sexta-feira, 9 de julho de 2021

SUICÍDIO COLETIVO OU GENOCÍDIO PLANEJADO?

 


CIDADES SUICIDAS

 

Pedro Hallal, para Folha de São Paulo

 

"Os dados trazidos a público pelo jornalista Ricardo Mendonça no Valor Econômico são estarrecedores. Todas as 5.570 cidades brasileiras foram divididas de acordo com o percentual de votos em Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais de 2018. Em 108 cidades, Bolsonaro teve menos de 10% dos votos, em 833 cidades teve entre 10% e 20% dos votos, e assim sucessivamente, até chegar nas 214 cidades nas quais Bolsonaro teve entre 80% e 90% dos votos e na única cidade em que Bolsonaro teve 90% ou mais dos votos em 2018. Essas informações, aliás, são de domínio público e podem ser acessadas por qualquer um no Repositório de Dados Eleitorais do Tribunal Superior Eleitoral.

 

De posse dessas informações, o próximo passo foi analisar a quantidade de casos e de mortes por Covid-19 em cada uma das 5.570 cidades. Novamente, os dados são de livre acesso, tanto pelo Painel Coronavírus do Ministério da Saúde quanto pelo DataSUS. Nas 108 cidades em que Bolsonaro teve menos de 10% dos votos, o número de casos é de 3.781 por 100.000 habitantes. A quantidade de casos sobe linearmente até atingir 10.477 casos por 100.000 habitantes nas cidades em que Bolsonaro teve entre 80% e 90% dos votos e 11.477 casos por 100.000 habitantes na cidade em que Bolsonaro teve 90% ou mais dos votos.

 

Os dados para mortes são igualmente chocantes. A mortalidade varia de 70 mortes por 100.000 habitantes nas cidades em que Bolsonaro teve menos de 10% dos votos, até mais de 200 mortes por 100.000 habitantes nas cidades em que Bolsonaro teve 50% dos votos ou mais. Na única cidade em que Bolsonaro fez 90% dos votos ou mais no segundo turno das eleições de 2018, a mortalidade é de 313 por 100.000 habitantes. Mais do que o resultado dessa cidade isoladamente, o que chama atenção é a escadinha observada nos gráficos.

 

O morador de uma cidade na qual Bolsonaro venceu o segundo turno das eleições de 2018 tem três vezes mais risco de morte por Covid-19 do que o morador de uma cidade em que Bolsonaro foi derrotado com folga. Mesmo que a pessoa tenha votado contra o negacionismo, estando ela exposta a um ambiente negacionista, seu risco de morte é maior."

 

Pedro Hallal, na Folha.

Fonte da Imagem: http://fantasyartdesign.com/free-wallpapers/wallpaper.php?u_i=368&i_i=645

 

segunda-feira, 21 de junho de 2021

ESTRATÉGIA DE COMUNICAÇÃO DA EXTREMA DIREITA

 


Estratégia de comunicação da direita alternativa se alimenta do hiato geracional.

“Hiato geracional” – a perda da função de elo geracional dos idosos, cujo ressentimento alimenta a extrema-direita, deixando os jovens expostos às táticas de guerra híbrida alt-right nas redes sociais.

 Por Wilson Ferreira.

Dois eventos sincrônicos: no Brasil, a motociata convocada por Bolsonaro com seis mil motos de luxo de alta cilindrada montada, em sua maioria, por “tiozões”, brancos, com jaquetas de couro preto emulando a gang famosa dos Hell’s Angels, perfil dos atuais apoiadores do presidente que saem às ruas; e na Inglaterra, o gênio da guitarra Eric Clapton, 76, mais uma vez destilando o negacionismo ao afirmar que as vacinas contra a Covid-19 “podem afetar a fertilidade”. O atual estado de coisas começou com as Jornadas de Junho de 2013 com a energia de jovens secundaristas e universitários. Para terminar com senhores calvos segurando bandeiras neo-nazistas ucranianas em manifestações verde-amerelas de rua em apoio ao “tiozão do churrasco”, personagem performado pelo atual presidente. A estratégia de comunicação da direita alternativa (alt-right) é favorecida por um fenômeno: o “hiato geracional” – a perda da função de elo geracional dos idosos, cujo ressentimento alimenta a extrema-direita, deixando os jovens expostos às táticas de guerra híbrida alt-right nas redes sociais.

 “Ficar velho não quer dizer ficar melhor”. É o slogan que abre a série de “vídeocassetadas” envolvendo idosos no canal Failarmy – líder mundial de compilações de vídeos engraçados envolvendo pequenos acidentes domésticos, esportivos etc.

Ironicamente esse humilde blogueiro lembrou desse slogan quando assistiu a um vídeo em que o famoso e veterano guitarrista Eric Clapton, mais uma vez, posicionou-se contra as vacinas contra a Covid-19, afirmando que elas tornariam as pessoas inférteis. Para ele, estudos científicos e as opiniões de organizações médicas não passariam de “propaganda”.

O gênio da guitarra passou toda a pandemia dando declarações contra o isolamento social e questionando a própria existência de uma pandemia global. Mas em se tratando de Clapton, não é uma novidade: em 2004 lamentou a presença de imigrantes no Reino Unido e chamou o político anti-imigração Enoch Powell de “escandalosamente corajoso”.

Como assim? Por que Eric Clapton, aquele que deu um “shot” no xerife virou um velho ranzinza e reaça de extrema-direita? Tá certo que a cabeça dele já não andava boa nos anos 1970 com tantas drogas e álcool, até passar por uma temporada de reabilitação em Antigua… Já em 1976, Clapton havia protestado contra imigrantes num show em Birmigham. Mas ele diz não se lembrar…

O curioso é que ver um senhor tão talentoso de 76 anos como Eric Clapton dando declarações públicas de extrema-direita faz esse humilde blogueiro lembrar de congêneres brasileiros (guardadas as devidas proporções) como Lobão e Roger do “Ultraje a Rigor”: a idade também não lhes fez nada bem. O primeiro, um bolsonarista arrependido, e o segundo, ainda um bolsominion empedernido.

Além de lembrar as atuais manifestações de apoiadores de Bolsonaro, como também aquelas multidões de camisetas da CBF nas ruas querendo o impeachment da presidenta Dilma.

Nas últimas “motociatas” convocadas por Bolsonaro, a maioria dos integrantes eram homens brancos com mais de 50 anos com motos Harley Davidson, Kawasaki, BMW com propulsores de alta cilindrada e jaquetas de couro emulando a famosa gang Hell’s Angels. Esse é o “núcleo duro”, os bolsonaristas renitentes, verdadeiros “tiozões do churrasco” (aquela figura folclórica que fazia todos rirem com piadas misóginas e tiradas políticas extemporâneas), cuja imagem de Bolsonaro é a desforra de todos os tiozões que já foram zoados em todas as churrascadas da história brasileira.

Mesmo entre os manifestantes de verde-amarelo nas ruas mandando a presidenta tomar naquele lugar, era marcante a dominância de casais de meia idade para cima, esquisitões fascistas mais velhos com camisetas de camuflagem militar e senhores calvos segurando uma bandeira rubro-negra com tridente na Avenida Paulista, São Paulo, símbolo do nacionalismo ucraniano de extrema-direita.

Nada a ver com as manifestações que acenderam o rastilho de pólvora que deu em tudo isso: nas Jornadas de Junho de 2013 e manifestações de ruas subsequentes era massiva a participação de jovens estudantes secundaristas e universitários, além de militantes de novos coletivos políticos.

