quarta-feira, 21 de setembro de 2022

A INVENÇÃO DOS DEUSES

 


por Bento de Espinosa (1632-77)*
 
As pessoas encontram em si e fora delas bastante coisas que são meios que contribuem não pouco para que alcancem o que lhes é útil, por exemplo, olhos para ver, dentes para mastigar, vegetais e animais para alimentação, sol para iluminar, mar para sustento de peixes. São levadas a considerar todas as coisas da Natureza como meios para a sua utilidade pessoal. E porque sabem que tais meios foram por elas achados e não dispostos, daqui tiraram motivo para acreditar na existência de outrem que os dispôs para que os utilizassem.
 
Com efeito, depois de haverem considerado as coisas como meios, não podiam acreditar que elas se criassem a si mesmas, e dos meios que costumam dispor para seu uso próprio foram levados a tirar a conclusão de que houve alguém ou alguns regentes da Natureza, dotados como os homens de liberdade, e que cuidaram em tudo que lhes dissesse respeito e para sua utilidade fizeram todas as coisas.
Quanto à compleição destes seres, como nunca ouviram falar nada a tal respeito, também foram levados a julgá-la pela que em si notaram.
 
Daqui, haverem estabelecido que os deuses ordenaram tudo o que existe para uso humano, a fim dos homens lhes ficarem cativos e de serem tidos em suma honra; donde o fato de haverem excogitado, conforme a própria compleição, diversas maneiras de se render culto a Deus, para que Deus os estime acima dos outros e dirija a Natureza inteira em proveito da sua cega apetição e insaciável avareza.
 
Assim, este prejuízo transformou-se em superstição e lançou profundas raízes nas mentes.
 
* Filósofo, também conhecido pela grafia Baruch Spinoza ou Benedito Espinoza.
 
 
Fonte da Imagem: https://redhistoria.com/descubre-cual-es-el-dios-del-juego-en-cada-parte-del-mundo/

sábado, 27 de agosto de 2022

A HUMANIDADE DO FUTURO (OU O FUTURO DA HUMANIDADE...)

 

 

De Alpha a Zap

 Por Adriano Oliveira, para Canal Meio (https://www.canalmeio.com.br/)

De cabeça abaixada, os olhos brilham em frente a uma tela acariciada por dedos que repetem o mesmo movimento de arrastar, de cima para baixo, de lado a lado, em movimentos pinça para o zoom, a cada poucos segundos. O almoço chega. Nem é preciso olhar para o prato. A não ser para fazer uma foto. A rotina segue, agora, apenas com uma das mãos, enquanto a outra desempenha a mecânica tarefa de segurar o talher para a displicente alimentação. E assim passam-se minutos de um mergulho em interações virtuais — e virtualmente zero das reais. Essa cena pode descrever o almoço de muitos de nós em um dia qualquer. Mas também narra o cotidiano de crianças e adolescentes.

A geração Alpha, os nascidos a partir de 2010, é a primeira 100% digital. Embora a geração anterior, a Z, já tenha passado parte da infância acessando a internet e ostentando seus primeiros smartphones, os Alphas nasceram em um mundo transformado e dominado pelas inovações tecnológicas, que mudaram radicalmente as relações sociais. A sociedade digital não mais depende de mídias físicas para entretenimento ou informação: consome conteúdo escolhendo o que ver, quando e como quiser. Essa nova geração simplesmente desconhece o analógico.

O ser humano é um animal relacional. A forma como nos desenvolvemos é na conexão com os outros. Aprendemos a falar ao ouvir nossos pais, avós, tios e tias, pessoas do nosso ciclo. Definimos nossas identidades na troca. Nos exemplos. Conforme reduzimos os componentes familiares e o trabalho ultrapassa os limites antes mais claros entre vida pessoal e profissional, a nova leva geracional se desenvolve mirando outros espelhos. Pais e filhos dividem a atenção entre si com os dispositivos eletrônicos. A criança Alpha se acostumou a disputar a atenção dos adultos com as telas. E também a se entreter e perceber o mundo com essa intermediação.

É um assombro observar a facilidade com que os Alpha operam tablets e smartphones, transitando com desenvoltura por games, streamings, diferentes aplicativos e vídeos do YouTube, TikTok e Instagram. A sensação inicial de quem convive com essas criaturas digitais, mesmo os mais novinhos, é de que essa é a geração mais inteligente que já existiu. E há alguma dose de verdade nessa percepção. Ao menos, pode-se antever como uma das características da geração Alpha o fato de que ela vai ser a mais bem formada da história. “Eles são considerados mais inteligentes porque têm uma capacidade de observar o ambiente, de entender o que está acontecendo e transformar isso em conhecimento [de maneira] mais habilidosa do que as gerações anteriores”, explica Maysa Fagundes, mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP com ênfase no estudo da geração Alpha. “Então, conseguem transformar o aprendizado em conhecimento com um pouco mais de facilidade.”

Parte dessa facilidade é inerente à própria visão de mundo desse tempo. Um mundo absolutamente sem fronteiras, tanto pela globalização quanto pela integração tecnológica. A vida em rede facilita a troca de experiências entre pessoas em polos opostos do planeta. Os Alphas se adaptaram a essa realidade das últimas duas décadas. É um universo tão novo que até o conceito de tempo e espaço foi alterado. Os Alphas, mesmo os não inteiramente alfabetizados, sabem trocar mensagens com parentes e amigos da escola. E ampliam seu entorno para amizades fora do círculo de convivência, em conversas virtuais esporádicas. Se para a geração X, dos nascidos entre 1965 e 1980, o contato físico e os papos “olho no olho” — ou ao menos por telefone — eram mais importantes, para os Alphas os encontros podem ser espaçados. “O conceito de tempo para eles fica diferente. Não precisa ser ao mesmo tempo. A gente pode ter uma conversa com uma diferença de uma semana e se sentir super próximo”, explica Fagundes.

Vale aqui abrir uma discussão. A teoria geracional criada pelas ciências humanas busca entender o comportamento de uma sociedade nascida em um mesmo período ou contexto histórico. Foi assim que os Baby Boomers, nascidos entre as décadas de 1940 e 1960, começaram a ser estudados. Foi o momento da explosão demográfica, quando os homens voltavam para casa após o fim da Segunda Guerra Mundial. Mas definir gerações, enquadrá-las, é, necessariamente, fazer um recorte. E, assim, evidente, deixar nuances de lado. Não raro, pode-se cair na armadilha dos estereótipos. Numa reportagem da The Atlantic sobre o assunto, Dan Woodman, professor de sociologia da Universidade de Melbourne que estuda rótulos geracionais, crava: "Provavelmente ficaríamos irritados se fizéssemos com gênero ou raça o que ainda conseguimos fazer com gerações”. Por outro lado, rotular uma geração ajuda a descrevê-la e pode ajudar a compreendê-la. “Uma das coisas que fazemos com rótulos geracionais é fazer afirmações sobre o quão diferente essa turma é – eles são tão diferentes, quase estranhos em suas atitudes, que você precisa pagar alguns especialistas para entrar e explicá-los para você.” E paga-se muito bem, ele conta. Neil Howe, um dos criadores do termo Millenials, há cerca de 30 anos, fez uma lucrativa carreira em consultoria, palestrando e escrevendo sobre gerações.

