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domingo, 12 de março de 2017

O VERDE PODE SER UMA ARMADILHA

Neste espaço de livre reflexão e compulsória desilusão, vira e mexe falo de futebol, música e cinema. À exceção do primeiro, que deixou de ser arte, essas artes costumam inspirar metáforas importantes para a reflexão que se pretende neste espaço. O cinema é pródigo em gerar cenários possíveis para a realidade futura. A ficção permite o sonho com possibilidades infinitas, mas muitas vezes as probabilidades de sua concretização são, de certa forma, levadas em conta e, não percebo se de propósito ou por acaso, as possibilidades, de certa forma se concretizam. A música por vezes antecipa cenários que só as mentes visionárias de alguns poetas permitem-se vislumbrar.

Vejam os leitores um exemplo: o filme “De volta para o futuro II” explora o paradoxo de um mundo alternativo criado a partir da mudança do passado pelo personagem Biff Tannen, usando o livro de resultados esportivos que sua versão de 2015 deu-lhe ao retornar ao passado. O mundo alternativo resultante da ação do personagem é deprimente, sujo, governado pelos desonestos. Resumindo, reflitamos, mais que as diversas traquitanas existentes hoje que foram profetizadas pelo filme, a realidade atual também se concretiza como no “futuro” alternativo.

Pois bem, então reflitamos sobre outro exemplo de filme futurista e pensemos o quanto sua profecias eram ou não possíveis em uma realidade futura, não tão futura assim. Lembro que assisti, provavelmente no Cine Vera Cruz, em Uberaba, um filme de 1973 chamado “No Mundo de 2020”, aliás Soylenty Green, estrelado pelo grande canastrão Charlton Heston, aliás John Charles Carter, que eu já vira em “Os 10 mandamentos”, “Ben Hur” e “Planeta dos macacos”. Apesar das caras sempre iguais do ator, lembro que a história do filme impressionou-me muito, descrevendo um mundo ambientado em 2022 (ano em que o Brasil comemorará 550 anos de sua independência), com uma superpopulação (Nova Iorque teria 40 milhões de habitantes), alta desigualdade social e econômica, elevado desemprego e, claro, escassez de alimentos. Comida “de verdade” como xuxu e abobrinha, só para os muito ricos, que são pouquíssimos. Porém a tecnologia procurava resolver esse problema ao desenvolver um alimento sintético, de cor verde, o Soylenty Green do título original. Quem não viu o filme, sugiro que veja e avalie o quanto a ciência e a tecnologia, assim como na revolução verde, carrega uma grande falácia como uma contradição interna. (Tem um trailler aqui: https://www.youtube.com/watch?v=N_jGOKYHxaQ e uma versão completa dublada em português aqui: http://www.dailymotion.com/video/x3dq3ef).

Esse filme marcou minha vida de forma permanente, ainda mais por que naqueles tempos estudávamos nas aulas de geografia no colégio a teoria maltusiana da relação entre crescimento populacional e produção de alimentos, premonitória visão de Thomas Robert Malthus, escrita em 1798, chamada An Essay on the Principle of Population, as it Affects the Future Improvement of Society with Remarks on the Speculations of Mr. Godwin, M. Condorcet, and Other Writers (disponível para dowload em http://www.esp.org/books/malthus/population/malthus.pdf).

Um debate (havia isso nos colégios do meu tempo) em aula avaliava o quanto a tecnologia de produção de alimentos, especialmente a chamada revolução verde, muito aclamada naqueles tempos, contribuía para negar as afirmações de Malthus. Eu sabia, no fundo de meu coração, que a revolução verde tinha gerado o efeito mais direto sobre minha jovem pessoa: o êxodo rural, que trouxe-me da bucólica Fazenda Paraíso para a maior cidade do Triângulo Mineiro daqueles tempos, uma difícil transição. Claro que muitas coisas que reputo como boas derivaram disso, como o fato de eu poder ir ao cinema e conhecer as músicas de emergentes bons artistas que começavam a aparecer.

Um desses artistas, do qual passei a gostar muito, foi Gonzaguinha, aliás Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, que lançou seu primeiro LP em 1973 (http://www.gonzaguinha.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=61&Itemid=89).