Hiato geracional

Como interpretar essa guinada etária na recente trajetória política brasileira em que… aquilo deu nisso? Por que o núcleo duro, recalcitrante e birrento, da extrema-direita é formado por apoiadores cinquentões, sessentões e setentões?

Essas questões não surgem do nada. Assim como a até aqui vitoriosa estratégia de comunicação da chamada direita alternativa (alt-right) não veio de um golpe do acaso. Há um fator sociológico e geracional pouco discutido na ascensão desse novo extremismo de direita: o hiato geracional – a crise da função dos idosos como elo geracional, ou seja, como transmissora de sabedoria e conhecimento acumulados em uma existência.

É claro que jovens e idosos são os dois lados de uma mesma moeda nessa questão: Bolsonaro contou com 60% de eleitores entre 16 e 34 anos. Desses, 30% tinham menos de 24 anos (clique aqui). Jovens conduziram um ex-militar com 26 anos de atuação do Baixo Clero do Congresso Nacional. Enquanto, hoje, de cinquentões para cima demonstram o apoio irrestrito ao capitão da reserva nas ruas.

Entre esses dois grupos, o hiato geracional, do qual alimentou a estratégia alt-right de comunicação.

Em culturas tradicionais, onde a velhice e a morte eram simbolicamente incorporadas no dia a dia, os idosos sempre foram “elos geracionais” como transmissores de um saber acumulado, conhecimento e sabedoria. Colocados em posição de destaque na sociedade, o natural declínio físico era compensado pela sabedoria, amor e trabalho unidos em uma preocupação com a posteridade na tentativa de equipar os mais jovens para levar adiante as tarefas dos mais velhos.

Narcisismo e cultura jovem

Desde o pós-guerra e a consolidação da sociedade de consumo através da Publicidade criou-se uma sensibilidade inédita na História: pela primeira vez, o jovem tornou-se o modelo de beleza, felicidade e consumo. Ou a sua versão politizada: a rebeldia e a revolução.

O jovem, o novo e a novidade passaram a ser moralmente bom, enquanto o “velho” (o idoso, o antigo) tornam-se ultrapassados, o oposto do progresso, da evolução ou da revolução. 

Toda a indústria da moda e publicidade vai ao longo das décadas glamorizar o “novo” e a “novidade” como moralmente bom, prazeroso e estimulante. O ápice dessa verdadeira engenharia de opinião pública foi a construção da cultura pop e jovem nas décadas de 1950-60. “Não confie em ninguém com mais de 30”, dizia o desafiante lema jovem da contracultura: os “mais velhos” (pais e autoridades) passaram a ser encarados como “quadrados”, ultrapassados e intrinsecamente conservadores.

Se isso foi positivo em um momento histórico como revolução e crítica, por outro lado seus líderes não perceberam a ambiguidade dessa nova cultura: seria a base imaginária (ao lado do crédito no consumo) de toda a descartabilidade e hedonismo necessários para a aceleração da sociedade de consumo.

Aos idosos restou a papel de negarem-se a si próprios, em primeiro lugar, através das “lições de vida” que os idosos nos ensinariam em pautas motivacionais de telejornais: um senhor de 70 anos que pratica maratonas; uma senhora que aos 75 anos retoma a sala de aula para concluir o ensino médio pensando na universidade e nova carreira profissional; outro senhor de 65 anos diz orgulhar-se por aventurar-se no “mundo das atividades físicas”: “faço atividades físicas com força na academia para fortalecer a musculatura e garantir que tão cedo eu não vou ter que ‘pendurar as chuteiras’”, brinca.

E segundo, todo um aparato terapêutico renovado a cada dia pela indústria farmacêutica na qual a função de “elo geracional” é esquecida: os idosos nada têm a dizer para as câmeras em termos de conhecimento ou sabedoria, a não ser negar a si mesmos numa tentativa a todo custo de aparentar uma atitude positiva e ficar parecidos com os mais jovens.

Christopher Lasch chamava a atenção para esse esvaziamento do elo geracional dos idosos por essas transformações trazidas pelas soluções médicas e sociais.

Lasch acredita que a negação em relação à velhice se deve à cultura da juventude, mas principalmente à perda do interesse dos homens pela vida terrena e o medo da velhice pela ascensão de uma personalidade narcísica.

Por ter o narcisista tão poucos recursos interiores, ele olha para os outros para validar seu senso de eu. Precisa ser admirado por sua beleza, encanto, celebridade ou poder – atributos que geralmente declinam com o tempo. Incapaz de alcançar sublimações satisfatórias nas formas de amor e trabalho, ele percebe que terá pouco para sustentá-lo quando a juventude passar (LASCH, Christopher. “A Cultura do Narcisismo”, R. de Janeiro, Imago, 1983, p. 254-55).

O sofrimento central da velhice (o fato de que vivemos vicariamente em nossos filhos ou em gerações futuras) perde suas formas sublimatórias religiosas ou filosóficas como o amor, a sabedoria e o conhecimento, formas que nos faziam se reconciliar com a nossa própria substituição.

Ressentimento e sublimação

Destituído das formas sublimatórias porque destituído da sabedoria e do conhecimento (afinal, vive numa sociedade em deve “nem parecer que é velho”), a frustração e o ressentimento o tornam presa fácil dos valores propagados como isca pela extrema-direita: justiçamento, intolerância, vingança, culto ao poder como sublimação substituta – idolatrar personalidades “fortes” e a simbologia fálica como motos de alta potência, armas etc. 

Sem terem sabedoria ou o quê dizer aos mais jovens, instaura-se o hiato geracional que isola os jovens num presente extenso – sem o passado, porque os idosos se tornaram uma caricatura de “jovens idosos”; e sem futuro, porque não há nenhuma sabedoria transmitida através da qual seja possível projetar um caminho, uma meta ou mesmo uma utopia.

Nesse presente extenso, os jovens serão igualmente presas fáceis dessa cultura que exala juventude e novidade como verdades em si mesmas: a cultura meme, streamer e influencer. Terreno fértil para fake news e pós-verdades das estratégias alt-right.

Claro que o leitor pode se contrapor a esse argumento sócio-geracional dizendo nem sempre esse elo geracional do passado transmitiu sabedorias positivas para a juventude. Pelo contrário, em geral as sociedades se estruturaram em tradições persecutórias, obscurantistas e reacionárias, em torno do discurso da “moralidade” e dos “bons costumes”.

Porém, a diferença é que em última instância, esse elo geracional mantinha uma sociedade organicamente coesa pelas formas de transmissão cultural por meio da tradição.

Ao contrário, o hiato geracional cria isolamento e vulnerabilidade que permitem a manipulação pelas estratégias políticas midiáticas – o ressentimento que promete a recuperação (ou a sublimação) da potência perdida para os idosos por meio do fascínio pelos simbolismos fálicos na política; e para os jovens, o presente extenso hedonista e niilista.

 

quarta-feira, 9 de junho de 2021

OBEDECER É PARA OS FRACOS

 

 


Por que Bolsonaro não usa máscara?


Por Roberto DaMatta

09/06/2021


Fiz a pergunta a muitas pessoas de ambos os polos e a uma minoria centrista que procurei como um detetive. Todos se assombraram com minha inocência. Como é que eu — professor titular de Antropologia Social e pesquisador da “alma brasileira” — não sabia que, entre nós, quem manda não obedece?


Como é que eu podia ignorar que, no Brasil, mandar anula o obedecer, essa desagradável anormalidade democrática que inverte a velha ordem? Como é que eu esquecia que “estar no poder” é sinônimo de não seguir coisa alguma, porque obedecer é o carimbo dos fracos e dos pobres?

É claro que Bolsonaro não usa máscara!

