueando cofres públicos e a Zero Hora, nos primeiros quinze dias de abril, deu dez manchetes de capa sobre o assunto, todas com o mesmo sentido: enfraquecer o governo do estado do Rio Grande do Sul na queda de braço com a Ford pela instalação da fábrica no estado”.

“Por incrível que pareça, a RBS e a oposição estão se revelando mais capitalistas que a Ford. Todos os dias, nos vários programas das várias rádios e tevês da rede, Buzzato, Proença e companhia esbravejam que os contratos são inegociáveis, que se não dermos tudo que prometemos para a Ford eles irão embora correndo para Santa Catarina ou para a Bahia e nós voltaremos para a pré-história. Só que a própria Ford admitiu que aceita renegociar os contratos. Claro que só ficou sabendo disso (”Ford admite renegociar contratos”) quem leu o Correio do Povo. A Ford admite receber menos do que estava no contrato, mas a RBS e a oposição não querem deixar o governo do estado economizar o nosso dinheiro”.

“O novo lance da fabricação do consenso foi a pesquisa que virou manchete no dia 16 de abril, em ZH: 69,3% APÓIAM CUMPRIMENTO DE CONTRATOS COM GM E FORD. A pesquisa, mal feita pela Universidade Federal e bem paga pela RBS, foi realizada nos dias 8 e 9 de abril. Que tal, para começar, dar uma olhada nas capas de Zero Hora naqueles dias? Dia 8: GM ameaça adiar produção e Ford dá prazo ao governo. Dia 9: Ford diz que tem outras opções para instalar fábrica. Agora vamos ver as perguntas da pesquisa”. (Siga lendo o artigo aqui e aproveite para descobrir outros textos sobre o caso também publicados pela Não. Entre outros, há um ótimo de Luís Fernando Veríssimo, publicao na revista Bundas.)

As mensagens tóxicas de Wall Street


Um dos legados desta crise será uma batalha de alcance global em torno de idéias. Ou melhor, em torno de que tipo de sistema econômico será capaz de trazer o máximo de benefício para a maior quantidade de pessoas. É possível que a crise atual não tenha ganhadores. Mas sem dúvida produziu perdedores e, entre esses, os defensores do tipo de capitalismo praticado nos EUA ocupam lugar de destaque. A análise é de Joseph Stiglitz.

Joseph Stiglitz - SinPermiso - Carta Maior

Toda crise tem um fim, e ainda que hoje as coisas pareçam obscuras, esta crise econômica também passará. O certo em todo caso é que nenhuma crise, e muito menos uma tão grave como a atual vai-se sem deixar um legado. Um dos legados desta crise será uma batalha de alcance global em torno de idéias. Ou melhor, em torno de que tipo de sistema econômico será capaz de trazer o máximo de benefício para a maior quantidade de pessoas. Em lugar algum essa batalha é mais inflamada do que no chamado Terceiro Mundo. Algo como 80% da população mundial vive na Ásia, na América Latina e na África. Dentre esses, uns 1,4 bilhões subsistem com menos de 1,25 dólares por dia. Nos Estados Unidos, chamar alguém de socialista pode não ser mais que uma desqualificação exagerada. Em boa parte do mundo, contudo, a batalha entre capitalismo e socialismo – ou ao menos entre o que muitos estadunidenses consideram socialismo – segue na ordem do dia. É possível que a crise atual não tenha ganhadores. Mas sem dúvida produziu perdedores e, entre esses, os defensores do tipo de capitalismo praticado nos EUA ocupam lugar de destaque. No futuro, de fato, viveremos as consequências dessa constatação.