Naquele ano, assisti-o pela primeira vez na TV, no programa “Um instante, maestro!” do apresentador Flávio Cavalcanti, aliás Flávio Antônio Barbosa Nogueira Cavalcanti. Era um programa no qual o arrogante apresentador, com a ajuda de seus “jurados”, julgava o trabalho de novos artistas e, caso fosse reprovado, o disco era destruído, ao vivo, em uma guilhotina. Tempos estranhos aqueles, não? Pensemos, reflitamos. Pois bem, o grande Gonzaguinha cantou uma das músicas de seu LP, chamada “Comportamento geral”. Conforme pode-apurar no site Memórias da Ditadura (http://memoriasdaditadura.org.br/artistas/gonzaguinha/)

“Nela, o compositor alfinetava a atitude complacente e medrosa daqueles que abaixam a cabeça para tudo e para todos: “Você deve lutar pela xepa da feira / e dizer que está recompensado”. O júri do programa destruiu sua música e cobriu Luiz Gonzaga Jr. de ameaças. Um dos jurados o chamou de terrorista; outro sugeriu sua deportação.” Acredita-se que essa reação ensandecida ajudou o jovem artista a decolar sua carreira. É história. Porém, nas reflexões que por aqui ando fazendo, outro disco do Gonzaguinha, lançado 20 anos mais tarde, quando ele já tinha viajado fora do combinado, tem uma música mais apropriada. Falo de “Fliperama” (https://www.youtube.com/watch?v=e5dwy4DHZQc) que conheci no LP “Cavaleiro solitário”, de 1993. Mas qual a (re)conexão? Vejamos um trecho de “Fliperama”:

“(…) Eis aí a eficiência da ciência
Eis aí o exemplo exato da mudança
Eis o esforço para a melhoria
Das condições de vida do planeta
O fliperama em nossa mesa
Oferecendo brinquedos eletrônicos
Com flashes via satélite (…)”

Pois, nos debates sobre a revolução verde, muito se falava sobre a contribuição da ciência e da tecnologia para o aumento da produtividade na produção de alimentos, anulando os efeitos da teoria malthusiana. Embora certas técnicas, como o desenvolvimento de variedades mais produtivas (que deu o prêmio Nobel da paz a Norman Ernest Borlaug), tenham contribuído para isso, as principais consequências desse movimento foram um brutal aumento da concentração fundiária, a dependência de sementes modificadas, a inviabilidade econômica dos pequenos proprietários (como era o caso de João Nepomuceno Pantaleão, meu pai), a devastação de florestas, a contaminação do solo e das águas, a geração de problemas de saúde em agricultores e consumidores e, ao contrário do que afirmava que era seu objetivo,não diminuiu a fome no mundo. Talvez a fome de dinheiro de alguns.Esse quadro desolador já tinha sido previsto por Rachel Carson, aliás Rachel Louise Carson, em 1962, no agora célebre livro “Primavera silenciosa” (https://biowit.files.wordpress.com/2010/11/primavera_silenciosa_-_rachel_carson_-_pt.pdf).

Neste link se encontra uma cópia dese livro, em cuja epígrafe lê-se o seguinte:


A primeira parte da frase está parcialmente errada, a segunda, não. O homem tem uma grande capacidade de prever, mas nenhuma vontade de prevenir, pelo menos no sentido coletivo. Pois, então, vejam se já não estamos nós destruindo o mundo, sem dó nem perdão? Muito mais recentemente, uma avaliação apresentada no livro The Age of Sustainable Development de Jeffrey David Sachs, mostra que alguns limites planetários já foram ultrapassados pela humanidade. Um desses limites é o de eliminação de rejeitos químicos na natureza, ou dos fluxos bioquímicos. Outro refere-se à diversidade biológica. Duas gravíssimas consequências da revolução verde. Vale ressaltar que, que eu saiba, Mrs. Carson não ganhou nenhum Nobel, mas morreu de um câncer de mama provocado pela exposição a substâncias químicas tóxicas. Bela ironia desse mundo desilusório…