Como é que ele aceitaria tal banalidade, se o sinal que envia é que pode tudo? No Brasil, ser superior é não estar com a lei, mas situar-se acima dela, é claro.

É ter o privilégio de não ser cidadão. De provocar e abusar, na certeza de não ser punido. É ser “impunível” e, se preso for, ter a plena confiança de que um jurisconsulto ponderado vai livrá-lo da prisão, que será especial — um xadrez hierárquico e diferenciado...

Ninguém definiu tais condições com mais clareza que o próprio Bolsonaro quando, em 12 de maio do corrente, numa de suas tiradas absolutistas, declarou que “só Deus me tira daqui” e, no dia 17, afirmou ser “imorrível, imbrochável e também incomível”. O incomível é curioso. Ele salienta a qualidade bolsonaresca de ser duro de roer, mas deixa de lado outras implicações que Freud explica, e eu prefiro não comentar...

A arrogância expõe as propriedades conhecidas, mas pouco discutidas, de todos os que “sobem”, “chegam” ou “tomam” o poder no Brasil.

Aqui (como na América Latina), ser irremovível ainda é o sonho de quem encabeça um sistema que transforma eleições em rituais dinásticos, ministros em fidalgos ou criados e o eleito, em salvador (ou matador) da pátria. O populismo é o modelo resistente à igualdade do presidente perante a lei.

Aprendemos que o dono da bola pode mudar as regras do jogo e, sendo contrariado, ele acaba com o jogo.

O “golpe” é uma possibilidade constante em países onde verdade e mentira se contestam. É preciso perceber que crimes políticos hediondos, como “o rouba, mas faz”, ainda são vistos como piadas e folclore.

O que mostra como evitamos examinar o protagonismo dos costumes sobre as instituições. Aquilo que é positivo na família, e até mesmo no partido, contraria a ética democrática.

É preciso compreender como a ambiguidade ética corrói a impessoalidade obrigatória das democracias, cuja disciplina se baseia na separação de pessoas e cargos. O atualíssimo e atrasado “manda quem pode, obedece quem tem juízo” é um mote escravocrata. É uma prova da desigualdade como valor no Brasil.

A decepção bolsonarista tem tudo a ver com a incapacidade de negar o pedido de um amigo e de ver essa incapacidade como normal. Como se lei, civilização, costumes e comportamentos fossem seres de planetas diferentes, quando são dimensões necessariamente relacionadas nos regimes democráticos.

Caso a “casa” continue a englobar a política e a “rua”; caso os elos pessoais sejam mais valorizados que a moralidade coletiva, temos incesto. O que iguala estruturalmente incesto e “corrupção” é romper com uma norma pública universal em favor de desejos particulares. Pois, como adverte sabiamente a revista “Playboy”, “o incesto é legal desde que seja mantido em família”.

Mas como manter a muralha da família (e dos compadrios) ao lado da liberdade do mercado e das gravações reveladoras da verdadeira máscara do invocador do Tribunal de Nuremberg e também das facções de ataque e defesa do governo, que são (com a devida vênia) contumazes potoqueiras? Por que — essa é a grande questão — o campo político virou um espaço de mentiras, malandragens e desenganos?

O abominável no comportamento de Jair Bolsonaro é que ele ainda não conseguiu entender a magnitude do papel de presidente da República. É claro que tudo tem a ver com a crença de que ele se pense, como disse com uma ingenuidade embaraçosa, como “imorrível, incomível e imbrochável”. Delas todas, eu invejo a mais humana, a última.

Como dizia o velho e querido brasilianista Richard Moneygrand, dificilmente se faz democracia com faraós.



Fonte da imagem: https://makaniart.com/portfolio/creation-unleashed

sábado, 22 de maio de 2021

ENTENDA PORQUE BOLSONARISTAS MENTEM


 

A mentira do populista dá credibilidade

  Por Pedro Doria, para Canal Meio

O Flow podcast é um dos mais badalados programas digitais de debate da internet brasileira. De segunda a sexta-feira, exibido a partir das 20h, quando os dois apresentadores se reúnem ao redor da mesa para uma longa conversa com convidados. E, na semana passada, um trecho destes debates explodiu. Se tornou um dos mais badalados assuntos das redes sociais. Enquanto isso, na CPI da Covid, o general Eduardo Pazuello se tornava o terceiro ex-ministro do governo Jair Bolsonaro a sentar perante os senadores e mentir. Mentir, inclusive, a respeito de momentos gravados em vídeo. Facilmente desmontáveis.

No Flow, o confronto foi entre Gabriela Prioli, comentarista da CNN Brasil, e um dos apresentadores. Bruno ‘Monark’ Aiub. Monark vinha falando sobre educação no Brasil quando Gabriela questionou suas premissas. “Isso é muito chato”, ele reclamou. “Não poder conversar, falar sobre o que penso porque não tenho números e estatísticas.” Já não era mais uma conversa sobre um tema. Passava a ser uma conversa sobre como funciona o debate público. “Você pode falar tudo”, argumentou Prioli. “Mas pode estar falando uma mentira se não tiver um dado.” (Assista ao episódio.)

Quando confrontado na CPI após ter dito que o presidente jamais havia dado ordens para não comprar vacinas do Butantã, o ex-ministro da Saúde também se livrou da aparente incoerência. Os senadores o lembravam de que havia um vídeo, de ampla circulação, em que ele comentava com Bolsonaro ao lado — “um manda, o outro obedece”. A ordem do presidente era justamente de não comprar vacinas. “Aquilo foi apenas posição de agente político na internet”, argumentou o general. O que o presidente diz na internet não precisa ser verdade. Para Pazuello, era uma constatação natural. Para os senadores não-governistas, soou como ultraje.

A mentira, assim como um debate não baseado em fatos, fazem parte do arsenal de ferramentas dos novos líderes populistas e autoritários do mundo. Pode parecer paradoxal: mas é a fonte de sua credibilidade perante seus eleitores.

Os dois momentos talvez não pareçam relacionados mas revelam justamente este traço de nossa cultura política transformada pela comunicação digital. Em ambos os casos, a indignação de Monark ao ser cobrado e a maneira como o público bolsonarista recebeu os depoimentos dos ex-ministros na CPI, o que há em comum é uma busca por autenticidade. E, para compreender este processo, é útil pensar em populismo de uma forma nova.

Tradicionalmente, populismo é visto como uma ferramenta política. Um estilo de fazer política.

O desafio de todo líder é juntar eleitores e conquistar eleições. O candidato populista faz isso construindo uma relação de identidade entre ele e o público na qual, juntos, formam um mesmo povo que têm um problema. Seus objetivos não têm sido alcançados por conta da elite. O líder é quem será capaz de furar este bloqueio. O populismo é, por esse ângulo, uma performance do líder político. Um jeito de agir no palanque, um jeito de construir o discurso para seduzir eleitores.

A cientista política inglesa Catherine Fieschi, professora da London School of Economics e diretora da consultoria Counterpoint, é uma dentre uma nova geração na ciência política que propõe enxergar o populismo não como método mas como ideologia. O método é uma tática para conquistar um objetivo — a eleição. Candidatos podem lançar mão de um discurso populista quando lhes interessa ou não. Faz parte do arsenal que têm à disposição. Ideologia é bem mais do que isso. Ideologia é toda uma visão de mundo. É a maneira como se compreende a realidade.

A vantagem desta lente, de enxergar populismo como ideologia, é que fica mais fácil entender como mentiras escancaradas se tornam, para os eleitores destes novos líderes, garantia de maior credibilidade.

