quarta-feira, 12 de março de 2008

Uma em quatro jovens americanas tem DST, diz governo dos EUA

BBC:

Uma em cada quatro adolescentes de 14 a 19 anos de idade apresenta algum tipo de doença sexualmente transmissível (DST) nos Estados Unidos, segundo um estudo do Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) do governo americano.

Ao todo, o centro estima que cerca de 3,2 milhões de jovens estão infectadas com pelo menos uma das doenças sexualmente transmissíveis mais comuns: papilomavirus humano (HPV), clamídia, herpes simples e tricomoníase.

O estudo apresentado na Conferência Nacional de Prevenção de DSTs, em Chicago, mostra que a incidência dessas doenças é bem mais alta entre as adolescentes afro-americanas (48% estão infectadas com pelo menos uma delas) em comparação com as jovens brancas e as de origem mexicana (apenas 20%).

Este foi o primeiro estudo a examinar a prevalência da combinação das DSTs mais comuns entre as adolescentes em todo o país.

A análise foi feita sobre dados coletados pela Pesquisa Nacional de Exame de Saúde e Nutrição de 2003 e 2004.

Representatividade nacional

Os autores estudaram informações sobre uma amostra de 838 adolescentes que teriam representatividade nacional.

“Os dados demonstram os significantes riscos para a saúde que as DSTs apresentam para milhões de jovens mulheres neste país a cada ano”, disse Kevin Fenton, diretor do Centro para HIV/AIDS, Hepatite Viral, DSTs e Prevenção de Tuberculose do CDC.

Segundo o estudo, 15% das jovens apresentavam mais de uma infecção. A mais comum era por HPV – vírus associado a verrugas genitais e câncer cervical – encontrado em 18,3% das jovens, e clamídia, encontrado em 3,9% das adolescentes.

“Levando-se em conta que os efeitos das DSTs para as mulheres – da infertilidade ao câncer cervical – são particularmente severos, os exames de rotina para DSTs, vacinas e outras estratégias preventivas para as mulheres sexualmente ativas estão entre as prioridades do setor de saúde pública.”

O centro ainda recomenda a vacinação de meninas de 11 e 12 anos contra o vírus HPV tipos 16 e 18, responsáveis por 70% dos casos de câncer cervical e 6 e 11, responsáveis por quase todas as verrugas genitais.

Os autores notam que a incidência de doenças sexualmente transmissíveis entre as jovens pode ser ainda mais alta, já que não foram realizados exames de sífilis, HIV e gonorréia – mas a prevalência dessas doenças costuma ser baixa nesta faixa etária.

“Os altos índices de infecção de DSTs entre as jovens mulheres, particularmente as jovens afro-americanas, são sinais claros de temos que continuar a desenvolver modos de alcançar aqueles que sofrem maior risco”, disse John M. Douglas, diretor da Divisão de Prevenção das DSTs do CDC.

Ao todo, metade das jovens no estudo disse ter feito sexo. Entre elas, a prevalência das infecções foi de 40%.

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças diz que apóia um amplo programa de prevenção, que inclui a abstinência sexual, a monogamia e o uso correto de preservativos entre as pessoas sexualmente ativas para diminuir o risco de contágio.

segunda-feira, 10 de março de 2008

A Hidra online na batalha pela WikiLeaks

CARTA CAPITAL:

Guilherme Felitti

Conhece o WikiLeaks? Confesso que, antes da ação movida pelo banco Julius Baer Bank que culminou no congelamento do seu endereço, nunca havia ouvido falar no serviço. Foi o próprio banco que aproximou o serviço de mim e de outros milhões de usuários.

Basicamente, a WikiLeaks usa a plataforma de compartilhamento de conteúdo Wiki, empregada com amplo sucesso para tornar a Wikipedia uma enciclopédia pública e coletiva, para que documentos confidenciais de empresas ou governos, principalmente os que apontem algum tipo de irregularidade, sejam "vazados" para a internet.

Na Wikipedia, a comunidade controla a qualidade dos verbetes comparando diferentes edições de usuários e, em muitos casos, revertendo alterações que culminem em um verbete menos preciso. A graça da WikiLeaks é exatamente o contrário – o serviço não guarda registro algum do responsável por vazar os documentos, o que faz com que o anonimato confira um tom de denúncia à publicação.

