domingo, 12 de março de 2017

O VERDE PODE SER UMA ARMADILHA

Neste espaço de livre reflexão e compulsória desilusão, vira e mexe falo de futebol, música e cinema. À exceção do primeiro, que deixou de ser arte, essas artes costumam inspirar metáforas importantes para a reflexão que se pretende neste espaço. O cinema é pródigo em gerar cenários possíveis para a realidade futura. A ficção permite o sonho com possibilidades infinitas, mas muitas vezes as probabilidades de sua concretização são, de certa forma, levadas em conta e, não percebo se de propósito ou por acaso, as possibilidades, de certa forma se concretizam. A música por vezes antecipa cenários que só as mentes visionárias de alguns poetas permitem-se vislumbrar.

Vejam os leitores um exemplo: o filme “De volta para o futuro II” explora o paradoxo de um mundo alternativo criado a partir da mudança do passado pelo personagem Biff Tannen, usando o livro de resultados esportivos que sua versão de 2015 deu-lhe ao retornar ao passado. O mundo alternativo resultante da ação do personagem é deprimente, sujo, governado pelos desonestos. Resumindo, reflitamos, mais que as diversas traquitanas existentes hoje que foram profetizadas pelo filme, a realidade atual também se concretiza como no “futuro” alternativo.

Pois bem, então reflitamos sobre outro exemplo de filme futurista e pensemos o quanto sua profecias eram ou não possíveis em uma realidade futura, não tão futura assim. Lembro que assisti, provavelmente no Cine Vera Cruz, em Uberaba, um filme de 1973 chamado “No Mundo de 2020”, aliás Soylenty Green, estrelado pelo grande canastrão Charlton Heston, aliás John Charles Carter, que eu já vira em “Os 10 mandamentos”, “Ben Hur” e “Planeta dos macacos”. Apesar das caras sempre iguais do ator, lembro que a história do filme impressionou-me muito, descrevendo um mundo ambientado em 2022 (ano em que o Brasil comemorará 550 anos de sua independência), com uma superpopulação (Nova Iorque teria 40 milhões de habitantes), alta desigualdade social e econômica, elevado desemprego e, claro, escassez de alimentos. Comida “de verdade” como xuxu e abobrinha, só para os muito ricos, que são pouquíssimos. Porém a tecnologia procurava resolver esse problema ao desenvolver um alimento sintético, de cor verde, o Soylenty Green do título original. Quem não viu o filme, sugiro que veja e avalie o quanto a ciência e a tecnologia, assim como na revolução verde, carrega uma grande falácia como uma contradição interna. (Tem um trailler aqui: https://www.youtube.com/watch?v=N_jGOKYHxaQ e uma versão completa dublada em português aqui: http://www.dailymotion.com/video/x3dq3ef).

Esse filme marcou minha vida de forma permanente, ainda mais por que naqueles tempos estudávamos nas aulas de geografia no colégio a teoria maltusiana da relação entre crescimento populacional e produção de alimentos, premonitória visão de Thomas Robert Malthus, escrita em 1798, chamada An Essay on the Principle of Population, as it Affects the Future Improvement of Society with Remarks on the Speculations of Mr. Godwin, M. Condorcet, and Other Writers (disponível para dowload em http://www.esp.org/books/malthus/population/malthus.pdf).

Um debate (havia isso nos colégios do meu tempo) em aula avaliava o quanto a tecnologia de produção de alimentos, especialmente a chamada revolução verde, muito aclamada naqueles tempos, contribuía para negar as afirmações de Malthus. Eu sabia, no fundo de meu coração, que a revolução verde tinha gerado o efeito mais direto sobre minha jovem pessoa: o êxodo rural, que trouxe-me da bucólica Fazenda Paraíso para a maior cidade do Triângulo Mineiro daqueles tempos, uma difícil transição. Claro que muitas coisas que reputo como boas derivaram disso, como o fato de eu poder ir ao cinema e conhecer as músicas de emergentes bons artistas que começavam a aparecer.

Um desses artistas, do qual passei a gostar muito, foi Gonzaguinha, aliás Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, que lançou seu primeiro LP em 1973 (http://www.gonzaguinha.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=61&Itemid=89).

