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sábado, 15 de maio de 2021

ESTÃO REABERTAS AS PORTAS DA PERCEPÇÃO?



Por Leonardo Pimentel, para Canal Meio


“O remédio para a alma.” Foi assim que o químico suíço Albert Hofmann (1906-2008), às vésperas de completar cem anos, descreveu sua mais famosa descoberta, a dietilamida do ácido lisérgico, popularmente conhecida pela sigla em alemão LSD. O cientista morreu dois anos depois sem jamais aceitar que sua criação fosse proscrita como entorpecente em todo o mundo e não usada como ferramenta terapêutica. Bem, se tivesse vivido mais uma década, Hofmann estaria vingado. Hoje, drogas psicodélicas se apresentam como a nova fronteira dos tratamentos psiquiátricos e atraem milhões de dólares em investimentos – embora continuem ilegais.

No início desta semana, a revista Nature, uma das mais respeitadas revistas científicas do mundo, publicou o resultado de uma pesquisa sobre o uso da 3,4-metilenodioximetanfetamina (MDMA, ou mais popularmente, ecstasy) em pacientes com síndrome de estresse pós-traumático. Claro, a droga não é consumida como nas raves, mas de forma assistida e acompanhada de sessões de psicoterapia – e sem música eletrônica.

Uma semana antes, o igualmente prestigiado New England Journal of Medicine publicou um estudo sobre o tratamento da depressão comparando a psilocibina, princípio ativo dos “cogumelos mágicos” popularizados pela obra de Carlos Castañeda (1925-1998), com o popular medicamento Escitalopram. Adivinhem. Os cogumelos foram mais eficientes.

É a redenção de profissionais como o psicólogo Rick Doblin, responsável pelo estudo publicado pela Nature, que há 40 anos rema contra a maré estudando as possibilidades terapêuticas das drogas psicodélicas. Hoje ele comanda a Associação Multidisciplinar Para Estudos Psicodélicos (MAPS, na sigla em inglês), um conglomerado de pesquisa irrigado por fundos de Wall Street que veem nas drogas psicodélicas o futuro da psiquiatria. Segundo o New York Times, a expectativa é que a Agência para Drogas e Alimentos (FDA, a Anvisa americana) libere medicamentos baseados em MDMA em 2023 e os de psilocibina até dois anos depois.

Não que estudos sobre o uso terapêutico de psicodélicos sejam novidade. Entre 1960 e 1963, o psicólogo Timothy Leary (1920-1996), que já conduzia experiências do gênero em Harvard, desenvolveu um experimento com detentos da prisão de Concord, em Massachusetts. Segundo seu levantamento, o grupo de presos submetidos voluntariamente ao tratamento com drogas psicodélicas teve uma taxa de reincidência no crime de 20%, contra 60% da média do presídio. Leary, porém, acabou demitido de Harvard e enfrentou uma brutal perseguição pelo governo dos EUA.

E o LSD, que iniciou esta conversa? Bem, há alguns anos ele se tornou, em doses controladas, o motor da criatividade no Vale do Silício. Profissionais das Big Techs descobriram que pequenas quantidades do ácido podem provocar insights impossíveis em estados normais de consciência. Claro, há que se ter limites. No fim de abril, Justin Zhu, CEO da startup Iterable, foi demitido após, supostamente, tomar uma dose de LSD antes de uma reunião com investidores. Confundir possíveis parceiros comerciais com elefantes roxos pode não ser uma boa ideia.

Mas vamos combinar que psicodelismo não é só medicina. Ele contribuiu muito para a arte, a começar pelo livro As Portas da Percepção, de Aldous Huxley. White Rabbit (YouTube), do Jefferson Airplane, The End (YouTube), de The Doors, e Set The Controls For The Heart Of The Sun (YouTube), do Pink Floyd, que o digam.

Por Leonardo Pimentel

 

 

Fonte do Texto: Drogas psicodélicas dão a volta por cima - http://www.canalmeio.com.br/notas/drogas-psicodelicas-dao-a-volta-por-cima/?h=T21hciBSw7ZzbGVyfDgyMzA4

 

Fonte da Imagem: https://wallhere.com/pt/wallpaper/237116

 



quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Repórter acusa CIA de causar alucinações com LSD na França em 1951


Mike Thomson
Da BBC News

Cerca de 60 anos atrás, uma pequena cidade francesa foi assolada por uma onda repentina de alucinações que deixou cinco pessoas mortas e muitas seriamente doentes.

Durante anos, os incidentes foram atribuídos a uma contaminação por um fungo alucinógeno em uma das padarias da cidade, mas essa teoria agora é questionada pelo repórter investigativo americano Hank Albarelli.