É possível navegar pelo 1,2 milhão de documentos confidenciais, segundo o próprio serviço, pelas biografias dos envolvidos, os perfis de instituições envolvidas em escândalos ou pelos países de origem – o Brasil está lá, minguado de denúncias.

Documentos confidenciais que ligam o Julius Baer Bank a práticas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas em contas nas Ilhas Cayman em nome de seus clientes foram vazados, possivelmente por alguém funcionário do banco, para a WikiLeaks, o que motivou o banco a acionar a Justiça dos Estados Unidos pedindo a interdição do site - qualquer semelhança com o caso YouTube-Cicarelli no Brasil não é mera coincidência.

Na primeira decisão, veio a explosão de popularidade. Se pretendia tirar os documentos do ar e limpar a rede de qualquer vestígio das provas de corrupção, o Julius Baer Bank se viu na situação exatamente oposta. Assim que a decisão da Justiça exigiu que o domínio Wikileaks.org fosse congelado e o nome de seus responsáveis fossem revelados à Justiça, a WikiLeaks começou a experimentar uma explosão de procura motivado pela atenção da mídia que o caso ganhou.

A primeira grande conseqüência foi quase simultânea à ordem judicial. Usuários pelo mundo remontaram a Wikileaks, agora fora do seu domínio original, em versões idênticas às originais rodando em dezenas de servidores – naquele ponto, o serviço já tinha assumido seu lado Hidra.

Só que o Julius Baer Bank não é nem um Hércules. A segunda grande conseqüência veio da mesma corte responsável pela condenação original. Ao retirar todas as imposições judiciais duas semanas mais tarde em um discurso desconcertantemente preciso, o juiz Jeffrey White classificou suas próprias ordens como sem sentido e admitiu que, em razão delas, percebeu-se um "efeito exatamente contrário do pretendido". O PDF com a decisão na íntegra pode ser baixado no Citizen Media Law Project.

Ao tentar impedir que um grupo restrito de usuários (os que já conheciam e acessavam a WikiLeaks) colocassem as mãos nos documentos confidenciais, o banco atraiu a atenção da mídia tradicional e da blogosfera, dando ao serviço de vazamento de dados uma inesperada visibilidade, algo que uma simples consulta ao Google News e o gráfico do serviço de tráfego online Alexa indicam com clareza - perceba o pico de acesso da segunda semana de feveiro em diante.

A bandeira branca subiu três dias após a segunda decisão, que devolveu o domínio e permitiu que a WikiLeaks voltasse a funcionar normalmente, com o Julius Baer Bank desistindo do processo – uma imagem de arquivo sem muito sentido comemora o fim dos problemas judiciais na capa do WikiLeaks, com engravatados levantado os braços em êxtase.

A incapacidade de alguns grupos, sejam eles empresas ou governos, de entender que a internet não é passível de um controle centralizado, como o que uma decisão judicial pretende, decorrem em pataqüadas como a que se envolveu o Julius Baer Group. Ninguém pede a um banco, envolvido até o pescoço em dados confidenciais e informações altamente sigilosas sobre transações financeiras, que abrace a transparência exigida pelo poder da mobilização anônima da internet.

É preciso, porém, ter o mínimo de conhecimento sobre como um meio funciona antes de sair, com a truculência de um touro, contra quem vive ali. Pelos documentos do banco vazados anonimamente, possivelmente os mais acessados da WikiLeaks após o escândalo, independente de onde ela esteja hospedada, dinheiro não vai faltar a instituição para a contratação de alguns consultores.

O Julius Baer Group resolveu jogar pedras no vespeiro e não teve pernas para conseguir correr. Agora, é lembrar-se do caso enquanto se arranca os espinhos do corpo.

Mergulho na América do Sul

BBC:

Na semana em que celebra 70 anos, a BBC Brasil está publicando uma série especial que investiga a relação do Brasil com seus vizinhos sul-americanos e percepção que políticos, especialistas, empresários e a população nas ruas têm dessa relação.

