"Os
dados trazidos a público pelo jornalista Ricardo Mendonça no Valor Econômico
são estarrecedores. Todas as 5.570 cidades brasileiras foram divididas de
acordo com o percentual de votos em Bolsonaro no segundo turno das eleições
presidenciais de 2018. Em 108 cidades, Bolsonaro teve menos de 10% dos votos,
em 833 cidades teve entre 10% e 20% dos votos, e assim sucessivamente, até
chegar nas 214 cidades nas quais Bolsonaro teve entre 80% e 90% dos votos e na
única cidade em que Bolsonaro teve 90% ou mais dos votos em 2018. Essas
informações, aliás, são de domínio público e podem ser acessadas por qualquer
um no Repositório de Dados Eleitorais do Tribunal Superior Eleitoral.
De
posse dessas informações, o próximo passo foi analisar a quantidade de casos e
de mortes por Covid-19 em cada uma das 5.570 cidades. Novamente, os dados são
de livre acesso, tanto pelo Painel Coronavírus do Ministério da Saúde quanto
pelo DataSUS. Nas 108 cidades em que Bolsonaro teve menos de 10% dos votos, o
número de casos é de 3.781 por 100.000 habitantes. A quantidade de casos sobe
linearmente até atingir 10.477 casos por 100.000 habitantes nas cidades em que
Bolsonaro teve entre 80% e 90% dos votos e 11.477 casos por 100.000 habitantes
na cidade em que Bolsonaro teve 90% ou mais dos votos.
Os
dados para mortes são igualmente chocantes. A mortalidade varia de 70 mortes
por 100.000 habitantes nas cidades em que Bolsonaro teve menos de 10% dos
votos, até mais de 200 mortes por 100.000 habitantes nas cidades em que
Bolsonaro teve 50% dos votos ou mais. Na única cidade em que Bolsonaro fez 90%
dos votos ou mais no segundo turno das eleições de 2018, a mortalidade é de 313
por 100.000 habitantes. Mais do que o resultado dessa cidade isoladamente, o que
chama atenção é a escadinha observada nos gráficos.
O
morador de uma cidade na qual Bolsonaro venceu o segundo turno das eleições de
2018 tem três vezes mais risco de morte por Covid-19 do que o morador de uma
cidade em que Bolsonaro foi derrotado com folga. Mesmo que a pessoa tenha
votado contra o negacionismo, estando ela exposta a um ambiente negacionista,
seu risco de morte é maior."
Pedro
Hallal, na Folha.
Fonte da Imagem: http://fantasyartdesign.com/free-wallpapers/wallpaper.php?u_i=368&i_i=645
Estratégia de comunicação da direita alternativa se alimenta do hiato geracional.
“Hiato geracional” – a perda da função de
elo geracional dos idosos, cujo ressentimento alimenta a
extrema-direita, deixando os jovens expostos às táticas de guerra
híbrida alt-right nas redes sociais.
Por Wilson Ferreira.
Dois eventos
sincrônicos: no Brasil, a motociata convocada por Bolsonaro com seis mil
motos de luxo de alta cilindrada montada, em sua maioria, por
“tiozões”, brancos, com jaquetas de couro preto emulando a gang famosa
dos Hell’s Angels, perfil dos atuais apoiadores do presidente que saem
às ruas; e na Inglaterra, o gênio da guitarra Eric Clapton, 76, mais uma
vez destilando o negacionismo ao afirmar que as vacinas contra a
Covid-19 “podem afetar a fertilidade”. O atual estado de coisas começou
com as Jornadas de Junho de 2013 com a energia de jovens secundaristas e
universitários. Para terminar com senhores calvos segurando bandeiras
neo-nazistas ucranianas em manifestações verde-amerelas de rua em apoio
ao “tiozão do churrasco”, personagem performado pelo atual presidente. A
estratégia de comunicação da direita alternativa (alt-right) é
favorecida por um fenômeno: o “hiato geracional” – a perda da função de
elo geracional dos idosos, cujo ressentimento alimenta a
extrema-direita, deixando os jovens expostos às táticas de guerra
híbrida alt-right nas redes sociais.
“Ficar velho não quer
dizer ficar melhor”. É o slogan que abre a série de “vídeocassetadas”
envolvendo idosos no canal Failarmy – líder mundial de compilações de
vídeos engraçados envolvendo pequenos acidentes domésticos, esportivos
etc.
Ironicamente esse
humilde blogueiro lembrou desse slogan quando assistiu a um vídeo em que
o famoso e veterano guitarrista Eric Clapton, mais uma vez,
posicionou-se contra as vacinas contra a Covid-19, afirmando que elas
tornariam as pessoas inférteis. Para ele, estudos científicos e as
opiniões de organizações médicas não passariam de “propaganda”.
O gênio da guitarra
passou toda a pandemia dando declarações contra o isolamento social e
questionando a própria existência de uma pandemia global. Mas em se
tratando de Clapton, não é uma novidade: em 2004 lamentou a presença de
imigrantes no Reino Unido e chamou o político anti-imigração Enoch
Powell de “escandalosamente corajoso”.
Como assim? Por que
Eric Clapton, aquele que deu um “shot” no xerife virou um velho ranzinza
e reaça de extrema-direita? Tá certo que a cabeça dele já não andava
boa nos anos 1970 com tantas drogas e álcool, até passar por uma
temporada de reabilitação em Antigua… Já em 1976, Clapton havia
protestado contra imigrantes num show em Birmigham. Mas ele diz não se
lembrar…
O curioso é que ver um
senhor tão talentoso de 76 anos como Eric Clapton dando declarações
públicas de extrema-direita faz esse humilde blogueiro lembrar de
congêneres brasileiros (guardadas as devidas proporções) como Lobão e
Roger do “Ultraje a Rigor”: a idade também não lhes fez nada bem. O
primeiro, um bolsonarista arrependido, e o segundo, ainda um bolsominion
empedernido.
Além de lembrar as
atuais manifestações de apoiadores de Bolsonaro, como também aquelas
multidões de camisetas da CBF nas ruas querendo o impeachment da
presidenta Dilma.
Nas últimas
“motociatas” convocadas por Bolsonaro, a maioria dos integrantes eram
homens brancos com mais de 50 anos com motos Harley Davidson, Kawasaki,
BMW com propulsores de alta cilindrada e jaquetas de couro emulando a
famosa gang Hell’s Angels. Esse é o “núcleo duro”, os bolsonaristas
renitentes, verdadeiros “tiozões do churrasco” (aquela figura folclórica
que fazia todos rirem com piadas misóginas e tiradas políticas
extemporâneas), cuja imagem de Bolsonaro é a desforra de todos os
tiozões que já foram zoados em todas as churrascadas da história
brasileira.
Mesmo entre os
manifestantes de verde-amarelo nas ruas mandando a presidenta tomar
naquele lugar, era marcante a dominância de casais de meia idade para
cima, esquisitões fascistas mais velhos com camisetas de camuflagem
militar e senhores calvos segurando uma bandeira rubro-negra com
tridente na Avenida Paulista, São Paulo, símbolo do nacionalismo
ucraniano de extrema-direita.
Nada a ver com as
manifestações que acenderam o rastilho de pólvora que deu em tudo isso:
nas Jornadas de Junho de 2013 e manifestações de ruas subsequentes era
massiva a participação de jovens estudantes secundaristas e
universitários, além de militantes de novos coletivos políticos.
Hiato geracional
Como interpretar essa
guinada etária na recente trajetória política brasileira em que… aquilo
deu nisso? Por que o núcleo duro, recalcitrante e birrento, da
extrema-direita é formado por apoiadores cinquentões, sessentões e
setentões?