A queda do Muro de Berlim em 1989 marcou o fim do comunismo como uma idéia viável. Certamente, o comunismo se arrastava com problemas manifestos há décadas. Porém, depois de 1989 tornou-se muito difícil sair em sua defesa de maneira convincente. Durante um certo período parecia que a derrota do comunismo supunha a vitória segura do capitalismo, particularmente do capitalismo de tipo estadunidense. Francis Fukuyama chegou a proclamar “o fim da história”, definiu o capitalismo de mercado democrático como a última etapa de desenvolvimento social e declarou que a humanidade toda avançaria nessa direção. A rigor, os historiadores registrarão os 20 anos seguintes a 1989 como o breve período do triunfalismo estadunidense. O colapso dos grandes bancos e das entidades financeiras, o descontrole econômico subsequente e terminou com as tentativas caóticas de resgate. E também com o debate acerca do “fundamentalismo de mercado”, com a idéia de que os mercados, sem qualquer controle e restrição, podem por si sós assegurar prosperidade econômica e crescimento. Hoje, só o auto-engano poderia levar alguém a afirmar que os mercados podem auto-regular-se, ou que basta confiar no auto-interesse dos participantes no mercado para garantir que as coisas funcionem corretamente e de forma honesta.

O debate econômico é especialmente intenso no mundo em vias de desenvolvimento. Mesmo que no Ocidente tenhamos a tendência a esquecê-lo, há 190 anos um terço do produto bruto mundial se gerava na China. Depois, e de uma maneira um tanto repentina, a exploração colonial e os injustos acordos comerciais, combinados com uma revolução tecnológica nos Estados Unidos e na Europa condenaram os países em desenvolvimento ao atraso. Como resultado disso, até 1950 a economia chinesa representava menos de 5% do produto bruto mundial. Em meados do século XIX, na realidade, o Reino Unido e a França tiveram de empreender uma guerra para abrir a China ao comércio global. Esta foi a “segunda guerra do ópio”, assim chamada porque os países ocidentais tinham muito pouco que vender a China, com exceção dessas drogas, que rapidamente invadiram seus mercados e geraram uma ampla dependência entre a população. Com esta guerra o ocidente ensaiava uma nova via de correção da balança de pagamentos.

O colonialismo deixou uma herança complexa no mundo em desenvolvimento. Entra a maioria da população, contudo, a visão dominante era que tinham sido cruelmente explorados. Para muitos líderes novos a teoria marxista oferecia uma interpretação que sugeria essa experiência, visto que sustentava que a exploração era na realidade o moto do sistema capitalista. Por isso, a independência política que as colônias conquistaram depois da Segunda Guerra Mundial não significou o fim do colonialismo econômico. Em algumas regiões, como a África, a exploração – a extração de recursos naturais e a devastação ambiental em troca de algumas migalhas – era evidente. Em outros lugares foi mais sutil.

Em diferentes regiões do mundo, instituições internacionais como o Fundo Monetário Internacional ou o Banco Mundial passaram a ser vistas como instrumentos de controle pós-colonial. Essas instituições fomentaram o fundamentalismo de mercado (ou “neoliberalismo”, como foi chamado amiúde), uma categoria idealizada pelos estadunidenses como “mercados livres e irrestritos”. Também pressionaram pela desregulação do setor financeiro, das privatizações e da liberalização do comércio.

O Banco Mundial e o FMI asseguravam que tudo o que faziam era para o bem dos países em desenvolvimento. Sua atuação era respaldada por equipes de economistas partidários do livre mercado, muitos dos quais provenientes da catedral da economia de livre mercado, a Universidade de Chicago. Ao final, os programas dos “Chicago boys” não trouxeram os resultados prometidos. As rendas estancaram. Onde houve crescimento a riqueza foi parar nos estratos mais altos. A crise econômica no interior dos países se tornaram cada vez mais frequentes. Só nos últimos 30 anos, de fato, produziram-se mais de cem de gravidade considerável...

