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quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
Especuladores recompensam quem os defenda no meio acadêmico
Uma reportagem do New York Times revela o financiamento de Wall Street a professores universitários que nos últimos anos assumiram a defesa dos especuladores nos mercados do petróleo e alimentos.
O jornal norte-americano teve acesso às ligações financeiras que unem alguns dos maiores especuladores de Wall Street ao professor de finanças da Universidade de Houston Craig Pirrong. O professor interveio diversas vezes desde 2006 em cartas às autoridades reguladoras federais e até depôs na Câmara dos Representantes dos EUA, invocando a sua autoridade académica para provar a ausência de responsabilidade dos especuladores bolsistas nos picos registados nos preços do petróleo e outras matérias-primas e produtos alimentares, numa altura em que a regulação discutia impor mais restrições às operações dos bancos nesta área, na sequência da crise financeira.
Afinal, o professor Pirrong, cujos trabalhos eram citados nas ações judiciais interpostas por institiuções financeiras para bloquear as restrições à especulação bolsista, era ao mesmo tempo pago como consultor para uma das principais partes do processo, a Associação Internacional de Swaps e Derivados. Segundo o New York Times, embora Pirrong se apresentasse apenas como professor universitário, nos últimos anos foi pago pela bolsa de Chicago, o Royal Bank of Scotland e uma série de empresas que especulam nos mercados da energia.
Questionado sobre a origem dos seus ganhos fora do meio académico, Pirrong terá respondido apenas que “isso é entre mim e o fisco”. Mas ele não é caso único. O mesmo jornal aponta o professor da Universidade do Illinois Scott Irwin, um dos académicos mais citados em favor dos benefícios da especulação para a formação de preços nos mercados agrícolas, que é ao mesmo tempo consultor de uma das empresas que trabalha com bancos de investimento e fundos especulativos no mercado de matérias-primas. A sua universidade também recebe doações generosas quer da bolsa de Chicago quer de outros fundos que intervêm no mercado especulativo, que pagam bolsas de estudo, conferências e até a construção de um laboratório em tudo semelhante às salas de mercado bolsista.
Quando em 2008 o preço da gasolina subiu acima dos 4 dólares por galão nos EUA, o Congresso norte-americano ameaçou com a introdução de limites à especulação nos mercados do petróleo. “É uma caça às bruxas”, indignou-se Craig Pirrong em múltiplos artigos, incluindo no Wall Street Journal, desdobrando-se em conferências e ocupando lugares em comissões de aconselhamento na matéria. Por seu lado, os ensaios e opiniões de Scott Irwing foram promovidos para aparecerem em publicações influentes pelo próprio departamento de relações públicas da bolsa de Chicago, sendo frequente encontrar vídeos e entrevistas com este professor no site da Chicago Mercantile Exchange.
Mas o dinheiro dos especuladores não corre apenas diretamente para o bolso destes professores universitários. Para aumentar a sua notoriedade, também financiam revistas e sites na internet que promovem as figuras do meio académico mais favoráveis aos seus interesses. Ambos os envolvidos negam que o seu trabalho seja influenciado pelo dinheiro que recebem dos especuladores, mas o tema ressurge no debate público numa altura em que os reguladores discutem novos limites à especulação, por verificarem que ela pode contribuir não apenas para prejudicar os consumidores, mas também para provocar a escassez de comida, como se viu na crise alimentar do final da última década.
Fonte: AQUI.
Imagem: AQUI.
domingo, 15 de março de 2009
VITÓRIA DE PIRRO
Hupper, o Sátiro:

Juremir Machado da Silva, para Correio do Povo(14 de março de 2009)
Há personagens históricos que nunca saem totalmente de moda. Mitrídates, rei do Ponto, é um deles. Na verdade, foi uma dinastia. Foram-se os reis. Ficou o Ponto. Não pensem bobagens. O Ponto era um estado helenístico, uma província romana. Isso está ficando complicado. Não estou dizendo que o ponto era um estado de espírito dos helenos, embora muitos fizessem ponto na Ágora. O personagem que importa aqui mesmo é Pirro. Ele foi rei do Épiro e da Macedônia. Nunca cortou o ponto. Pirro era um grande guerreiro. Dedicou a vida a combater os romanos. Em algum momento da sua trajetória, soube argumentar e agir com alguma astúcia. Depois das suas vitórias sobre os cartagineses, porém, trocou a habilidade e a brandura pelo rigor excessivo e pelos castigos. Resolveu unir seus súditos na base da porrada.