Essas questões não surgem do nada. Assim como a até aqui vitoriosa estratégia de comunicação da chamada direita alternativa (alt-right)
não veio de um golpe do acaso. Há um fator sociológico e geracional
pouco discutido na ascensão desse novo extremismo de direita: o hiato geracional –
a crise da função dos idosos como elo geracional, ou seja, como
transmissora de sabedoria e conhecimento acumulados em uma existência.
É claro que jovens e
idosos são os dois lados de uma mesma moeda nessa questão: Bolsonaro
contou com 60% de eleitores entre 16 e 34 anos. Desses, 30% tinham menos
de 24 anos (clique aqui).
Jovens conduziram um ex-militar com 26 anos de atuação do Baixo Clero
do Congresso Nacional. Enquanto, hoje, de cinquentões para cima
demonstram o apoio irrestrito ao capitão da reserva nas ruas.
Entre esses dois grupos, o hiato geracional, do qual alimentou a estratégia alt-right de comunicação.
Em
culturas tradicionais, onde a velhice e a morte eram simbolicamente
incorporadas no dia a dia, os idosos sempre foram “elos geracionais”
como transmissores de um saber acumulado, conhecimento e sabedoria.
Colocados em posição de destaque na sociedade, o natural declínio físico
era compensado pela sabedoria, amor e trabalho unidos em uma
preocupação com a posteridade na tentativa de equipar os mais jovens
para levar adiante as tarefas dos mais velhos.
Narcisismo e cultura jovem
Desde
o pós-guerra e a consolidação da sociedade de consumo através da
Publicidade criou-se uma sensibilidade inédita na História: pela
primeira vez, o jovem tornou-se o modelo de beleza, felicidade e
consumo. Ou a sua versão politizada: a rebeldia e a revolução.
O
jovem, o novo e a novidade passaram a ser moralmente bom, enquanto o
“velho” (o idoso, o antigo) tornam-se ultrapassados, o oposto do
progresso, da evolução ou da revolução.
Toda a indústria da
moda e publicidade vai ao longo das décadas glamorizar o “novo” e a
“novidade” como moralmente bom, prazeroso e estimulante. O ápice dessa
verdadeira engenharia de opinião pública foi a construção da cultura pop
e jovem nas décadas de 1950-60. “Não confie em ninguém com mais de 30”,
dizia o desafiante lema jovem da contracultura: os “mais velhos” (pais e
autoridades) passaram a ser encarados como “quadrados”, ultrapassados e
intrinsecamente conservadores.
Se isso foi positivo
em um momento histórico como revolução e crítica, por outro lado seus
líderes não perceberam a ambiguidade dessa nova cultura: seria a base
imaginária (ao lado do crédito no consumo) de toda a descartabilidade e
hedonismo necessários para a aceleração da sociedade de consumo.
Aos idosos restou a
papel de negarem-se a si próprios, em primeiro lugar, através das
“lições de vida” que os idosos nos ensinariam em pautas motivacionais de
telejornais: um
senhor de 70 anos que pratica maratonas; uma senhora que aos 75 anos
retoma a sala de aula para concluir o ensino médio pensando na
universidade e nova carreira profissional; outro senhor de 65 anos diz
orgulhar-se por aventurar-se no “mundo das atividades físicas”: “faço
atividades físicas com força na academia para fortalecer a musculatura e garantir que tão cedo eu não vou ter que ‘pendurar as chuteiras’”, brinca.
E segundo, todo
um aparato terapêutico renovado a cada dia pela indústria farmacêutica
na qual a função de “elo geracional” é esquecida: os idosos nada têm a
dizer para as câmeras em termos de conhecimento ou sabedoria, a não ser
negar a si mesmos numa tentativa a todo custo de aparentar uma atitude
positiva e ficar parecidos com os mais jovens.
Christopher Lasch
chamava a atenção para esse esvaziamento do elo geracional dos idosos
por essas transformações trazidas pelas soluções médicas e sociais.
Lasch acredita que a
negação em relação à velhice se deve à cultura da juventude, mas
principalmente à perda do interesse dos homens pela vida terrena e o
medo da velhice pela ascensão de uma personalidade narcísica.
Por ter o narcisista tão poucos recursos
interiores, ele olha para os outros para validar seu senso de eu.
Precisa ser admirado por sua beleza, encanto, celebridade ou poder –
atributos que geralmente declinam com o tempo. Incapaz de alcançar
sublimações satisfatórias nas formas de amor e trabalho, ele percebe que
terá pouco para sustentá-lo quando a juventude passar (LASCH,
Christopher. “A Cultura do Narcisismo”, R. de Janeiro, Imago, 1983, p.
254-55).
O sofrimento central
da velhice (o fato de que vivemos vicariamente em nossos filhos ou em
gerações futuras) perde suas formas sublimatórias religiosas ou
filosóficas como o amor, a sabedoria e o conhecimento, formas que nos
faziam se reconciliar com a nossa própria substituição.
Ressentimento e sublimação
Destituído das formas
sublimatórias porque destituído da sabedoria e do conhecimento (afinal,
vive numa sociedade em deve “nem parecer que é velho”), a frustração e o
ressentimento o tornam presa fácil dos valores propagados como isca
pela extrema-direita: justiçamento, intolerância, vingança, culto ao
poder como sublimação substituta – idolatrar personalidades “fortes” e a
simbologia fálica como motos de alta potência, armas etc.
Sem terem sabedoria ou
o quê dizer aos mais jovens, instaura-se o hiato geracional que isola
os jovens num presente extenso – sem o passado, porque os idosos se
tornaram uma caricatura de “jovens idosos”; e sem futuro, porque não há
nenhuma sabedoria transmitida através da qual seja possível projetar um
caminho, uma meta ou mesmo uma utopia.
Nesse presente
extenso, os jovens serão igualmente presas fáceis dessa cultura que
exala juventude e novidade como verdades em si mesmas: a cultura meme, streamer e influencer. Terreno fértil para fake news e pós-verdades das estratégias alt-right.
Claro que o leitor
pode se contrapor a esse argumento sócio-geracional dizendo nem sempre
esse elo geracional do passado transmitiu sabedorias positivas para a
juventude. Pelo contrário, em geral as sociedades se estruturaram em
tradições persecutórias, obscurantistas e reacionárias, em torno do
discurso da “moralidade” e dos “bons costumes”.
Porém, a diferença é
que em última instância, esse elo geracional mantinha uma sociedade
organicamente coesa pelas formas de transmissão cultural por meio da
tradição.
Ao contrário, o hiato
geracional cria isolamento e vulnerabilidade que permitem a manipulação
pelas estratégias políticas midiáticas – o ressentimento que promete a
recuperação (ou a sublimação) da potência perdida para os idosos por
meio do fascínio pelos simbolismos fálicos na política; e para os
jovens, o presente extenso hedonista e niilista.
Fiz a pergunta a muitas pessoas de ambos os polos e a uma minoria centrista que procurei como um detetive. Todos se assombraram com minha inocência. Como é que eu — professor titular de Antropologia Social e pesquisador da “alma brasileira” — não sabia que, entre nós, quem manda não obedece?
Como é que eu podia ignorar que, no Brasil, mandar anula o obedecer, essa desagradável anormalidade democrática que inverte a velha ordem? Como é que eu esquecia que “estar no poder” é sinônimo de não seguir coisa alguma, porque obedecer é o carimbo dos fracos e dos pobres?
É claro que Bolsonaro não usa máscara!
Como é que ele aceitaria tal banalidade, se o sinal que envia é que pode tudo? No Brasil, ser superior é não estar com a lei, mas situar-se acima dela, é claro.
