quinta-feira, 22 de maio de 2008

ALTA-COSTURA


JUREMIR MACHADO DA SILVA:

Como eu perdi tempo na minha vida. Houve uma época em que eu atravessava as noites lendo filosofia ou a grande literatura universal. Cheguei a ler duas vezes 'Em Busca do Tempo Perdido', de Marcel Proust, uma em português e outra em francês. Eu achava que podia encontrar as frases mais geniais e as reflexões mais profundas em livros e em autores ditos sofisticados. Engano meu. Caro leitor, aqui vai uma dica imperdível: as sacadas mais desconcertantes de cada semana estão na Folha Online. Às vezes, são tantas as tiradas espirituosas que já não penso mais em Mencken, Karl Kraus, George Bernard Shaw ou mesmo no meu amigo Michel Houellebecq. Nenhum deles conseguiria esta genial definição de Victoria Beckham: 'O salto alto não só me aumenta de tamanho... Aumenta também minha capacidade cerebral'. Ou esta, impagável, da brasileira Carla Perez: 'Minha bunda não faz nada se eu não estiver junto'.
Sejamos justos, isso não é para qualquer um. A sentença de Carla Perez resolve uma antiga controvérsia sobre a existência ou não de um pensamento brasileiro. A resposta é uma só: sim, existe. Mas ele não se encontra mais nas páginas de Gilberto Freyre ou de Sérgio Buarque de Hollanda. É um pensamento virtual e desinibido. Por exemplo, Leila Lopes, de quem eu, ignorante, nunca tinha ouvido falar, revelou a única diferença entre uma novela de televisão e um filme pornográfico: 'Já fiz tanta cena de amor em novela, a única diferença é que nessa tem penetração'. Como se vê, um mero detalhe. A experiência etnográfica, de resto, permite a Leila dar mais uma informação antropológica: 'Já vi muito mais pegação nos bastidores de novela do que nos de um filme erótico'.
Confesso que eu não imaginava isso. Eu pensava que do beijo ao sexo tudo era técnico na televisão. Boa parte dessas frases citadas pela Folha Online têm como fonte as novas bíblias da vida bem-sucedida e pensante, as revistas Quem, Contigo! e Caras. Falo sério. É divertido e permite refletir. O antropólogo Claude Lévi-Strauss, que faz 100 anos em 2008, provou que tudo pode ser bom para pensar, inclusive o pensamento dos pensadores, quando se consegue entendê-los. Talvez uma frase de Lévi-Strauss apareça na Quem. A frase mais esclarecedora da última semana foi mesmo da verossímil Fátima Bernardes: 'É muito mais difícil criar filho do que apresentar o ‘Jornal Nacional’'. Eu não tinha dúvida alguma sobre isso. Para apresentar o 'Jornal Nacional', basta saber ler letrinhas em movimento e estar bem penteado. Já trigêmeos exigem um pouco mais de talento.
Agora, quem realmente conseguiu sair do trivial, descobrindo evidências inimagináveis, foi Lúcio Mauro Filho: 'Tive experiência com várias drogas: cocaína, ácido... Mas não curti, porque elas alteram o estado de consciência'. Uau! Deborah Secco e Cláudia Jimenez ridicularizaram o consumismo com duas boutades bestiais. Deborah: 'Comprei para a minha mãe uma bolsa Gucci pequena onde ela carrega seus dois cãezinhos da raça Chihuahua. Agora, toda vez que eles vêem uma bolsa Gucci, tentam entrar!'. É a prova de que a moda obedece a um reflexo condicionado. Quem usa grife é como o cão de Pavlov, quer dizer, como os cães da mãe da Deborah Secco. Cláudia, negando ter dado um mimo de R$ 100 mil ao namorado: 'Sou muito gostosinha! Não preciso dar um carro para alguém me desejar!'. Nem todo mundo é interesseiro.

juremir@correiodopovo.com.br

2 comentários:

  1. Melhor ainda são os filmes brasileiros, nada devem aos que estão nas tvs dos moteis.Boa noite.

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