Nesse contexto, não surpreende que as populações dos países em desenvolvimento creiam cada vez menos nas motivações altruístas do Ocidente. Suspeitavam que a retórica da economia de livre mercado – o que brevemente se conheceu como “o Consenso de Washington” - era só a proteção dos interesses comerciais de sempre. Essas suspeitas viram-se reforçadas pela própria hipocrisia dos países ocidentais. Europa e Estados Unidos não abriram seus próprios mercados à agricultura produzida no Terceiro Mundo, que com frequência era tudo o que esses países poderiam oferecer. Ao contrário, forçaram-os a eliminar subsídios necessários à criação de novas indústrias, ao passo que concediam subsídios a seus próprios agricultores...

A ideologia do livre mercado resultou como uma desculpa para se cometer novas formas de exploração. “Privatizar” queria dizer que os estrangeiros podiam comprar minas e campos de petróleo a preço baixo nos países em desenvolvimento. Supunha que podiam extrair lucros consideráveis de atividades monopólicas e semi-monopólicas, como as telecomunicações. “Liberalizar”, por sua vez, queria dizer que podiam obter créditos com facilidade. E se as coisas iam mal, o FMI forçava a socialização das perdas com o que os esforços de pagar aos bancos recaía sobre a população em seu conjunto. Também confortava que as empresas estrangeiras podiam arrasar com as indústrias emergentes, bloqueando o desenvolvimento do talento empresarial local. O capital fluía livremente, mas o trabalho, não, salvo no caso dos indivíduos melhor dotados, que podiam encontrar um emprego no mercado global.

Obviamente que esses não são mais que rabiscos de um quadro mais complexo. Na Ásia, por exemplo, sempre houve resistência ao Consenso de Washington, e inclusive restrições à livre circulação de capital. Os gigantes asiáticos – China e Índia – conduziram a economia a sua maneira e obtiveram índices inéditos de crescimento. Porém, em geral, e sobretudo naqueles países em que o Banco Mundial e o FMI controlaram as rendas, as coisas não foram tão bem.

Para os críticos do capitalismo estadunidense no Terceiro Mundo o modo como os EUA tem respondido à crise constitui a gota d'água. Durante a crise do sudeste asiático, há apenas uma década, os Estados Unidos e o FMI exigiram que os países afetados reduzissem o déficit através de cortes os gastos sociais. Pouco importou que em países como a Tailândia essas medidas tenham contribuído para o ressurgimento da epidemia de AIDS, ou que em outros, como a Indonésia, houvesse corte de subsídios para a alimentação dos famintos. Estados Unidos e FMI forçaram esses países a aumentarem os tipos de lucros, em alguns casos a mais de 50%. Exigiram que a Indonésia fosse dura com os bancos e, dos governos, que não acudissem no resgate daqueles. Que precedente perigoso! - disseram -; que tremenda intervenção no delicado mecanismo de relógio do livre mercado!

O contraste entre a reação exibida diante da crise asiática e da estadunidense é notório e não passou desapercebido. Para tirar os EUA do fundo do poço somos testemunhos de incrementos massivos no gasto e no déficit, assim como das taxas de juros, que foram praticamente reduzidas a zero. As ajudas aos bancos fluem à direita e à esquerda. Alguns dos funcionários de Washington que tiveram de lidar com a crise asiática agora estão encarregados de dar respostas à crise estadunidense. Por que os Estados Unidos – perguntam-se as pessoas do Terceiro Mundo – prescrevem uma medicina diferente quando se trata de si mesmos?

Nos países em desenvolvimento, muitos são os que padecem com os efeitos do sermão recebido nos últimos anos: adote instituições como as dos Estados Unidos; siga as nossas políticas; comprometam-se com a desregulação; se querem aprender “boas” práticas bancárias, abram seus mercados aos bancos estadunidenses; e vendam (não casualmente) vossas empresas e bancos aos Estados Unidos, especialmente a preço de banana nas épocas de crise. Sim, reconhecia Washington, pode ser doloroso, mas ao final estarão melhor. Os Estados Unidos enviaram seus Secretários do Tesouro (de ambos os partidos) ao redor do mundo a anunciarem a boa nova. Aos olhos de muitos, a porta giratória que permite aos líderes financeiros passarem comodamente de Wall Street a Washington e de Washington a Wall Street os outorgava então mais credibilidade: pareciam combinar perfeitamente o poder do dinheiro e o da política. Os líderes financeiros norte-americanos tinham razão em pensar que o melhor para os Estados Unidos ou o mundo, era bom para os mercados financeiros. Porém, o contrário não era certo: nem tudo o que era bom para Wall Street era bom para os Estados Unidos e para o mundo.