É ter o privilégio de não ser cidadão. De provocar e abusar, na certeza de não ser punido. É ser “impunível” e, se preso for, ter a plena confiança de que um jurisconsulto ponderado vai livrá-lo da prisão, que será especial — um xadrez hierárquico e diferenciado...
Ninguém definiu tais condições com mais clareza que o próprio Bolsonaro quando, em 12 de maio do corrente, numa de suas tiradas absolutistas, declarou que “só Deus me tira daqui” e, no dia 17, afirmou ser “imorrível, imbrochável e também incomível”. O incomível é curioso. Ele salienta a qualidade bolsonaresca de ser duro de roer, mas deixa de lado outras implicações que Freud explica, e eu prefiro não comentar...
A arrogância expõe as propriedades conhecidas, mas pouco discutidas, de todos os que “sobem”, “chegam” ou “tomam” o poder no Brasil.
Aqui (como na América Latina), ser irremovível ainda é o sonho de quem encabeça um sistema que transforma eleições em rituais dinásticos, ministros em fidalgos ou criados e o eleito, em salvador (ou matador) da pátria. O populismo é o modelo resistente à igualdade do presidente perante a lei.
Aprendemos que o dono da bola pode mudar as regras do jogo e, sendo contrariado, ele acaba com o jogo.
O “golpe” é uma possibilidade constante em países onde verdade e mentira se contestam. É preciso perceber que crimes políticos hediondos, como “o rouba, mas faz”, ainda são vistos como piadas e folclore.
O que mostra como evitamos examinar o protagonismo dos costumes sobre as instituições. Aquilo que é positivo na família, e até mesmo no partido, contraria a ética democrática.
É preciso compreender como a ambiguidade ética corrói a impessoalidade obrigatória das democracias, cuja disciplina se baseia na separação de pessoas e cargos. O atualíssimo e atrasado “manda quem pode, obedece quem tem juízo” é um mote escravocrata. É uma prova da desigualdade como valor no Brasil.
A decepção bolsonarista tem tudo a ver com a incapacidade de negar o pedido de um amigo e de ver essa incapacidade como normal. Como se lei, civilização, costumes e comportamentos fossem seres de planetas diferentes, quando são dimensões necessariamente relacionadas nos regimes democráticos.
Caso a “casa” continue a englobar a política e a “rua”; caso os elos pessoais sejam mais valorizados que a moralidade coletiva, temos incesto. O que iguala estruturalmente incesto e “corrupção” é romper com uma norma pública universal em favor de desejos particulares. Pois, como adverte sabiamente a revista “Playboy”, “o incesto é legal desde que seja mantido em família”.
Mas como manter a muralha da família (e dos compadrios) ao lado da liberdade do mercado e das gravações reveladoras da verdadeira máscara do invocador do Tribunal de Nuremberg e também das facções de ataque e defesa do governo, que são (com a devida vênia) contumazes potoqueiras? Por que — essa é a grande questão — o campo político virou um espaço de mentiras, malandragens e desenganos?
O abominável no comportamento de Jair Bolsonaro é que ele ainda não conseguiu entender a magnitude do papel de presidente da República. É claro que tudo tem a ver com a crença de que ele se pense, como disse com uma ingenuidade embaraçosa, como “imorrível, incomível e imbrochável”. Delas todas, eu invejo a mais humana, a última.
Como dizia o velho e querido brasilianista Richard Moneygrand, dificilmente se faz democracia com faraós.
Fonte da imagem: https://makaniart.com/portfolio/creation-unleashed
O Flow podcast é um dos mais badalados programas digitais de
debate da internet brasileira. De segunda a sexta-feira, exibido a
partir das 20h, quando os dois apresentadores se reúnem ao redor da mesa
para uma longa conversa com convidados. E, na semana passada, um trecho
destes debates explodiu. Se tornou um dos mais badalados assuntos das
redes sociais. Enquanto isso, na CPI da Covid, o general Eduardo
Pazuello se tornava o terceiro ex-ministro do governo Jair Bolsonaro a
sentar perante os senadores e mentir. Mentir, inclusive, a respeito de
momentos gravados em vídeo. Facilmente desmontáveis.
No Flow, o confronto foi entre Gabriela Prioli, comentarista
da CNN Brasil, e um dos apresentadores. Bruno ‘Monark’ Aiub. Monark
vinha falando sobre educação no Brasil quando Gabriela questionou suas
premissas. “Isso é muito chato”, ele reclamou. “Não poder conversar,
falar sobre o que penso porque não tenho números e estatísticas.” Já não
era mais uma conversa sobre um tema. Passava a ser uma conversa sobre
como funciona o debate público. “Você pode falar tudo”, argumentou
Prioli. “Mas pode estar falando uma mentira se não tiver um dado.” (Assista ao episódio.)
Quando confrontado na CPI após ter dito que o presidente jamais havia
dado ordens para não comprar vacinas do Butantã, o ex-ministro da Saúde
também se livrou da aparente incoerência. Os senadores o lembravam de
que havia um vídeo, de ampla circulação, em que ele comentava com
Bolsonaro ao lado — “um manda, o outro obedece”. A ordem do presidente
era justamente de não comprar vacinas. “Aquilo foi apenas posição de
agente político na internet”, argumentou o general. O que o presidente
diz na internet não precisa ser verdade. Para Pazuello, era uma
constatação natural. Para os senadores não-governistas, soou como
ultraje.
A mentira, assim como um debate não baseado em fatos, fazem parte do
arsenal de ferramentas dos novos líderes populistas e autoritários do
mundo. Pode parecer paradoxal: mas é a fonte de sua credibilidade
perante seus eleitores.
Os dois momentos talvez não pareçam relacionados mas revelam
justamente este traço de nossa cultura política transformada pela
comunicação digital. Em ambos os casos, a indignação de Monark ao ser
cobrado e a maneira como o público bolsonarista recebeu os depoimentos
dos ex-ministros na CPI, o que há em comum é uma busca por
autenticidade. E, para compreender este processo, é útil pensar em
populismo de uma forma nova.
Tradicionalmente, populismo é visto como uma ferramenta política. Um estilo de fazer política.
O desafio de todo líder é juntar eleitores e conquistar eleições. O
candidato populista faz isso construindo uma relação de identidade entre
ele e o público na qual, juntos, formam um mesmo povo que têm um
problema. Seus objetivos não têm sido alcançados por conta da elite. O
líder é quem será capaz de furar este bloqueio. O populismo é, por esse
ângulo, uma performance do líder político. Um jeito de agir no palanque,
um jeito de construir o discurso para seduzir eleitores.
A cientista política inglesa Catherine Fieschi, professora da London
School of Economics e diretora da consultoria Counterpoint, é uma dentre
uma nova geração na ciência política que propõe enxergar o populismo
não como método mas como ideologia. O método é uma tática para
conquistar um objetivo — a eleição. Candidatos podem lançar mão de um
discurso populista quando lhes interessa ou não. Faz parte do arsenal
que têm à disposição. Ideologia é bem mais do que isso. Ideologia é toda
uma visão de mundo. É a maneira como se compreende a realidade.
A vantagem desta lente, de enxergar populismo como ideologia, é que
fica mais fácil entender como mentiras escancaradas se tornam, para os
eleitores destes novos líderes, garantia de maior credibilidade.
Na definição de Fieschi, a ideologia do populismo,
um pacote fechado e autossuficiente de ideias, começa na crença de que
há um mesmo povo, que é homogêneo e soberano. A democracia deveria
garantir — a este povo que é homogêneo — controle sobre a sociedade.