Naquele ano, assisti-o pela primeira vez na TV, no programa “Um instante, maestro!” do apresentador Flávio Cavalcanti, aliás Flávio Antônio Barbosa Nogueira Cavalcanti. Era um programa no qual o arrogante apresentador, com a ajuda de seus “jurados”, julgava o trabalho de novos artistas e, caso fosse reprovado, o disco era destruído, ao vivo, em uma guilhotina. Tempos estranhos aqueles, não? Pensemos, reflitamos. Pois bem, o grande Gonzaguinha cantou uma das músicas de seu LP, chamada “Comportamento geral”. Conforme pode-apurar no site Memórias da Ditadura (http://memoriasdaditadura.org.br/artistas/gonzaguinha/)

“Nela, o compositor alfinetava a atitude complacente e medrosa daqueles que abaixam a cabeça para tudo e para todos: “Você deve lutar pela xepa da feira / e dizer que está recompensado”. O júri do programa destruiu sua música e cobriu Luiz Gonzaga Jr. de ameaças. Um dos jurados o chamou de terrorista; outro sugeriu sua deportação.” Acredita-se que essa reação ensandecida ajudou o jovem artista a decolar sua carreira. É história. Porém, nas reflexões que por aqui ando fazendo, outro disco do Gonzaguinha, lançado 20 anos mais tarde, quando ele já tinha viajado fora do combinado, tem uma música mais apropriada. Falo de “Fliperama” (https://www.youtube.com/watch?v=e5dwy4DHZQc) que conheci no LP “Cavaleiro solitário”, de 1993. Mas qual a (re)conexão? Vejamos um trecho de “Fliperama”:

“(…) Eis aí a eficiência da ciência
Eis aí o exemplo exato da mudança
Eis o esforço para a melhoria
Das condições de vida do planeta
O fliperama em nossa mesa
Oferecendo brinquedos eletrônicos
Com flashes via satélite (…)”

Pois, nos debates sobre a revolução verde, muito se falava sobre a contribuição da ciência e da tecnologia para o aumento da produtividade na produção de alimentos, anulando os efeitos da teoria malthusiana. Embora certas técnicas, como o desenvolvimento de variedades mais produtivas (que deu o prêmio Nobel da paz a Norman Ernest Borlaug), tenham contribuído para isso, as principais consequências desse movimento foram um brutal aumento da concentração fundiária, a dependência de sementes modificadas, a inviabilidade econômica dos pequenos proprietários (como era o caso de João Nepomuceno Pantaleão, meu pai), a devastação de florestas, a contaminação do solo e das águas, a geração de problemas de saúde em agricultores e consumidores e, ao contrário do que afirmava que era seu objetivo,não diminuiu a fome no mundo. Talvez a fome de dinheiro de alguns.Esse quadro desolador já tinha sido previsto por Rachel Carson, aliás Rachel Louise Carson, em 1962, no agora célebre livro “Primavera silenciosa” (https://biowit.files.wordpress.com/2010/11/primavera_silenciosa_-_rachel_carson_-_pt.pdf).

Neste link se encontra uma cópia dese livro, em cuja epígrafe lê-se o seguinte:


A primeira parte da frase está parcialmente errada, a segunda, não. O homem tem uma grande capacidade de prever, mas nenhuma vontade de prevenir, pelo menos no sentido coletivo. Pois, então, vejam se já não estamos nós destruindo o mundo, sem dó nem perdão? Muito mais recentemente, uma avaliação apresentada no livro The Age of Sustainable Development de Jeffrey David Sachs, mostra que alguns limites planetários já foram ultrapassados pela humanidade. Um desses limites é o de eliminação de rejeitos químicos na natureza, ou dos fluxos bioquímicos. Outro refere-se à diversidade biológica. Duas gravíssimas consequências da revolução verde. Vale ressaltar que, que eu saiba, Mrs. Carson não ganhou nenhum Nobel, mas morreu de um câncer de mama provocado pela exposição a substâncias químicas tóxicas. Bela ironia desse mundo desilusório…