http://tratarde.org/wp-content/uploads/2011/10/Science-2015-Steffen-PLANETARY-BOUNDARIES.pdf
Os sinais vêm sendo dados ao longo do tempo, em obras de ficção ou não. Em 1972, o chamado Clube de Roma, grupo de cientistas, industriais e políticos, que discutiu e analisou os limites do crescimento econômico frente ao uso crescente dos recursos naturais, lançou um relatório chamado ” Os limites do crescimento” (https://pt.scribd.com/doc/218016244/Limites-Do-Crescimento#). Mais ou menos pela mesma época, o matemático romeno Nicholas Georgescu-Roegen propôs uma nova forma de pensar a economia, o Decrescimento Econômico, ideia ousada e contrária a toda a teoria econômica desenvolvida até então . Howard Thomas Odum, embora com foco nos fluxos energéticos também postula que a lógica econômica do crescimento eterno viola as leis de uma natureza com limites. No Brasil, um seu discípulo, Henrique Hortega, é um defensor da ideia de “consumo consciente”. Mais recentemente, pessoas como Serge Latouche e Joan Martinez Alier, entre outros, apresentam o conceito de Economia Ecológica, cujas bases são (https://pt.wikipedia.org/wiki/Economia_ecol%C3%B3gica):

1- A economia é um subsistema da natureza e não o contrário;
2- Assim como a natureza, o crescimento da economia e de seu produto (PIB) também tem limites biofísicos e não pode aumentar indefinidamente;
3- Considerando os limites biofísicos, a humanidade deve se desenvolver dentro de uma escala ótima e sustentável;
4- Para satisfazer as necessidades das gerações atuais e futuras, a distribuição justa de recursos é imprescindível – uma vez que a economia e o produto (PIB) não podem crescer indefinidamente;
5- Bens e serviços ecossistêmicos são muitas vezes públicos, não-rivais e não-exclusivos e mecanismos de livre mercado não são suficientes para geri-los adequadamente.


Essa reflexão desiludida sobre economia, PIB, crescimento populacional, mudança climática talvez venha ser aprofundada no futuro, embora, assim como Edu Lobo, aliás Eduardo de Góes Lobo, dizia que moda de viola não dá luz a cego, ouso dizer que reflexões, mesmo agudas, não alimentam ninguém, talvez alimentem crônicas desilusões . Por ora, voltamos a “De volta para o futuro”. Ultimamente, acordo pela manhã e, a cada dia mais, com a impressão de que estou vivendo no mundo alternativo criado por Biff Tannen. Por acaso, serei só eu a ver semelhanças entre Biff Tannen e o Sr. Donald Duck Trump? Minha desconfiança riobaldiana me diz que este senhor da direita usou aquele livro de resultados esportivos pra criar este universo alternativo em que acordo todos os dias achando que estou em um pesadelo. A realidade imita a arte ou a arte cria a realidade?





Fonte: https://rpcdblog.wordpress.com/2017/03/11/o-verde-pode-ser-uma-armadilha/

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Um triste espetáculo em 10 atos


ECOAGÊNCIA:

Durante a reunião do Consema/RS que aprovou o Zoneamento Ambiental da Silvicultura, viu-se uma disputa barulhenta e pouco digna, como nas audiências públicas.

Por Ana Terra de Oliveira*

Ato 1: O local é o mesmo da sexta-feira, 04/04, a
Secretaria Estadual do Meio Ambiente (Sema) e (com algumas variações)
os personagens também. Pouco depois das 14h, entra no auditório do 11º
andar o procurador Otaviano Brenner de Moraes, agora no cargo máximo
da Sema. O ambiente está um pouco tenso, há ansiedade no ar,
ambientalistas com faixas e integrantes da Força Verde (nome fantasia
da velha Força Sindical) se dividem contra e a favor ao zoneamento
como está sendo apresentado para votação. Casualmente ou não, de
camiseta verde (é claro) e botons, os sindicalistas ao lado de
prefeitos, ex-prefeitos e vereadores do interior e alguns deputados
(dois no caso) se acomodam (estrategicamente) no lado direito do
auditório.

Ato 2: Para surpresa de alguns, o secretário apresenta, para os
presentes (auxiliado pelo power point) durante uns 15min o que a
legislação diz sobre vista do documento e vista do processo. Uma
pequena provocação à ONG Agapan, responsável pelo adiamento da reunião
que decidiria sobre a votação do Zoneamento da Silvicultura (em sua
versão alterada, depois de passar pelas Câmaras Técnicas do Conselho
Estadual do Meio Ambiente, onde a maioria acabou aprovando a versão
menos restritiva), ao pedir vista do documento na reunião anterior. O
ambientalista Flávio Lewgoy manifestou-se depois, dizendo que a Sema
está em desvio de função ao se posicionar contra a ação da ONG
ambientalista (de protelar a votação) e se posicionar sobre o
processo, abdicando de sua posição de imparcialidade, como
representantes máxima no Conselho.

