domingo, 11 de outubro de 2026

O NOVO PADRÃO DAS CAMPANHAS ELEITORAIS - ATUALIZAÇÃO

 


Algoritmos, Populismo e a Geopolítica da Desinformação

EPÍGRAFE
“Não rir, nem se lamentar, nem odiar, mas compreender.”
— Baruch Espinoza

 

Muitas pessoas interessadas por política têm acompanhado com perplexidade as transformações vertiginosas do cenário global nas últimas duas décadas. Assistimos a uma espetacular e inédita ascensão de movimentos populistas de direita e extrema-direita em escala planetária.

Partidos e movimentos extremistas — especialmente na Europa — encontraram espaço para normalizar discursos radicais, conquistando vitórias expressivas em arcabouços democráticos tradicionais. Casos emblemáticos como Viktor Orbán na Hungria, o partido Lei e Justiça na Polônia e a ascensão de Sebastian Kurz na Áustria demonstraram a força dessa mobilização. Esse ciclo atingiu seu ápice com marcos históricos: a vitória do Brexit e a eleição de Donald Trump em 2016, seguidas pela eleição de Jair Bolsonaro no Brasil em 2018.

Ainda que nos últimos anos tenhamos assistido a reconfigurações e ao refluxo institucional em determinados países, a dinâmica política global foi alterada de maneira irreversível. Para entender esse fenômeno, é preciso analisar a arquitetura digital e psicológica que sustenta o novo ecossistema eleitoral.

1. O Caldo de Cultura: As Redes Sociais e a Psicologia da Validação

O mecanismo de sustentação desse novo modelo político não nasceu nas instâncias partidárias, mas na própria engenharia das plataformas digitais. Sean Parker, o primeiro investidor institucional do Facebook, explicou com franqueza a vulnerabilidade psicológica explorada pelas redes:

SEAN PARKER — EX-PRESIDENTE DO FACEBOOK
“Somos criaturas sociais, e nosso bem-estar depende, em boa parte, da aprovação dos que estão em volta. [...] Cada curtida é uma carícia maternal em nosso ego. A arquitetura do Facebook é toda sustentada sobre a nossa necessidade de reconhecimento. Nós fornecemos a você uma pequena dose de dopamina cada vez que alguém curte ou comenta um post seu. É um loop de validação social que tira proveito de um ponto fraco da psicologia humana. Os inventores [...] estavam perfeitamente conscientes disso. E, mesmo assim, fizemos o que fizemos.”

 

Esse design comportamental transforma os usuários em consumidores compulsivos de estímulos digitais, condicionados a interagir dezenas ou centenas de vezes ao dia em busca de reações virtuais. Esse estado de hiperestimulação permanente tornou o eleitorado altamente suscetível a gatilhos emocionais intensos.

2. O “Público-Alvo” e os Bancos de Cólera

A adesão a discursos radicais não ocorre por acaso. Em sua obra de 2006, o filósofo alemão Peter Sloterdijk identificou um sentimento transversal nas sociedades contemporâneas: o ressentimento de indivíduos que se sentem preteridos, excluídos ou invisibilizados pelo ecossistema socioeconômico.

Historicamente, instituições tradicionais atuavam como “bancos de cólera” — canais organizados que canalizavam o descontentamento popular para projetos coletivos (como a Igreja no período pré-industrial ou os partidos de esquerda a partir do século XIX). Com a institucionalização da esquerda e a secularização da sociedade, essa indignação ficou sem gestão. Nos últimos quinze anos, os movimentos de extrema-direita foram os mais ágeis em capturar e monopolizar essa energia represada, transformando raiva dispersa em mobilização política estruturada.

3. A Origem das Campanhas Algorítmicas: O Casaleggio e os “Engenheiros do Caos”

O laboratório inicial dessa transformação política ocorreu na Itália no início dos anos 2000. O estrategista digital Gianroberto Casaleggio percebeu antes de seus pares que a internet revolucionaria a política. Ao lado do comediante Beppe Grillo, criou o Movimento 5 Estrelas — um “partido-algoritmo” articulado através de um blog centralizado.

Casaleggio utilizou análises de engajamento para selecionar pautas populares pautadas no antipoliticismo e no ressentimento. Esse formato obteve êxito eleitoral avassalador, elegendo dezenas de parlamentares e conquistando prefeituras estratégicas como Roma e Turim em 2016.

O modelo chamou a atenção de estrategistas globais — denominados pelo escritor Giuliano da Empoli como “Os Engenheiros do Caos” (como Steve Bannon, Dominic Cummings e Arthur Finkelstein). Bannon visitou a Itália repetidas vezes para estudar o ecossistema e projetar suas técnicas para o cenário internacional.

4. Táticas Operacionais: Fake News, Microtargeting e Destruição de Adversários

O sucesso do populismo digital baseia-se em quatro pilares metodológicos:

• Algoritmos de Engajamento e Emoções Negativas: Os algoritmos das redes privilegiam conteúdos com alta taxa de retenção. As emoções de indignação, medo e repulsa provaram ser muito mais eficazes para gerar engajamento do que mensagens moderadas ou propostas programáticas.

• O Absurdo como Vetor de Coesão: Notícias falsas e teorias conspiratórias não cumprem apenas papel informativo; elas atuam como marcadores de lealdade tribal. Como observou o ideólogo Mencius Moldbug, crer na verdade exige pouco compromisso, enquanto defender publicamente um absurdo demonstra submissão incondicional ao grupo.