Como esta visão rejeita a ideia de que há diversidade social grande,
qualquer governo que represente outros anseios é visto, automaticamente,
como não democrático. Não representa, afinal, o verdadeiro povo. A
ideologia do populismo, neste momento, acusa a traição da democracia e
busca quem represente autenticidade.
O conceito liberal de democracia não tem nada disso. Pelo contrário:
parte justamente da premissa de que há correntes de opinião distintas na
sociedade, de que há anseios diversos. Democracia é a forma que permite
que estas correntes possam negociar suas diferenças. Quando um líder
populista fala de democracia, porém, ele está falando de algo
completamente distinto. Ele está falando como representante do único
‘povo verdadeiro’. A crença de que o ‘povo’ é homogêneo, que quem é
diferente está à parte deste ‘povo’, é fundamental nesta ideologia. E é
aí que esta ideia de autenticidade é o conceito-chave.
O eleitor que segue a ideologia do populismo está em busca de autenticidade
em seus líderes. Esta busca é norteada por uma emoção forte — a do
ressentimento. A sensação de que elites humilham quem está embaixo. Não
se trata de elite apenas no sentido econômico — a elite compõe, aqui,
quem tem autoridade em uma sociedade. Quem tem dinheiro, claro, mas
também quem tem poder, e quem tem conhecimento. Este ressentimento nasce
da percepção de que seus anseios pessoais, os do povo homogêneo, não
podem nunca ser atendidos porque estas elites — quem tem dinheiro, poder
ou conhecimento — o impedem. Mais do que isso. As elites tratam de
forma depreciativa estes anseios. É como se ter acesso ao poder ou mesmo
participar do debate público fosse impossível ao verdadeiro povo. Que é
homogêneo.
Autenticidade, portanto, é um jeito de pensar e um jeito de agir. O líder autêntico
pensa como o povo. Se manifesta como o povo. E desafia as elites no que
vê como sua arrogância. Não joga o jogo conforme as regras da elite. É
um herói do povo.
E está lá na frase de Monark para Gabriela Prioli. “Quando falo o que
penso”, ele se queixa, “você vem com quais são os dados. Se não tenho
os dados, pronto, o que penso está inválido, você nem contempla minha
opinião.” Ou seja, o senso comum é desvalorizado. Aquilo que ‘todo mundo
pensa’ é desprezado pelas elites. É desprezado porque o senso comum não
consegue se impor num debate em que argumentar com fatos é exigido.
Aí, o problema da democracia é que, se num debate é preciso sustentar
com argumentos uma visão, as regras do jogo se mostram construídas para
impedir que este senso comum baste. E faz isso, segue a percepção,
humilhando.
O que o líder populista faz é se recusar a seguir as regras do jogo
habitual. Ele é grosseiro. Ignora propositalmente a correção política. É
abertamente preconceituoso: racista, xenófobo, homofóbico, chauvinista.
E, sim, mente. Mas não mente como políticos costumam mentir. A mentira
política comum é aquela que tenta esconder algo. Ou justificar uma
decisão errada. São mentiras que têm consequências. As mentiras do
populista têm outra natureza. Ele não se baseia em fatos para sustentar
suas convicções. Se baseia em impressões, no instinto, em histórias de
ouvir falar. Ele não tem justificativas que não o sentimento de que está
certo. De que sentir esta certo basta.
Quando mente, quando ignora fatos, está em essência desafiando a
‘lógica do sistema’. A lógica que impede ao seu eleitor que participe do
debate. Uma lógica, que o eleitor sente, o oprime.
No centro do novo movimento populista e autoritário está a palavra, o
diálogo, a linguagem. Não é à toa. O que o multiculturalismo produziu,
nas últimas décadas, foi uma nova linguagem que reconhece uma sociedade
heterogênea. Faz parte deste conjunto um novo vocabulário — como, por
exemplo, nomear LGBTs, pessoas de outras etnias. Uma busca por palavras
que não ofendam. Faz parte, também, um jeito de conversar. A garantia de
tempo para quem não é ouvido, respeito à legitimidade da opinião de
quem traz a vivência de certas experiências.
Na sua forma mais sutil, o multiculturalismo reflete uma particular
atenção à cortesia e o respeito aos espaços de fala de quem tem certas
experiências de vida. Na forma mais radical, abole a designação de
gênero, todes, todxs. Mas, principalmente, o multiculturalismo é
esta nova linguagem que existe para reconhecer diversidade. Esta é a
essência do multiculturalismo, do cosmopolitismo liberal progressista
que se implantou nas últimas décadas. É natural, portanto, que a
ideologia que reage a esta mudança comece por uma repulsa à linguagem.
A linguagem do neopopulismo será caricaturalmente grosseira e
rejeitará qualquer discussão que, por princípio, reconheça a sociedade
como heterogênea. Seu princípio é justamente não reconhecer a diferença.
Só o ‘povo homogêneo’ existe.
“Há um paradoxo a respeito da palavra”, escreve Fieschi em Populocracy: The Tyranny of Authenticity and the Rise of Populism (Amazon Brasil), livro que lançou em 2019. Populocracia: A Tirania da Autenticidade e a Ascensão do Populismo,
não lançado no Brasil. “Por um lado, muitos dos com quem conversei
valorizam a compreensão instantânea um do outro, de pessoas ‘como eles’.
Valorizam que se diga as coisas na cara, com clareza ainda que
grosseira. Valorizam uma sociedade em que se pode dizer o que se pensa
com a garantia de que ninguém será mal compreendido.” E este é o
problema percebido no multiculturalismo. Em sociedades europeias nas
quais a transformação passa pela chegada de imigrantes, gente com
sotaques e tons diversos de cor na pele, o multiculturalismo interdita a
conversa sobre o desconforto que muitos sentem com estas pessoas
diferentes. Noutras sociedades, como a brasileira, o novo vocabulário da
política dificulta a entrada no debate para quem rejeita políticas
públicas voltadas para os tradicionalmente excluídos para quem é
tradicionalmente excluído — mulheres, negros, indígenas etc.
O foco está, sempre, em rejeitar a ideia de que o povo é composto por
grupos com muitas diferenças e reforçar a ideia de um povo verdadeiro e
homogêneo.
Daí que ignorar fatos e falar o que se sente é ser autêntico. Ir a um interrogatório de CPI e ignorar por completo as normas habituais — recusar as regras do jogo — é igualmente ser autêntico.
Amplia a credibilidade, não a diminui. Porque rejeita a linguagem da
democracia liberal, multicultural, para abraçar um outro conceito de
democracia. Um significado em todo diferente para a palavra.
“A mentira do populista”, escreveu a cientista no Guardian, “tem por objetivo ser percebida.
É o contrário da mentira que quer esconder algo. No jogo que o
populista joga, mentir é glorificado. É um instrumento de subversão, seu
objetivo é mostrar que o líder cruzará qualquer limite para ‘servir ao
povo’. Estas mentiras são símbolos de que estes políticos não se
restringem às normas correntes da elite liberal democrata. Enquanto
liberais democratas se preocupam em sinalizar virtude, populistas
sinalizam repulsa.”
Repulsa à diversidade. A um mundo transformado.
É uma política de apelo aos instintos, não ao cérebro.
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“O remédio para a alma.” Foi assim que o químico suíço Albert Hofmann (1906-2008), às vésperas de completar cem anos, descreveu sua mais famosa descoberta, a dietilamida do ácido lisérgico, popularmente conhecida pela sigla em alemão LSD. O cientista morreu dois anos depois sem jamais aceitar que sua criação fosse proscrita como entorpecente em todo o mundo e não usada como ferramenta terapêutica. Bem, se tivesse vivido mais uma década, Hofmann estaria vingado. Hoje, drogas psicodélicas se apresentam como a nova fronteira dos tratamentos psiquiátricos e atraem milhões de dólares em investimentos – embora continuem ilegais.
