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quinta-feira, 13 de junho de 2024

ENCURRALADO

ENCURRALADO

(outra forma de contar a mesma coisa) 

 

Um amigo assumiu a direção de hospital psiquiátrico e me convidou para visitá-lo.

Em uma manhã com o céu encoberto e ameaçador, como iria passar por perto, decidi fazer a visita. 

Estacionei o carro em uma vaga bem em frente ao hospital e me dirigi à portaria do prédio, que ficava no final de uma fileira de árvores raquíticas. 

O silêncio era quase total, a não ser por estalidos que a velha casa que servia de manicômio emitia eventualmente. 

No que parecia ser uma recepção havia um velho balcão e em cima dele uma xícara de café ainda fumegante. 

Esperei um pouco e, como não vinha ninguém, apertei o botão de uma campainha de mesa, tipo sineta. 

O som da campainha reverberou pela casa e retornou com um eco. Ninguém se apresentou. 

Como não dispunha de muito tempo decidi entrar por um corredor com várias portas em ambos os lados, para ver se encontrava alguma pessoa. 

Quando estava no fundo do corredor escutei um ruído atrás de mim e, assustado, me virei rapidamente para ver o que era. 

Na minha frente estava um homenzarrão de aproximadamente dois metros de altura portando na mão direita uma grande faca de ponta curva. 

Tentei falar alguma coisa, porém da minha boca só saiu um grunhido abafado. 

O homem se aproximou rapidamente, em posição de ataque. 

Minha única saída era uma porta à minha direita que estava ligeiramente entreaberta. Me esgueirei por ela e vi que tinha outra porta que dava para um jardim. Corri até o jardim e o homem correu atrás de mim. 

Vi, então, que no final do jardim tinha uma escadaria. 

Corri até lá e subi o mais rapidamente possível, seguido pelo atacante, que parecia furioso. 

Entrei em um longo corredor que dava para outra porta. Penetrei nesse novo recinto e percebi, apavorado, que era uma sala sem outra saída. 

Corri para um canto, atrás de um armário, tentando desesperadamente me esconder. O homem com a faca me localizou e veio velozmente em minha direção, com expressão de vitória no olhar. 

Chegou bem perto de mim, levantou a faca e me entregou, dizendo: 

“Agora é tua vez!”.

domingo, 29 de abril de 2018

DOENÇAS: A ESTRATÉGIA DOS MICRÓBIOS





Micróbios são um produto da seleção natural tanto quanto nós, humanos.

Que benefício evolutivo um micróbio extrai em nos causar doenças tão bizarras como lesões genitais ou diarreia? E porque os micróbios evoluem de modo a nos matar? Isso parece muito intrigante e autodestrutivo, já que um micróbio que mata seu hospedeiro mata a si mesmo.

Basicamente, os micróbios evoluem como as outras espécies. A evolução seleciona os indivíduos que são mais eficientes na produção de bebês e na ajuda para que estes se propaguem por lugares adequados para viver. Para um micróbio a propagação pode ser definida matematicamente como o número de novas vítimas contaminadas por cada paciente original. Esse número depende de quanto tempo cada vítima permanece capaz de infectar novas vítimas, e da eficácia com que o micróbio é transmitido de uma vítima para a seguinte.

Os micróbios desenvolveram diversas maneiras de passar de uma pessoa para outra, e dos animais para as pessoas. O germe que melhor se propaga deixa mais “filhotes” e acaba favorecido pela seleção natural. Muitos de nossos “sintomas” de doença na verdade representam os mecanismos pelos quais um maldito micróbio inteligente modifica nossos corpos ou nosso comportamento de modo que sejamos recrutados para transmitir micróbios.

A maneira mais fácil de um germe se propagar é esperar que seja transmitido passivamente para a próxima vítima. Essa é a estratégia adotada por micróbios que esperam que um hospedeiro seja comido pelo próximo hospedeiro. Por exemplo, a bactéria salmonela, que contraímos comendo ovos ou carne contaminados; o verme responsável pela triquinose, que passa dos porcos para nós esperando que matemos o porco e comamos sem um cozimento adequado; o verme que causa anisaquíase, com o qual japoneses e americanos amantes de sushi se infectam ocasionalmente consumindo peixe cru. Esses parasitas passam para uma pessoa quando elas ingerem carne de um animal, mas o causador do kuru nas regiões montanhosas da Nova Guiné era transmitida por pessoas que se alimentavam de carne humana. Ele era transmitido em regiões onde se praticava o canibalismo, quando os bebês das regiões montanhosas cometeram o erro fatal de lamber os dedos depois de brincar com os cérebros de pessoas contaminadas com kuru, que as mães haviam acabado de cortar e que iam ser cozinhados.

