segunda-feira, 30 de julho de 2012

PSICOLOGIA DA PERCEPÇÃO

Fonte desta imagem AQUI.

El dibujo y la mirada (ensayo breve sobre psicología de la percepción)  

Thomas Moro Simpson · · · · · 

Son las personas las que ven, no sus ojos.
                                                N.Russell Hanson         
                                    

Lo miro desde hace rato,
y si de mirar no dejo
a veces parece un pato
y otras veces un conejo.

Metamorfosis extraña
con un curioso matiz:
el pato no se hace araña
ni el conejo, una lombriz.

Cada línea, cada punto
sigue su existencia fiel:
nada cambió en el papel,
aquí no hay ningún difunto.

Y si el dibujo es el mismo
en una y otra ocasión,
¿qué exótico mecanismo
los cambia en cada visión?

¡ Desconcertante charada!
De olvidarla ya no hay modo:
pues si bien no cambió nada,
en realidad cambió todo.

Misterio de la mirada,
magia oscura de la mente:
¿quien dijo que no hace nada 
el que mira solamente?
 
Thomas M. Simpson (Buenos Aires, 1929), amigo y colaborador de SinPermiso, es el filósofo argentino más destacado e internacionalmente reconocido de su generación.

sinpermiso electrónico se ofrece semanalmente de forma gratuita. No recibe ningún tipo de subvención pública ni privada, y su existencia sólo es posible gracias al trabajo voluntario de sus colaboradores y a las donaciones altruistas de sus lectores. Si le ha interesado este artículo, considere la posibilidad de contribuir al desarrollo de este proyecto político-cultural realizando una DONACIÓNo haciendo una SUSCRIPCIÓN a la REVISTA SEMESTRAL impresa.

Drogas? É preciso pensar

Fonte da imagem AQUI.


sigo achando
que o álcool
é problema
mais sério
do que todas
as drogas
ilegais juntas


MARCOS ROLIM*
 

marcos@rolim.com.br

Sempre é bom ver políticos defendendo uma ideia. Ainda que seja só uma e de natureza conservadora. Mas poderíamos combinar algumas coisas. Primeiro: sempre que alguém fizer afirmação sobre relações causais deve indicar sua fonte. Desta forma, é possível checar os dados, avaliar a metodologia empregada e saber até que ponto as conclusões agregam consenso científico.

Se não for assim, só o que se estimula é o medo e o preconceito, o que termina por interditar o debate, ao invés de promovê-lo. O "Manifesto contra a descriminalização das drogas", divulgado esta semana e assinado por políticos, entidades médicas e religiosas é _ independente da intenção de seus autores _ uma peça em favor da interdição do debate e em nenhum momento um convite à reflexão.

Ele faz muitas afirmações, mas não indica uma só referência.

Diz, por exemplo, que a experiência de Portugal _ que descriminalizou a posse de drogas em 2001 _ é um fracasso. Talvez seja. Mas aquele que é, possivelmente, o mais amplo estudo sobre esta experiência, o Relatório do Cato Institute, dos EUA _ Drug Decriminalization in Portugal: Lessons for Creating Fair and Successful Drug Policies, disponível em http://migre.me/a41Z3, sustenta precisamente o contrário. Em 2001, a direita portuguesa afirmava que a descriminalização iria abrir as portas para o "narcoturismo" e que o consumo aumentaria (na linha do que dizem hoje, por exemplo, sábios como Reynaldo Azevedo). O relatório Cato revelou que, nos primeiros cinco anos após a descriminalização, o uso de drogas ilícitas entre adolescentes em Portugal diminuiu, as taxas de infecções por HIV causadas por compartilhamento de seringas caíram, enquanto o número de pessoas em tratamento para dependência mais do que duplicou. Neste ponto, o Manifesto critica Portugal por ter mais dependentes em tratamento do que os demais países europeus, sem se dar conta de que, quando não há o crime de uso de drogas, os usuários se aproximam muito mais do sistema de saúde. Aliás, os recursos poupados com as sanções aos usuários em Portugal permitiram financiar mais programas de tratamento aos dependentes. O que _ segundo matéria de Maia Szalavitz na Time Science _ Drugs in Portugal: Did Decriminalization Work?, disponível em http://migre.me/a41Ho - foi reconhecido pelo "Czar das drogas" em Portugal, João Castel-Branco Goulão, presidente do Instituto da Droga e Dependência Química, para quem "a polícia está agora em condições de focar suas ações no monitoramento de traficantes".