No início desta semana, a revista Nature, uma das mais respeitadas revistas científicas do mundo, publicou o resultado de uma pesquisa sobre o uso da 3,4-metilenodioximetanfetamina (MDMA, ou mais popularmente, ecstasy) em pacientes com síndrome de estresse pós-traumático. Claro, a droga não é consumida como nas raves, mas de forma assistida e acompanhada de sessões de psicoterapia – e sem música eletrônica.
Uma semana antes, o igualmente prestigiado New England Journal of Medicine publicou um estudo sobre o tratamento da depressão comparando a psilocibina, princípio ativo dos “cogumelos mágicos” popularizados pela obra de Carlos Castañeda (1925-1998), com o popular medicamento Escitalopram. Adivinhem. Os cogumelos foram mais eficientes.
É a redenção de profissionais como o psicólogo Rick Doblin, responsável pelo estudo publicado pela Nature, que há 40 anos rema contra a maré estudando as possibilidades terapêuticas das drogas psicodélicas. Hoje ele comanda a Associação Multidisciplinar Para Estudos Psicodélicos (MAPS, na sigla em inglês), um conglomerado de pesquisa irrigado por fundos de Wall Street que veem nas drogas psicodélicas o futuro da psiquiatria. Segundo o New York Times, a expectativa é que a Agência para Drogas e Alimentos (FDA, a Anvisa americana) libere medicamentos baseados em MDMA em 2023 e os de psilocibina até dois anos depois.
Não que estudos sobre o uso terapêutico de psicodélicos sejam novidade. Entre 1960 e 1963, o psicólogo Timothy Leary (1920-1996), que já conduzia experiências do gênero em Harvard, desenvolveu um experimento com detentos da prisão de Concord, em Massachusetts. Segundo seu levantamento, o grupo de presos submetidos voluntariamente ao tratamento com drogas psicodélicas teve uma taxa de reincidência no crime de 20%, contra 60% da média do presídio. Leary, porém, acabou demitido de Harvard e enfrentou uma brutal perseguição pelo governo dos EUA.
E o LSD, que iniciou esta conversa? Bem, há alguns anos ele se tornou, em doses controladas, o motor da criatividade no Vale do Silício. Profissionais das Big Techs descobriram que pequenas quantidades do ácido podem provocar insights impossíveis em estados normais de consciência. Claro, há que se ter limites. No fim de abril, Justin Zhu, CEO da startup Iterable, foi demitido após, supostamente, tomar uma dose de LSD antes de uma reunião com investidores. Confundir possíveis parceiros comerciais com elefantes roxos pode não ser uma boa ideia.
Mas vamos combinar que psicodelismo não é só medicina. Ele contribuiu muito para a arte, a começar pelo livro As Portas da Percepção, de Aldous Huxley. White Rabbit (YouTube), do Jefferson Airplane, The End (YouTube), de The Doors, e Set The Controls For The Heart Of The Sun (YouTube), do Pink Floyd, que o digam.
Por Leonardo Pimentel
Fonte do Texto: Drogas psicodélicas dão a volta por cima -
http://www.canalmeio.com.br/notas/drogas-psicodelicas-dao-a-volta-por-cima/?h=T21hciBSw7ZzbGVyfDgyMzA4
Fonte da Imagem: https://wallhere.com/pt/wallpaper/237116
Juliana Dal Piva, Julia Dauksza, Anna Gielewska, Konrad Szczygiel e Audrey Lebel Do UOL, em São Paulo, da Reporter's Foundation Polônia, e colaboração da França
28/12/2020
Os
valores canalizados ao longo de vários anos pelos fundadores da
Instituição Ordo Iuris da Polônia para organizações católicas radicais
no exterior chegam a 10 milhões de euros. Só para o Brasil e a França,
desde 2004, foram enviados anualmente 500 mil euros. É o que uma
investigação internacional produzida pela Reporter's Foundation,
da Polônia, com parceiros na França e no Brasil descobriu. O dinheiro
doado para rosários e imagens de Nossa Senhora de Fátima apoia o
movimento global contra aborto, gênero, LGBTQ+ e valores compartilhados
pelo mundo liberal.
Uma mansão luxuosa em São Paulo, um castelo
majestoso na França, uma casa do século 19 em Kazimierz, um distrito
histórico de Cracóvia: há algo que liga todos estes imóveis e endereços
ao redor do mundo? Poderia haver alguma relação entre essas organizações
e o endurecimento das leis de aborto na Polônia e o futuro referendo
sobre a definição de casamento na Estônia?
Todas
as instituições que funcionam nesses locais receberam fundos de uma
pouco notada organização polonesa de católicos radicais: a Fundação
Skarga, que deseja abraçar tradições medievais, apoia campanhas
ultraconservadoras na Polônia e no exterior. Os fundos apoiam uma rede
de entidades que organizam manifestações anti-LGBTQ+, petições e marchas
antiaborto, campanhas contra a entrega da hóstia na mão. Mas também
subsidiou a manutenção de uma organização no Brasil e a sede da TFP
(Tradição, Família e Propriedade francesa), no Château de Jaglu, no sul
da França, lar de um importante fundador do grupo.
Por anos, pouco
se sabia sobre a estrutura financeira desse movimento internacional de
radicais católicos, em especial, no Brasil. Nossa investigação revelou,
entretanto, que o apoio vital foi fornecido por um centro operacional e
financeiro baseado em Cracóvia, na Polônia, e, ainda, como funciona uma
rede de entidades ligadas à TFP. O modelo de arrecadação de fundos se
baseia em um conceito desenvolvido no Brasil e posteriormente expandido
na França e reaplicado nos países centro-europeus.
Um sino que chama para a oração na capela
Higienópolis
é um dos bairros mais nobres de São Paulo, o coração financeiro da
região Sudeste do Brasil e endereço de diversos políticos e
celebridades. Neste bairro, fica também o IPCO (Instituto Plínio Corrêa
de Oliveira), sediado em uma mansão charmosa cercada por jardins
exóticos. A propriedade é aberta apenas aos membros da organização.
Apesar de uma missa ser celebrada na capela nos fins de semana, seus
moradores ouvem diariamente um sino que chama à oração.
Antes de
se tornar sede do IPCO, o imóvel imponente serviu por muito tempo como
espaço dos encontros organizados pela Sociedade para a Defesa da
Tradição, Família e Propriedade (TFP) do Brasil. O movimento TFP foi
fundado nos anos 60 por Plinio Corrêa de Oliveira, um católico devoto e
anticomunista. Se estivesse vivo hoje (ele morreu nos anos 90), ele
estaria orgulhoso de seu trabalho.
A
TFP se transformou em uma rede global de organizações que promovem
valores católicos ultrarradicais, como a condenação de relações de mesmo
sexo, divórcio, contracepção e o direito ao aborto. Nos últimos anos,
esta rede provou ser particularmente eficaz na Europa Central, inclusive
em alguns países pós-comunistas que até 1989 faziam parte da União
Soviética.
O IPCO é um clube de homens, de forma que as mulheres,
em regra, não são autorizadas a entrar no prédio e não podem ser membros
da organização. O Instituto foi criado em 2006, quando um grupo de
associados entrou em disputa em torno do legado de Plinio Corrêa de
Oliveira e do controle do nome da TFP.
O conflito que sacudiu a
divisão brasileira da TFP teve início após a morte do fundador do
movimento, em 1995. Seus membros mais velhos entraram em atrito com os
líderes jovens, ávidos por poder. Os fundadores originais, expulsos por
seus próprios alunos, formaram a Associação dos Fundadores da TFP e
agora se concentram desde então na construção de alguma influência no
mundo da política brasileira.