De qualquer forma, é com esses recortes que nos acostumamos a tentar avaliar e prever comportamentos. O próprio Woodman reflete, sobre os Alphas, que “eles ainda são crianças”. “Muitas coisas que atribuímos a uma geração estão na maneira como ela começa a pensar sobre política, na maneira como se envolve com a cultura e [se] é uma fonte de novos movimentos sociais.” Mas compreende-se mais a fundo uma geração, de forma mais substancial, quando eles entram na adolescência. Depois dos Baby Boomers, sociólogos, antropólogos, cientistas sociais e outros estudiosos das humanidades buscaram compreender como seus filhos se diferenciavam de seus antecessores. Robert Capa, fundador da agência Magnum, cunhou o termo geração X, por não encontrar uma definição específica para os nascidos no pós-guerra. Mas a expressão se popularizou após o lançamento da banda Generation X, criada pelo cantor inglês Billy Idol e o lançamento do livro Geração X: contos para uma cultura acelerada, de Douglas Coupland.

As gerações seguintes sempre foram definidas por letras, como a Y, entre 1980 a 1995 (que também ficou conhecida como Millenial), e a Z, de 1995 a 2010. Esgotadas as letras do alfabeto romano, o sociólogo australiano Mark McCrindle, que também tem uma agência de consultoria, fez, em 2008, uma pesquisa — online, claro. Vários nomes associados à tecnologia surgiram ali, como os “Onliners”, “Generation Surf” ou “Technos”. Outros atribuíam à nova geração o peso de redimir os pecados das anteriores, como “Regeneração”, “Geração Esperança”, os “Salvadores”, “Geração Y-não”. McCrindle, porém, optou por adotar um novo alfabeto. Para os bebês que nasceram a partir de 2010, chamou-os de geração Alpha, a primeira letra grega.

Eu, robô

Voltemos a ela. Com uma exposição tão ostensiva às telas, o comportamento dos Alphas também é moldado pelo conteúdo consumido nas plataformas digitais. Os referenciais, dos ideais de beleza do corpo de mulheres e homens até o de seus adereços, vêm com o filtro da publicidade e dos influenciadores. “Estamos falando sobre todo um ideal de existência física, que é manifestado de uma forma totalmente editada nas redes”, explica Pedro Almeida, mestre em antropologia pela UFBA e gestor de inovação. Ele ressalta que os conteúdos nesses espaços, principalmente dos perfis profissionais, são editados para mostrar a vida sempre por um ângulo positivo. Nas raras vezes em que o aspecto negativo é abordado, as mensagens são pensadas de maneira a favorecer a personagem no vídeo. É uma realidade fantasiosa.

Com isso, claro, vem uma crise na construção da autoimagem. A referência para o jovem, que antes eram os pais e os professores, se desloca para influenciadores digitais e artistas. Não que antes os astros de Hollywood não assumissem esse lugar. Mas a convivência entre fãs e ídolos estava restrita às páginas de jornais e revistas. Agora, todos têm perfis nas principais redes sociais, compartilham seu cotidiano, muitas vezes distorcido pelo glamour e a ostentação. São objetos de desejo ao mesmo tempo acessíveis e inalcançáveis. O pré-adolescente, sujeito a uma esperada crise de identidade que vem quando ele não se reconhece mais como igual aos indivíduos de seu círculo familiar, vai procurar sua “tribo” nesse ambiente. Um mundo artificial onde os pratos são perfeitos, as pessoas são lindas, saudáveis, e vivem em constantes viagens a locais deslumbrantes. Na terra onde a grama do perfil alheio é sempre mais verde e florida. “É uma crise da representatividade, da referência que antes estava atribuída a uma paternidade, a um professorado e hoje isso está nas autoridades digitais”, acrescenta Almeida.

Somam-se a elas os buscadores, como o Google. As dúvidas e os medos dessa fase são levadas a uma ferramenta que não oferece necessariamente as respostas, mas apenas interpretações de um algoritmo sobre o que seria o resultado adequado para as pesquisas. Encontrar material confiável online não é trivial, principalmente para os que acabaram de desembarcar ali e ainda não entendem os perigos da desinformação e das ciladas cibernéticas. A abundância de informação na rede tem evidentes vantagens. Pode ser uma grande aliada da curiosidade das crianças. Mas a quantidade não quer dizer que haja qualidade no consumo — tampouco maturidade, intelectual ou emocional, para lidar com o conteúdo que recebem. “Isso me preocupa, porque agora as crianças buscam essas referências na internet e se validam por falas dessas autoridades digitais. Mas para se construir como autoridade digital, principalmente para uma criança, você não precisa ter muito conhecimento, bagagem. Precisa apenas de um atrativo lúdico”, comenta o antropólogo.

Sempre alerta

Os efeitos dessa vida em tela vão além dos comportamentais. Sempre envoltos em estímulos novas informações, os Alphas estão em permanente estado de alerta. "Com isso, nós temos algumas questões de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade”, explica a psicóloga Maysa Fagundes. “Mas também a atenção deles é o tempo todo desviada porque há um letreiro, uma música, ou um vídeo, que é curto.” Pesquisadores da Universidade do Sul da Califórnia monitoraram 2,6 mil adolescentes por dois anos e descobriram que jovens que fazem o uso excessivo de telas como celulares, tablets e outras mídias têm duas vezes mais chances de apresentarem sintomas de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) que os demais.

Muito tempo com celular na mão, pouco tempo para descanso da mente. As muitas horas de uso ao longo da noite têm reduzido a qualidade do sono dos jovens, impactando diretamente no aprendizado e no rendimento escolar. O professor de pediatria de Harvard, Michael Rich, conduz estudos e atendimento clínico desse público em Boston. Ele explica que o cérebro humano, em sua fase de crescimento, está constantemente construindo conexões neurais. Ao mesmo tempo, vai eliminado aquelas menos usadas, num processo de limpeza. Acontece que o uso de mídias digitais desempenha um papel ativo nesse processo, ao oferecer, nas telas, uma estimulação “empobrecida” em comparação com a realidade. Ele defende que o mix entre experiências online e offline é essencial. Mais ainda, o tédio. “O tédio é o espaço em que a criatividade e a imaginação acontecem”, explica Rich.