Na definição de Fieschi, a ideologia do populismo, um pacote fechado e autossuficiente de ideias, começa na crença de que há um mesmo povo, que é homogêneo e soberano. A democracia deveria garantir — a este povo que é homogêneo — controle sobre a sociedade. Como esta visão rejeita a ideia de que há diversidade social grande, qualquer governo que represente outros anseios é visto, automaticamente, como não democrático. Não representa, afinal, o verdadeiro povo. A ideologia do populismo, neste momento, acusa a traição da democracia e busca quem represente autenticidade.

O conceito liberal de democracia não tem nada disso. Pelo contrário: parte justamente da premissa de que há correntes de opinião distintas na sociedade, de que há anseios diversos. Democracia é a forma que permite que estas correntes possam negociar suas diferenças. Quando um líder populista fala de democracia, porém, ele está falando de algo completamente distinto. Ele está falando como representante do único ‘povo verdadeiro’. A crença de que o ‘povo’ é homogêneo, que quem é diferente está à parte deste ‘povo’, é fundamental nesta ideologia. E é aí que esta ideia de autenticidade é o conceito-chave.

O eleitor que segue a ideologia do populismo está em busca de autenticidade em seus líderes. Esta busca é norteada por uma emoção forte — a do ressentimento. A sensação de que elites humilham quem está embaixo. Não se trata de elite apenas no sentido econômico — a elite compõe, aqui, quem tem autoridade em uma sociedade. Quem tem dinheiro, claro, mas também quem tem poder, e quem tem conhecimento. Este ressentimento nasce da percepção de que seus anseios pessoais, os do povo homogêneo, não podem nunca ser atendidos porque estas elites — quem tem dinheiro, poder ou conhecimento — o impedem. Mais do que isso. As elites tratam de forma depreciativa estes anseios. É como se ter acesso ao poder ou mesmo participar do debate público fosse impossível ao verdadeiro povo. Que é homogêneo.

Autenticidade, portanto, é um jeito de pensar e um jeito de agir. O líder autêntico pensa como o povo. Se manifesta como o povo. E desafia as elites no que vê como sua arrogância. Não joga o jogo conforme as regras da elite. É um herói do povo.

E está lá na frase de Monark para Gabriela Prioli. “Quando falo o que penso”, ele se queixa, “você vem com quais são os dados. Se não tenho os dados, pronto, o que penso está inválido, você nem contempla minha opinião.” Ou seja, o senso comum é desvalorizado. Aquilo que ‘todo mundo pensa’ é desprezado pelas elites. É desprezado porque o senso comum não consegue se impor num debate em que argumentar com fatos é exigido.

Aí, o problema da democracia é que, se num debate é preciso sustentar com argumentos uma visão, as regras do jogo se mostram construídas para impedir que este senso comum baste. E faz isso, segue a percepção, humilhando.

O que o líder populista faz é se recusar a seguir as regras do jogo habitual. Ele é grosseiro. Ignora propositalmente a correção política. É abertamente preconceituoso: racista, xenófobo, homofóbico, chauvinista. E, sim, mente. Mas não mente como políticos costumam mentir. A mentira política comum é aquela que tenta esconder algo. Ou justificar uma decisão errada. São mentiras que têm consequências. As mentiras do populista têm outra natureza. Ele não se baseia em fatos para sustentar suas convicções. Se baseia em impressões, no instinto, em histórias de ouvir falar. Ele não tem justificativas que não o sentimento de que está certo. De que sentir esta certo basta.

Quando mente, quando ignora fatos, está em essência desafiando a ‘lógica do sistema’. A lógica que impede ao seu eleitor que participe do debate. Uma lógica, que o eleitor sente, o oprime.

No centro do novo movimento populista e autoritário está a palavra, o diálogo, a linguagem. Não é à toa. O que o multiculturalismo produziu, nas últimas décadas, foi uma nova linguagem que reconhece uma sociedade heterogênea. Faz parte deste conjunto um novo vocabulário — como, por exemplo, nomear LGBTs, pessoas de outras etnias. Uma busca por palavras que não ofendam. Faz parte, também, um jeito de conversar. A garantia de tempo para quem não é ouvido, respeito à legitimidade da opinião de quem traz a vivência de certas experiências.

Na sua forma mais sutil, o multiculturalismo reflete uma particular atenção à cortesia e o respeito aos espaços de fala de quem tem certas experiências de vida. Na forma mais radical, abole a designação de gênero, todes, todxs. Mas, principalmente, o multiculturalismo é esta nova linguagem que existe para reconhecer diversidade. Esta é a essência do multiculturalismo, do cosmopolitismo liberal progressista que se implantou nas últimas décadas. É natural, portanto, que a ideologia que reage a esta mudança comece por uma repulsa à linguagem.

A linguagem do neopopulismo será caricaturalmente grosseira e rejeitará qualquer discussão que, por princípio, reconheça a sociedade como heterogênea. Seu princípio é justamente não reconhecer a diferença. Só o ‘povo homogêneo’ existe.

“Há um paradoxo a respeito da palavra”, escreve Fieschi em Populocracy: The Tyranny of Authenticity and the Rise of Populism (Amazon Brasil), livro que lançou em 2019. Populocracia: A Tirania da Autenticidade e a Ascensão do Populismo, não lançado no Brasil. “Por um lado, muitos dos com quem conversei valorizam a compreensão instantânea um do outro, de pessoas ‘como eles’. Valorizam que se diga as coisas na cara, com clareza ainda que grosseira. Valorizam uma sociedade em que se pode dizer o que se pensa com a garantia de que ninguém será mal compreendido.” E este é o problema percebido no multiculturalismo. Em sociedades europeias nas quais a transformação passa pela chegada de imigrantes, gente com sotaques e tons diversos de cor na pele, o multiculturalismo interdita a conversa sobre o desconforto que muitos sentem com estas pessoas diferentes. Noutras sociedades, como a brasileira, o novo vocabulário da política dificulta a entrada no debate para quem rejeita políticas públicas voltadas para os tradicionalmente excluídos para quem é tradicionalmente excluído — mulheres, negros, indígenas etc.

O foco está, sempre, em rejeitar a ideia de que o povo é composto por grupos com muitas diferenças e reforçar a ideia de um povo verdadeiro e homogêneo.

Daí que ignorar fatos e falar o que se sente é ser autêntico. Ir a um interrogatório de CPI e ignorar por completo as normas habituais — recusar as regras do jogo — é igualmente ser autêntico. Amplia a credibilidade, não a diminui. Porque rejeita a linguagem da democracia liberal, multicultural, para abraçar um outro conceito de democracia. Um significado em todo diferente para a palavra.

“A mentira do populista”, escreveu a cientista no Guardian, “tem por objetivo ser percebida. É o contrário da mentira que quer esconder algo. No jogo que o populista joga, mentir é glorificado. É um instrumento de subversão, seu objetivo é mostrar que o líder cruzará qualquer limite para ‘servir ao povo’. Estas mentiras são símbolos de que estes políticos não se restringem às normas correntes da elite liberal democrata. Enquanto liberais democratas se preocupam em sinalizar virtude, populistas sinalizam repulsa.”

Repulsa à diversidade. A um mundo transformado.

É uma política de apelo aos instintos, não ao cérebro.

 

 

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sábado, 15 de maio de 2021

ESTÃO REABERTAS AS PORTAS DA PERCEPÇÃO?