http://tratarde.org/wp-content/uploads/2011/10/Science-2015-Steffen-PLANETARY-BOUNDARIES.pdf
Os sinais vêm sendo dados ao longo do tempo, em obras de ficção ou não. Em 1972, o chamado Clube de Roma, grupo de cientistas, industriais e políticos, que discutiu e analisou os limites do crescimento econômico frente ao uso crescente dos recursos naturais, lançou um relatório chamado ” Os limites do crescimento” (https://pt.scribd.com/doc/218016244/Limites-Do-Crescimento#). Mais ou menos pela mesma época, o matemático romeno Nicholas Georgescu-Roegen propôs uma nova forma de pensar a economia, o Decrescimento Econômico, ideia ousada e contrária a toda a teoria econômica desenvolvida até então . Howard Thomas Odum, embora com foco nos fluxos energéticos também postula que a lógica econômica do crescimento eterno viola as leis de uma natureza com limites. No Brasil, um seu discípulo, Henrique Hortega, é um defensor da ideia de “consumo consciente”. Mais recentemente, pessoas como Serge Latouche e Joan Martinez Alier, entre outros, apresentam o conceito de Economia Ecológica, cujas bases são (https://pt.wikipedia.org/wiki/Economia_ecol%C3%B3gica):

1- A economia é um subsistema da natureza e não o contrário;
2- Assim como a natureza, o crescimento da economia e de seu produto (PIB) também tem limites biofísicos e não pode aumentar indefinidamente;
3- Considerando os limites biofísicos, a humanidade deve se desenvolver dentro de uma escala ótima e sustentável;
4- Para satisfazer as necessidades das gerações atuais e futuras, a distribuição justa de recursos é imprescindível – uma vez que a economia e o produto (PIB) não podem crescer indefinidamente;
5- Bens e serviços ecossistêmicos são muitas vezes públicos, não-rivais e não-exclusivos e mecanismos de livre mercado não são suficientes para geri-los adequadamente.


Essa reflexão desiludida sobre economia, PIB, crescimento populacional, mudança climática talvez venha ser aprofundada no futuro, embora, assim como Edu Lobo, aliás Eduardo de Góes Lobo, dizia que moda de viola não dá luz a cego, ouso dizer que reflexões, mesmo agudas, não alimentam ninguém, talvez alimentem crônicas desilusões . Por ora, voltamos a “De volta para o futuro”. Ultimamente, acordo pela manhã e, a cada dia mais, com a impressão de que estou vivendo no mundo alternativo criado por Biff Tannen. Por acaso, serei só eu a ver semelhanças entre Biff Tannen e o Sr. Donald Duck Trump? Minha desconfiança riobaldiana me diz que este senhor da direita usou aquele livro de resultados esportivos pra criar este universo alternativo em que acordo todos os dias achando que estou em um pesadelo. A realidade imita a arte ou a arte cria a realidade?





Fonte: https://rpcdblog.wordpress.com/2017/03/11/o-verde-pode-ser-uma-armadilha/

quinta-feira, 2 de março de 2017

ACEITA UM ELOGIO?


DW

"Um elogio é como um beijo dado através de um véu", escreveu o autor francês Victor Hugo em seu romance Os Miseráveis. Mas, às vezes, boas intenções podem ser mal interpretadas. As coisas podem ser particularmente problemáticas em um ambiente intercultural: mal-entendidos podem brotar rapidamente, e uma declaração bem-intencionada pode ser interpretadas do jeito errado. Por ocasião do Dia Mundial do Elogio, comemorado em 1º de março, compilamos uma série de elogios curiosos:

Nariz grande e rosto pequeno


As diferenças na cultura do elogio são extensamente diferentes, por exemplo, entre o Ocidente e o Oriente. Os japoneses são um grupo notadamente reservado de pessoas, então elogios raramente são feitos. Ao mesmo tempo, eles são conhecidos por serem bem-educados com estrangeiros, mostrando respeito ao elogiar os forasteiros por suas habilidades com línguas estrangeiras, por exemplo. A pessoa que recebe o elogio, no entanto, deve se comportar de maneira modesta; do contrário, ela parecerá arrogante.

Por outro lado, é um grande acontecimento quando um homem japonês faz um elogio a uma mulher. Pode soar engraçado, mas uma possível frase galanteadora é: "Você tem um rosto pequeno." Na verdade, o tamanho da cabeça não é a questão aqui, mas sim traços delicados e proporcionais. Um ideal de beleza.