Não é um simples gesto de Schadenfreude, de alegria com a desgraça alheia, o que motiva o juízo severo que os países em desenvolvimento fazem sobre o fracasso econômico dos Estados Unidos. Também está em jogo a necessidade de discernir qual é o sistema econômico que pode funcionar melhor no futuro. Indubitavelmente, esses países têm todo interesse do mundo em ver uma rápida recuperação dos Estados Unidos.

Sabem que, por si sós, não poderiam afrontar o que os Estados Unidos têm feito para tentar reviver sua economia. Sabem que nem sequer o elevado nível de gasto realizado está funcionando rápido o suficiente. Sabem que, em consequência do colapso econômico estadunidense, 200 milhões de pessoas a mais caíram na pobreza nos curso dos últimos anos. Mas estão convencidos, cada vez mais, de que qualquer ideal econômico propugnado pelos Estados Unidos é um ideal de que seguramente haveriam de fugir.

Por que a desilusão do mundo com o modelo de capitalismo estadunidense deveria nos preocupar? A ideologia que promovemos todos esses anos deixou de funcionar, mas talvez seja bom que não possa ser reparada. Seria por acaso possível – inclusive também até agora – sobreviver se ninguém aderisse ao modo de vida estadunidense?

Seguramente nossa influência diminuirá, já que é pouco provável que se nos considerem um modelo a seguir. Em todo caso, é o que já estava ocorrendo de fato. Os Estados Unidos iriam desempenhar sozinhos um papel crucial no capital global, já que todos pensavam que tínhamos um talento especial para lidar com o risco e para lidar com recursos financeiros.

Hoje ninguém pensa algo assim e a Ásia – de onde procedem boa parte dos ganhos do mundo – já está desenvolvendo seus próprios centros financeiros. Temos deixado de ser a fonte central de capital. Os três bancos mais importantes do mundo são agora chineses. O principal banco norte-americano caiu para o quinto lugar.

O dólar foi durante muito tempo moeda de reserva. Os países tinham o dólar como referência para determinar a confiança em suas próprias moedas e governos. Contudo, progressivamente, vem-se impondo nos bancos centrais de diferentes partes do mundo a idéia de que o dólar pode não ser um referente de valor. Seu valor, de fato, tem oscilado e caído. O enorme incremento da dívida estadunidense na atual crise, combinado com os empréstimos indiscriminados do Federal Reserve dispararam as especulações em torno do futuro do dólar. Os chineses sugeriram de maneira aberta a possibilidade de inventar algum novo tipo de moeda para substituí-lo.

Enquanto isso, o custo de lidar com a crise está transbordando nossas necessidades. Nunca fomos generosos em nossas ajudas aos pobres. Mas as coisas estão piorando. Nos últimos anos, os investimentos chineses na África têm sido superiores aos do Banco Mundial e o Banco Africano de Desenvolvimento juntos; muito distantes das realizadas pelos Estados Unidos. Para enfrentar a crise, os países africanos pedem socorro a Pequim, em busca de ajuda, e não a Washington.

Minha preocupação aqui, em todo caso, tem a ver com o âmbito das idéias. Preocupa-me que, à medida que sejam vistas com maior nitidez as falhas do sistema econômico e social estadunidense, as pessoas dos países em desenvolvimento venham a extrair conclusões errôneas. Apenas uns poucos países – e talvez os próprios Estados Unidos – aprenderão corretamente a lição. Dar-se-ão conta de que para seguir adiante é necessário um regime em que a distribuição dos papéis entre governo e o mercado seja equilibrada, e no qual haja um estado forte, capaz de administrar formas efetivas de regulação. Dar-se-ão conta de que o poder dos interesses privados deve ser limitado.