Ato 3: Mal tinha sorvido o primeiro café, o secretário, se espanta e
demonstra seu desagrado ao receber um mandado de segurança,
suspendendo as deliberações do Conselho e dando um prazo de 15 dias
para apresentar e discutir as alterações propostas no Zoneamento
alterado, e consideradas vitais pelos ambientalistas e alguns
conselheiros. "O Zoneamento Ambiental da Silvicultura da forma como
está sendo apresentado já nasce morto", comenta em um pequeno grupo, o
representante do Ibama no Conselho, Marcelo Machado Madeira. "Ele
retira quase todas as restrições e limites objetivos (e numéricos),
como índices de vulnerabilidade por Unidade de Paisagem Natural (e que
constavam no trabalho inicial dos técnicos da Fepam e da Fundação
Zoobotânica); o percentual de ocupação das UPNs e o tamanho e a
distância entre os maciços, que mexem na estrutura do zoneamento",
explica. Segundo Marcelo, estas questões formatavam o coração do
zoneamento original.

Ato 4: Parte da civilidade se perdeu depois do ato anterior e aos
poucos foram se revelando as faces mais dramáticas da disputa. Sim
porque o que se seguiu foi uma disputa barulhenta e pouco digna, já
antevista nas audiências públicas onde o zoneamento foi apresentado.
Ativistas da Força Verde (repetindo: nome fantasia da Força Sindical)
começaram a ironizar as faixas abertas pelos ambientalistas no local.
Do lado esquerdo uma faixa dizia "Conselheiros, certas decisões não
devem ser pautadas pelo lucro. Aja com responsabilidade. A saúde de
nossas crianças está em tuas mãos. Vida é biodiversidade". Do lado
direito, a faixa trazia nomes de espécies da fauna e flora ameaçados
pelos maciços de eucaliptos. A manifestação silenciosa foi quebrada
pelo comentário de um dos mais ruidosos representantes da Força Verde,
e que despertou risos nos seus parceiros, "o 'veado' eu já estou vendo",
referindo-se aos jovens de cabelos encaracolados e gargantilhas de
sementes, que seguravam as faixas.

Ato 5: Quem é esse? Pergunta a vereadora de Butiá Irani Medeiros,
quando o ex-geneticista Flávio Lewgoy (um dos fundadores da Agapan) e
um dos ambientalistas mais respeitado do país ocupa novamente o
microfone para defender a suspensão das deliberações pela Justiça.
Inconformada, reclama. Começa um bate boca e ameaça de empurra-empurra
entre um ambientalista e um indignado integrante do grupo
pró-silvicultura: "É um absurdo, querem discutir mais o quê? Eu estive
em todas audiências públicas, onde vocês estavam?" grita. E outro
emenda aos gritos, "vai cuidar dos netos", dirigindo-se à Flávio
Lewgoy. Ironias à parte será que ele, Lewgoy não estava fazendo isso
mesmo, naquele instante, cuidando do futuro dos netos?.

Ato 6: Depois de um certo tumulto, os conselheiros representantes das
ONGs e defensores do zoneamento original da Fepam se retiram da
reunião do Consema. O deputado Berfran Rosado, também se retira. Agora
estudante de pós-graduação de gestão ambiental e defensor incansável
da silvicultura (ele fala com propriedade de quem já conheceu a sede
de uma empresa papeleira em viagem brinde à Finlândia, junto com
outros colegas e vários colunistas e jornalistas gaúchos). Um pouco
depois o também deputado Nelson Hartner (mais contido do que nas
audiências públicas) em versão mais light, também deixa o local. Não é
novidade para ninguém que as empresas de celulose contribuíram para as
campanhas eleitorais de vários partidos. A seguir, começaria a luta
nos bastidores da Justiça e um jogo de cena patético nos corredores da
Sema.