Mas separar uma criança ou um adolescente de seu gadget não é simples. Isso porque eles ativam uma área extremamente prazerosa e gratificante. “Praticamente todos os jogos e mídias sociais funcionam no que é chamado de sistema de recompensa variável, que é exatamente o que você ganha quando vai ao Mohegan Sun [cassino nos Estados Unidos] e puxa uma alavanca em uma máquina caça-níqueis. Equilibra a esperança de que você vai se tornar grande com um pouco de frustração e, ao contrário da máquina caça-níqueis, um senso de que basta melhorar suas habilidades para chegar lá.”

O futuro

Como o sociólogo Dan Woodman, de Melbourne, explica, os Alphas ainda são muito jovens para que se façam previsões de sua vida adulta. Mas dá para se imaginar os desafios. Além de desenvolver algum nível de controle sobre o uso dos dispositivos e redes sociais, a favor da própria saúde física e mental, será necessário que os Alphas se prepararem para as constantes transformações tecnológicas a que já estão sujeitos. Segundo Pedro Almeida, “existe uma possibilidade muito grande de termos uma crise no mercado de trabalho em nível global, potencializada pela aceleração da automação”.

As escolas já começaram a buscar um novo modelo de ensino, mais focado no desenvolvimento tecnológico e nas habilidades que cada indivíduo apresenta. A reforma do Ensino Médio permite que os alunos escolham a área do conhecimento em que queiram focar. Mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. Com a possibilidade de extinção de profissões existentes e a criação de novas áreas de trabalho, muitos desses jovens estão em formação para atividades que nem mesmo foram criadas. “Essa criança, quando terminar o ensino médio, entrar num curso superior, finalizar, entrar no mercado de trabalho... é uma escala de tempo em que tudo pode ter mudado. Será que estamos dando uma educação para essa criança viver o que ela vai necessitar daqui a pouco?”, questiona Almeida. “Se não estamos preparando para o que já temos como pontos essenciais da vida de hoje, imagine daqui a 15, 20 anos.”

Um ponto importante para a nova leva de profissionais é a diferença de visão de carreira no mercado de trabalho. “Eles têm muita dificuldade hoje no mercado porque a maneira como ele está formatado prevê que as carreiras tenham uma continuidade. Você precisa de um tempo numa empresa para crescer, se desenvolver. E eles entendem que o aprender e o se desenvolver é experiência. Então, eu venho, fico nessa empresa seis meses, já aprendi como é que faz, posso sair pra uma outra e aprender outra forma de fazer”, explica Maysa Fagundes. Segundo a psicóloga, um outro ponto de conflito é a falta de foco em uma única área de ação. “É um grande desafio para eles conseguirem fazer uma escolha de carreira, de profissão. Porque para eles, a vida não tem mais isso de você ser uma coisa só a vida inteira. Você pode ser tudo ao mesmo tempo e parar e começar de novo, toda hora.” É aquela alteração no conceito espaço e tempo de que a geração Alpha é ao mesmo tempo vítima e protagonista. Mas tudo indica que essa também é a geração mais preparada para inventar um futuro — e um mercado — em que ela se encaixe perfeitamente.

Fonte da Imagem: Internet.



domingo, 24 de julho de 2022

O mundo depois da Ucrânia

 


Por José Luís Fiori (*)

(Artigo recomendado pelo Amigo Guilherme Barbosa).

Fonte: https://sul21.com.br/opiniao/2022/07/o-mundo-depois-da-ucrania-por-jose-luis-fiori/

 

Desde a década de 70 do século XX está em curso uma grande “explosão expansiva” do sistema mundial. Nossa hipótese é que o aumento da “pressão competitiva” dentro do sistema foi provocado pelo expansionismo imperial dos Estados Unidos, pela multiplicação do número dos Estados soberanos dentro do sistema, e pelo crescimento vertiginoso do poder e da riqueza dos Estados asiáticos, e da China em particular. O tamanho dessa “pressão competitiva” permite prever, neste início do século XXI, uma nova “corrida imperialista” entre as grandes potências.

Fiori, J. L. O sistema interestatal capitalista no início do século XXI. In: Fiori, J. L.; Medeiros, C.; Serrano, F. O Mito do Colapso do Poder Americano. Rio de Janeiro: Editora Record, 2008. p. 24

Após 140 dias do início da guerra na Ucrânia, já é possível identificar fatos, decisões e consequências estratégicas, econômicas e geopolíticas que são irreversíveis, e que podem ser considerados como as portas de entrada da “nova ordem mundial” de que tanto falam os analistas internacionais. Neste momento, do ponto de vista estritamente militar, ninguém mais acredita na possibilidade de vitória da Ucrânia, e muito menos na retirada das forças russas dos territórios que já conquistaram. O mais provável, inclusive, é que os russos sigam avançando sobre o território ucraniano mesmo depois da conquista de Donbass, pelo menos até o início das negociações de paz que envolvam a participação direta dos Estados Unidos em torno da proposta apresentada pela Rússia em 15 de dezembro de 2021, e que foi então rejeitada pelos norte-americanos.

Mesmo assim, não é improvável que as tropas ucranianas se retirem para uma posição defensiva e se proponham a levar à frente uma guerra de atrito prolongada através de ataques e reconquistas pontuais. Neste caso, o conflito pode se estender por meses ou anos, mas só será possível se os norte-americanos e europeus mantiverem seu apoio financeiro e militar ao governo da Ucrânia, que rigorosamente não dispõe da capacidade de sustentar sozinho um conflito dessa natureza. E terá cada vez menos capacidade, na medida em que sua economia nacional vem se deteriorando aceleradamente, e já se encontra à beira do caos. Esta guerra contudo está sendo travada, de fato, entre os Estados Unidos e a Rússia, e é aí que se encontra o núcleo duro do problema da paz. Ou seja, são duas guerras sobrepostas, mas a chave da paz se encontra – nos dois casos – nas mãos dos Estados Unidos, o único país que pode tomar o caminho diplomático de uma negociação de paz, uma vez que a Rússia já fez a sua proposta e entrou em guerra exatamente porque ela foi rejeitada ou simplesmente desconhecida pelos americanos, pela OTAN e pelos europeus. E é aqui que se encontra o impasse atual: os russos já não têm como aceitar uma derrota; e para os norte-americanos, qualquer negociação é vista como um sinal inaceitável de fraqueza, sobretudo depois de sua desastrosa “retirada do Afeganistão”. Por isso mesmo, a posição oficial do governo americano é prolongar a guerra indefinidamente, por meses ou anos, até exaurir a capacidade econômica russa de sustentar sua posição atual na Ucrânia, e mais à frente, de iniciar novas guerras.