A série levou mais de três meses para ser produzida e envolveu o trabalho de oito repórteres, que visitaram todos os países do subcontinente. O trabalho gerou quase 30 vídeos e dezenas de textos, que estão sendo publicados ao longo desta semana.

Da apuração surge um quadro tão complexo como a própria região, com opiniões diversas, e às vezes oposta, sobre o papel e a posição do Brasil na América do Sul.

Nossa repórter Andrea Wellbaum, por exemplo, mostra que na Argentina a invasão das empresas brasileiras está criando menos gritaria do que a onda de importações da década de 90 gerou.

No Peru, a repórter Márcia Freitas verificou que há uma posição ambígua em relação à estrada interoceânica, que vai ligar a região brasileira da Amazônia ao Pacífico. Para os peruanos, a construção é positiva, mas eles temem que sem resolver problemas políticos, alfandegários e de acordos comercias, a estrada poderá produzir muito menos resultados do que o esperado.

Na isolada Guiana, o repórter Daniel Gallas conferiu como o país está internacionalizando sua parte da Amazônia e como, consumida por crises internas, sua população está de costas para o Brasil.

De todos os países da região, da fronteira com o Paraguai aos escritórios da capital chilena, da Venezuela de Hugo Chávez ao Equador de Rafael Corre, emergem histórias interessantes, curiosas e reveladores sobre como o gigante brasileiro é visto por seus vizinhos.

São essas histórias e reportagens que a BBC Brasil publica nesta semana.

Edson Porto
Editor-chefe

CLIQUE NO TÍTULO DESTA POSTAGEM PARA LER AS MATÉRIAS.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Os onze maiores desmatadores

CARTA CAPITAL:

Autuados pelo Ibama, eles são acusados de derrubar mais de 50,4 mil hectares de floresta amazônica ilegalmente. A área é superior à da capital gaúcha, Porto Alegre, e corresponde a mais de 61 mil campos de futebol, nas maiores dimensões permitidas pela Fifa.

1. Rosana Sorge Xavier. Devastou 9,4 mil hectares no Mato Grosso. É o equivalente a 11,4 mil campos de futebol, quase a área da capital capixaba, Vitória.
2. Margarida Maria Barbosa de Oliveira. Responsável pelo desmate de 6,5 mil hectares no Pará.
3. Mário Quirino da Silveira. Desmatou 5,3 mil hectares no Mato Grosso.
4. João Ismael Vicentini. Derrubou 4,3 mil hectares de floresta em Mato Grosso.
5. Agropecuária Jarinã S/A. A empresa também desmatou uma região com extensão de 4,3 mil hectares no Mato Grosso.
6. Salete Maria Ruaro Aernoudts. Devastou 4 mil hectares de floresta amazônica.
7. Fernando Sampaio Novais. Derrubou 3,5 mil hectares em Mato Grosso.
8. Sebastião Lourenço de Oliveira. Desmatou 3,5 mil hectares no Pará.
9. Jair Roberto Simonato. Responsável pelo desmatamento de 3,4 mil hectares no Mato Grosso.
10. Fernando Conrado da Silva. Devastou 3,3 mil hectares no Pará.
11. Leonidio Benedito das Chagas. Derrubou 2,9 mil hectares de floresta no Mato Grosso.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Milho transgênico só interessa às multis

DIÁRIO GAUCHE:

Um dos principais dirigentes e pensadores do MST, João Pedro Stédile, criticou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta quinta-feira, 21, ao abordar a questão dos transgênicos. "Já avisei ao Lula. Lula, cuidado com o milho transgênico. Só interessa à Monsanto e à Bayer. Lula, você vai entrar para a história como puxa-saco das multinacionais se aprovar os transgênicos", avisou. Stédile não poupou críticas ao presidente Lula, que o MST ajudou a eleger. Disse que a situação piorou no seu governo e que não houve avanços na reforma agrária nos últimos anos. As informações são das agências Estado e Reuters.