As mulheres no Japão também podem ser elogiadas quando ouvem que seus rostos são pálidos e seus narizes são grandes. A palidez pode até ser compreensível, mas um nariz grande? Bom, talvez ele ajude a tornar o resto do rosto pequeno.

Panelas, macacos e elefantes


As pessoas no Camarões gostam de usar metáforas para expressar um elogio. Alguém pode ser enaltecido quando ouve que é uma "panela velha" ("vieille marmite"), por exemplo. Não se trata de um insulto, mas de um elogio às habilidades culinárias, já que as pessoas no país consideram que panelas velhas fazem a melhor comida. E quando alguém é chamado de baobá, como a árvore de grande porte, isso significa que fez um bom trabalho e é respeitado.

Um gesto similar de respeito no Brasil é chamar alguém de "macaco velho". A expressão vem do antigo provérbio "macaco velho não põe a mão em cumbuca". A história se refere a um velho método de caçar macacos, colocando frutas no interior de uma cumbuca. Os jovens macacos colocavam as mãos dentro dos recipientes para tentar pegar o alimento e ficavam presos, tornando-se alvo fácil de caçadores. Os velhos, no entanto, eram mais experientes e não cometiam esse erro.


Em hindi, é um elogio dizer que uma mulher caminha como um elefante


As pessoas na Índia reúnem imaginação considerável ao fazer elogios. Em hindi, alguém pode dizer "Gaja Gamini" ("ela anda como um elefante") para uma mulher que esteja passando. Isso porque as pessoas não consideram os animais desajeitados, mas sim lentos e graciosos. A metáfora até mesmo despertou a imaginação de Bollywood, que produziu um filme que tem a expressão como título e onde a famosa atriz Madhuri Dixit interpreta uma sedutora "Gaja Gamini".

Fadas, pepinos e honestidade


Na região onde se fala bengali, que inclui partes da Índia e Bangladesh, costuma-se dizer a uma mulher que ela é uma "Dana Kata Pori" ("uma fada sem asas"). É dito de uma maneira simpática, é claro, como um anjo que caiu do céu. Em outras palavras: a mulher é bonita.

As pessoas na Rússia também são bastante criativas quando se trata de elogiar. Se você ouvir que está em forma como um "pepino" ("Огурчик"), isso significa que você está vivaz. "Sangue com leite" ("Кровь с молоком") também tem o mesmo efeito elogioso: significa que a pessoa tem as bochechas rosadas e está cheia de força.

Na Alemanha, elogios não são muito comuns, afirma a jornalista americana Courtney Tenz, radicada no país europeu há mais de uma década. Segundo ela, os alemães apostam na honestidade e consideram a maneira como os americanos elogiam exagerada e superficial. Um conterrâneo lhe disse sobre a Alemanha: "Considere um elogio se você não recebeu nenhuma crítica."

Mesmo que se cometa um erro ao elogiar, isso não significa que você não deve fazê-lo – afinal, nada deixa alguém mais feliz que um elogio honesto, dizem os criadores do Dia Mundial do Elogio, comemorado desde 2011. A ideia surgiu na Holanda, onde o dia é celebrado na sua versão nacional desde 2003.

Fonte: http://www.dw.com/pt-br/quando-elogios-soam-como-insultos/a-37768887?maca=bra-newsletter_br_dw-cult-6223-html-newsletter

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Música, sexo e drogas ativam mesmas substâncias no cérebro


Fonte da Imagem: https://www.theodysseyonline.com/why-music-is-essential

Estudo afirma que sistema químico-cerebral ligado à percepção do prazer é ativado quando se ouve música. Descoberta é essencial para a neurociência, dizem cientistas.

O mesmo sistema químico-cerebral que proporciona as sensações de prazer geradas pelo sexo, as drogas e a comida é essencial para experimentar o prazer gerado pela música, segundo um estudo publicado nesta quarta-feira (08/02) na revista científica Nature.

"Esta é a primeira prova de que os opioides próprios do cérebro estão diretamente envolvidos no prazer musical", destaca Daniel Levitin, um dos autores do estudo, desenvolvido na Universidade McGill de Montreal, no Canadá.

Trabalhos anteriores do especialista e sua equipe chegaram a produzir mapas das áreas do cérebro ativados pela música, mas só havia sido possível levantar a suspeita de que o sistema opioide era responsável pelo prazer.