Alguns micróbios não esperam que o hospedeiro morra e seja comido e pegam carona na saliva de um inseto que pica o hospedeiro e sai voando para achar outro hospedeiro. O passeio grátis pode ser proporcionado por mosquitos, piolhos ou moscas africanas tsé-tsé que transmitiam, respectivamente, a peste bubônica, tifo e doença do sono. O mais sujo de todos os truques de transmissão passiva é perpetrado por micróbios que passam de uma mulher para o feto e assim já contaminam os bebês no nascimento. Lançando mão desse truque, os micróbios responsáveis pela sífilis, pela rubéola e agora pela Aids suscitam problemas éticos com os quais as pessoas que acreditam em um universo essencialmente justo tiveram que travar uma luta desesperada.

Outros germes transportam as matérias nas próprias mãos, metaforicamente falando. Eles modificam a anatomia ou os hábitos do hospedeiro a fim de acelerar a transmissão. Da nossa perspectiva, as lesões genitais abertas causadas por doenças venéreas como a sífilis são uma indignidade vil. Do ponto de vista dos micróbios, no entanto, elas são apenas um dispositivo útil para recrutar a ajuda de hospedeiro na inoculação de micróbios na cavidade do corpo de um novo hospedeiro. As lesões na pele causadas pela varíola também transmitem micróbios por contato corporal direto ou indireto (às vezes, muito indireto, como quando os homens brancos dos Estados Unidos, determinados a exterminar nativos americanos “beligerantes”, enviaram-lhes de presente cobertores usados antes por pacientes com varíola).

Mais enérgica, contudo, é a estratégia usada pelos micróbios da gripe, do resfriado comum e da coqueluche (tosse comprida), que induzem a vítima a tossir e a espirrar, lançando assim uma nuvem de micróbios em direção aos possíveis novos hospedeiros. Do mesmo modo, a bactéria do cólera provoca em sua vítima uma intensa diarreia que espalha bactérias no sistema de abastecimento de água das novas vítimas potenciais, enquanto o vírus responsável pela febre hemorrágica coreana propaga-se através da urina dos ratos. Para modificar o comportamento de um hospedeiro, nada se compara ao vírus da hidrofobia (raiva), que não só se aloja na saliva de um cão contaminado, mas também provoca no animal um furor de morder e, assim, infectar muitas vítimas novas. Mas pelo esforço físico do próprio micróbio, os campeões são vermes como o ancilóstomo e o esquistossomo, que penetram na pele de um hospedeiro que tenha contato com a água ou com a terra na qual suas larvas foram excretadas nas fezes de uma vítima anterior.

Assim, do nosso ponto de vista, lesões genitais, diarreias e tosses são “sintomas de doenças”. Do ponto de vista de um germe, são estratégias evolutivas inteligentes para se disseminar. Por isso interessa ao germe nos “deixar doentes”. Mas porque um germe deveria desenvolver a estratégia aparentemente autodestrutiva de matar seu hospedeiro?

Da perspectiva do germe, isso é apenas uma decorrência involuntária (grande consolo para nós!) dos sintomas do hospedeiro que promovem a transmissão eficiente de micróbios. Mas uma vítima do cólera não tratada pode acabar morrendo em consequência de uma diarreia abundante que provoca a perda de vários litros de líquido por dia. Contudo, pelo menos por algum tempo, enquanto o paciente estiver vivo, a bactéria do cólera se beneficia do fato de ser despejada maciçamente no suprimento de água de suas próximas vítimas. Contanto que cada vítima contamine assim, em média, mais de uma vítima, a bactéria se propaga mesmo que o primeiro hospedeiro acabe morrendo.

Texto extraído do livro ARMAS, GERMES E AÇO, de Jared Diamond.