Outros países, porém, tirarão conclusões mais confusas e profundamente trágicas. Depois do fracasso de seus sistemas do pós-guerra, a maioria dos países ex-comunistas retornaram ao capitalismo de mercado e exaltaram Milton Friedman no lugar de Karl Marx como novo Deus. Com a nova religião, contudo, as coisas não vão indo bem. Muitos países podem pensar, em consequência, que não só o capitalismo ilimitado, de tipo estadounidense, fracassou, mas que o próprio conceito de economia de mercado é que faliu e se tornou inútil para qualquer circunstância. O velho comunismo não regressará, mas sim diversas formas excessivas de intervir no mercado. E fracassarão. Os pobres sofrem com o fundamentalismo de mercado, que gera um efeito derrame, mas de baixo para cima, e não de cima para baixo. Mas os pobres seguirão sofrendo com esses regimes, uma vez que não geram crescimento. Sem crescimento não pode haver redução sustentável da pobreza. Jamais houve economia exitosa que não tenha repousado fortemente nos mercados. A pobreza estimula a desafeição. Os inevitáveis fracassos conduzirão a pobreza ainda maior e serão difíceis de gestionar, sobretudo por parte de governos que chegaram ao poder com o propósito de combater o capitalismo de tipo norte-americano. As consequências para a estabilidade global e para a própria segurança dos Estados Unidos são evidentes.

Até agora, existia uma percepção de valores compartilhados entre os Estados Unidos e as elites de todo mundo lá educadas. A crise econômica erodiu a credibilidade dessas elites. Temos alimentado os críticos com a forma depravada de capitalismo praticada nos Estados Unidos, poderosa munição para contraatacar com o sermao de uma filosofia antimercado mais ampla. E seguimos lhes proporcionando mais e mais munição. Enquanto na recente cúpula do G20 nos comprometíamos a não apoiar o protecionismo, estabelecíamos uma previsão de “compra estadunidense” no nosso próprio pacote de estímulos. Depois, para abrandar a oposição de nossos aliados europeus, modificávamos a norma, sob todos os aspectos discriminatória em relação aos países pobres. A globalização nos tornou mais interdependentes; o que ocorre numa parte do mundo afeta a outra, um fato provado pelo contágio dos outros de nossas dificuldades econômicas.

Para resolver problemas globais, é fundamental que exista um sentido de cooperação e confiança, assim como um certo sentido de valores compartilhados. Essa confiança nunca foi sólida, e não fez senão debilitar-se nos últimos tempos.

A fé na democracia é outra das vítimas. No mundo em desenvolvimento, as pessoas olham para Washington e vêem o sistema de governo que permitiu a Wall Street prescrever uma série de regras que puseram a economia global em risco e que, quando é o caso de assumir as consequências, volta a recorrer a Wall Street para gestionar sua recuperação. Vêem permanentes redistribuições de riqueza para o topo da pirâmide, claramente às custas dos cidadãos comuns. Vêem, em suma, um problema básico de falta de controle no sistema democrático estadunidense. E depois que se tenha visto tudo isso é preciso apenas um pequeno passo para concluir que há algo que funciona inevitavelmente mal com a própria democracia.

A economia estadunidense e, até certo ponto, nosso prestígio no exterior vão eventualmente se recuperar. Durante muito tempo os Estados Unidos foram o país mais admirado do mundo, e ainda é o mais rico. Goste-se ou não, nossas ações estão sujeitas a permanentes exames. Nossos êxitos são emulados. Porém, nossos fracassos são criticados com escárnio. Tudo isso me devolve a Francis Fukuyama. Fukuyama estava equivocado ao pensar que as forças da democracia liberal e da economia de mercado triunfariam de modo inevitável e que não havia volta atrás. Não estava equivocado, contudo, em crer que a democracia e as forças de mercado são esenciais para ter um mundo justo e próspero. A crise econômica, em boa medida desencadeada pelo comportamento dos Estados Unidos, causou mais danos a esses valores fundamentais que qualquer regime totalitário o fez em tempos recentes. Talvez seja verdade que o mundo se encaminha para o fim da história, mas agora se trata é de navegar contra o vento e de sermos capazes de definir o custo das coisas.

