
De Alpha a Zap
Por Adriano Oliveira, para Canal Meio (https://www.canalmeio.com.br/)
De cabeça abaixada, os olhos brilham em frente a uma tela acariciada
por dedos que repetem o mesmo movimento de arrastar, de cima para baixo,
de lado a lado, em movimentos pinça para o zoom, a cada poucos
segundos. O almoço chega. Nem é preciso olhar para o prato. A não ser
para fazer uma foto. A rotina segue, agora, apenas com uma das mãos,
enquanto a outra desempenha a mecânica tarefa de segurar o talher para a
displicente alimentação. E assim passam-se minutos de um mergulho em
interações virtuais — e virtualmente zero das reais. Essa cena pode
descrever o almoço de muitos de nós em um dia qualquer. Mas também narra
o cotidiano de crianças e adolescentes.
A geração Alpha, os nascidos a partir de 2010, é a primeira 100%
digital. Embora a geração anterior, a Z, já tenha passado parte da
infância acessando a internet e ostentando seus primeiros smartphones,
os Alphas nasceram em um mundo transformado e dominado pelas inovações
tecnológicas, que mudaram radicalmente as relações sociais. A sociedade
digital não mais depende de mídias físicas para entretenimento ou
informação: consome conteúdo escolhendo o que ver, quando e como quiser.
Essa nova geração simplesmente desconhece o analógico.
O ser humano é um animal relacional. A forma como nos desenvolvemos é
na conexão com os outros. Aprendemos a falar ao ouvir nossos pais,
avós, tios e tias, pessoas do nosso ciclo. Definimos nossas identidades
na troca. Nos exemplos. Conforme reduzimos os componentes familiares e o
trabalho ultrapassa os limites antes mais claros entre vida pessoal e
profissional, a nova leva geracional se desenvolve mirando outros
espelhos. Pais e filhos dividem a atenção entre si com os dispositivos
eletrônicos. A criança Alpha se acostumou a disputar a atenção dos
adultos com as telas. E também a se entreter e perceber o mundo com essa
intermediação.
É um assombro observar a facilidade com que os Alpha operam tablets e
smartphones, transitando com desenvoltura por games, streamings,
diferentes aplicativos e vídeos do YouTube, TikTok e Instagram. A
sensação inicial de quem convive com essas criaturas digitais, mesmo os
mais novinhos, é de que essa é a geração mais inteligente que já
existiu. E há alguma dose de verdade nessa percepção. Ao menos, pode-se
antever como uma das características da geração Alpha
o fato de que ela vai ser a mais bem formada da história. “Eles são
considerados mais inteligentes porque têm uma capacidade de observar o
ambiente, de entender o que está acontecendo e transformar isso em
conhecimento [de maneira] mais habilidosa do que as gerações
anteriores”, explica Maysa Fagundes, mestre em Psicologia Clínica pela
PUC-SP com ênfase no estudo da geração Alpha. “Então, conseguem
transformar o aprendizado em conhecimento com um pouco mais de
facilidade.”
Parte dessa facilidade é inerente à própria visão de mundo desse
tempo. Um mundo absolutamente sem fronteiras, tanto pela globalização
quanto pela integração tecnológica. A vida em rede facilita a troca de
experiências entre pessoas em polos opostos do planeta. Os Alphas se
adaptaram a essa realidade das últimas duas décadas. É um universo tão
novo que até o conceito de tempo e espaço foi alterado. Os Alphas, mesmo
os não inteiramente alfabetizados, sabem trocar mensagens com parentes e
amigos da escola. E ampliam seu entorno para amizades fora do círculo
de convivência, em conversas virtuais esporádicas. Se para a geração X,
dos nascidos entre 1965 e 1980, o contato físico e os papos “olho no
olho” — ou ao menos por telefone — eram mais importantes, para os Alphas
os encontros podem ser espaçados. “O conceito de tempo para eles fica
diferente. Não precisa ser ao mesmo tempo. A gente pode ter uma conversa
com uma diferença de uma semana e se sentir super próximo”, explica
Fagundes.
Vale aqui abrir uma discussão. A teoria geracional criada pelas
ciências humanas busca entender o comportamento de uma sociedade nascida
em um mesmo período ou contexto histórico. Foi assim que os Baby
Boomers, nascidos entre as décadas de 1940 e 1960, começaram a ser
estudados. Foi o momento da explosão demográfica, quando os homens
voltavam para casa após o fim da Segunda Guerra Mundial. Mas definir
gerações, enquadrá-las, é, necessariamente, fazer um recorte. E, assim,
evidente, deixar nuances de lado. Não raro, pode-se cair na armadilha
dos estereótipos. Numa reportagem da The Atlantic
sobre o assunto, Dan Woodman, professor de sociologia da Universidade
de Melbourne que estuda rótulos geracionais, crava: "Provavelmente
ficaríamos irritados se fizéssemos com gênero ou raça o que ainda
conseguimos fazer com gerações”. Por outro lado, rotular uma geração
ajuda a descrevê-la e pode ajudar a compreendê-la. “Uma das coisas que
fazemos com rótulos geracionais é fazer afirmações sobre o quão
diferente essa turma é – eles são tão diferentes, quase estranhos em
suas atitudes, que você precisa pagar alguns especialistas para entrar e
explicá-los para você.” E paga-se muito bem, ele conta. Neil Howe, um
dos criadores do termo Millenials, há cerca de 30 anos, fez uma
lucrativa carreira em consultoria, palestrando e escrevendo sobre
gerações.
