segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Algumas metáforas
Juremir Machado da Silva, para Correio do Povo
- Deputado, com a sua permissão, por favor, quero lhe fazer uma perguntinha direta e na bucha. Comigo, como todos sabem, é pam pam Detran: o senhor é corrupto?
- Não lhe dou o direito de falar assim comigo.
- Mas as gravações mostram que o senhor...
- As gravações são ilegais.
- Mas elas foram autorizadas pela Justiça.
- A divulgação do conteúdo é ilegal.
- Mas a divulgação pela CPI não contraria a legislação.
- Nada disso tem valor jurídico de prova.
- Mas os fatos são verdadeiros ou não?
- Não há fatos. Há só uma flagrante ilegalidade praticada pela oposição para enxovalhar a nossa honra ilibada.
- Mas, deputado, não é a oposição que aparece combinando propinas, falando em código, articulando favores.
- Ninguém fala em código. Somos pela transparência.
- Não mesmo? E essas referências todas a vermelho, pacote e outros termos que parecem remeter a ilícitos?
- É só uma maneira poética de falar. A prosa do cotidiano é muito enfadonha. Então, como somos pessoas cultas, empregamos metáforas para colorir nossas conversas. É um jogo. Fazemos parte de uma rede de pessoas que conversam por telefone. Ganha quem inventa as melhores metáforas.
- Metáforas? E o que significam essas metáforas? Por exemplo, o que quer dizer "vermelho, é a última"?
- É um aviso para o Internacional. Se perder mais uma no Beira-Rio, não vai ganhar o Brasileirão deste ano.
- E as referências ao Grêmio? São metáforas para encobrir os nomes de torcedores ligados a esquemas de corrupção?
- De modo algum. Não há corrupção. Está tudo claro.
- Mas, deputado, há nove réus, entre os quais o senhor, acusado de uma série de ilegalidades num esquema...
- É um mal-entendido. Esquema, no caso, é esquema tático. Nas gravações, quando falamos em números, estamos metaforicamente tratando de um novo esquema tático. Eu já fui a favor do 4-3-3. Depois, passei a admirar o 3-5-2. Um bom esquema precisa ser dinâmico, envolvente, seguro, ter boa cobertura, não deixar furos atrás, fechar os flancos e, principalmente, produzir bons resultados. O negócio do esquema é ganhar. Metaforicamente falando.
- O esquema agora seria o 1-7-1? Mas faltariam dois? Ou esses dois que faltam é a parte de algum volante do time?
- Exijo respeito. Tenho uma biografia como político.
- Mas, só uma perguntinha: o senhor roubou ou não roubou?
- Ignorante. Propina não é roubo. É uma questão técnica.
- É o quê? Furto?
- Tampouco. Vá estudar direito antes de falar comigo.
- Mas o senhor botou no bolso algum dinheiro público ou não? Abra o jogo, deputado. Chega de retranca. Ataque.
- O importante agora é a minha defesa. Sou inocente.
- O senhor quer dizer que é um inocente útil?
- Inútil. Não estou conseguindo nada no momento.
- O senhor não tem vergonha?
- Tenho.
- Metaforicamente falando?
- Me respeite. Não fiz nada.
- Por que o acusam?
- É um esquema da oposição?
- Tático?
juremir@correiodopovo.com.br
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