Por Leonardo Pimentel, para Canal Meio


“O remédio para a alma.” Foi assim que o químico suíço Albert Hofmann (1906-2008), às vésperas de completar cem anos, descreveu sua mais famosa descoberta, a dietilamida do ácido lisérgico, popularmente conhecida pela sigla em alemão LSD. O cientista morreu dois anos depois sem jamais aceitar que sua criação fosse proscrita como entorpecente em todo o mundo e não usada como ferramenta terapêutica. Bem, se tivesse vivido mais uma década, Hofmann estaria vingado. Hoje, drogas psicodélicas se apresentam como a nova fronteira dos tratamentos psiquiátricos e atraem milhões de dólares em investimentos – embora continuem ilegais.

No início desta semana, a revista Nature, uma das mais respeitadas revistas científicas do mundo, publicou o resultado de uma pesquisa sobre o uso da 3,4-metilenodioximetanfetamina (MDMA, ou mais popularmente, ecstasy) em pacientes com síndrome de estresse pós-traumático. Claro, a droga não é consumida como nas raves, mas de forma assistida e acompanhada de sessões de psicoterapia – e sem música eletrônica.

Uma semana antes, o igualmente prestigiado New England Journal of Medicine publicou um estudo sobre o tratamento da depressão comparando a psilocibina, princípio ativo dos “cogumelos mágicos” popularizados pela obra de Carlos Castañeda (1925-1998), com o popular medicamento Escitalopram. Adivinhem. Os cogumelos foram mais eficientes.

É a redenção de profissionais como o psicólogo Rick Doblin, responsável pelo estudo publicado pela Nature, que há 40 anos rema contra a maré estudando as possibilidades terapêuticas das drogas psicodélicas. Hoje ele comanda a Associação Multidisciplinar Para Estudos Psicodélicos (MAPS, na sigla em inglês), um conglomerado de pesquisa irrigado por fundos de Wall Street que veem nas drogas psicodélicas o futuro da psiquiatria. Segundo o New York Times, a expectativa é que a Agência para Drogas e Alimentos (FDA, a Anvisa americana) libere medicamentos baseados em MDMA em 2023 e os de psilocibina até dois anos depois.

Não que estudos sobre o uso terapêutico de psicodélicos sejam novidade. Entre 1960 e 1963, o psicólogo Timothy Leary (1920-1996), que já conduzia experiências do gênero em Harvard, desenvolveu um experimento com detentos da prisão de Concord, em Massachusetts. Segundo seu levantamento, o grupo de presos submetidos voluntariamente ao tratamento com drogas psicodélicas teve uma taxa de reincidência no crime de 20%, contra 60% da média do presídio. Leary, porém, acabou demitido de Harvard e enfrentou uma brutal perseguição pelo governo dos EUA.

E o LSD, que iniciou esta conversa? Bem, há alguns anos ele se tornou, em doses controladas, o motor da criatividade no Vale do Silício. Profissionais das Big Techs descobriram que pequenas quantidades do ácido podem provocar insights impossíveis em estados normais de consciência. Claro, há que se ter limites. No fim de abril, Justin Zhu, CEO da startup Iterable, foi demitido após, supostamente, tomar uma dose de LSD antes de uma reunião com investidores. Confundir possíveis parceiros comerciais com elefantes roxos pode não ser uma boa ideia.

Mas vamos combinar que psicodelismo não é só medicina. Ele contribuiu muito para a arte, a começar pelo livro As Portas da Percepção, de Aldous Huxley. White Rabbit (YouTube), do Jefferson Airplane, The End (YouTube), de The Doors, e Set The Controls For The Heart Of The Sun (YouTube), do Pink Floyd, que o digam.

Por Leonardo Pimentel

 

 

Fonte do Texto: Drogas psicodélicas dão a volta por cima - http://www.canalmeio.com.br/notas/drogas-psicodelicas-dao-a-volta-por-cima/?h=T21hciBSw7ZzbGVyfDgyMzA4

 

Fonte da Imagem: https://wallhere.com/pt/wallpaper/237116

 



domingo, 18 de abril de 2021

Os milhões enviados da Polônia a conservadores da TFP

 




Juliana Dal Piva, Julia Dauksza, Anna Gielewska, Konrad Szczygiel e Audrey Lebel
Do UOL, em São Paulo, da Reporter's Foundation Polônia, e colaboração da França

28/12/2020

Os valores canalizados ao longo de vários anos pelos fundadores da Instituição Ordo Iuris da Polônia para organizações católicas radicais no exterior chegam a 10 milhões de euros. Só para o Brasil e a França, desde 2004, foram enviados anualmente 500 mil euros. É o que uma investigação internacional produzida pela Reporter's Foundation, da Polônia, com parceiros na França e no Brasil descobriu. O dinheiro doado para rosários e imagens de Nossa Senhora de Fátima apoia o movimento global contra aborto, gênero, LGBTQ+ e valores compartilhados pelo mundo liberal.

Uma mansão luxuosa em São Paulo, um castelo majestoso na França, uma casa do século 19 em Kazimierz, um distrito histórico de Cracóvia: há algo que liga todos estes imóveis e endereços ao redor do mundo? Poderia haver alguma relação entre essas organizações e o endurecimento das leis de aborto na Polônia e o futuro referendo sobre a definição de casamento na Estônia?

Todas as instituições que funcionam nesses locais receberam fundos de uma pouco notada organização polonesa de católicos radicais: a Fundação Skarga, que deseja abraçar tradições medievais, apoia campanhas ultraconservadoras na Polônia e no exterior. Os fundos apoiam uma rede de entidades que organizam manifestações anti-LGBTQ+, petições e marchas antiaborto, campanhas contra a entrega da hóstia na mão. Mas também subsidiou a manutenção de uma organização no Brasil e a sede da TFP (Tradição, Família e Propriedade francesa), no Château de Jaglu, no sul da França, lar de um importante fundador do grupo.

Por anos, pouco se sabia sobre a estrutura financeira desse movimento internacional de radicais católicos, em especial, no Brasil. Nossa investigação revelou, entretanto, que o apoio vital foi fornecido por um centro operacional e financeiro baseado em Cracóvia, na Polônia, e, ainda, como funciona uma rede de entidades ligadas à TFP. O modelo de arrecadação de fundos se baseia em um conceito desenvolvido no Brasil e posteriormente expandido na França e reaplicado nos países centro-europeus.

 

Um sino que chama para a oração na capela

Higienópolis é um dos bairros mais nobres de São Paulo, o coração financeiro da região Sudeste do Brasil e endereço de diversos políticos e celebridades. Neste bairro, fica também o IPCO (Instituto Plínio Corrêa de Oliveira), sediado em uma mansão charmosa cercada por jardins exóticos. A propriedade é aberta apenas aos membros da organização. Apesar de uma missa ser celebrada na capela nos fins de semana, seus moradores ouvem diariamente um sino que chama à oração.

Antes de se tornar sede do IPCO, o imóvel imponente serviu por muito tempo como espaço dos encontros organizados pela Sociedade para a Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) do Brasil. O movimento TFP foi fundado nos anos 60 por Plinio Corrêa de Oliveira, um católico devoto e anticomunista. Se estivesse vivo hoje (ele morreu nos anos 90), ele estaria orgulhoso de seu trabalho.

A TFP se transformou em uma rede global de organizações que promovem valores católicos ultrarradicais, como a condenação de relações de mesmo sexo, divórcio, contracepção e o direito ao aborto. Nos últimos anos, esta rede provou ser particularmente eficaz na Europa Central, inclusive em alguns países pós-comunistas que até 1989 faziam parte da União Soviética.

O IPCO é um clube de homens, de forma que as mulheres, em regra, não são autorizadas a entrar no prédio e não podem ser membros da organização. O Instituto foi criado em 2006, quando um grupo de associados entrou em disputa em torno do legado de Plinio Corrêa de Oliveira e do controle do nome da TFP.