Ato 7: Articulações, telefones celulares em punho, durante as quase
quatro horas seguintes o que se viu foi um grupo e conselheiros
aguardando pacificamente (o auditório já estava praticamente vazio do
lado esquerdo. Os Conselheiros restantes ficam à vontade confabulam, trocam figurinhas, ironizam e criticam as ONGs em revezamento sucessivo ao microfone e sob a complacência da Mesa (agora comandada pelo secretário-substituto da
Sema, Francisco Simões Pires). Exceção feita à visível inconformidade
pelos encaminhamentos da Mesa, do Conselheiro do Ibama, Marcelo
Machado Madeira, que vencido, após pedido de teto para finalizar a
reunião, deixaria o local em protesto.

Ato 8: Como dizia uma das raras técnicas da Fepam
presença discreta (quase escondida) na reunião, o mundo dá muitas
voltas. Acostumada às mudanças sazonais de governos, ela destacou a
pressão e perda das funções originais, às quais técnicas antigas da instituição (algumas delas responsáveis pelo primeira versão do Zoneamento) estão sendo alvos. Mas as voltas que o mundo dá também muda de lado outros personagens. Circulando pelos corredores familiares da instituição, agora do outro
lado do balcão, um especialista na área ambiental, agora trabalhando
para as empresas de celulose, está à vontade.

Ato 9: A situação ficou constrangedora (para poucos é claro) quando
todos os pareceres das Câmaras Técnicas do Consema, já conhecidos de
todos os integrantes, foram reapresentados para ganhar tempo e tentar
anular a medida judicial obtida pelas ONGs. Depois de um intervalo,
"para telefonar e avisar que a reunião prossegue", como orientou
Francisco Simões Pires, a titular da Fepam, com a maior placidez
propõe aos conselheiros presentes a apresentação "e discussão ponto a
ponto" do zoneamento original. Mais tempo. O conselheiro do Ibama,
pergunta então se não haverá teto para encerrar a reunião "até que
chegue uma liminar" permitindo a votação. "Você é que está afirmando
isso", retruca Francisco Simões Pires, enquanto se ouviam risos
abafados na platéia, mas ele ressalta depois que "assim como as ONGs
recorreram à Justiça na defesa dos seus interesses", o direito
democrático permite a mesma tática para na defesa dos interesses
contrários.

Ato 10: O último. São 18h e 39min de quarta-feira (09/04/08).
Prevenidos, alguns conselheiros deixam o prédio para retirar os carros
antes que as garagens fechem, e antes que a esperada liminar chegue.
Outros, simpatizantes do zoneamento oficial vão buscar lanches
(os lanches sempre chegam, a exemplo do que ocorreu nas audiências
públicas). No auditório, se espalham entre o piso e as cadeiras
ocupadas pelos integrantes do Consema, copos plásticos sujos de café.
O resto já se sabe, a matéria já estava quase pronta para edição.
Basta ler os jornais do dia seguinte (10/04).

*A autora é jornalista e ambientalista.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Tribunal de Justiça suspende plantio de eucalipto em município de SP


EcoAgência:

A Defensoria Pública do Estado de São Paulo suspendeu o plantio de eucalipto no município de São Luiz do Paraitinga, localizado no interior do estado. Por meio de uma liminar do Tribunal de Justiça, a Defensoria proíbe o plantio e replantio da árvore até que seja feito um estudo de impacto ambiental nas áreas. O desrespeito da decisão pode resultar em multa diária de R$ 10 mil.

Segundo o defensor público e autor da ação, Wagner Giron, o eucalipto é responsável por graves danos ambientais e pelo êxodo rural na região.

"Eles [os produtores] não respeitam norma ambiental nenhuma. Plantam as árvores em topos de morro, em matas ciliares, invadindo mananciais e secando cursos d'água. Aqui já houve intoxicação humana, mortandade de peixes e animais. Tudo em virtude desse desrespeito às normas ambientais".

A expansão do eucalipto também é responsável por secar as fontes de água da região. Uma árvore adulta da espécie consome até 30 litros de água por dia.

As empresas Votorantim Celulose e Papel mais a Suzano Papel e Celulose são as responsáveis pelo cultivo do eucalipto geneticamente modificado na região.

Wagner Giron afirma que o plantio da espécie começou na década de 70 e hoje cobre aproximadamente 20% do município. A expansão do cultivo foi feita sem a realização de um estudo de impacto ambiental.

Para denunciar os danos causados pela monocultura de eucalipto, as mulheres da Via Campesina - organização que reúne movimentos sociais dos quatro continentes - realizaram na última semana, uma manifestação na empresa sueco-finlandesa, Stora Enso, no estado do Rio Grande do Sul.