Os rivais dos fundadores, que chamam
a si mesmos de "Arautos do Evangelho", se concentram em atividades
religiosas. Eles foram reconhecidos como uma ordem secular e venceram a
disputa legal, em duas instâncias jurídicas, pelo direito de chamarem a
si mesmos de TFP na América Latina, em uma tentativa de dar continuidade
ao legado de Oliveira. Um recurso dos fundadores da TFP aguarda
julgamento no STF há anos.
Com
isso, foi criado o IPCO, uma terceira organização resultante da
divisão, após a derrota dos antigos fundadores na Justiça. Caio Xavier
da Silveira é o verdadeiro tomador de decisões, uma figura chave desta
história, cujo nome continuará reaparecendo em nossa reportagem.
Apesar
dos anos de apogeu do Instituto terem acabado, ele ainda é influente no
Brasil. Entre os diretores do IPCO encontramos Dom Bertrand Orleans e
Bragança, que tem acesso informal às autoridades e assessores do
presidente do Brasil, Jair Bolsonaro
(inclusive seu filho, Eduardo). No encontro do G20, Bolsonaro citou as
publicações de Dom Bertrand que contestam a mudança climática (enquanto a
floresta amazônica estava queimando, Dom Bertrand argumentou que "não se trata de uma crise climática, mas sim de uma ofensiva contra a soberania").
"Ajude-nos
a libertar o Brasil do aborto, da agenda homossexual e do comunismo!", é
a mensagem usada pela organização em seus esforços de arrecadação de
fundos, quando contata doadores potenciais em busca de apoio. Apesar dos
relatórios financeiros do IPCO não serem publicamente divulgados,
descobrimos que, entre 2004 e 2019, o instituto operou em grande parte
devido a recursos provenientes do exterior. A verba vinha,
especialmente, de um endereço em Cracóvia, a cidade histórica e antiga
capital da Polônia.
Movido pela boa vontade e pelo euro
Em
maio de 2019, Slawomir Olejniczak escreveu um e-mail aos membros da
TFP. O polonês é cofundador da divisão polonesa da TFP, o Instituto
Fundação Piotr Skarga, com sede no distrito histórico de Kazimierz, em
Cracóvia.
"Caros cavalheiros, Salve Maria!", ele iniciou sua carta
aos ativistas católicos ao redor do mundo. Nós obtivemos algumas das
comunicações eletrônicas que circularam na rede da TFP. Como resultado,
sabemos que papel a divisão polonesa exerceu no financiamento das
organizações católicas no exterior.
"Por
anos, guiados pela boa vontade e confiança de todos os membros do
Conselho da Fundação, a pedido deles apoiamos financeiramente as
organizações da TFP no Brasil e em muitos outros países. Ao todo, nosso
apoio financeiro chegou a milhões de euros ao longo dos últimos anos.
Graças ao nosso apoio fundamental, organizações da TFP foram criadas ou
desenvolvidas em países como Austrália, Estônia, Eslováquia, Lituânia,
Holanda e Equador. Na Polônia, estabelecemos a organização legal
Instituto Ordo Iuris e o Centro pela Vida e Família pró-vida. Além
disso, cofinanciamos a renovação das atividades da TFP no Canadá e na
África do Sul."
O Instituto Ordo Iuris e o Centro pela Vida e
Família exerceram papel ativo no esforço para introduzir uma proibição
quase completa do aborto na Polônia.
Por que Olejniczak enviou o
e-mail a eles? A mensagem fez parte da disputa pela liderança da
organização. Ele tinha sido afastado do conselho diretor da fundação
polonesa pelo conselho supervisor presidido por Caio Xavier da Silveira,
um brasileiro que fundou e continua sendo uma figura chave do movimento
TFP na Europa.
Olejniczak também é uma figura importante. O
ex-diretor da Fundação Skarga passou anos supervisionando o
desenvolvimento do movimento na Polônia e na Europa Central. Caio Xavier
da Silveira, com quem ele permanece em atrito, é ainda mais importante,
já que é o fundador e supervisor da maioria das organizações TFP na
Europa (incluindo a sediada em Cracóvia) e diretor da Fédération Pro
Europa Christiana na França.
O atrito entre eles começou em
consequência de uma disputa em torno de dinheiro e controle de ativos
substanciais administrados pela Fundação Skarga que, chamando pouca
atenção, se transformou em uma fonte de financiamento de toda a rede de
entidades ligadas à TFP.
A certa altura,
Olejniczak queixou-se a membros da rede que o escritório polonês teve
que arcar com os custos de apoio à organização no Brasil e na França
desde 2004. "Nosso maior fardo tem sido participar dos custos fixos de
manter as organizações no Brasil e França de 2004 até hoje. Eles
representavam valores anuais de cerca de 500 mil euros", ele se queixou.
Olejniczak também sugeriu que já que os poloneses ajudaram a sede da TFP
em São Paulo a sobreviver por tantos anos, outras também deveriam
participar no custo de manutenção da rede. Ele recusou o pedido de
entrevista feito pela Reporter's Foundation.
Em vez disso, ele optou por responder nosso e-mail. "A conversa por e-mail
era privada", ele escreveu. "Era destinada aos ativistas de
organizações católicas que são próximas de nós e que cooperam conosco em
outros países. Ela visava apresentar nossa posição na disputa com Caio
Xavier da Silveira."
As transferências internacionais de dinheiro
sobre as quais Olejniczak falava em seu e-mail também podem ser
confirmadas por documentos que obtivemos. Entre eles estão documentos
judiciais e relatórios apresentados pela fundação baseada em Cracóvia,
assim como documentos financeiros da TFP na França, Estados Unidos e
outros países centro-europeus.
A informação está espalhada entre
os países e permanece fragmentada, com algumas partes do quebra-cabeça
financeiro ainda faltando, mas mesmo assim conseguimos montar parte de
um quadro maior.
Os
documentos financeiros da fundação baseada em Cracóvia revelam, por
exemplo, que, em 2017, ela transferiu 295 mil euros ao Instituto Plínio
Corrêa de Oliveira do Brasil. Em 2019, apenas em fevereiro e março, ela
transferiu 67.500 euros ao IPCO. O dinheiro de Cracóvia também apoiou
duas outras organizações brasileiras que podem ser associadas ao
movimento TFP, a Associação dos Fundadores da TFP e a Associação dos
Devotos de Fátima.
Nossas estimativas indicam que entre 2009 e
2019 (os dados aos quais tivemos acesso), a fundação com sede em
Cracóvia transferiu mais de 9,3 milhões de euros ao exterior. Além
disso, o e-mail de Olejniczak confirmou que ela já tinha enviado
dinheiro ao Brasil e à França antes (desde 2004). Consequentemente, o
valor total transferido de Cracóvia é muito maior.
A fundação com
sede em Cracóvia criou uma máquina eficiente para obtenção de fundos em
troca de rosários, imagens de Nossa Senhora de Fátima, livros e
calendários que atendem aos anseios dos ultracatólicos. Esse "modelo de
negócios" adotado pela rede da TFP, reproduzido em outros países ao
redor do mundo, revelou ser particularmente bem-sucedido na Polônia
católica. No que foi usado o dinheiro transferido para o exterior?
Um lustre luxuoso no alto
O
majestoso Château de Jaglu fica situado a uma hora e meia de viagem de
Paris. Situado no meio da floresta ao lado do tranquilo vilarejo de
Saint-Sauveur Marville, ele é de propriedade da divisão francesa da TFP
desde 1991. Caio Xavier da Silveira estava à procura de uma residência
condizente com os conceitos medievais do movimento. O Château de Jaglu
revelou ser o local perfeito para encarnar essas ideias.