O conflito que sacudiu a divisão brasileira da TFP teve início após a morte do fundador do movimento, em 1995. Seus membros mais velhos entraram em atrito com os líderes jovens, ávidos por poder. Os fundadores originais, expulsos por seus próprios alunos, formaram a Associação dos Fundadores da TFP e agora se concentram desde então na construção de alguma influência no mundo da política brasileira.

Os rivais dos fundadores, que chamam a si mesmos de "Arautos do Evangelho", se concentram em atividades religiosas. Eles foram reconhecidos como uma ordem secular e venceram a disputa legal, em duas instâncias jurídicas, pelo direito de chamarem a si mesmos de TFP na América Latina, em uma tentativa de dar continuidade ao legado de Oliveira. Um recurso dos fundadores da TFP aguarda julgamento no STF há anos.

Com isso, foi criado o IPCO, uma terceira organização resultante da divisão, após a derrota dos antigos fundadores na Justiça. Caio Xavier da Silveira é o verdadeiro tomador de decisões, uma figura chave desta história, cujo nome continuará reaparecendo em nossa reportagem.

bertrandorleans - Folhapress - Folhapress

Apesar dos anos de apogeu do Instituto terem acabado, ele ainda é influente no Brasil. Entre os diretores do IPCO encontramos Dom Bertrand Orleans e Bragança, que tem acesso informal às autoridades e assessores do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (inclusive seu filho, Eduardo). No encontro do G20, Bolsonaro citou as publicações de Dom Bertrand que contestam a mudança climática (enquanto a floresta amazônica estava queimando, Dom Bertrand argumentou que "não se trata de uma crise climática, mas sim de uma ofensiva contra a soberania").

"Ajude-nos a libertar o Brasil do aborto, da agenda homossexual e do comunismo!", é a mensagem usada pela organização em seus esforços de arrecadação de fundos, quando contata doadores potenciais em busca de apoio. Apesar dos relatórios financeiros do IPCO não serem publicamente divulgados, descobrimos que, entre 2004 e 2019, o instituto operou em grande parte devido a recursos provenientes do exterior. A verba vinha, especialmente, de um endereço em Cracóvia, a cidade histórica e antiga capital da Polônia.

 

Movido pela boa vontade e pelo euro

Em maio de 2019, Slawomir Olejniczak escreveu um e-mail aos membros da TFP. O polonês é cofundador da divisão polonesa da TFP, o Instituto Fundação Piotr Skarga, com sede no distrito histórico de Kazimierz, em Cracóvia.

"Caros cavalheiros, Salve Maria!", ele iniciou sua carta aos ativistas católicos ao redor do mundo. Nós obtivemos algumas das comunicações eletrônicas que circularam na rede da TFP. Como resultado, sabemos que papel a divisão polonesa exerceu no financiamento das organizações católicas no exterior.

"Por anos, guiados pela boa vontade e confiança de todos os membros do Conselho da Fundação, a pedido deles apoiamos financeiramente as organizações da TFP no Brasil e em muitos outros países. Ao todo, nosso apoio financeiro chegou a milhões de euros ao longo dos últimos anos. Graças ao nosso apoio fundamental, organizações da TFP foram criadas ou desenvolvidas em países como Austrália, Estônia, Eslováquia, Lituânia, Holanda e Equador. Na Polônia, estabelecemos a organização legal Instituto Ordo Iuris e o Centro pela Vida e Família pró-vida. Além disso, cofinanciamos a renovação das atividades da TFP no Canadá e na África do Sul."

O Instituto Ordo Iuris e o Centro pela Vida e Família exerceram papel ativo no esforço para introduzir uma proibição quase completa do aborto na Polônia.

Por que Olejniczak enviou o e-mail a eles? A mensagem fez parte da disputa pela liderança da organização. Ele tinha sido afastado do conselho diretor da fundação polonesa pelo conselho supervisor presidido por Caio Xavier da Silveira, um brasileiro que fundou e continua sendo uma figura chave do movimento TFP na Europa.

Olejniczak também é uma figura importante. O ex-diretor da Fundação Skarga passou anos supervisionando o desenvolvimento do movimento na Polônia e na Europa Central. Caio Xavier da Silveira, com quem ele permanece em atrito, é ainda mais importante, já que é o fundador e supervisor da maioria das organizações TFP na Europa (incluindo a sediada em Cracóvia) e diretor da Fédération Pro Europa Christiana na França.

O atrito entre eles começou em consequência de uma disputa em torno de dinheiro e controle de ativos substanciais administrados pela Fundação Skarga que, chamando pouca atenção, se transformou em uma fonte de financiamento de toda a rede de entidades ligadas à TFP.

A certa altura, Olejniczak queixou-se a membros da rede que o escritório polonês teve que arcar com os custos de apoio à organização no Brasil e na França desde 2004. "Nosso maior fardo tem sido participar dos custos fixos de manter as organizações no Brasil e França de 2004 até hoje. Eles representavam valores anuais de cerca de 500 mil euros", ele se queixou.

Olejniczak também sugeriu que já que os poloneses ajudaram a sede da TFP em São Paulo a sobreviver por tantos anos, outras também deveriam participar no custo de manutenção da rede. Ele recusou o pedido de entrevista feito pela Reporter's Foundation.

Em vez disso, ele optou por responder nosso e-mail. "A conversa por e-mail era privada", ele escreveu. "Era destinada aos ativistas de organizações católicas que são próximas de nós e que cooperam conosco em outros países. Ela visava apresentar nossa posição na disputa com Caio Xavier da Silveira."

As transferências internacionais de dinheiro sobre as quais Olejniczak falava em seu e-mail também podem ser confirmadas por documentos que obtivemos. Entre eles estão documentos judiciais e relatórios apresentados pela fundação baseada em Cracóvia, assim como documentos financeiros da TFP na França, Estados Unidos e outros países centro-europeus.

A informação está espalhada entre os países e permanece fragmentada, com algumas partes do quebra-cabeça financeiro ainda faltando, mas mesmo assim conseguimos montar parte de um quadro maior.

S?awomir - Divulgação - Divulgação
Os documentos financeiros da fundação baseada em Cracóvia revelam, por exemplo, que, em 2017, ela transferiu 295 mil euros ao Instituto Plínio Corrêa de Oliveira do Brasil. Em 2019, apenas em fevereiro e março, ela transferiu 67.500 euros ao IPCO. O dinheiro de Cracóvia também apoiou duas outras organizações brasileiras que podem ser associadas ao movimento TFP, a Associação dos Fundadores da TFP e a Associação dos Devotos de Fátima.

Nossas estimativas indicam que entre 2009 e 2019 (os dados aos quais tivemos acesso), a fundação com sede em Cracóvia transferiu mais de 9,3 milhões de euros ao exterior. Além disso, o e-mail de Olejniczak confirmou que ela já tinha enviado dinheiro ao Brasil e à França antes (desde 2004). Consequentemente, o valor total transferido de Cracóvia é muito maior.

A fundação com sede em Cracóvia criou uma máquina eficiente para obtenção de fundos em troca de rosários, imagens de Nossa Senhora de Fátima, livros e calendários que atendem aos anseios dos ultracatólicos. Esse "modelo de negócios" adotado pela rede da TFP, reproduzido em outros países ao redor do mundo, revelou ser particularmente bem-sucedido na Polônia católica. No que foi usado o dinheiro transferido para o exterior?