"Impressões fascinantes"

Para a mais recente experiência, os cientistas bloquearam de maneira seletiva e temporária os opioides do cérebro com a naltrexona, remédio usado habitualmente em tratamentos para a dependência de drogas opiáceas e álcool.

Em seguida, eles mediram as reações dos 17 participantes do estudo aos estímulos musicais e constataram que até mesmo as músicas favoritas deixavam de gerar sensações prazerosas. "As impressões que os participantes compartilharam conosco depois do experimento foram fascinantes", diz Levitin.

Um deles disse que sabia que a canção que acabara de escutar era uma de suas preferidas, mas que não tinha sentido as mesmas sensações de audições anteriores. Outro comentou: "Soa bem, mas não me diz nada."

Os pesquisadores consideram que os avanços no estudo da origem neuroquímica do prazer são fundamentais para a neurociência, já que muitas atividades prazerosas, como beber álcool e ter relações sexuais, podem causar dependência.

LPF/efe/lusa/ots



Fonte: http://www.dw.com/pt-br/m%C3%BAsica-sexo-e-drogas-ativam-mesmas-subst%C3%A2ncias-no-c%C3%A9rebro/a-37462495?maca=bra-newsletter_br_Destaques-2362-html-newsletter

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

"Democracia brasileira foi corroída", diz instituto francês


Obra de Hieronymus Bosch
Deutsche Welle

Em relatório anual, grupo de estudos da Sciences Po levanta dúvidas se Temer chegará até o fim de 2018 e afirma que país está atolado. "Já em uma crise econômica e política, mergulha agora em uma crise de regime."

O Observatório Político da América Latina e do Caribe (OPALC), ligado ao renomado Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po), fez um balanço sombrio sobre a crise brasileira em seu novo relatório anual sobre a região. Segundo o texto, "a alternância não eleitoral de 2016 desafia um quarto de século de consolidação democrática".

"Como na maioria dos períodos de crise que o Brasil conheceu em sua história, a solução de conflitos políticos acontece fora da arena eleitoral, em um círculo fechado das elites. Mas, desta vez, a solução não foi negociada. Ela foi imposta pelo desvio de um instrumento da democracia [o impeachment]. Agindo assim, os representantes corromperam a democracia brasileira", aponta o relatório. "Essa corrupção moral do regime constitucional foi somada a uma corrupção moral e financeira do sistema político, reforçando o descrédito da democracia."

O documento também afirma que o procedimento foi realizado de "maneira brutal, abusiva e indecente" e "teve o efeito de reforçar a polarização política e fragilizar as instituições democráticas".

O OPALC aponta que "as revelações que se sucedem no contexto da Lava Jato [...] alimentam o descrédito da classe política e fazem tremer o sistema político em seu todo". E que "ao fim de 2016, a democracia brasileira parece esfarrapada, corroída pelos excessos de seus representantes."

O documento também apontou um caráter ilegítimo na ascensão do presidente Michel Temer e de um novo projeto de reformas. "Apesar de o procedimento de destituição (impeachment) ter como objetivo punir as ações pessoais de um indivíduo, a queda de Dilma provocou um expurgo governamental e a ascensão de um projeto político que havia sido minoritário nas eleições de 2014. Nesse sentido, a alternância política que resultou da destituição pode ser qualificada como ilegítima."

De guerra fria a união sagrada

O relatório também levanta dúvidas sobre a capacidade do governo Temer. "O ano de 2016 foi concluído em um clima de profunda incerteza. A democracia brasileira está literalmente atolada. Já em uma crise econômica e política, o Brasil mergulha em uma crise de regime."

"Apresentada como uma solução para melhorar a governabilidade do país, o impeachment de Dilma acabou abrindo um período de instabilidade (...). A sociedade brasileira está mais dividida do que nunca, e a sequência do impeachment desempenhou um papel importante no reforço dessa polarização. Os antipetistas e os pró-petistas, no entanto, compartilham uma rejeição comum às suas elites políticas", diz o texto.

"Ilegítimo e impopular, o governo Temer encarna uma geração política que já chega acossada por ter usado o poder em excesso e abusado dele. Só falta um gatilho para que a 'guerra fria' se transforme em uma 'união sagrada' [referência à trégua e à aliança entre a direita e a esquerda francesas durante a Primeira Guerra] contra Temer, às custas do regime democrático".