Caio
da Silveira, o homem de rosto severo que reside no Château de Jaglu,
supervisiona as atividades das organizações que ele controla por toda a
Europa. Ele evita publicidade e jornalistas. Quando tentamos marcar um
encontro com ele para conversar sobre as finanças da TFP, ele se recusou
a conversar conosco. Mas quando não estava ciente de que conversava com
jornalistas (nosso repórter conseguiu entrar no castelo sob o pretexto
de estar à procura de um local para realização de um casamento), ele
rapidamente se abriu. Ele destacou orgulhosamente ser o presidente de
uma organização presente em 25 países da Europa.
Lustres
extravagantes, vasos de porcelana, poltronas Chesterfield, numerosas
bibliotecas e uma capela. Um enorme retrato do guru e fundador do
movimento TFP, Plínio de Oliveira, está pendurado no meio. Um dos
moradores do Château de Jaglu nos conduziu em uma visita. Fora ele e
Silveira, 83 anos, o castelo é lar de uma dúzia de outros associados.
"Foi
na França que a TFP primeiro se estabeleceu na Europa", disse Neil
Datta, secretário do Fórum para Direitos Sexuais e Reprodutivos do
Parlamento Europeu em uma reportagem chamada "Os Cruzados Modernos na
Europa".
"Este país (a França) serviu como base para a TFP se
espalhar para outros países europeus e criar satélites na Alemanha,
Áustria e Polônia no início dos anos 90", ele acrescentou.
Mas os
primeiros anos provaram ser difíceis. Quando a divisão francesa da TFP
foi criada no final dos anos 1970, ela criou uma associação que abriu um
internato para meninos. Dois anos depois, a escola fechou após pais
acusarem seus funcionários de doutrinação.
"A direção da escola,
em sua maioria brasileira, conduzia um tipo de ação psicológica sobre os
jovens alunos para que se tornassem apoiadores militantes de uma
organização estrangeira", informou a decisão do tribunal de 1982, que
resolveu a disputa civil entre a TFP e o proprietário dos prédios da
escola. Após os pais protestarem, a TFP perdeu seu contrato de locação.
Ao
longo das décadas seguintes, mais organizações satélites brotaram da
TFP francesa. Uma lutava contra a "depravação moral na mídia", outra
contra "o direito ao aborto", uma terceira organizava eventos jovens.
Todas as três foram criadas por Caio Xavier da Silveira.
Processo e busca policial
Em
1979, Caio Xavier da Silveira deixou o Brasil e se estabeleceu na
França, dando início à missão de construir uma divisão europeia da TFP.
Ele optou por arrecadação de fundos para fins religiosos e essa decisão
revelou ser extremamente eficaz.
A divisão francesa da TFP decidiu
organizar campanhas de grande escala pelo correio para arrecadação de
doações de membros da Igreja Católica.
Nos anos 1990, Avenir de la
Culture, uma das três subsidiárias da TFP, prosseguiu na luta contra os
direitos LGBT e abarrotou de cartas as caixas postais de políticos. Em
1997, esforços semelhantes resultaram na retirada de apoio de
patrocinadores da Parada do Orgulho Gay.
Os anos 1990 foram os
anos dourados da TFP na França. Como resultado, dezenas de milhares de
pedidos de doação entregues aos moradores do país soaram alarmes entre
as instituições do Estado laico francês. Em 1995, uma comissão
parlamentar de inquérito incluiu a TFP em um registro de movimentos que
se comportam como seitas. Em 1999 e 2006, investigadores da comissão
sobre seitas tentaram repetidamente determinar a atual escala e
propósito dos empreendimentos de arrecadação de fundos da organização,
porém com pouco sucesso.
Em resposta a novas reportagens, a TFP
impetrou um pedido junto ao primeiro-ministro francês para que
encerrasse a comissão sobre cultos. Ela também impetrou processo por
difamação após circularem reportagens sugerindo uma natureza ilegal de
suas atividades. Anos depois, em 2016, ela venceu o processo, pois a
Justiça francesa decidiu que a agência do governo deveria ter exercido
maior moderação em suas declarações.
Campanhas da TFP enfrentaram
oposição de vários destinos religiosos na França. Eles incluem a famosa
Capela de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa, em Paris, quando a medalha
foi enviada pela TFP para milhares de moradores do país, juntamente com
uma carta pedindo doações. Os padres encarregados pela capela disseram
que algumas pessoas acreditaram que suas doações eram destinadas a
apoiar seu santuário.
Em 2005, a polícia entrou no Château de
Jaglu e revistou a propriedade. A ação ocorreu após suspeitas de que a
TFP tinha obtido ilegalmente informações e dados pessoais sobre as
posições religiosas dos cidadãos. Mas a investigação foi posteriormente
arquivada.
O desenho da medalha, assim como outras imagens
religiosas, não é de propriedade de ninguém e qualquer um pode usá-la.
Caio da Silveira, cujo apartamento no Château de Jaglu também foi
revistado pela polícia, venceu um processo contra o Estado francês, por
violação de seu direito de privacidade e de seus direitos profissionais
de advogado, impetrado na Corte Europeia de Direitos Humanos, em
Estrasburgo.
Enquanto isso, os sites da Basílica do Sagrado
Coração de Paray-le-Monial e da famosa Basílica do Sacré-Coeur, em
Paris, contém um aviso. Ele declara que as respectivas igrejas não devem
ser associadas aos esforços de arrecadação de fundos de organizações
como a TFP. Ele também alerta a comunidade católica que quaisquer
medalhas milagrosas, calendários e outros itens devocionais usados nas
campanhas não estão ligados às suas atividades.
Se pagar pelas medalhas, você alimenta a rede
Enquanto
as autoridades francesas tentavam reprimir a TFP, o movimento expandiu
suas atividades internacionais e fontes de arrecadação, tornando-se
independente de doadores locais. No início dos anos 2000, ela era ativa
não apenas na França, mas também na Alemanha, Áustria, Itália, Polônia e
Portugal. Ela não deixou de usar sua marca, mas também se escondeu
atrás de uma fachada de campanhas religiosas, associações cristãs ou
grupos antiaborto.
Em 2002, Caio Xavier da Silveira estabeleceu
outra organização na França chamada Fédération Pro Europa Christiana
(FPEC). A entidade consiste de organizações de outros países. Na Europa,
Da Silveira ou seus associados na época controlavam uma rede de
organizações, a maioria das quais promove campanhas de arrecadação de
fundos em grande escala.
Segundo Victor Gama, um historiador da
Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, a TFP estabeleceu uma
rede internacional de associações. Algumas, porém, não revelam seus
laços com o movimento.
"Pessoas em muitos países encontram imagens
de santos em suas caixas postais e uma carta pedindo a realização de
doação para fins religiosos. Elas acham que estão apoiando instituições
católicas locais, mas caso decidam doar, o dinheiro delas alimenta a TFP
global. O dinheiro é então canalizado para pessoas associadas ao
movimento e às suas divisões. A TFP então recruta novos membros, pessoas
jovens", revela Gama.
Segundo Neil Datta, a TFP criou um tipo de
franquia internacional para campanhas antiaborto que visam a sexualidade
e reprodução.
Uma rede de organizações ligadas à TFP na Europa
coletou doações de forma tão eficiente quanto uma corporação religiosa.
Ela lançou imensas campanhas postais, nas quais enviavam medalhas ou
rosários baratos, calendários (geralmente de aparência quase idêntica)
ou imagens de Nossa Senhora de Fátima para pessoas em seus bancos de
dados. Elas também pediam para que fizessem pequenas doações.