Pirro tornou-se definitivamente famoso depois da Batalha de Ásculo, em que bateu os romanos. A vitória foi tão dura que, ao final, Pirro exclamou: 'Mais uma vitória destas e estou perdido'. Foram dois dias de combates. A vitória poderia ter acontecido no primeiro, mas parece que estragou um elevador e dois elefantes não puderam participar do confronto. Pirro comandava uma espécie de frente ou base aliada, que, embora mostrasse descontentamento, acabava por ceder às suas pressões com medo das punições ou para receber alguns agradecimentos. Era um PMDB da época. A governadora Yeda Crusius certamente descende da linhagem de Pirro. Na última quinta-feira, obteve na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul uma vitória de Ásculo. Mais uma dessas e, com certeza, estará perdida. Obteve o difícil apoio do PMDB, um partido sabidamente refratário a mudar seus posicionamentos ou a votar por conveniência, e ganhou a ojeriza do magistério estadual. Uma senhora conquista.
A política educacional de Yeda Crusius lembra os métodos de Pirro: castigo e anacronismo. Defendeu a 'enturmação', um procedimento pedagógico revolucionário consistindo em empilhar alunos de séries diferentes numa mesma sala para fazer economia a curto prazo e agradar ao Banco Mundial. Opôs-se a pagar o piso federal como salário inicial, preferindo ver no piso um teto. Provisório. Resolveu encarar greve como folga. Mesmo a recuperação das horas não trabalhadas, procedimento sensato, não bastou. Yeda, como Pirro, prefere o castigo no grão de milho e a palmatória. É mais educativo. Afinal, nessa concepção altamente inovadora, a humanidade só funciona por punição e recompensa. A punição foi para os professores grevistas. A recompensa, para o PMDB.
As vitórias de Pirro garantiram-lhe a perdição. Foi temido. Mas não amado. Arrancou impostos excessivos dos mamertinos (os marciais). Acabou atingido, em Argos, por uma telha jogada por uma velha (aposentada?). Alguns dizem que um soldado inimigo aproveitou esse momento para matá-lo. Outros garantem que ele foi envenenado por um servo. Pirro chegou a escrever memórias de guerra. Esses escritos se perderam. Não precisou pedir que fossem esquecidos. Consta que foram elogiados pelo magnífico orador Cícero e usados por Aníbal como exemplos do que nunca se deveria fazer. Ainda bem que esses tempos bélicos passaram. Desejo longa e boa vida à governadora Yeda Crusius. Só não posso lhe desejar outras vitórias de Pirro como a desta semana. Salvo se... Pensando bem, talvez seja o melhor que possamos desejar-lhe.
juremir@correiodopovo.com.br

Juremir Machado da Silva, para Correio do Povo(14 de março de 2009)
Há personagens históricos que nunca saem totalmente de moda. Mitrídates, rei do Ponto, é um deles. Na verdade, foi uma dinastia. Foram-se os reis. Ficou o Ponto. Não pensem bobagens. O Ponto era um estado helenístico, uma província romana. Isso está ficando complicado. Não estou dizendo que o ponto era um estado de espírito dos helenos, embora muitos fizessem ponto na Ágora. O personagem que importa aqui mesmo é Pirro. Ele foi rei do Épiro e da Macedônia. Nunca cortou o ponto. Pirro era um grande guerreiro. Dedicou a vida a combater os romanos. Em algum momento da sua trajetória, soube argumentar e agir com alguma astúcia. Depois das suas vitórias sobre os cartagineses, porém, trocou a habilidade e a brandura pelo rigor excessivo e pelos castigos. Resolveu unir seus súditos na base da porrada.
Pirro tornou-se definitivamente famoso depois da Batalha de Ásculo, em que bateu os romanos. A vitória foi tão dura que, ao final, Pirro exclamou: 'Mais uma vitória destas e estou perdido'. Foram dois dias de combates. A vitória poderia ter acontecido no primeiro, mas parece que estragou um elevador e dois elefantes não puderam participar do confronto. Pirro comandava uma espécie de frente ou base aliada, que, embora mostrasse descontentamento, acabava por ceder às suas pressões com medo das punições ou para receber alguns agradecimentos. Era um PMDB da época. A governadora Yeda Crusius certamente descende da linhagem de Pirro. Na última quinta-feira, obteve na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul uma vitória de Ásculo. Mais uma dessas e, com certeza, estará perdida. Obteve o difícil apoio do PMDB, um partido sabidamente refratário a mudar seus posicionamentos ou a votar por conveniência, e ganhou a ojeriza do magistério estadual. Uma senhora conquista.
A política educacional de Yeda Crusius lembra os métodos de Pirro: castigo e anacronismo. Defendeu a 'enturmação', um procedimento pedagógico revolucionário consistindo em empilhar alunos de séries diferentes numa mesma sala para fazer economia a curto prazo e agradar ao Banco Mundial. Opôs-se a pagar o piso federal como salário inicial, preferindo ver no piso um teto. Provisório. Resolveu encarar greve como folga. Mesmo a recuperação das horas não trabalhadas, procedimento sensato, não bastou. Yeda, como Pirro, prefere o castigo no grão de milho e a palmatória. É mais educativo. Afinal, nessa concepção altamente inovadora, a humanidade só funciona por punição e recompensa. A punição foi para os professores grevistas. A recompensa, para o PMDB.