Por fim, o relatório aponta a crise de apoio à democracia no Brasil. "O apoio à democracia passou de 54% a 32% entre 2015 e 2016. Nenhum outro país da América Latina experimentou um recuo parecido."

O capítulo brasileiro no relatório foi elaborado por Frédéric Louault, vice-presidente do OPALC e professor da Universidade Livre de Bruxelas, na Bélgica.

Em entrevista à DW, Louault afirma que 2017 deve ser mais um ano imprevisível na política brasileira. Ele diz que a morte do ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal, pode desacelerar a Lava Jato, mas não vai ser suficiente para parar a operação.

"Ainda vamos continuar vendo essa dinâmica de tensão entre o Judiciário e o mundo político. A operação pode perder velocidade, mas a máquina vai continuar em andamento mesmo que Temer coloque uma figura amigável no STF. Há muitos juízes e investigadores que vão continuar a trabalhar. É provável que em marco apareçam novos elementos que venham a criar dificuldades para Temer", opina.

Louault também afirma que, sem apoio popular e legitimidade, o governo Temer só pode esperar aguentar até 2018 se a economia melhorar. "Se ela não se mexer, essa frágil estabilidade do seu governo vai enfrentar ainda mais dificuldades".

No ano passado, em seu relatório sobre 2015, o OPALC já havia previsto um período difícil em 2016 por causa dos efeitos colaterais do modelo de presidencialismo de coalizão, apontando que a democracia brasileira precisava de "reformas políticas profundas para se consolidar".

Fonte: http://www.dw.com/pt-br/democracia-brasileira-foi-corro%C3%ADda-diz-instituto-franc%C3%AAs/a-37289049?maca=bra-newsletter_br_Destaques-2362-html-newsletter

domingo, 22 de janeiro de 2017

FEBRE AMARELA!


Surto de febre amarela é tragédia anunciada, diz historiador


Na virada do século 19 para o 20, as cidades do Brasil sofriam com problemas de saneamento básico e recorrentes epidemias. Na época, o sanitarista Oswaldo Cruz conseguiu erradicar a doença, que volta a assombrar o país.



Há mais de cem anos, o sanitarista Oswaldo Cruz conseguiu, numa campanha até então inédita, acabar com focos do mosquito Aedes aegypti e erradicar as recorrentes epidemias de febre amarela nas grandes cidades do país – isso numa época em que não havia vacina contra a doença.

Agora, no entanto, a enfermidade ameaça voltar aos centros urbanos, com a confirmação de 47 casos entre os 272 suspeitos, e 25 mortes em Minas Gerais; e a luta contra o mosquito – que também transmite os vírus da dengue, da chicungunya e do zika – parece perdida.

Por que um problema resolvido há mais de um século volta a assombrar a população? Para o historiador Marcos Cueto, da Casa de Oswaldo Cruz, trata-se de um retrocesso e também de uma tragédia anunciada. "Na história das epidemias do século 21, muitas vezes a dengue antecede a febre amarela. Mas aqui as lições da História não são levadas em conta", afirma o especialista, que é também editor científico da revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos.

Na virada do século 19 para o 20, as condições de saneamento nos principais centros urbanos do país eram insalubres. Mesmo na antiga capital, o Rio de Janeiro, o problema era grave e responsável, diretamente, pelas recorrentes epidemias de febre amarela. A situação era tão séria que muitos navios estrangeiros evitavam aportar por aqui em determinadas épocas do ano – o que trazia consequências econômicas.

Rodrigues Alves assumiu a Presidência da República em 1902 disposto a dar um basta àquela situação. Logo no ano seguinte, Oswaldo Cruz foi chamado a assumir a diretoria-geral de Saúde Pública – um cargo similar ao de ministro da Saúde – com a espinhosa missão de acabar com a febre amarela.

O médico criou o Serviço de Profilaxia da Febre Amarela, que logo colocou nas ruas as chamadas brigadas de mata-mosquitos – grupos de agentes sanitários cujo objetivo era eliminar os focos de mosquito a qualquer custo. O modelo de ação era truculento, com os agentes de saúde percorrendo todas as casas e destruindo todos os locais de desova do mosquito transmissor. Mas surtiu efeito: em 1907, a epidemia foi considerada erradicada. E desde 1942 não há registros de transmissão de febre amarela nos centros urbanos.