O Manifesto afirma, também, que "boa parte" (sic) dos acidentes no trânsito é produzida por pessoas "sob o efeito de maconha, cocaína" etc. Novamente, não há referência e nem ficamos sabendo o quanto é uma "boa parte". Uau! E eu que achava que a esmagadora maioria dos acidentes era causada por motoristas alcoolizados. Este deve ser o meu problema: por ingenuidade, sigo achando que o álcool é problema mais sério do que todas as drogas ilegais juntas e que deveríamos já, há muito, ter proibido a propaganda de bebidas alcoólicas no Brasil. Bem, mas para uma medida simples assim, talvez nos faltem senadores e deputados e sobrem financiadores de campanha.

* Jornalista

sábado, 28 de julho de 2012

Dinheiro por nada

Fonte dessa imagem AQUI.

Paul Krugman

Há anos, pessoas supostamente sérias vêm lançando alertas sombrios sobre as consequências de grandes deficit orçamentários - deficit que resultam primordialmente da crise econômica corrente. Em maio de 2009, Niall Ferguson, de Harvard, declarou que "o maremoto da emissão de dívidas" causaria disparada nas taxas de juros norte-americanas. Em março de 2011, Erskine Bowles, co-presidente da malfadada comissão do deficit criada pelo presidente Barack Obama, alertou que a menos que houvesse ação rápida contra o deficit, "os mercados nos devastarão", provavelmente em menos de dois anos. E assim por diante.

Bem, creio que ainda restem alguns meses no prazo de Bowles. Mas algo de estranho aconteceu no caminho para a crise fiscal que tantos previram: os custos de captação dos Estados Unidos caíram ao seu nível mais baixo na História. E isso não acontece só nos Estados Unidos. A esta altura, todos os países avançados capazes de captar recursos em moeda própria vêm obtendo empréstimos a custo muito baixo.

O fato de que os deficit não tenham produzido a alta prevista nas taxas de juros está nos dizendo algo de importante sobre a natureza de nossos problemas econômicos (e a sabedoria, ou falta de, daqueles que se apontaram como protetores de nossas virtudes fiscais). Antes que eu trate desse assunto, porém, vamos discutir os custos de captação baixíssimos - tão baixos que, em certos casos, os investidores na verdade estão pagando aos governos pelo depósito de seu dinheiro.

Em termos gerais, isso vem acontecendo com "títulos protegidos contra a inflação" - papéis cujo pagamento futuro está vinculado ao índice de preços ao consumidor, e portanto fazem com que o investidor não precise temer erosão de seu capital pela inflação. Mesmo com essa proteção, os investidores costumavam exigir pagamento substancialmente mais alto. Antes da crise, as notas de 10 anos norte-americanas protegidas por correção monetária pagavam cerca de 2% anuais de juros. Recentemente, porém, a taxa desses títulos vem sendo de 0,6% negativo. Os investidores estão dispostos a pagar mais por esses papéis do que o total corrigido pela inflação que virão a receber quando o governo liquidar o principal e os juros.

Ou seja, na prática os investidores estão oferecendo dinheiro de graça aos governos pelos próximos 10 anos; na realidade, estão dispostos a pagar uma taxa modesta aos governos para que protejam seu dinheiro.

As pessoas que têm interesse velado em promover o medo de uma crise fiscal fizeram diversas tentativas para explicar por que a crise não se concretizou. Uma das preferidas é a alegação de que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) vem mantendo os juros artificialmente baixos ao adquirir títulos do governo. Mas essa teoria foi submetida a teste na metade do ano passado, quando o Fed suspendeu temporariamente suas compras de títulos públicos. Muita gente -incluindo Bill Gross, do grande fundo de investimento em títulos Pimco- previa uma disparada nos juros. Nada aconteceu.