De qualquer forma, é com esses recortes que nos acostumamos a tentar
avaliar e prever comportamentos. O próprio Woodman reflete, sobre os
Alphas, que “eles ainda são crianças”. “Muitas coisas que atribuímos a
uma geração estão na maneira como ela começa a pensar sobre política, na
maneira como se envolve com a cultura e [se] é uma fonte de novos
movimentos sociais.” Mas compreende-se mais a fundo uma geração, de
forma mais substancial, quando eles entram na adolescência. Depois dos
Baby Boomers, sociólogos, antropólogos, cientistas sociais e outros
estudiosos das humanidades buscaram compreender como seus filhos se
diferenciavam de seus antecessores. Robert Capa, fundador da agência
Magnum, cunhou o termo geração X, por não encontrar uma definição
específica para os nascidos no pós-guerra. Mas a expressão se
popularizou após o lançamento da banda Generation X, criada pelo cantor
inglês Billy Idol e o lançamento do livro Geração X: contos para uma
cultura acelerada, de Douglas Coupland.
As gerações seguintes sempre foram definidas por letras, como a Y,
entre 1980 a 1995 (que também ficou conhecida como Millenial), e a Z, de
1995 a 2010. Esgotadas as letras do alfabeto romano, o sociólogo
australiano Mark McCrindle, que também tem uma agência de consultoria,
fez, em 2008, uma pesquisa — online, claro. Vários nomes associados à
tecnologia surgiram ali, como os “Onliners”, “Generation Surf” ou
“Technos”. Outros atribuíam à nova geração o peso de redimir os pecados
das anteriores, como “Regeneração”, “Geração Esperança”, os
“Salvadores”, “Geração Y-não”. McCrindle, porém, optou por adotar um
novo alfabeto. Para os bebês que nasceram a partir de 2010, chamou-os de
geração Alpha, a primeira letra grega.
Eu, robô
Voltemos a ela. Com uma exposição tão ostensiva às telas, o
comportamento dos Alphas também é moldado pelo conteúdo consumido nas
plataformas digitais. Os referenciais, dos ideais de beleza do corpo de
mulheres e homens até o de seus adereços, vêm com o filtro da
publicidade e dos influenciadores. “Estamos falando sobre todo um ideal
de existência física, que é manifestado de uma forma totalmente editada
nas redes”, explica Pedro Almeida, mestre em antropologia pela UFBA e
gestor de inovação. Ele ressalta que os conteúdos nesses espaços,
principalmente dos perfis profissionais, são editados para mostrar a
vida sempre por um ângulo positivo. Nas raras vezes em que o aspecto
negativo é abordado, as mensagens são pensadas de maneira a favorecer a
personagem no vídeo. É uma realidade fantasiosa.
Com isso, claro, vem uma crise na construção da autoimagem. A
referência para o jovem, que antes eram os pais e os professores, se
desloca para influenciadores digitais e artistas. Não que antes os
astros de Hollywood não assumissem esse lugar. Mas a convivência entre
fãs e ídolos estava restrita às páginas de jornais e revistas. Agora,
todos têm perfis nas principais redes sociais, compartilham seu
cotidiano, muitas vezes distorcido pelo glamour e a ostentação. São
objetos de desejo ao mesmo tempo acessíveis e inalcançáveis. O
pré-adolescente, sujeito a uma esperada crise de identidade que vem
quando ele não se reconhece mais como igual aos indivíduos de seu
círculo familiar, vai procurar sua “tribo” nesse ambiente. Um mundo
artificial onde os pratos são perfeitos, as pessoas são lindas,
saudáveis, e vivem em constantes viagens a locais deslumbrantes. Na
terra onde a grama do perfil alheio é sempre mais verde e florida. “É
uma crise da representatividade, da referência que antes estava
atribuída a uma paternidade, a um professorado e hoje isso está nas
autoridades digitais”, acrescenta Almeida.
Somam-se a elas os buscadores, como o Google. As dúvidas e os medos
dessa fase são levadas a uma ferramenta que não oferece necessariamente
as respostas, mas apenas interpretações de um algoritmo sobre o que
seria o resultado adequado para as pesquisas. Encontrar material
confiável online não é trivial, principalmente para os que acabaram de
desembarcar ali e ainda não entendem os perigos da desinformação e das
ciladas cibernéticas. A abundância de informação na rede tem evidentes
vantagens. Pode ser uma grande aliada da curiosidade das crianças. Mas a
quantidade não quer dizer que haja qualidade no consumo — tampouco
maturidade, intelectual ou emocional, para lidar com o conteúdo que
recebem. “Isso me preocupa, porque agora as crianças buscam essas
referências na internet e se validam por falas dessas autoridades
digitais. Mas para se construir como autoridade digital, principalmente
para uma criança, você não precisa ter muito conhecimento, bagagem.