Apesar disso, existe uma brecha para a paz que está se consolidando com o avanço da crise econômica e social dos principais países que apoiam a resistência militar do governo ucraniano. Com algumas repercussões políticas imediatas, em alguns casos, como a queda abrupta da popularidade do presidente Biden, nos Estados Unidos; as derrotas eleitorais de Macron, na França, e de Draghi, na Itália; a queda de Boris Johnson na Inglaterra; e a fragilidade notória do governo de coalizão de Sholz, na Alemanha – alguns dos principais países que desencadearam uma verdadeira guerra econômica contra a Rússia, propondo-se a asfixiar sua economia no curto prazo, excluindo-a do sistema financeiro mundial, e aleijá-la no longo prazo, com o banimento do petróleo e do gás russos dos mercados ocidentais.

Esse ataque econômico, fracassou nos seus objetivos imediatos, e pior do que isto, vem provocando uma crise econômica de grandes proporções nos países que lideraram as sanções contra a economia russa, em particular nos países europeus. E o que é mais importante, os Estados Unidos e seus aliados não conseguiram isolar e excluir a Rússia do sistema econômico e político internacional. Apenas 21% dos países-membros da ONU apoiaram as sanções econômicas impostas à Rússia, e nestes quatro meses de guerra, a Rússia conseguiu manter e ampliar seus negócios com a China, a Índia e com a maioria dos países da Ásia, do Oriente Médio (incluindo Israel), da África e da América Latina (incluindo o Brasil).

Nos últimos quatro meses de guerra, os superávits comerciais russos alcançaram sucessivos recordes, e suas exportações de petróleo e gás do último mês de maio foram superiores ao período anterior à guerra (U$ 70,1 bilhões no primeiro trimestre, e U$ 138,5 bilhões no primeiro semestre de 2022, o maior superavit comercial russo desde 1994). O mesmo acontecendo, surpreendentemente, no caso das exportações russas para os países europeus e para o mercado norte-americano, que cresceram neste período, apesar do banimento oficial imposto pelo G7 e seus aliados mais próximos.

A expectativa inicial do mercado financeiro era que o PIB russo caísse 30%, a inflação chegasse à casa do 50% e que a moeda russa, o rublo, se desvalorizasse algo em torno dos 100%. Depois de quatro meses de guerra, a previsão é que o PIB russo caia uns 10%, a inflação foi contida um pouco acima do nível em que estava antes da guerra, e o rublo foi a moeda que mais se valorizou no mundo nesse período. Enquanto isso, do outro lado desta nova “cortina financeira”, a economia
europeia vem sofrendo uma queda acentuada e pode entrar num período prolongado de estagflação: nesses quatro meses de guerra e de sanções, o euro se desvalorizou em 12%, e a inflação média do continente está em torno de 8,5%, alcançando cerca de 20% em alguns países bálticos; e a própria balança comercial da Alemanha, maior economia exportadora da Europa, teve um saldo negativo no último mês de maio, no valor de 1 bilhão de dólares.

Tudo indica, portanto, que as “potências ocidentais” possam ter calculado mal a capacidade de resistência de um país que, além de ser o mais extenso, é também uma potência energética, mineral e alimentar, sendo também a maior potência atômica mundial. Um fracasso (das previsões) econômicas, do ponto de vista “ocidental”, que vem repercutindo também no plano diplomático, onde a deterioração da liderança americana vem ficando cada vez mais visível, como se pode observar na viagem improvisada de Biden à Ásia, no insucesso da “Cúpula da Democracia” e na “Cúpula das Américas”, na baixa receptividade das posições americanas e ucranianas entre os países árabes e africanos, no fracasso americano na sua tentativa de exclusão dos russos da reunião do G20, em Bali, e na mais recente e desconfortável visita do presidente americano à Arábia Saudita e ao seu principal desafeto da Casa de Saud, o príncipe Mohammad bin Salman, que é acusado pelos próprios americanos de haver matado e esquartejado um jornalista que lhe fazia oposição.

Quando se olha para estes fatos e números, consegue-se também visualizar algumas das características da nova ordem mundial que está nascendo à sombra dessa nova guerra europeia, como já aconteceu no caso da Primeira e da Segunda Guerras Mundiais.

i) Pelo “lado oriental”, caso a Rússia não seja derrotada, e o mais provável é que não o seja, seu simples ato de insubordinação contra a ordem imposta na Europa pelos EUA e pela OTAN, depois de 1991, por si só já inaugura uma nova ordenação internacional, com o surgimento de uma potência com capacidade e disposição de rivalizar com o “ocidente” e sustentar, com suas próprias armas, seus interesses estratégicos com suas “linhas vermelhas” e seu próprio sistema de valores. Uma nova potência capitalista que rompe o monopólio da “ordem internacional pautada pelas regras” definidas há pelo menos três séculos pelos canhões e canhoneiras euro-americanas, e sobretudo por seus povos de língua inglesa. A Rússia rompe assim, definitivamente, qualquer tipo de aproximação com a União Europeia, e em particular com os países do G7, optando por uma aliança geopolítica e uma integração de largo fôlego com a China e a Índia. E contribui, desta forma, para que a China assuma a liderança e redefina radicalmente os objetivos do grupo do BRICS+, que era um bloco econômico e agora está sendo transformado num verdadeiro bloco alternativo ao G7, depois da provável inclusão de Argentina, Irã, Egito, Turquia e a própria Arábia Saudita. Com cerca de 40% da população mundial e um PIB quase igual ao do G7, já é hoje uma referência mundial em franco processo de expansão e projeção global do seu poder.

ii. Pelo “lado ocidental”, por sua vez, o fato mais importante – caso se confirme – será a derrota econômica das “potências econômicas ocidentais” que não terão conseguido em conjunto asfixiar nem destruir a economia russa. O uso militar das “sanções econômicas” será desmoralizado, e as armas voltarão a prevalecer na Europa. Primeiro, com a ascendência da OTAN, que substituirá, no curto prazo, o governo dividido e fragilizado da União Europeia, transformando a Europa num “acampamento militar” – com 300 mil soldados sob a bandeira da OTAN – sob o comando real dos Estados Unidos. No médio prazo, entretanto, essa nova configuração geopolítica deve aprofundar as divisões internas da União Europeia, incentivando uma nova corrida armamentista entre seus Estados-membros, liderada provavelmente pela Alemanha, que após 70 anos de tutela miliar americana, retoma seu caminho militarista tradicional. E assim, a Europa volta ao seu velho “modelo westfaliano” de competição bélica, (falta algo – e com isso…) liquida sua utopia da unificação, se desfaz definitivamente de seu modelo econômico de sucesso puxado pelas exportações e sustentado pela energia barata fornecida pela Rússia.