Joseph Stiglitz é professor de teoria econômica na Universidade Columbia, foi Presidente do Council of Economic Advisers entre 1995 e 1997, ganhou o Nobel de Economia em 2001. Atualmente preside a comissão de especialistas nomeada pelo presidente da Assembléia Geral da ONU para o estudo de reformas no sistema monetário e financeiro internacional.

Tradução: Katarina Peixoto

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Kayser visita o Irã



Visite o Blog do Kayser

Fatos, argumentos e ‘ranço ideológico’(III)

Hupper, o Sátiro:

RS URGENTE
Carlos Maia reproduziu aqui, no espaço dos comentários, os principais argumentos que acusam o governo Olívio Dutra (PT) de ter mandado a Ford embora do Estado. Segundo ele, são, na verdade, “fatos objetivos” aos quais não caberiam contestação. Vejamos, um a um, esses “fatos objetivos” (as posições de Maia estão em negrito):

“Olívio sempre se recusou a receber os executivos da Ford e disse que “nenhum dinheiro do erário será destinado às multinacionais”.

Esse “fato objetivo” é, na verdade, uma inverdade. O ex-secretário de Desenvolvimento e Assuntos Internacionais, Zeca Moraes, falecido recentemente, relatou, em uma entrevista ao jornal Extra-Classe, em junho de 1999, como se deram as conversas com o negociador da Ford e a proposta feita pelo governo do Estado para a instalação da montadora:

“No primeiro encontro com a Ford, o negociador designado (Waldemar Mussi, diretor-jurídico da companhia) já chegou dizendo que não estava autorizado e não tinha delegação para conversar. Isso na primeira reunião. Ele estava autorizado única e exclusivamente a escutar o que tínhamos a colocar. E a cada proposta que apresentávamos não se instituía um diálogo em relação ao contrato. A proposta final, que não recebeu resposta formal por parte da companhia, não contestava os incentivos fiscais concedidos e propunha que o estado buscasse junto ao governo federal e à prefeitura de Guaíba os recursos (cerca de R$ 100 milhões) para viabilizar determinadas obras que estavam sob responsabilidade estadual. Propomos até um financiamento à prefeitura de Guaíba para viabilizar as obras, que seria pago somente a partir do retorno obtido na arrecadação do município. Tudo para viabilizar o investimento. O estado mantinha outros R$ 70 milhões em recursos e mais R$ 85 milhões em obras, o que dá R$ 255 milhões. Com mais R$ 75 milhões das obras no porto de Rio Grande, o custo da Ford seria de R$ 110 milhões, que além disso poderiam ser colocados no financiamento do BNDES. Isso é 10% do investimento total”.

O problema, disse Zeca Moraes, é que a Ford queria a fábrica de graça (o que acabou conseguindo, na Bahia, graças à intervenção do governo federal).

“Foi por isso (“nenhum dinheiro para multinacionais”) que a Ford decidiu não construir mais a fábrica. A MP da Ford só ocorreu depois que a empresa tinha desistido do RS.