 

Um lustre luxuoso no alto

O majestoso Château de Jaglu fica situado a uma hora e meia de viagem de Paris. Situado no meio da floresta ao lado do tranquilo vilarejo de Saint-Sauveur Marville, ele é de propriedade da divisão francesa da TFP desde 1991. Caio Xavier da Silveira estava à procura de uma residência condizente com os conceitos medievais do movimento. O Château de Jaglu revelou ser o local perfeito para encarnar essas ideias.

chateau - Audrey Lebel - Audrey Lebel
Caio da Silveira, o homem de rosto severo que reside no Château de Jaglu, supervisiona as atividades das organizações que ele controla por toda a Europa. Ele evita publicidade e jornalistas. Quando tentamos marcar um encontro com ele para conversar sobre as finanças da TFP, ele se recusou a conversar conosco. Mas quando não estava ciente de que conversava com jornalistas (nosso repórter conseguiu entrar no castelo sob o pretexto de estar à procura de um local para realização de um casamento), ele rapidamente se abriu. Ele destacou orgulhosamente ser o presidente de uma organização presente em 25 países da Europa.

Lustres extravagantes, vasos de porcelana, poltronas Chesterfield, numerosas bibliotecas e uma capela. Um enorme retrato do guru e fundador do movimento TFP, Plínio de Oliveira, está pendurado no meio. Um dos moradores do Château de Jaglu nos conduziu em uma visita. Fora ele e Silveira, 83 anos, o castelo é lar de uma dúzia de outros associados.

"Foi na França que a TFP primeiro se estabeleceu na Europa", disse Neil Datta, secretário do Fórum para Direitos Sexuais e Reprodutivos do Parlamento Europeu em uma reportagem chamada "Os Cruzados Modernos na Europa".

"Este país (a França) serviu como base para a TFP se espalhar para outros países europeus e criar satélites na Alemanha, Áustria e Polônia no início dos anos 90", ele acrescentou.

Mas os primeiros anos provaram ser difíceis. Quando a divisão francesa da TFP foi criada no final dos anos 1970, ela criou uma associação que abriu um internato para meninos. Dois anos depois, a escola fechou após pais acusarem seus funcionários de doutrinação.

"A direção da escola, em sua maioria brasileira, conduzia um tipo de ação psicológica sobre os jovens alunos para que se tornassem apoiadores militantes de uma organização estrangeira", informou a decisão do tribunal de 1982, que resolveu a disputa civil entre a TFP e o proprietário dos prédios da escola. Após os pais protestarem, a TFP perdeu seu contrato de locação.

Ao longo das décadas seguintes, mais organizações satélites brotaram da TFP francesa. Uma lutava contra a "depravação moral na mídia", outra contra "o direito ao aborto", uma terceira organizava eventos jovens. Todas as três foram criadas por Caio Xavier da Silveira.

 

Processo e busca policial

Em 1979, Caio Xavier da Silveira deixou o Brasil e se estabeleceu na França, dando início à missão de construir uma divisão europeia da TFP. Ele optou por arrecadação de fundos para fins religiosos e essa decisão revelou ser extremamente eficaz.

A divisão francesa da TFP decidiu organizar campanhas de grande escala pelo correio para arrecadação de doações de membros da Igreja Católica.

Nos anos 1990, Avenir de la Culture, uma das três subsidiárias da TFP, prosseguiu na luta contra os direitos LGBT e abarrotou de cartas as caixas postais de políticos. Em 1997, esforços semelhantes resultaram na retirada de apoio de patrocinadores da Parada do Orgulho Gay.

Os anos 1990 foram os anos dourados da TFP na França. Como resultado, dezenas de milhares de pedidos de doação entregues aos moradores do país soaram alarmes entre as instituições do Estado laico francês. Em 1995, uma comissão parlamentar de inquérito incluiu a TFP em um registro de movimentos que se comportam como seitas. Em 1999 e 2006, investigadores da comissão sobre seitas tentaram repetidamente determinar a atual escala e propósito dos empreendimentos de arrecadação de fundos da organização, porém com pouco sucesso.

Em resposta a novas reportagens, a TFP impetrou um pedido junto ao primeiro-ministro francês para que encerrasse a comissão sobre cultos. Ela também impetrou processo por difamação após circularem reportagens sugerindo uma natureza ilegal de suas atividades. Anos depois, em 2016, ela venceu o processo, pois a Justiça francesa decidiu que a agência do governo deveria ter exercido maior moderação em suas declarações.

Campanhas da TFP enfrentaram oposição de vários destinos religiosos na França. Eles incluem a famosa Capela de Nossa Senhora da Medalha Milagrosa, em Paris, quando a medalha foi enviada pela TFP para milhares de moradores do país, juntamente com uma carta pedindo doações. Os padres encarregados pela capela disseram que algumas pessoas acreditaram que suas doações eram destinadas a apoiar seu santuário.

Em 2005, a polícia entrou no Château de Jaglu e revistou a propriedade. A ação ocorreu após suspeitas de que a TFP tinha obtido ilegalmente informações e dados pessoais sobre as posições religiosas dos cidadãos. Mas a investigação foi posteriormente arquivada.

O desenho da medalha, assim como outras imagens religiosas, não é de propriedade de ninguém e qualquer um pode usá-la. Caio da Silveira, cujo apartamento no Château de Jaglu também foi revistado pela polícia, venceu um processo contra o Estado francês, por violação de seu direito de privacidade e de seus direitos profissionais de advogado, impetrado na Corte Europeia de Direitos Humanos, em Estrasburgo.

Enquanto isso, os sites da Basílica do Sagrado Coração de Paray-le-Monial e da famosa Basílica do Sacré-Coeur, em Paris, contém um aviso. Ele declara que as respectivas igrejas não devem ser associadas aos esforços de arrecadação de fundos de organizações como a TFP. Ele também alerta a comunidade católica que quaisquer medalhas milagrosas, calendários e outros itens devocionais usados nas campanhas não estão ligados às suas atividades.

notredame - Reprodução/IPCO - Reprodução/IPCO

 

Se pagar pelas medalhas, você alimenta a rede

Enquanto as autoridades francesas tentavam reprimir a TFP, o movimento expandiu suas atividades internacionais e fontes de arrecadação, tornando-se independente de doadores locais. No início dos anos 2000, ela era ativa não apenas na França, mas também na Alemanha, Áustria, Itália, Polônia e Portugal. Ela não deixou de usar sua marca, mas também se escondeu atrás de uma fachada de campanhas religiosas, associações cristãs ou grupos antiaborto.

Em 2002, Caio Xavier da Silveira estabeleceu outra organização na França chamada Fédération Pro Europa Christiana (FPEC). A entidade consiste de organizações de outros países. Na Europa, Da Silveira ou seus associados na época controlavam uma rede de organizações, a maioria das quais promove campanhas de arrecadação de fundos em grande escala.

Segundo Victor Gama, um historiador da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, a TFP estabeleceu uma rede internacional de associações. Algumas, porém, não revelam seus laços com o movimento.

"Pessoas em muitos países encontram imagens de santos em suas caixas postais e uma carta pedindo a realização de doação para fins religiosos. Elas acham que estão apoiando instituições católicas locais, mas caso decidam doar, o dinheiro delas alimenta a TFP global. O dinheiro é então canalizado para pessoas associadas ao movimento e às suas divisões. A TFP então recruta novos membros, pessoas jovens", revela Gama.

Segundo Neil Datta, a TFP criou um tipo de franquia internacional para campanhas antiaborto que visam a sexualidade e reprodução.

Uma rede de organizações ligadas à TFP na Europa coletou doações de forma tão eficiente quanto uma corporação religiosa. Ela lançou imensas campanhas postais, nas quais enviavam medalhas ou rosários baratos, calendários (geralmente de aparência quase idêntica) ou imagens de Nossa Senhora de Fátima para pessoas em seus bancos de dados. Elas também pediam para que fizessem pequenas doações.