"No Brasil e em muitos países da América do Sul este era um problema considerado controlado; restrito a regiões amazônicas", afirma Cueto. "Desde o fim dos anos 20, praticamente não houve nenhum surto epidêmico nas cidades. E desde 1937 existe uma vacina".

Para Cueto, no entanto, de lá para cá, predominou no país uma atitude passiva e tolerante com o mosquito transmissor da febre. "Os controles foram ficando cada vez mais relaxados [e por essa mesma razão houve um aumento da dengue e do zika]. Não houve uma política de vacinação entre a população urbana e o número de moradores das cidades só aumentou", explica o especialista.

As cidades cresceram de forma desordenada, e as áreas mais pobres e sem saneamento são os maiores focos de proliferação do mosquito. No caso de novos surtos da doença, são justamente as parcelas menos favorecidas da população que mais sofrerão com o problema.

Para Cueto, medidas individuais para controle de larvas – como apregoa hoje o governo – não são suficientes. "Temos que resolver os problemas de água, moradia e pobreza que fazem com que existam muitos reservatórios nas favelas", diz o especialista. "E além disso, temos que resolver o problema da criminalidade nas favelas, que impede o trabalho de sanitaristas no controle dos reservatórios e na educação higiênica."

Para o historiador, Oswaldo Cruz é um exemplo de liderança a ser seguido, embora não represente mais um modelo. "Agora existem novos desafios, temos problemas novos, precisamos de respostas mais complexas", afirma. "Precisamos resolver a questão da pobreza urbana e fazer com que a vacina seja acessível para todos."

Fonte:  Deutsche Welle (http://www.dw.com/pt-br/surto-de-febre-amarela-%C3%A9-trag%C3%A9dia-anunciada-diz-historiador/a-37209686?maca=bra-newsletter_br_Destaques-2362-html-newsletter)

domingo, 8 de janeiro de 2017

Como o Japão praticamente extinguiu as mortes por arma de fogo


domingo, 1 de janeiro de 2017

O novo mapa da desigualdade brasileira



Sozinhas, 700 mil pessoas — 0,36% da população — têm patrimônio igual a 45% do PIB. E pagam, quase sempre, impostos mais baixos que os dos assalariados

Por Evilásio Salvador


O Brasil tem um dos mais injustos sistemas tributários do mundo e uma das mais altas desigualdades socioeconômicas entre todos os países. Além disso, os mais ricos pagam proporcionalmente menos impostos do que os mais pobres, criando uma das maiores concentrações de renda e patrimônio do planeta. Essa relação direta entre tributação injusta e desigualdade e concentração de renda e patrimônio é investigada no estudo Perfil da Desigualdade e da Injustiça Tributária, produzido pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) com apoio da Oxfam Brasil, Christian Aid e Pão Para o Mundo. Tive o privilégio de conduzir a pesquisa e redigir sua versão final.

Foram considerados os quesitos de sexo, rendimentos em salário mínimo e unidades da Federação. O texto busca identificar o efeito concentrador de renda e riqueza, a partir das informações sobre os rendimentos e de bens e direitos informados à Receita Federal pelos declarantes de Imposto de Renda no período de 2008 a 2014.

Os dados da Receita Federal analisados para o estudo revelam uma casta de privilegiados no país, com elevados rendimentos e riquezas que não são tributados adequadamente e, muitas vezes, sequer sofrem qualquer incidência de Imposto de Renda (IR). Por exemplo: do total de R$ 5,8 trilhões de patrimônio informados ao Fisco em 2013 (não se considera aqui a sonegação), 41,56% pertenciam a apenas 726.725 pessoas, com rendimentos acima de 40 salários mínimos. Isto é, 0,36% da população brasileira detém um patrimônio equivalente a 45,54% do total. Considera-se, ainda, que essa concentração de renda e patrimônio está praticamente em cinco estados da federação: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná, agravando ainda mais as desigualdades regionais do país.