iii. Por fim, pelo lado do “império americano”, a grande novidade e mudança foi a passagem dos norte-americanos e seus aliados mais próximos para uma posição defensiva e reativa. E esta foi ao mesmo tempo a sua principal derrota nesta guerra: a perda de inciativa estratégica, que passou, no campo militar, para as mãos da Rússia, no caso da Ucrânia e no campo econômico, para as mãos da China no caso da Belt and Road. As “potências ocidentais” parecem ocupadas em “tapar buracos” e “refazer conexões” perdidas ao redor do mundo, enquanto o próprio conflito vai explicitando a perda da liderança ocidental no sistema internacional, com o rápido encolhimento da hegemonia secular dos valores europeus e da supremacia militar global dos povos anglo-saxônicos. Nesta crise ficou claro, mais do que nunca, o verdadeiro tamanho do G7, que costuma falar em nome de uma “comunidade internacional” que não existe mais ou que foi sempre uma ficção ou “narrativa” dos sete países que já foram os mais ricos e poderosos do mundo. Mais do que isto, o próprio poder do “capital financeiro” desregulado e globalizado está sendo posto em xeque, com a explicitação da face parcial e bélica da “moeda internacional” e o desnudamento da estrutura de poder estatal que se esconde por trás de dois sistemas internacionais de troca de informações financeira se pagamentos, o SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication), que tem sua sede em Bruxelas, mas que que é controlado, de fato, pelos Bancos Centrais de 10 Estados apenas, os mesmos do G7 e mais Suécia, Suíça e Países Baixos. Ou seja, o mesmo grupo de Estados e bancos nacionais que controlaram o sistema político e econômico internacional nos últimos 300 anos e que agora estão sendo questionados por esta “rebelião eurasiana”, Afinal, um “segredo de Polichinelo” que foi guardado por muito tempo e com muita cautela: o “capital financeiro globalizado” tem dono, obedece a ordens e pertence à categoria das “tecnologias duais”: pode ser usado para acumular riqueza, mas também pode ser usado como arma de guerra.

Resumindo: a nova ordem mundial está cada vez mais parecida com seu modelo original criado pela Paz de Westfália de 1648. A grande diferença é que agora esse sistema incorporou definitivamente a China, a Rússia, a Índia e mais outros 180 países, e não terá mais uma potência ou região do mundo que seja hegemônica e defina unilateralmente suas regras. Em poucos anos, o sistema interestatal se universalizou, a hegemonia dos valores europeus está acabando, o império americano encolheu, e o mundo está passando de um “unilateralismo quase absoluto” para um “multilateralismo oligárquico agressivo”, em trânsito na direção de um mundo que viverá por um tempo sem uma potência hegemônica.

(*) Professor emérito de economia política e de ética Internacionais dos Programas de Pós-graduação em Economia Política Internacional (IE/UFRJ), e em Bioética e Ética Aplicada (PPGBIOS/UFRJ), da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Coordenador do GP do CNPQ, “Poder Global e Geopolítica do Capitalismo”, e do Laboratório de “Ética e Poder Global”, do NUBEIA/ UFRJ; pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (INEEP). Publicou, “Poder Global e a Nova Geopolítica das Nações”, Ed. Boitempo, SP, 2007, “História, Estratégia e Desenvolvimento”, Ed. Boitempo 2014; “Sobre a Guerra”, Ed. Vozes, Petrópolis, 2018; “A Síndrome de Babel”, Ed. Vozes, 2020; “Sobre a Paz”, Ed. Vozes, 2021

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quarta-feira, 29 de junho de 2022

Bendito seja o fruto






Sob o pretexto de proteger uma parcela cristã da população, segmentos reacionários colocam em risco a secularização e os direitos individuais. Mas laicidade é liberdade. E premissa importante da democracia.
   

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Por Flávia Tavares, para canalmeio.com.br

“Existe mais de um tipo de liberdade, dizia Tia Lydia. Liberdade para, a faculdade de fazer ou não fazer qualquer coisa, e liberdade de, que significa estar livre de alguma coisa. Nos tempos da anarquia, era liberdade para. Agora a vocês está sendo concedida a liberdade de. Não a subestimem.”
O Conto da Aia, Margaret Atwood

Laicidade é liberdade. Em sua definição abrangente, um Estado laico é o que assegura a cada cidadão a liberdade para crer (ou não), cultuar (ou não) e se organizar (ou não) religiosamente. É o que garante que, em sua privacidade, o indivíduo possa ser o que quiser para que, no ambiente público, a todos os indivíduos seja dispensado o mesmo tratamento. A laicidade é o que afiança a pluralidade individual para sustentar a igualdade social. A laicidade está em perigo.

Em 2017, o presidente Jair Bolsonaro, ainda em fase de amealhar seguidores e viabilizar sua candidatura, apelou à base religiosa e demonstrou seu desprezo pelo Estado laico. “Somos um país cristão. Não existe essa historinha de Estado laico, não. O Estado é cristão“, afirmou. E assim, afrontando a Constituição de 1988 que veda, em seu artigo 19, que União, Estados e municípios adotem uma crença particular, Bolsonaro se conduz. No mesmo artigo, veda-se também que o Estado crie ”distinções entre brasileiros ou preferências entre si".

O argumento recorrente de segmentos reacionários contra a laicidade do Estado é uma suposta perseguição a cristãos, o que encontra zero respaldo na realidade. A perseguição que existe, de fato, é a religiões de matriz africana — se não promovida, frequentemente consentida pelo Estado brasileiro.

A laicidade não cerceia o exercício da espiritualidade, da religiosidade ou da negação a elas. Cerceia apenas a contaminação do debate público por dogmas religiosos. Na prática, coloca a ética acima da moral.

O valor de um Estado sem uma religião oficial é essencialmente ocidental. Mas, nas últimas semanas, os EUA obrigaram um estado a garantir recursos para escolas religiosas, impuseram o direito de professores em escolas públicas de trazer orações para o ambiente de ensino e, claro, retiraram a garantia constitucional do direito ao aborto. No Brasil, uma juiza bloqueou acesso ao aborto legal para uma criança, o ministério da Saúde trabalha para dificultar mais o direito, enquanto senadores lutam para abrir uma CPI e investigar sérios indícios de corrupção de três pastores, um deles ministro da Educação. A religião está impregnada em todos os Poderes, a todo tempo.

Proteção mútua

O rompimento entre Igreja e Estado tem uma história permeada de tensões e tentativas constantes de retomada de espaço e poder. Até o século XVII, essa não era uma questão. Reis eram ungidos por Deus e cardeais ditavam os rumos de todos os súditos. Embebidos no Iluminismo, europeus passaram a buscar formas de deixar emergir, na criação dos Estados-nação, uma autoridade civil não subordinada às autoridades religiosas. Enquanto isso, protestantes e católicos guerreavam em todo o continente. “O Estado laico surgiu para impedir que católicos e protestantes se matassem uns aos outros. A laicidade assegurou a liberdade dos próprios cristãos”, explica Joanildo Burity, cientista político, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e professor da Universidade Federal de Pernambuco.