Precisa apenas de um atrativo lúdico”, comenta o antropólogo.
Sempre alerta
Os efeitos dessa vida em tela vão além dos comportamentais. Sempre
envoltos em estímulos novas informações, os Alphas estão em permanente
estado de alerta. "Com isso, nós temos algumas questões de transtorno de
déficit de atenção e hiperatividade”, explica a psicóloga Maysa
Fagundes. “Mas também a atenção deles é o tempo todo desviada porque há
um letreiro, uma música, ou um vídeo, que é curto.” Pesquisadores da
Universidade do Sul da Califórnia monitoraram 2,6 mil adolescentes por
dois anos e descobriram
que jovens que fazem o uso excessivo de telas como celulares, tablets e
outras mídias têm duas vezes mais chances de apresentarem sintomas de
Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) que os demais.
Muito tempo com celular na mão, pouco tempo para descanso da mente.
As muitas horas de uso ao longo da noite têm reduzido a qualidade do
sono dos jovens, impactando diretamente no aprendizado e no rendimento
escolar. O professor de pediatria de Harvard,
Michael Rich, conduz estudos e atendimento clínico desse público em
Boston. Ele explica que o cérebro humano, em sua fase de crescimento,
está constantemente construindo conexões neurais. Ao mesmo tempo, vai
eliminado aquelas menos usadas, num processo de limpeza. Acontece que o
uso de mídias digitais desempenha um papel ativo nesse processo, ao
oferecer, nas telas, uma estimulação “empobrecida” em comparação com a
realidade. Ele defende que o mix entre experiências online e offline é
essencial. Mais ainda, o tédio. “O tédio é o espaço em que a
criatividade e a imaginação acontecem”, explica Rich.
Mas separar uma criança ou um adolescente de seu gadget não é
simples. Isso porque eles ativam uma área extremamente prazerosa e
gratificante. “Praticamente todos os jogos e mídias sociais funcionam no
que é chamado de sistema de recompensa variável, que é exatamente o que
você ganha quando vai ao Mohegan Sun [cassino nos Estados Unidos] e
puxa uma alavanca em uma máquina caça-níqueis. Equilibra a esperança de
que você vai se tornar grande com um pouco de frustração e, ao contrário
da máquina caça-níqueis, um senso de que basta melhorar suas
habilidades para chegar lá.”
O futuro
Como o sociólogo Dan Woodman, de Melbourne, explica, os Alphas ainda
são muito jovens para que se façam previsões de sua vida adulta. Mas dá
para se imaginar os desafios. Além de desenvolver algum nível de
controle sobre o uso dos dispositivos e redes sociais, a favor da
própria saúde física e mental, será necessário que os Alphas se
prepararem para as constantes transformações tecnológicas a que já estão
sujeitos. Segundo Pedro Almeida, “existe uma possibilidade muito grande
de termos uma crise no mercado de trabalho em nível global,
potencializada pela aceleração da automação”.
As escolas já começaram a buscar um novo modelo de ensino, mais
focado no desenvolvimento tecnológico e nas habilidades que cada
indivíduo apresenta. A reforma do Ensino Médio permite que os alunos
escolham a área do conhecimento em que queiram focar. Mas ainda há um
longo caminho a ser percorrido. Com a possibilidade de extinção de
profissões existentes e a criação de novas áreas de trabalho, muitos
desses jovens estão em formação para atividades que nem mesmo foram
criadas. “Essa criança, quando terminar o ensino médio, entrar num curso
superior, finalizar, entrar no mercado de trabalho... é uma escala de
tempo em que tudo pode ter mudado. Será que estamos dando uma educação
para essa criança viver o que ela vai necessitar daqui a pouco?”,
questiona Almeida. “Se não estamos preparando para o que já temos como
pontos essenciais da vida de hoje, imagine daqui a 15, 20 anos.”
Um ponto importante para a nova leva de profissionais é a diferença
de visão de carreira no mercado de trabalho. “Eles têm muita dificuldade
hoje no mercado porque a maneira como ele está formatado prevê que as
carreiras tenham uma continuidade. Você precisa de um tempo numa empresa
para crescer, se desenvolver. E eles entendem que o aprender e o se
desenvolver é experiência. Então, eu venho, fico nessa empresa seis
meses, já aprendi como é que faz, posso sair pra uma outra e aprender
outra forma de fazer”, explica Maysa Fagundes. Segundo a psicóloga, um
outro ponto de conflito é a falta de foco em uma única área de ação. “É
um grande desafio para eles conseguirem fazer uma escolha de carreira,
de profissão. Porque para eles, a vida não tem mais isso de você ser uma
coisa só a vida inteira. Você pode ser tudo ao mesmo tempo e parar e
começar de novo, toda hora.” É aquela alteração no conceito espaço e
tempo de que a geração Alpha é ao mesmo tempo vítima e protagonista. Mas
tudo indica que essa também é a geração mais preparada para inventar um
futuro — e um mercado — em que ela se encaixe perfeitamente.
Fonte da Imagem: Internet.