• Comunicação Segmentada (Microtargeting): Substitui-se a comunicação de massa transparente por anúncios direcionados a nichos específicos com base em perfiles psicométricos. Grupos com interesses ou valores opostos recebem promessas e narrativas sob medida sem que um tome conhecimento da mensagem enviada ao outro.

• Foco na Destruição do Oponente: Pioneirizado por consultores como Arthur Finkelstein, o foco principal das campanhas deixa de ser a proposição de ideias e passa a ser a desconstrução sistemática da imagem do adversário via campanhas de ataque contínuas.

5. Atualização Geopolítica: Operações Digitais e Impactos na América Latina

Nos últimos anos, as táticas dos “Engenheiros do Caos” ganharam contornos institucionais e criminais mais claros na América Latina, revelando redes internacionais transfronteiriças especializadas em desestabilização eleitoral.

A Prisão de Fernando Cerimedo e a Operação Tempus Veritatis (Brasil)

Um dos pontos centrais da atualização desse cenário foi o desmantelamento das redes de desinformação atuantes nas eleições brasileiras de 2022. Em fevereiro de 2024, no âmbito da Operação Tempus Veritatis deflagrada pela Polícia Federal do Brasil, o consultor argentino Fernando Cerimedo tornou-se alvo de investigações e ordens judiciais expedidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Cerimedo — proprietário do portal La Derecha Diario e estrategista digital associado a campanhas da extrema-direita na América Latina — foi apontado pelas investigações como integrante do “núcleo de desinformação e ataques ao sistema eleitoral”. Ele foi responsável por realizar transmissões ao vivo (lives) amplamente difundidas durante o pleito de 2022, utilizando relatórios falsos para alegar fraudes inexistentes nas urnas eletrônicas brasileiras. As investigações demonstraram que o conteúdo era produzido em articulação com agentes políticos e militares para instigar atos antidemocráticos e dar suporte narrativo a uma tentativa de golpe de Estado.

Ramificações Eleitorais na América Latina

A atuação de consultores e estruturas de operações psicológicas digitais impactou diretamente diversos processos eleitorais na região:

• Argentina (2023): A vitória de Javier Milei representou a consolidação de um novo ápice da comunicação digital na América Latina. Com uma estratégia intensiva no TikTok, YouTube e apoio de redes ativistas transnacionais (incluindo o aparato de mídia digital ligado a Cerimedo), Milei canalizou o profundo ressentimento com a inflação e a crise econômica, pulverizando partidos tradicionais.

• Chile (Plebitos Constitucionais 2022-2023): A rejeição da primeira proposta constitucional chilenas em 2022 foi fortemente influenciada por campanhas massivas de microtargeting e desinformação sobre direitos de propriedade e plurinacionalidade, demonstrando como ferramentas de pânico social podem travar reformas institucionais profundas.

• Colômbia e Guatemala: Em ambas as nações, episódios eleitorais recentes foram marcados por guerras de narrativa em plataformas digitais, operadas por fazendas de bots e ecossistemas opacos de comunicação no Telegram e WhatsApp.

Quadro Comparativo: Impacto dos Métodos Digitais nas Eleições Recentes

País / Pleito

Liderança / Movimento

Estratégia Predominante

Resultado / Status

Brasil (2022/2024)

Bolsonarismo / Núcleo de Operações

Ataques ao sistema eleitoral via lives e relatórios falsos (Caso Cerimedo).

Derrota eleitoral em 2022; responsabilização judicial do núcleo em 2024.

Argentina (2023)

Javier Milei (La Libertad Avanza)

Redes hiperconectadas (TikTok/X), engajamento radical anti-establishment.

Vitória presidencial e reconfiguração do sistema político.

Chile (2022-2023)

Oposição à Nova Constituição

Microtargeting com temas de pânico moral e direitos de propriedade.

Rejeição do texto constitucional progressista.

EUA (2024)

Donald Trump / Movimento MAGA

Uso intensivo de plataformas alternativas e narrativa de perseguição.

Reorganização das bases e manutenção de forte polarização.

 

6. Considerações Finais e Desafios para a Democracia

Embora a liderança política e a visão estratégica continuem sendo vitais, a utilização de inteligência de dados, redes sociais e microtargeting transformou-se no elemento decisivo dos pleitos modernos.

Para conter a erosão das instituições democráticas, é fundamental que as forças compromissadas com o Estado de Direito desenvolvam estratégias de comunicação igualmente sofisticadas, mas éticas. Trata-se de investir na formação técnica de núcleos especializados e no combate rigoroso à desinformação transnacional.

A superação do populismo extremista exige a compreensão profunda de suas engrenagens — não para reproduzir suas práticas de disseminação do ódio, mas para restabelecer canais autênticos de diálogo e confiança com a sociedade.

INFORMAÇÕES DE EDICÃO E REFERÊNCIAS
Texto original: Omar Rösler (Dezembro de 2020)
Atualização e Revisão Geopolítica: Outubro de 2026

Referência Principal: EMPOLI, Giuliano da. Os Engenheiros do Caos. Editora Vestígio. (Análise sobre o uso de algoritmos, fake news e teorias da conspiração na política contemporânea).

 

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