As vitórias de Pirro garantiram-lhe a perdição. Foi temido. Mas não amado. Arrancou impostos excessivos dos mamertinos (os marciais). Acabou atingido, em Argos, por uma telha jogada por uma velha (aposentada?). Alguns dizem que um soldado inimigo aproveitou esse momento para matá-lo. Outros garantem que ele foi envenenado por um servo. Pirro chegou a escrever memórias de guerra. Esses escritos se perderam. Não precisou pedir que fossem esquecidos. Consta que foram elogiados pelo magnífico orador Cícero e usados por Aníbal como exemplos do que nunca se deveria fazer. Ainda bem que esses tempos bélicos passaram. Desejo longa e boa vida à governadora Yeda Crusius. Só não posso lhe desejar outras vitórias de Pirro como a desta semana. Salvo se... Pensando bem, talvez seja o melhor que possamos desejar-lhe.
juremir@correiodopovo.com.br
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
GREVE JUSTA
Juremir Machado da Silva, para Correio do Povo
O magistério estadual gaúcho entrou em greve. Mas o governo achou-se incompreendido. Dado que uma lei federal estabeleceu piso salarial, como salário inicial, no valor de R$ 950,00, as autoridades do Rio Grande do Sul trataram de interpretar de outra forma o espírito dessa medida, contrariando o bom senso e a língua portuguesa, para defender os interesses dos nossos professores. Não entenderam? Acham que estou ficando louco? Explicarei. O governo gaúcho ficou preocupado com a possibilidade de os professores começarem a ganhar um pouco mais. Nem se trata de ganhar bem, muito bem ou suficientemente. É bem mais simples. Ganhar a partir de R$ 950,00 complica.
Esmiuçarei o que parece serem as razões profundas, embora jamais reveladas, dos nossos representantes e gestores. As razões superficiais são conhecidas: falta de recursos, sistema inchado e necessidade de não abalar o ajuste fiscal em curso. As razões que aqui chamo de profundas são mais interessantes. Se um professor em começo de carreira ganhar R$ 950,00, quanto receberá, acrescentando-se vantagens, um profissional com 20 anos de carreira? Pode, quem sabe, chegar a R$ 2 mil. Já imaginaram? Aí se tornaria perigoso. Professor com salário razoável pode começar a fazer coisas impensadas, tomar atitudes impulsivas, agir de modo precipitado.
Entre as ações perigosas que podem resultar de uma elevação substancial de salário encontram-se ir ao cinema com mais freqüência (ou simplesmente ir ao cinema), comprar música e, pasmem, adquirir braçadas de obras na Feira do Livro. Bem, braçadas mesmo, convenhamos, não daria, salvo em balaios, mas ainda assim haveria o risco de um aumento vertiginoso na aquisição de livros. É sabido que professores com muita leitura causam problemas. Ficam sabichões, até arrogantes, ensinam melhor e podem até fazer com que os alunos de escolas públicas se tornem verdadeiros concorrentes de alunos de escolas privadas em vestibulares ou outros gêneros de concursos. Ouvi dizer, embora sem confirmação, que já tinha professor pensando em viajar graças ao piso salarial (salário inicial). Não deve ser verdade. Livros e viagens já é demais!
Outro item contestado pelos nossos protetores diz respeito ao tempo necessário para atividades fora de sala de aula (preparação, correção de provas e outros passatempos levados para casa). Segundo o governo, isso exigiria contratar mais 27 mil professores. Não haveria dinheiro para isso. Sugere-se, então, que o magistério continue a praticar uma tradição de sacrifício, trabalhando de graça no aconchego do lar pelo bem público e pelo sacerdócio do ensino. Afinal, ser professor deve ser padecer na sala de aula e ainda levar trabalho para casa. Claro que os governantes não se reconhecerão nestas linhas. Mesmo assim, frios e estatísticos, pedirão como sempre cautela, pragmatismo e realismo a quem passa a vida esperando o famoso 'agora vai'. Aí, quando vai um pouquinho, inacreditavelmente, o governo não quer pagar.
A greve só podia ser justa. Mais do que isso, justíssima, legítima, além, claro, de ser legal. Em governo de intelectual, costuma ser assim: a educação fica em segundo lugar mesmo parecendo estar em primeiro. Foi assim com FHC. As universidades públicas foram abandonadas. No Rio Grande do Sul, educação e cultura só têm levado tranco. Quando não tem outro jeito, é preciso meter o pé na porta. Piso é salário inicial.
juremir@correiodopovo.com.br
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