O marco fundamental seguinte foram as revoluções liberais do século XVIII. Tanto a americana quanto a francesa foram sacramentadas com declarações de direitos dos homens. “Direito à liberdade de crença, culto e organização religiosa é o primeiro direito humano objeto de detalhamento jurídico. Todas as revoluções liberais colocam esse direito entre os fundamentais. E esse é o direito que fornece o modelo aos demais. As igrejas passam a se sentir extremamente ameaçadas pela emergência dessa forma de organização política”, acrescenta Burity. Inaugura-se a era dos direitos humanos no Ocidente. A noção de que esses direitos são a base fundamental de uma democracia.

Essa nova concepção não resolve tudo. Ela traz em si um dilema explorado lindamente por Hanna Arendt, em Origens do Totalitarismo, de 1951. “É perfeitamente concebível, e mesmo dentro das possibilidades políticas práticas, que, um belo dia, uma humanidade altamente organizada e mecanizada chegue, de maneira democrática — isto é, por decisão da maioria —, à conclusão de que, para a humanidade como um todo, convém liquidar certas partes de si mesma. Aqui, nos problemas da realidade concreta, confrontamo-nos com uma das mais antigas perplexidades da filosofia política, que pôde permanecer desapercebida somente enquanto uma teologia cristã estável fornecia a estrutura de todos os problemas políticos e filosóficos”, diz a autora.

O homem como dimensão inicial e final das regras políticas é um modelo tão imperfeito quanto o próprio homem. Mas os fundadores da democracia americana, pensadores e estadistas que eram, anteviram em alguma medida esse impasse. Em O Federalista, obra basilar da Constituição dos Estados Unidos, Alexander Hamilton, James Madison e John Jay insistiram nos “freios e contrapesos” da divisão de Poderes e das eleições proporcionais para evitar distorções. Hamilton fraseia assim a questão e a solução: “Há […] momentos particulares nos negócios públicos, em que o povo, estimulado por paixões irregulares, seduzido por vantagens ilegítimas ou enganado por argumentos capciosos de homens interessados, pode solicitar medidas que bem depressa desaprovará e cujos efeitos virá mais tarde a deplorar. Nestes momentos críticos, quanto deve ser salutar a interposição de um corpo de cidadãos respeitáveis e moderados, que reprima o impulso funesto da multidão e que suspenda o golpe que o povo está para descarregar em si mesmo, até que a razão, a justiça e a verdade retomem o seu império sobre o espírito público!”.

Em seu discurso de 2017 (e em tantos outros), Bolsonaro deixa claro o perigo que “argumentos capciosos de homens interessados” pode representar. Disse ele: “Vamos fazer o Brasil para as maiorias. As minorias têm que se curvar às maiorias. As minorias se adequam ou simplesmente desaparecem.” Para evitar a tirania da maioria, depois mais bem conceituada por Alexis de Tocqueville, os fundadores americanos professavam que os poderes deveriam se equilibrar e os homens da política precisariam ser, no mínimo, “moderados”. E compreender que um preceito constitucional não se sobrepõe a outro. Algo plenamente oferecido pela laicidade.

Um Estado religioso dá ao governo e ao governante o poder de agir em nome de sua interpretação de leis divinas — e não à toa é associado ao totalitarismo. Religião não orna com crítica reflexiva.

Basta pensar no que significa ter um “ministro terrivelmente evangélico” na Corte de resguardo da Constituição. A laicidade impede, inclusive, que agentes políticos usem da fé alheia, ou das ”paixões irregulares“ descritas por Hamilton, em benefício próprio. Se um político não pode usar a fé para pedir voto, ele é obrigado a pensar política. Política pública, ampla, estruturante. Um Estado laico é emancipatório.

A própria Arendt tem, em sua obra, a resposta para moderar os ímpetos do homem. Entre os princípios mais defendidos pela pensadora, está o de que a política se assenta na pluralidade. De que opiniões somente podem ser ampliadas e testadas quando confrontadas com as de outros atores políticos. Arendt não para aí. Ela advoga que, acima dos direitos humanos, está o direito a se ter direito. Para isso, o indivíduo precisa estar sob um Estado que não abdique de protegê-lo. Justamente o que faz um Estado confessional com aqueles que não praticam a fé oficial.

Gilead é hoje

É um tanto aterrador quando, ao escolher usar um trecho de O Conto da Aia, uma obra distópica em que o Estado confessional de Gilead submete mulheres oficialmente a estupros para conceber filhos a casais religiosos, corre-se o risco de ser clichê. Mas aqui estamos, no Brasil de 2022.

Depois da Segunda Guerra Mundial, a laicidade foi assumindo um novo caráter, inclusive de defesa da liberdade de quem não tem religião. Aos poucos, essa noção secular passa a ser de que o Estado deve tomar o lugar da religião na formação de cabeças. Na educação pública. “No fim do século XX, com o boom econômico da Europa e do Atlântico Norte, ficamos com a ideia de que o desenvolvimento científico e cultural havia superado a religião. Nos anos 1990, percebemos que isso só valia para um quarto do planeta”, diz Burity. A tensão entre Igreja e Estado, sempre latente, se intensificou. Os religiosos nunca se afastaram da esfera pública para valer. Bancadas católicas e, mais recentemente, evangélicas sempre tiveram relevância; candidatos fazem o beija-mão cristão em cada ciclo eleitoral. O que mudou mais recentemente, que nos faz ter essa opressora sensação de que há uma ofensiva religiosa?

Houve uma sequência de eventos globais que chacoalharam qualquer noção de estabilidade. As grandes migrações pós-guerra, que num primeiro momento alimentaram a tolerância religiosa, se tornaram alvo da xenofobia. Guerra do Golfo, Torres Gêmeas, crises econômicas sucessivas, conquista de direitos de gênero, reprodutivos. Setores de igrejas reagiram de forma positiva à modernidade. Outros não. E eles aprenderam a usar a linguagem dos direitos e da participação política para inverter a lógica da “perseguição”. Para defender ideias retrógradas. “Essas são as lutas das próximas décadas. Não é incompreensível que as pessoas busquem encontrar nos discursos conservadores religiosos as garantias que o mundo ao seu redor não dá mais. Mas a garantia da participação pública e política de grupos religiosos deve ser acompanhada por exigências de respeito à lei e desse marco secular de não tomar partido de uma determinada religião”, conclui Burity.