Albarelli defende a tese de que o episódio ocorrido na cidade francesa de Pont-Saint-Esprit foi, na verdade, parte de uma série de experimentos conduzidos por cientistas da CIA com a droga LSD.

A versão do jornalista, no entanto, é contestada pelo acadêmico americano Steven Kaplan. Ele argumenta que os sintomas apresentados na época eram parecidos, mas não exatamente iguais aos provocados pelo LSD.

Por outro lado, o acadêmico - que publicou um livro sobre os acontecimentos em Pont-Saint-Esprit intitulado Le Pain Maudit ("O Pão Maldito", em tradução livre) - diz que a hipótese de contaminação por fungo também não se sustenta.

Tanto Albarelli como Kaplan concordam que o governo francês deveria investigar o assunto.

Armas biológicas

Em um dos casos de Pont-Saint-Esprit, ocorrido no dia 16 de agosto de 1951, o carteiro Leon Armunier entregava suas correspondências quando sofreu uma crise de náusea e violentas alucinações.

"Foi terrível", diz Armunier. "Tive a sensação de que estava encolhendo, encolhendo, enquanto labaredas e serpentes se enrolavam nos meus braços."

O carteiro, hoje com 87 anos, caiu da bicicleta e foi levado a um hospital na cidade vizinha de Avignon, onde ficou internado.

Em suas investigações, o jornalista Hank Albarelli diz ter encontrado um documento da CIA identificado com frases em inglês em linguagem codificada.

Termos como "Pont-Saint-Esprit and F.Olson Files" (Arquivos Pont-Saint-Esprit e F. Olson), "France Operation" (Operação França) e a frase "Hand carry to Belin - tell him to see to it that these are buried" (Entregue em mãos a Belin - diga a ele que tome providências para que isso seja enterrado) teriam oferecido ao jornalista as informações que ele procurava.

Albarelli diz que F. Olson é Frank Olson, um cientista da CIA que, na época do incidente em Sain-Esprit, liderava as pesquisas da CIA sobre o LSD.

Belin seria David Belin, diretor-executivo da Rockefeller Commission, criada pela Casa Branca em 1975 para investigar abusos cometidos pela CIA em todo o mundo.

O jornalista americano avalia que os arquivos intitulados Pont-Saint-Esprit e F. Olson, mencionados no documento, revelariam - se não tivessem sido "enterrados" - que a CIA estava fazendo um experimento com os moradores da cidade, dando a eles doses de LSD.

Pães

No período dos casos de alucinação, médicos concluíram que uma das padarias da cidade, a Roch Briand, teria sido a fonte do envenenamento. Hank Albarelli diz considerar possível que o LSD tenha sido colocado no pão.

Hoje, sabe-se que cientistas que pesquisavam armas biológicas em todo o mundo estavam realizando experiências com LSD no início da década de 1950, época de conflito na então Coreia e de um aumento nas tensões da Guerra Fria.

Albarelli diz ter encontrado um relatório secreto escrito em 1949 pelo diretor de pesquisas do Edgewood Arsenal, uma instalação militar onde foram realizadas muitas das experiências do governo americano com LSD.

No documento, o diretor diz que o Exército deveria fazer todo o possível para lançar "experimentos de campo" com a droga.

Sintomas

O jornalista diz ter obtido também um outro relatório da CIA, escrito em 1954, em que um agente descreve uma conversa com um representante da indústria química Sandoz Chemical, na Suíça.

A sede da Sandoz, situada a poucos quilômetros de Pont Saint-Esprit, era o único lugar onde o LSD era produzido naquela época, segundo Albarelli.

No documento, o agente relata que, após vários drinques, o representante da Sandoz disse repentinamente: "O segredo de Pont-Saint-Esprit é que não foi o pão... não foram grão de esporão do centeio".

O esporão do centeio (Claviceps purpurea) é um fungo parasita com propriedades alucinógenas que ataca os grãos de centeio.

Nesse ponto, o acadêmico Steven Kaplan - que discorda de Hank Albarelli - está de acordo com o representante da Sandoz.

Para ele, a teoria do fungo não procede, já que a contaminação não poderia ter afetado apenas um saco de grãos em uma padaria. Segundo o acadêmico, ela teria se alastrado por uma área maior.

Ao descartar a hipótese de envenenamento por LSD, Kaplan afirma que não apenas os sintomas seriam um pouco diferentes, como também a droga não teria sobrevivido às altas temperaturas no forno da padaria.

Albarelli, por sua vez, argumenta que o LSD poderia ter sido adicionado ao pão depois de assado.