Oh, e não prestem atenção aos alertas de que um dia desses nos transformaremos na Grécia. Países como a Grécia ou a Espanha estão sofrendo as consequências da decisão irresponsável de trocar suas moedas nacionais pelo euro, que os torna vulneráveis de uma maneira que não se aplica de modo algum aos Estados Unidos.

Assim, o que está acontecendo? A principal resposta é que isso é o que transcorre quando você passa por um "choque de redução de dívidas", quando todo mundo corre para tentar reduzir seu endividamento ao mesmo tempo. O uso domiciliar de crédito despencou, as empresas acumularam reservas de caixa porque não há motivo para expandir produção na ausência de vendas, e o resultado é que os investidores estão prontos mas não têm o que fazer com seu dinheiro. Por isso, estão comprando títulos do governo mesmo que os retornos sejam muito baixos, dada a falta de alternativas. Além disso, ao oferecer dinheiro por juros tão baixos, estão na prática implorando para que os governos emitam mais títulos de dívida.

E os governos deveriam atender a esses pedidos, em lugar de se sentirem obcecados quanto ao deficit em curto prazo.

Ressalva obrigatória: sim, temos um problema orçamentário de longo prazo, e deveríamos começar a resolvê-lo agora, principalmente pela contenção dos custos da saúde. Mas é uma loucura demitir professores e cancelar projetos de infraestrutura em um momento no qual os investidores estão oferecendo dinheiro a juro zero ou negativo.

Não é nem mesmo preciso oferecer o argumento keynesiano quanto à criação de empregos para perceber o fato. A única coisa necessária é perceber que, quando o dinheiro está barato, é um bom momento para investir. E tanto educação quanto infraestrutura representam investimento no futuro dos Estados Unidos; terminaremos por pagar um preço alto, e completamente desnecessário, pelos danos que estamos causando aos dois setores agora.

Isso posto, o argumento keynesiano também é fato. A experiência dos últimos anos - acima de tudo, o espetacular fracasso das políticas de austeridade na Europa - foi demonstração dramática do ponto básico de Keynes: em uma economia deprimida, cortar gastos causa ainda mais depressão.

Portanto, é hora de ignorar os supostos sábios que sequestraram o debate sobre política econômica e atribuem ao deficit o papel central na discussão. Eles estão errados sobre absolutamente tudo - e agora até mesmo os mercados financeiros nos dizem que deveríamos nos concentrar no crescimento e criação de empregos.
Tradução de Paulo Migliacci
 
Paul Krugman é prêmio Nobel de Economia (2008) e professor na Universidade Princeton (EUA). Um dos mais renomados economistas da atualidade, é autor ou editor de 20 livros e tem mais de 200 artigos científicos publicados.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Coca-Cola será expulsa no solstício de verão

Isla del Sol
Em uma decisão de causar espanto na mídia capitalista, o governo socialista do presidente Evo Morales acaba de expulsar a Coca-Cola da Bolívia. A decisão precisará ser cumprida até o dia 21 de Dezembro deste ano. Segundo o ministro do Exterior boliviano, David Choquehuanca, esta determinação está “em sintonia com o fim do calendário Maia” e será parte dos festejos para celebrar o fim do capitalismo e o início de “uma cultura da vida”. A festa ocorrerá no fim do dia, no solstício de verão (no Hemisfério Sul), na Ilha do Sol, situada no Lago Titicaca.

– O dia 21 de Dezembro de 2012 marca o fim do egoísmo, da divisão. O 21 de Dezembro tem que ser o fim da Coca-Cola e o começo do mocochinche (refresco de durazno, um refrigerante muito popular no país). Os planetas se alinham após 26 mil anos. É o fim do capitalismo e o início do comunitarismo – disse Choquehuanca, em um ato ao qual compareceu o presidente do país.

A medida, que atrai os holofotes da mídia para o governo boliviano, reforça a determinação de Evo Morales no reforço a um Estado socialista. Ele tem recebido várias críticas de seus eleitores por agir “devagar demais”, segundo as críticas, em determinar o fim do capitalismo naquela nação andina. A medida também visa melhorar a saúde da população. A Coca-Cola, assim com a maioria dos refrigerantes industrializados, contem substâncias comprovadamente nocivas ao corpo e cujo consumo constante se associa a infartos cardíacos e derrames cerebrais.