No último dia 12, o Conselho Nacional de Biossegurança (CNBS) aprovou o plantio e a comercialização de duas variedades de milho transgênico no Brasil. As variedades aprovadas foram da Bayer CropScience e da Monsanto. O milho transgênico é o terceiro produto agrícola alterado geneticamente a receber autorização de plantio no Brasil, depois da soja e do algodão, ambos com patente da Monsanto.

Movimentos, como o MST e a Via Campesina, representados por Stédile, criticam a posição do governo sob o argumento de que não há estudos completos que garantam que as variedades de milho são seguras à saúde e ao meio ambiente.

"Faço parte da geração que se iludiu com o 'Lula lá'", disse Stédile. Ele disse ainda que "nos últimos seis anos, aumentou a concentração da propriedade da terra". E completou: "Está havendo no Brasil uma contra reforma agrária. Com um agravante, parte das grandes propriedades que estão se acumulando são do capital estrangeiro".

Ele afirmou ainda discordar dos que dizem que Lula "abriu as torneiras" para o movimento. Segundo ele, o dinheiro que os assentamentos recebem é usado na alfabetização de adultos no meio rural."Esse papel não é do MST. É do Estado. Mas como o Estado está debilitado e não chega às zonas mais pobres, faz convênio com o MST. Aí chega um deputado e diz que o MST recebe R$ 20 milhões, mas não diz que o movimento recebe para alfabetizar jovens e adultos", justifica. Ele negou que essa formação tenha viés ideológico.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

SOJA TRANSGÊNICA

A idéia é bastante simples: um tipo de semente de soja foi modificada geneticamente por uma empresa (Monsanto) para resistir a um tipo específico de veneno (herbicida).

Na lavoura onde você planta a semente geneticamente modificada, ao ser aplicado esse tipo específico de herbicida (à base de glifosato) morrem todas as ervas daninhas, sobrevivendo apenas as plantas de soja (dá uma olhada no texto da Monsanto: http://www.monsanto.com.br/sementes/soja_rr/oque/oque.asp).

Com isso você teria mais produtividade e ganharia mais dinheiro.

Com base nessa promessa a maioria dos produtores de soja abandonou as sementes convencionais e passou a utilizar a semente da Monsanto.

Alguns anos após, a dura realidade: as ervas daninhas antes eliminadas pelo pesticida da Monsanto gradativamente se tornaram mais resistentes. Com isso as quantidades de pesticida tiveram que aumentar também gradativamente, eliminando a vantagem financeira inicial.

Além disso a Organização Mundial da Saúde, após várias análises, passou a considerar o tal pesticida altamente tóxico, prejudicial ao consumo humano e animal (dá uma olhada: http://blogoleone.blogspot.com/2008/02/
oms-considera-altamente-txico-herbicida
.html#links).

Conclusão: novamente a ganância por lucro fácil e rápido fala mais alto que a saúde da população.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Não há possibilidade de desenvolvimento sustentável

Doutor em Ecologia, analista ambiental do Ibama e professor da Universidade Católica de Brasília (UCB), Genebaldo Freire esteve no Ceará ministrando a palestra ´Desenvolvimento Sustentável - Arrogância e Utopia´. Nesta entrevista, ele fala sobre mitos e fatos do futuro do ser humano na Terra

´Desenvolvimento Sustentável – Arrogância e Utopia´. O que quer dizer?

Significa que, mantidos o cinismo das formas de produção, crescimento populacional, aumento do consumo e políticas totalmente afastadas da relação ser humano-ambiente, não há a menor possibilidade de desenvolvimento sustentável, nem teoricamente. Esse termo é extremamente arrogante. O que precisamos é de ´Desenvolvimento de Sociedades Sustentáveis´. Essa história de ´salvar o planeta´ é bobagem. Primeiro porque o planeta não está em risco, segundo porque não teríamos condições de salvá-lo, nem ele precisa disso. O planeta sempre esquentou, passou por períodos de glaciação e vai continuar sua escalada. Daqui a 7,5 bilhões de anos, o sol apaga, congela. Ele tem seus próprios mecanismos de regulação.

Então a Terra não está em risco como se propaga?