O sucesso está no tamanho do banco de dados, que inclui doadores potenciais. O modelo pioneiro de arrecadação de fundos foi inspirado por políticos republicanos americanos e ativistas associados ao American Leadership Institute, onde membros da TFP foram treinados e também compartilharam sua experiência realizando palestras. O assunto será tema da segunda parte de nossa reportagem.

 

Milhões gerados pelo coração de Jesus

O Château de Jaglu, onde vive atualmente Da Silveira, não é o único imóvel de propriedade da organização. A sede oficial da Fédération Pro Europa Christiana (FPEC) fica na Villa Notre-Dame de la Clairière, em Creutzwald. O imóvel, situado no leste da França, inclui um parque de 3,5 hectares. Até meados de 2019, a organização também alugava um escritório de representação em Bruxelas para realização de atividades de lobby junto às instituições da União Europeia, para promoção de sua agenda ultracatólica.

A manutenção desses imóveis, a organização de comícios para atrair membros de organizações de todas as partes do mundo para eventos em um ambiente medieval, o treinamento de jovens e a luta contra os valores liberais realizada em várias dezenas de países, tudo isso gera despesas consideráveis.

Fora a arrecadação de doações em países individuais, as organizações que fazem parte da rede enviam dinheiro umas às outras. Uma fonte importante de renda para o movimento TFP inclui "doações de membros e sociedades associadas". Como resultado, o dinheiro que circula ao redor do mundo (grande parte provavelmente não tributado) é canalizado para entidades ultracatólicas.

Os informes financeiros da Fédération Pro Europa Christiana mostram que, desde 2012, a receita da organização triplicou. As contribuições de doadores individuais continuam crescendo: elas somaram 604 mil euros em 2012, enquanto em 2019 chegaram quase a 2 milhões de euros. No ano passado, a FPEC arrecadou um total de mais de 2,3 milhões de euros, 345 mil euros (cerca de 15%) provenientes de "taxas de adesão e fundos de associações relacionadas".

As fontes incluem a Fundação Skarga, com sede em Cracóvia, da qual Caio Xavier da Silveira é membro do conselho supervisor. Os documentos que obtivemos junto a registros poloneses revelam que a Fundação Skarga transferiu centenas de milhares de euros por ano à FPEC, uma organização com sede em Creutzwald, na França.

Em 2017, as transferências totalizaram 220 mil euros, enquanto entre janeiro e maio de 2019 elas chegaram a 74 mil euros. Uma parte das transferências foi rotulada como taxa de adesão e parte como "doações contratuais". As sete fatias seguintes, cada uma no valor mensal de 15 mil euros, seriam transferidas pela divisão de Cracóvia para a FPEC até o final de 2019 (totalizando 105 mil euros).

 

Disputa interna pôs fim às transferências

Mas não ocorreram. Quando estourou um conflito em uma organização polonesa em maio de 2019, um dia antes de Olejniczak ser demitido do conselho diretor, as transferências para as organizações estrangeiras controladas por Da Silveira foram suspensas.

Fora as organizações da França e Brasil, o dinheiro de Cracóvia há muito era usado para apoiar cerca de uma dúzia de organizações por todo o mundo, a lista que agora estamos revelando. A maioria delas é controlada por Da Silveira. Os documentos aos quais tivemos acesso revelam que entre 2009 e 2019, as transferências de dinheiro às organizações supervisionadas por Da Silveira totalizaram mais de 6,8 milhões de euros.

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A quantia anual desse tributo aumentou de 358 mil euros em 2009 para cerca de 1 milhão de euros por ano em 2015, 2016 e 2017. Na época, as transferências, rotuladas como "doações para as organizações controladas por Da Silveira", representavam quase metade de todas as doações feitas pela Fundação Skarga para entidades associadas.

No início de 2020, Caio Xavier da Silveira abriu sua própria empresa de consultoria. Por que precisava dela? Teria algo a ver com a disputa interna de poder na TFP? Nem ele e nem o porta-voz da FPEC, Jean Goyard, chefe da TFP francesa, aceitaram falar. Goyard desligou o telefone assim que perguntamos sobre as finanças da organização.

Perguntamos aos representantes da Fundação Skarga sobre as transferências para organizações estrangeiras, incluindo a Fédération Pro Europa Christiana da França e o Instituto Plinio Corrêa de Oliveira do Brasil. Essas contribuições foram canalizadas para o movimento TFP internacional? "As doações feitas a essas organizações não diferem das feitas a outras entidades apoiadas ou criadas pela fundação na Polônia e em outros países", respondeu de forma vaga Piotr Kucharski, porta-voz da Fundação Skarga.

Os doadores poloneses estavam cientes de que o dinheiro foi transferido para organizações estrangeiras associadas ao movimento TFP? "Nós informamos sobre o envolvimento da fundação em vários projetos internacionais por meio de nosso site e publicações", respondeu Kucharski em um e-mail.

Ele também disse que os projetos incluíam o patrocínio da anual Academia de Verão para (jovens) Católicos e "outros tipos de treinamento para membros de organizações sociais e religiosas da Polônia e outros países".

bertrand2 - BBC News Brasil - BBC News Brasil

Uma nova abertura

Em agosto de 2020, os membros da TFP da França, Itália, Holanda, Polônia e Belarus chegaram à França para a Escola de Verão Europeia da TFP, organizada na propriedade em Creutzwald. Este é o encontro mais recente, com Escolas de Verão anteriores tendo sido realizadas nos três anos anteriores no sul da Polônia, no Castelo de Niepolomice.

Caio da Silveira foi o foco durante um evento realizado na mansão. Ele usava a capa vermelha tradicional estampada com um leão dourado, o emblema do movimento TFP. Durante um momento para fotos, Ferdinand Aldunate, membro da nova administração da Fundação Skarga, que está processando o grupo de Olejniczak para recuperar o controle financeiro de milhões de euros e propriedades da organização em Cracóvia, posava orgulhosamente na primeira fila.

A velha administração transferiu os ativos mais valiosos para a Associação Piotr Skarga de Cultura Cristã, uma organização irmã, que ela ainda controla. Hoje, ela se tornou uma fonte de financiamento para organizações que permanecem na esfera de influência do grupo de Olejniczak. Durante a foto de "família", Da Silveira sorriu com uma visível reserva, uma indicação de que pode não ser capaz de defender sua posição dominante na TFP.

Seus antigos alunos de Cracóvia superaram o mestre do Château de Jaglu. Foram eles que construíram, financiaram e posteriormente assumiram a nova rede de organizações ultracatólicas, que agora exercem crescente influência sobre o pensamento das sociedades da Europa Central.

"Falando de forma geral, a velha TFP na França, Alemanha e Itália era mais uma forma de ganhar dinheiro do que uma ideologia. Ela fornecia estabilidade e conforto para seus principais membros. A nova geração que vem da Polônia é muito mais profissional", explicou Neil Datta durante uma entrevista.

Recentemente, o grupo celebrou a decisão tomada pelo Tribunal Constitucional da Polônia. No final de outubro, ele reduziu drasticamente o caminho para o aborto legal. Agora, a rede centro-europeia está se preparando para defender os valores cristãos no futuro referendo constitucional na Estônia.

 

Fonte do Texto: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2020/12/28/os-milhoes-enviados-da-polonia-para-radicais-da-tfp-no-brasil-e-pelo-mundo.htm

 Fonte da Imagem: https://br.pinterest.com/pin/571183165347793514/