O
sucesso está no tamanho do banco de dados, que inclui doadores
potenciais. O modelo pioneiro de arrecadação de fundos foi inspirado por
políticos republicanos americanos e ativistas associados ao American
Leadership Institute, onde membros da TFP foram treinados e também
compartilharam sua experiência realizando palestras. O assunto será tema
da segunda parte de nossa reportagem.
Milhões gerados pelo coração de Jesus
O
Château de Jaglu, onde vive atualmente Da Silveira, não é o único
imóvel de propriedade da organização. A sede oficial da Fédération Pro
Europa Christiana (FPEC) fica na Villa Notre-Dame de la Clairière, em
Creutzwald. O imóvel, situado no leste da França, inclui um parque de
3,5 hectares. Até meados de 2019, a organização também alugava um
escritório de representação em Bruxelas para realização de atividades de
lobby junto às instituições da União Europeia, para promoção de sua
agenda ultracatólica.
A manutenção desses imóveis, a organização
de comícios para atrair membros de organizações de todas as partes do
mundo para eventos em um ambiente medieval, o treinamento de jovens e a
luta contra os valores liberais realizada em várias dezenas de países,
tudo isso gera despesas consideráveis.
Fora a arrecadação de
doações em países individuais, as organizações que fazem parte da rede
enviam dinheiro umas às outras. Uma fonte importante de renda para o
movimento TFP inclui "doações de membros e sociedades associadas". Como
resultado, o dinheiro que circula ao redor do mundo (grande parte
provavelmente não tributado) é canalizado para entidades ultracatólicas.
Os
informes financeiros da Fédération Pro Europa Christiana mostram que,
desde 2012, a receita da organização triplicou. As contribuições de
doadores individuais continuam crescendo: elas somaram 604 mil euros em
2012, enquanto em 2019 chegaram quase a 2 milhões de euros. No ano
passado, a FPEC arrecadou um total de mais de 2,3 milhões de euros, 345
mil euros (cerca de 15%) provenientes de "taxas de adesão e fundos de
associações relacionadas".
As fontes incluem a Fundação Skarga,
com sede em Cracóvia, da qual Caio Xavier da Silveira é membro do
conselho supervisor. Os documentos que obtivemos junto a registros
poloneses revelam que a Fundação Skarga transferiu centenas de milhares
de euros por ano à FPEC, uma organização com sede em Creutzwald, na
França.
Em 2017, as transferências totalizaram 220 mil euros,
enquanto entre janeiro e maio de 2019 elas chegaram a 74 mil euros. Uma
parte das transferências foi rotulada como taxa de adesão e parte como
"doações contratuais". As sete fatias seguintes, cada uma no valor
mensal de 15 mil euros, seriam transferidas pela divisão de Cracóvia
para a FPEC até o final de 2019 (totalizando 105 mil euros).
Disputa interna pôs fim às transferências
Mas
não ocorreram. Quando estourou um conflito em uma organização polonesa
em maio de 2019, um dia antes de Olejniczak ser demitido do conselho
diretor, as transferências para as organizações estrangeiras controladas
por Da Silveira foram suspensas.
Fora as organizações da França e
Brasil, o dinheiro de Cracóvia há muito era usado para apoiar cerca de
uma dúzia de organizações por todo o mundo, a lista que agora estamos
revelando. A maioria delas é controlada por Da Silveira. Os documentos
aos quais tivemos acesso revelam que entre 2009 e 2019, as
transferências de dinheiro às organizações supervisionadas por Da
Silveira totalizaram mais de 6,8 milhões de euros.
A
quantia anual desse tributo aumentou de 358 mil euros em 2009 para
cerca de 1 milhão de euros por ano em 2015, 2016 e 2017. Na época, as
transferências, rotuladas como "doações para as organizações controladas
por Da Silveira", representavam quase metade de todas as doações feitas
pela Fundação Skarga para entidades associadas.
No início de
2020, Caio Xavier da Silveira abriu sua própria empresa de consultoria.
Por que precisava dela? Teria algo a ver com a disputa interna de poder
na TFP? Nem ele e nem o porta-voz da FPEC, Jean Goyard, chefe da TFP
francesa, aceitaram falar. Goyard desligou o telefone assim que
perguntamos sobre as finanças da organização.
Perguntamos aos
representantes da Fundação Skarga sobre as transferências para
organizações estrangeiras, incluindo a Fédération Pro Europa Christiana
da França e o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira do Brasil. Essas
contribuições foram canalizadas para o movimento TFP internacional? "As
doações feitas a essas organizações não diferem das feitas a outras
entidades apoiadas ou criadas pela fundação na Polônia e em outros
países", respondeu de forma vaga Piotr Kucharski, porta-voz da Fundação
Skarga.
Os doadores poloneses estavam cientes de que o dinheiro
foi transferido para organizações estrangeiras associadas ao movimento
TFP? "Nós informamos sobre o envolvimento da fundação em vários projetos
internacionais por meio de nosso site e publicações", respondeu
Kucharski em um e-mail.
Ele também disse que os projetos incluíam o
patrocínio da anual Academia de Verão para (jovens) Católicos e "outros
tipos de treinamento para membros de organizações sociais e religiosas
da Polônia e outros países".
Uma nova abertura
Em
agosto de 2020, os membros da TFP da França, Itália, Holanda, Polônia e
Belarus chegaram à França para a Escola de Verão Europeia da TFP,
organizada na propriedade em Creutzwald. Este é o encontro mais recente,
com Escolas de Verão anteriores tendo sido realizadas nos três anos
anteriores no sul da Polônia, no Castelo de Niepolomice.
Caio da
Silveira foi o foco durante um evento realizado na mansão. Ele usava a
capa vermelha tradicional estampada com um leão dourado, o emblema do
movimento TFP. Durante um momento para fotos, Ferdinand Aldunate, membro
da nova administração da Fundação Skarga, que está processando o grupo
de Olejniczak para recuperar o controle financeiro de milhões de euros e
propriedades da organização em Cracóvia, posava orgulhosamente na
primeira fila.
A velha administração transferiu os ativos mais
valiosos para a Associação Piotr Skarga de Cultura Cristã, uma
organização irmã, que ela ainda controla. Hoje, ela se tornou uma fonte
de financiamento para organizações que permanecem na esfera de
influência do grupo de Olejniczak. Durante a foto de "família", Da
Silveira sorriu com uma visível reserva, uma indicação de que pode não
ser capaz de defender sua posição dominante na TFP.
Seus antigos
alunos de Cracóvia superaram o mestre do Château de Jaglu. Foram eles
que construíram, financiaram e posteriormente assumiram a nova rede de
organizações ultracatólicas, que agora exercem crescente influência
sobre o pensamento das sociedades da Europa Central.
"Falando de
forma geral, a velha TFP na França, Alemanha e Itália era mais uma forma
de ganhar dinheiro do que uma ideologia. Ela fornecia estabilidade e
conforto para seus principais membros. A nova geração que vem da Polônia
é muito mais profissional", explicou Neil Datta durante uma entrevista.
Recentemente,
o grupo celebrou a decisão tomada pelo Tribunal Constitucional da
Polônia. No final de outubro, ele reduziu drasticamente o caminho para o
aborto legal. Agora, a rede centro-europeia está se preparando para
defender os valores cristãos no futuro referendo constitucional na
Estônia.
Fonte do Texto: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2020/12/28/os-milhoes-enviados-da-polonia-para-radicais-da-tfp-no-brasil-e-pelo-mundo.htm
Fonte da Imagem: https://br.pinterest.com/pin/571183165347793514/