O que está em risco é a sociedade humana, conceitos de bem-estar, democracia, respeito ao próximo, organização social. Isso está ameaçado porque tivemos uma educação que nos remete a sermos consumidores úteis e não a pensarmos a relação com o ambiente. Somente nos últimos tempos, com o aquecimento global, percebemos a necessidade de mudanças radicais em nosso estilo de vida.

E o aquecimento global?

A Universidade de Columbia publicou, em setembro, o índice de vulnerabilidade de 100 países. Lugares que estão mais em cima, como Finlândia, Islândia, Noruega e Dinamarca, estão menos vulneráveis. Mas o Japão, que é uma ilha, está em sexto lugar na lista. Por quê? Porque há mais de 15 anos eles investem em adaptações para se ajustar ao aquecimento global. A Holanda, que tem 57% de suas terras abaixo do nível do mar, está em 14º lugar. Países como Estados Unidos, Alemanha e França estão investindo nisso porque sabem o que pode acontecer nos próximos 10, 20, 50 e 100 anos. O Brasil está em 56º lugar em vulnerabilidade. Isso mostra que não temos alta governança.

Alta governança?

Isso mesmo. Quer dizer que, apesar de sermos o oitavo país mais rico do mundo, temos baixa capacidade de respostas. Isso acontece por diversos motivos, mas, principalmente, pela burocracia e corrupção. Temos tecnologia, cientistas brilhantes e o mapa de vulnerabilidade já está feito. Mas falta a parte seguinte, que são os planos de adaptação e mitigação. Estamos parados em relação a isso. Sabemos que terras boas vão virar semi-áridas e, depois, áridas. Sabemos que as regiões que mais vão sofrer no Brasil são Nordeste, Sul e Sudeste, pelas mudanças profundas no regime de águas. Fortaleza, por ser litoral e estar no Nordeste, está dentro da área de altíssima vulnerabilidade. Disponibilidade de água, perda de safras e migração precisam ser pensadas. Até 2050, quem está hoje com 10 anos de idade, vai passar sufoco, caso não haja planejamento agora. Não há necessidade de pânico, mas é preciso competência, envolvimento e seriedade.

Então o nosso fim pode ser adiado?

A destruição é inevitável. O que é evitável é apressar o processo para ficar mais tempo aqui e evoluir. Daqui a três bilhões de anos a Terra não vai mais reunir condições para que nossa espécie continue, pelo menos como é hoje. A evolução biológica não acompanha a evolução cultural. A cultural é muito mais rápida. Biologicamente levamos milhares e milhares de anos para incorporar adaptações, digamos, casuais, de uma mudança na composição química da atmosfera. E, se não tivermos mais 21% de oxigênio, mas 22%? Todos os seres humanos morrerão. Não há como se ajustar caso a mudança seja rápida. Biologicamente não teremos resposta. O grande fascínio da vida são os mistérios que nos cercam, a contemplação, a reflexão sobre esses mistérios. Infelizmente as políticas não têm tratam disso.

A conscientização pode minimizar os impactos?

Não acredito em grandes catástrofes ecológicas, mas muitas populações irão migrar passando fome, aliás, já está acontecendo. São 36 nações em guerra por causa de água, com recursos minados pela corrupção. O grande papel do movimento ecológico foi trazer a análise sistêmica, ver o todo, para que não se perca no tempo apenas ganhando dinheiro e comprando coisas. A indústria do entretenimento, por exemplo, mantém a pessoa presa diante da televisão, sem tempo para meditar, refletir ou buscar vida plena. As pessoas ficaram ocupadas em ganhar dinheiro e esse tipo de valor corrompeu demais, gerou valores perigosos. Ninguém poderia imaginar, há 20 anos, que alguém tivesse coragem de falsificar medicamentos para pessoas com câncer ou colocar soda cáustica em leite servido para idosos e crianças. Comportamentos dessa natureza são sintomas de afastamento da missão maior. Hoje, o grande desafio da educação é trabalhar valores, ética. Quando eu vejo educação ambiental centrada em coleta seletiva, despoluição, hortas, digo que é pouco. Temos que fazer isso e muito mais. Isso representa apenas 5% do problema.

É como ampliar a idéia de causa e efeito?