A Ford foi para a Bahia porque descobriu que podia ganhar a fábrica de graça. O professor Nilton Vasconcelos, da Universidade Federal da Bahia, analisou em uma tese sobre Políticas Públicas e Emprego na Indústria Automativa Brasileira, o custo (público) da ida da empresa para a Bahia. Um resumo desse estudo foi publicado pela revista Fórum. Vejamos alguns dados desse estudo, divulgados pela revista:

“O que se sabe é que do BNDES, banco do governo federal, foram emprestados cerca de 700 milhões de reais a juros subsidiados. O governo do Estado deu isenção total de ICMS e comprometeu-se a financiar até 12% do faturamento bruto da empresa como capital de giro. O prazo do financiamento é mais que camarada, quinze anos, com carência de dez para começar a pagar, e amortização em doze anos. E com desconto de 98% nas primeiras 72 parcelas. Mas os incentivos não param por aí. O governo baiano se encarregou de financiar investimentos fixos e despesas com implantação do projeto pelo prazo de quinze anos (com taxa de juros de 6% ao ano, sem atualização monetária) e despesas com pesquisa e desenvolvimento de produtos.

Há outro detalhe que chama a atenção. Na lei editada para a Ford, e aprovada pela Assembléia Legislativa, determina-se que cabe ao Estado “…assegurar a substituição das mesmas condições, em caso de mudança decorrente de reforma do sistema tributário ou impossibilidade jurídica de adotar o tratamento dispensado na referida lei…”. Traduzindo, em caso de uma reforma tributária que acabasse, por exemplo, com a isenção de ICMS, o governo baiano teria de utilizar recursos próprios para cobrir a diferença. Não receberia impostos e ainda teria de pagar.

“A Ford é uma grande estatal”, resumiu o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos da Bahia, Aurino Nascimento Filho, que sempre foi favorável à instalação de uma indústria de ponta na Bahia, mas ele logo acrescenta: “Se eu fosse a Ford, com essas condições, também montaria uma fábrica aqui. Com esse dinheiro investido, cerca de 3 bilhões de reais durante o período dos incentivos, poderiam ser desenvolvidos outros setores da economia”, afirma.

A matéria informa ainda:

“O maior salário da indústria automobilística vem sendo pago na Bahia. Não acredita? Faça as contas. Cerca de 3 bilhões de reais estão sendo usados para abrir vagas para 2 mil empregados. O que dá 1,5 milhão de reais por emprego. É esse o valor que os governos estadual e federal estão dando em incentivos, renúncias fiscais, investimento e empréstimos para a instalação da fábrica da Ford em Camaçari”.

“A Ford foi para a Bahia por causa do ranço anticapitalista do PT”

Como os números citados acima indicam, o “capitalismo”, em questão é do tipo que só faz empreendimentos se for maximamente financiado pelo Estado. O governo Olívio Dutra foi “rançoso”, “ideológico” e “anticapitalista” por que julgou o contrato com a Ford, nos termos que havia sido firmado pelo governo Antonio Britto (PMDB), lesivo ao interesse público. Foi “anticapitalista” por que não quis dar uma fábrica praticamente de graça para a Ford. E a Ford, coitada, não pode praticar o “capitalismo” (bancado pelo dinheiro público) no Rio Grande do Sul. Esse é, aliás, um dos esportes preferidos dos capitalistas que denunciam o “ranço ideológico” de quem defende o interesse público: enriquecer usando o dinheiro público e, em caso de prejuízo, fazer com que o Estado e o público paguem a conta (a recente quebra do sistema financeiro internacional mostra isso de forma exemplar).

Greg Palast, em “A melhor democracia que o dinheiro pode comprar”, revela um aspecto macabro desse esporte: um processo judicial a favor de trabalhadores escravos que perderam seus filhos em “creches” assassinas administradas pelas montadoras Volkswagen, Ford e Daimler, entre outras, no período da Alemanha nazista. Esse processo trouxe à tona uma carta assinada por Hitler concordando com um pedido da Volkswagen por mais trabalhadores escravos dos campos de concentração (o fac-símile da carta está publicado na página 246). Se Hitler tivesse sido capturado, ironiza Palast, ele poderia ter alegado em sua defesa: “Eu estava apenas cumprindo ordens….da Volkswagen”. Mas deixemos isso pra lá. Deve ser puro ranço ideológico…