Um sistema tributário injusto amplia — ao invés de amenizar — esta desigualdade. Um dos fatos mais graves é que a tributação sobre a renda no Brasil não alcança todos os rendimentos tributáveis de pessoas físicas. A legislação atual não submete à tabela progressiva do IR os rendimentos de capital e de outras rendas da economia. Elas são tributadas com alíquotas inferiores à do Imposto de Renda incidente sobre a renda do trabalho. Não existe Imposto de Renda Retido na Fonte sobre os lucros e dividendos. Um dispositivo legal (mas excêntrico) — o dos “juros sobre capital próprio” — permite uma redução da base tributária do IR e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido. Esses rendimentos são tributados a 15% de forma exclusiva, não necessitando o beneficiário fazer qualquer ajuste na Declaração Anual do IR. A consequência chega a ser bizarra: os 71.440 declarantes hiper-ricos, que tinham renda acima de 160 salários-mínimos em 2013, praticamente não possuíam rendimentos tributáveis, pois 65,80% de sua renda tinha origem em rendimentos isentos e não tributáveis.

O estudo aponta ainda que os contribuintes com rendas acima de 40 salários mínimos representam apenas 2,74% dos declarantes de IR, mas se apropriaram de 30,37% do montante dos rendimentos informados à Receita Federal em 2013. Além disso, dos R$ 623,17 bilhões de rendimentos isentos de Imposto de Renda em 2013, R$ 287,29 bilhões eram de lucros e dividendos recebidos pelos acionistas. Se submetidos à alíquota máxima da atual tabela progressiva do Imposto de Renda (27,5%), esses recursos gerariam uma arrecadação tributária extra de R$ 79 bilhões ao Brasil.

As informações tornadas públicas pela Receita Federal, a partir da disponibilização da base de dados “Grandes Números das Declarações do Imposto de Renda das Pessoas Físicas”, contribuem para uma maior transparência sobre a questão tributária no país, que há tempo ocupa lugar na agenda pública das propostas de reformas. Os dados ampliaram um novo olhar sobre a desigualdade social no Brasil e reforçam ainda mais a injustiça tributária no país. Até mesmo o Imposto de Renda, que deveria ser o fiador de um sistema tributário mais justo, acaba contribuindo para maior concentração de renda e riqueza em nosso país.

Com isso, as propostas para a reforma tributária que diversas organizações da sociedade civil — inclusive o Inesc — já apresentaram na agenda pública brasileira estão na ordem do dia. É necessário revogar algumas das alterações realizadas na legislação tributária infraconstitucional após 1996, que sepultaram a isonomia tributária no Brasil, com o favorecimento da renda do capital em detrimento da renda do trabalho. Dentre essas mudanças destacam-se: 1) o fim da possibilidade de remunerar com juros o capital próprio das empresas, reduzindo-lhes o Imposto de Renda e a CSLL; e 2) o fim da isenção de IR à distribuição dos lucros e dividendos na remessa de lucros e dividendos ao exterior e nas aplicações financeiras de investidores estrangeiros no Brasil.

Outra medida fundamental seria a implementação do Imposto sobre Grandes Fortunas (IGF), previsto na Constituição e não regulamentado até hoje. É uma oportunidade para a prática da justiça tributária, por aplicar corretamente o princípio constitucional da capacidade contributiva, onerando o patrimônio dos mais ricos no país. Igualmente necessária é a introdução da progressividade no Imposto sobre a Transmissão Causa Mortis e Doação de quaisquer Bens ou Direitos (IT-CDM). Outras medidas importantes são a tributação maior para bens supérfluos e menor para produtos essenciais para a população.

Uma proposta de reforma tributária no Brasil deveria ser pautada pela retomada dos princípios de equidade, de progressividade e da capacidade contributiva no caminho da justiça fiscal e social, priorizando a redistribuição de renda. As tributações de renda e do patrimônio nunca ocuparam lugar de destaque na agenda nacional e nos projetos de reforma tributária após a Constituição de 1988. Assim, é mais do que oportuna a recuperação dos princípios constitucionais basilares da justiça fiscal (equidade, capacidade contributiva e progressividade). A tributação é um dos melhores instrumentos de erradicação da pobreza e da redução das desigualdades sociais, que constituem objetivos essenciais da República esculpidos na Constituição Federal de 1988.

Fonte: http://outraspalavras.net/brasil/o-novo-mapa-da-desigualdade-brasileira/