Exato. É preciso saber que são necessárias mudanças mais profundas que simplesmente proteção da camada de ozônio, economia de água ou energia elétrica. Claro que são fatores importantes, complementam elementos de gestão ambiental. Mas, o que se exige hoje, está muito além de separar e reciclar lixo. É preciso repensar o consumo. Há necessidade de recusar certas coisas. E isso não se faz de uma hora para outra. Estamos em processo evolucionário, no topo de mudanças e transformações que vão mexer com estilos de vida. As empresas, no início, incorporaram a questão ambiental forçadamente. Agora fazem porque dá lucro, quando elas economizam matéria-prima, quando melhoram o marketing ambiental. É preciso ter estados, empresas, pessoas que incorporem a necessidade de mudar a relação com o ambiente. Isso demora algumas décadas, mas acredito que estamos em bom caminho.

Para onde caminha a humanidade?

Vivemos um período fascinante. Talvez o mais exuberante da escalada humana na Terra. Porque estamos mudando paradigmas e o aquecimento global veio facilitar isso. Ganhamos esqueleto ósseo e corpo físico recheado de água e proteínas para vivermos a experiência humana por determinado período de tempo. Nossa experiência é para a evolução. Nosso papel é produzir transformações. Todo o universo está assim. Mas nosso equipamento sensorial é bruscamente atrapalhado pela religião e educação. Tem um pensador inglês que diz que o ser humano nasce ignorante, mas são necessários vários anos de educação para que ele se torne estúpido. A educação como está virou comércio e com baixíssimo potencial de preparar pessoas tolerantes, compreensivas, éticas, perceptivas, que tenham clareza do que vieram fazer aqui. Tudo embevecido pelo consumismo. A grande preocupação é reunir dinheiro para comprar coisas e pagar impostos. Depois envelhecem, entram em depressão e morrem. A vida é mais que isso e o tempo curto para vivermos essa experiência. É preciso aproveitar intensamente cada dia, minuto, segundo; ser consciente do próprio papel, dizer o que pensa, discordar elegantemente e contribuir.

O homem ainda tem a ilusão de ser o centro do Universo?

Temos um milhão de anos sobre a terra. Os gatos têm 35 milhões de anos; as lagartixas, 50 milhões; as samambaias, 400 milhões de anos. Imaginar que o planeta foi preparado para receber a espécie humana é arrogância e falta de percepção do que significa a vida na Terra. Somos apenas elo integrante da teia da vida que não deveria ser chamado planeta Terra, mas sim, planeta ´Vida´. Tudo aqui foi costurado, programado, concebido para abrigar vida. A vida no planeta é tão exuberante que, se um prédio ficar sem manutenção alguns anos, a vegetação toma conta. Você encontra uma flor emergindo no meio de um asfalto a 50º C. A Terra foi concebida para abrigar vida. Nós, seres humanos, somos, apenas, mais uma espécie. Fomos guinados a sermos a coisa mais importante do planeta por meio das religiões, erro que hoje elas próprias tentam consertar.

Erros que levarão tempo para serem reajustados?

O surgimento da nossa espécie, a partir do momento em que nos organizamos em sistemas urbanos, tornou nossa relação complexa. Agredimos muito, nos trancamos em paredes e achamos que, por meio de tecnologias, resolvemos tudo. É preciso perceber como as coisas funcionam. Não estamos isolados. Nosso corpo é formado por milhares de sistemas dentro de sistemas. Átomos que formam moléculas, células e tecidos; que formam o indivíduo humano, sociedades, populações, biota, ecossistema global, sistema solar, galáxia e cosmos. E, se regredir abaixo do átomo, tem os níveis de energia. Somos macro e micro ao mesmo tempo. Tanto religião quanto educação, enfiaram em nossas cabeças que somos indivíduos. Não! Somos elementos de um todo. Ao mesmo tempo pequenininhos e gigantescos. Não somos os donos da história. Temos, também, nossa importância cósmica. Não falamos mais em educação ambiental para pensar globalmente e agir localmente. É muito estreito. Tudo influencia o todo. Precisamos pensar cosmicamente e agir global e localmente.

NATERCIA ROCHA
Repórter