As religiões são, de forma geral, patriarcais. Um conjunto de dogmas criado e compilado por homens, celibatários em muitos casos, com concepções medievais de como se deve conduzir a vida. O que chega no ambiente político costuma ser a versão mais radical desses dogmas, que é a que mais comove e tem potencial de se converter em votos. Essa matemática fica explícita quando se observa o caso americano. Na década de 1970, quando a Suprema Corte decidiu que o aborto era um direito constitucional, pesquisas apontavam que 39% dos republicanos disseram que o aborto deveria ser permitido por qualquer motivo, em comparação com 35% dos democratas. Hoje, conforme o Partido Republicano se viu sequestrado pela extrema-direita religiosa, uma pesquisa apontou que democratas e independentes de tendência democrata são 42 pontos percentuais mais propensos do que republicanos a dizer que o aborto deveria ser legal em todos ou na maioria dos casos (80% contra 38%).

É isso que a contaminação da política pela religião faz. Interfere no debate público. Impõe visões singulares e autoritárias. Extirpa direitos. Restringe liberdades. E mina a democracia.


Fonte do Texto: http://www.canalmeio.com.br/notas/bendito-seja-o-fruto/?h=T21hciBSw7ZzbGVyfDEyMjIwNg==

Imagem: The Inquisition, 1981. By Jacek Yerka, in WikiArt.org

sábado, 18 de junho de 2022

IMPRESSÕES DE CHARLES DARWIN SOBRE O BRASIL

 



Charles Darwin, 19 de agosto de 1836:

“No dia 19 de agosto deixamos finalmente as costas do Brasil. Dou graças a Deus, e espero nunca mais visitar um país de escravos. Até o dia de hoje, sempre que ouço um grito distante, lembro-me vivamente do momento doloroso que senti quando passei por uma casa no Recife. Ouvi os mais angustiosos gemidos, e não tinha dúvida nenhuma de que algum miserável escravo estava sendo torturado, entretanto, sentia-me tão impotente quanto uma criança, para até mesmo dar demonstrações. Julguei que os gemidos partiam de um escravo trucidado, pois disseram-me ser esse o caso, em outra ocasião. (...)” (Darwin, 1871, p. 129). 

Em seguida Darwin comentou a crueldade com que os escravos eram tratados, relembrando particularmente a sua passagem pelo Rio de Janeiro e revelando sua aversão a tais atos e à escravidão em geral. 

Em 2 de outubro, Darwin chegava finalmente à Inglaterra. 

Seu desejo de não mais visitar um país de escravos certamente foi atendido, e ao Brasil nunca mais retornou. 

 

Fonte: O Retorno Impossível: Charles Darwin e a Escravidão no Brasil; Antonio Carlos Sequeira Fernandes & Vera Lucia Martins de Moraes, no A n u á r i o d o I n s t i t u t o d e G e o c i ê n c i a s - U F R J ISSN 0101-9759 e-ISSN 1982-3908 - Vol. 31 - 1 / 2008 p. 65-82.

 Imagem: Slaves And Parasites By Jeff Christensen.

 

Nota do Blog: infelizmente, embora mais disfarçada, essa terrível "tradição" escravagista ainda persiste no Brasil.

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Os três "golpes" de Jair Bolsonaro

 







Quais são os fenômenos que compõem a arquitetura golpista do atual governo e suas chances de prosperar
  

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Por Christian Lynch *

O sistema político de 1988 foi construído deliberadamente contra a herança autoritária do regime militar. A Constituição que lhe serve de baliza jurídica consagrou uma arquitetura institucional pautada por princípios e valores capazes de comportar governos liberais democráticos, como o de Collor e Fernando Henrique; social-democratas, como o de Lula e Dilma; e conservadores, como o de Sarney e Temer. A crise de legitimidade do sistema representativo tornada aguda entre 2013 e 2018 tornou possível, porém, a emergência de uma direita radical, inimiga do Estado de Direito da Nova República.

Desde então, o fantasma do golpe tem assombrado nossa democracia. O questionamento do resultado da eleição presidencial de 2014 por Aécio Neves foi denunciado como “tentativa de golpe”; a Lava Jato, como um conjunto de sucessivos “golpes” em formas jurídicas (o “lawfare”); e o impeachment de Dilma Rousseff, como “golpe parlamentar”. A própria eleição de Bolsonaro teria sido possível graças ao “golpe” da cassação dos direitos políticos de Lula pelo STF, intimidado pelo então comandante do Exército. Por fim, marcado por um populismo reacionário, sustentado na exploração da desconfiança crônica da legitimidade das instituições, tendo por modelo de bom governo justamente o regime militar, o governo Bolsonaro é obviamente incompatível com o sistema constitucional de 1988. Não pode governar, portanto, senão tentando burlá-lo.

Desde então, o “golpismo” se tornou conceito básico do vocabulário político, verdadeira ideia-força associada ao modus operandi do novo governo. Ele faz parte da estrutura lógica de governos autoritários, que não reconhece limitações às condições de sua sobrevivência e reprodução. Eles não são orientados pela doutrina do Estado de Direito, mas da Razão de Estado, que preconiza a possibilidade de desrespeito à lei pelo governante em nome do valor supremo da “segurança nacional” (na verdade, a sua própria). Da doutrina da Razão de Estado se extraem duas técnicas: a do segredo de Estado, que autoriza a supressão da publicidade dos atos governamentais pela imposição do sigilo, e o golpe de Estado, ação violenta e fulminante destinada a neutralizar os inimigos da segurança nacional (isto é, do governante).

Embora relacionados todos à arquitetura golpista do governo Bolsonaro, os termos “golpe” ou “golpismo” têm sido empregados para designar três fenômenos que têm sido confundidos, mas que cumpre distinguir para melhor compreender a cena política.

O primeiro desses significados remete às ações praticadas rotineiramente com o objetivo de implantar um programa de governo incompatível com a Constituição e enraizar uma cultura autoritária na administração e na sociedade. São “os golpes nossos de cada dia”. Eles são praticados à luz de um legalismo autocrático que ignora os valores, princípios e precedentes jurídicos, substituindo-os por uma interpretação formalista e seletiva do texto da lei de modo a favorecer a expansão das prerrogativas presidenciais. Governa-se por decretos ilegais, na esperança de torná-los fatos consumados pela lentidão do Congresso e do Judiciário. Aparelham-se os órgãos administrativos, com nomeação deliberada de pessoal inadequado e conivente. Vandalizam-se órgãos da educação, da cultura, da ciência, da saúde, dos direitos humanos e do meio ambiente, transformados em um misto de cabide de emprego e depósito de lixo. O sigilo é imposto a todos os atos cuja publicidade prejudique a administração. Ao mesmo tempo, neutralizam-se pela cooptação e pela intimidação as instituições encarregadas de controlar os malfeitos do governo, como o Ministério Público, a Polícia Federal, o Tribunal de Contas e o Poder Judiciário. Todas esses atos são apresentados pelo legalismo autocrático como constitucionais. É o que Bolsonaro afirma quando diz “jogar dentro das quatro linhas” — ainda que com farta distribuição de catimbas, faltas, agressões e outras jogadas desleais por ele praticadas, sob o olhar complacente de um juiz por ele designado e devidamente comprado.

O segundo sentido da palavra “golpe” remete à sombra do “golpe de Estado” clássico. Dentro da arquitetura golpista, ele visa justamente a desestimular pela ameaça velada de uma ruptura democrática a resistência da sociedade civil e das instituições de controle aos “golpes nossos de cada dia”. Este golpe se daria menos à maneira de 1964, que elevou os militares ao poder — função exercida já pela eleição de 2018 — do que à de 1968, que pelo AI-5 “legalizou” de vez a razão de Estado identificada com a oligarquia militar. Sua pedra de toque reside na interpretação teratológica do art. 142 da Constituição, que em um momento de instinto suicida teria conferido ao próprio presidente da República, na condição de comandante-em-chefe das Forças Armadas, um “poder moderador” que o capacitaria em caso de crise com outros poderes impor sua vontade sobre os demais, na qualidade de “supremo guardião da Constituição”.

Para tornar a ameaça mais verossímil, Bolsonaro não só incentivou manifestações por uma “intervenção militar constitucional” (sic), como tenta transmitir a impressão de que o endosso ao seu governo por alguns generais significaria adesão irrestrita das Forças Armadas à sua pessoa. Afinal, não se desfecha um golpe de Estado sem a participação ativa dos quartéis. Daí que cole sua imagem à dos militares, participando de formaturas, oferecendo-lhes cargos em penca e convertendo o Ministério da Defesa em um “ministério da ameaça de golpe”, encarregado de suscitar “questões militares” sempre que em defesa da vontade contrariada do presidente.

O principal alvo do golpismo é o STF que, na condição de verdadeiro guardião da Constituição, se tornou uma pedra no sapato no projeto bolsonarista de expansão da cultura autoritária.

O terceiro sentido da palavra “golpe”, por fim, remete à insurreição como forma de resistência do povo à fraude de sua vontade soberana. Enquanto o populista moderado alega, em caso de derrota, que o povo foi enganado pelas elites, radicais como Bolsonaro vendem a tese da fraude para reforçar a tese do complô das instituições contra a vontade popular. Daí a necessidade de deslegitimar sua eventual derrota, difundindo a desconfiança nos métodos de apuração eleitoral. A traição à vontade do povo pelas instituições — mais uma vez, o Poder Judiciário — legitimaria uma insurreição à maneira da invasão da sede do Capitólio norte-americano em janeiro de 2021. Também aqui o Ministério da Defesa tem se prestado ao papel de instrumentalizar a suposta competência técnica dos militares para dar credibilidade à possibilidade de fraude. Mas o protagonista deste golpe não seriam os generais do Alto Comando, e sim “povo armado” por Bolsonaro pelos clubes de tiro, bem como militares de baixa patente, principalmente policiais. Este seria o povo encarregado de “resistir à opressão” em defesa de sua “liberdade”.

Estes são os três golpes possíveis de Jair Bolsonaro. Nenhum, porém, passa sem severas complicações. O primeiro, de sabotagem contínua do Estado de Direito, encontra resistências não só dentro dos poderes Legislativo e Judiciário, como no Ministério Público Federal e na própria administração. O segundo, voltado para a eliminação da autonomia dos demais poderes por uma espécie de AI-5, não é do interesse de quase ninguém. Não é da classe política, que ficaria sob a contínua tutela de um autocrata desequilibrado. Também não é da maioria dos generais da ativa, ciosos da preservação de sua autonomia institucional e já satisfeitos com seu retorno ao jogo político, do qual não sairão tão cedo, seja quem vencer a eleição de 2022. Mais provável é sem dúvida a tentativa de insurreição contra os resultados eleitorais, a fim de barganhar alguma forma de indulto ou anistia à cúpula bolsonarista. Mas também aqui o “golpe” tende a encontrar a oposição da própria classe política, cujas lideranças teriam questionadas suas próprias eleições em caso de alegação de fraude. A começar pelo Centrão, que espera “lavar a égua” depois de turbinado pelo orçamento secreto.

Trinta anos de rotina democrática não passam em vão.

 

* Cientista político, editor da revista Insight Inteligência e professor do IESP-UERJ

 

Imagem: "A Persistência da Memória", de Salvador Dali 


Fonte: www.canalmeio.com.br

sábado, 30 de abril de 2022

A GAROTA DA TUBA



Sempre fui um leitor eclético, mas nos últimos anos tenho lido preferencialmente livros sobre a evolução da espécie humana.

Charles Darwin, Richard Dawkins, Richard Wrangham, Jared Diamond, Norbert Elias, Yuval Hariri, etc. Se alguém quiser alguma indicação ou opinião, fique à vontade.

Estou tentando entender como aquelas criaturas começaram a pulsar, saíram da lama, subiram em árvores, aprenderam a cozinhar, e atualmente estão destruindo as florestas e a natureza em geral, numa espécie de suicídio coletivo.

Acho interessante, de certa forma tragicômico, que aqui no RS, e talvez em todo o Brasil, pessoas que apoiam a destruição das matas têm como moda utilizar roupas com estampas que seriam muito úteis para camuflagem em florestas. E, no entanto, vivem em verdadeiras selvas de pedra, cidades com cada vez menos árvores.

Mas o objetivo desse pequeno texto é outro.

Entre um livro do tipo descrito acima e outro, sempre peço para meu amigo Paulo Müzell me trazer leituras mais leves, que ele tenha lido e aprovado. Paulo é um grande leitor, assim como seu filho Rodrigo.

Um dos livros que ele gentilmente me emprestou e que acabo de ler é o intitulado “A GAROTA DO TROMBONE”, de Antonio Skármeta. É o primeiro livro de Skármeta que leio.

Antes de iniciar a leitura achei intrigante a capa do livro, que mostra uma menina, a garota, olhando para dentro de uma TUBA e não de um TROMBONE.

Mas, ao iniciar a leitura, percebi que o livro é eivado de passagens poéticas e impressões abstratas, o que poderia torná-lo chato mas, no caso do Skármeta essas passagens ficam muito adequadas, até instigantes. Então a capa “tá valendo”.

Como escreveu o crítico do El País sobre o livro: “Uma história linda. Skármeta é um sedutor”.

Recomendo a leitura.



Omar, em abril de 2022.