CdB

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Atletas olímpicos argentinos aparecem em campanha para identificar filhos de desaparecidos



Marcia Carmo
De Buenos Aires para a BBC Brasil

Atletas argentinos que disputarão os Jogos Olímpicos de Londres participam de uma campanha da entidade de defesa de direitos humanos Avós da Praça de Maio que busca identificar filhos de desaparecidos políticos durante o regime militar no país (1976-1983).

A entidade estima que mais de 500 bebês tiveram a identidade trocada naquele período, após terem sido sequestrados pelos militares. Segundo dados da ONG, 105 pessoas já tiveram sua verdadeira identidade "restituída".

Cinco atletas argentinos gravaram os spots de televisão e as mensagens de rádio pouco antes de embarcar para Londres, segundo disseram à BBC Brasil assessores da entidade com sede em Buenos Aires.

Na mensagem, os atletas falam, de forma didática, sobre o que ocorreu no país: "Queria te contar que houve uma ditadura na Argentina que roubou centenas de bebês. Hoje já são adultos. Mas cerca de 400 pessoas ainda não conhecem suas verdadeiras identidades. Se você conhece alguém que possa ser filho de desaparecido ou se você tem dúvidas sobre sua própria identidade, procure as Avós da Praça de Maio. Estamos te esperando", dizem.

Campanha

A campanha, chamada de "Los Olimpicos com las Abuelas"(Os atletas olímpicos com as avós), começou a ser veiculada esta semana e continuará no ar até o fim do Jogos, em agosto.

Os atletas que gravaram a campanha são o técnico das "Leonas" (como é conhecido o time feminino de hóquei), Carlos Retegui, o lançador de dardo Braian Toledo, o jogador da seleção de vôlei Facundo Conte, a judoca Paula Pareto e o velejador Julio Alsogaray.

Pareto, Conte e Toledo nasceram nas décadas de 80 e de 90, quando a Argentina já vivia em democracia.

Não é a primeira vez que as Avós da Praça de Maio envolvem esportistas em suas campanhas para localizar os filhos de desparecidos políticos.

Em diferentes ocasiões, em partidas decisivas, jogadores de futebol entraram em campo com uma faixa que dizia: "Vos sabes quién sos?" ("Você sabe quem é? Procure as Avós da Praça de Maio").

A entidade possui um banco de dados que permite a identificação biológica de filhos de desaparecidos políticos.

Para as Avós, que são mães de desaparecidos e que também procuram os netos, os sequestros eram planejados e ocorriam, muitas vezes, logo após o nascimentos dos bebês em pleno cativeiro.

A MALDIÇÃO DA ABUNDÂNCIA

Fonte desta imagem AQUI.

Boaventura de Sousa Santos

A “maldição da abundância” é uma expressão usada para caracterizar os riscos que correm os países pobres onde se descobrem recursos naturais objeto de cobiça internacional. A promessa de abundância decorrente do imenso valor comercial dos recursos e dos investimentos necessários para o concretizar é tão convincente que passa a condicionar o padrão de desenvolvimento económico, social, político e cultural.

Os riscos desse condicionamento são, entre outros: crescimento do PIB em vez de desenvolvimento social; corrupção generalizada da classe política que, para defender os seus interesses privados, se torna crescentemente autoritária para se poder manter no poder, agora visto como fonte de acumulação primitiva de capital; aumento em vez de redução da pobreza; polarização crescente entre uma pequena minoria super-rica e uma imensa maioria de indigentes; destruição ambiental e sacrifícios incontáveis às populações onde se encontram os recursos em nome de um “progresso” que estas nunca conhecerão; criação de uma cultura consumista que é praticada apenas por uma pequena minoria urbana mas imposta como ideologia a toda a sociedade; supressão do pensamento e das práticas dissidentes da sociedade civil sob o pretexto de serem obstáculos ao desenvolvimento e profetas da desgraça. Em suma, os riscos são que, no final do ciclo da orgia dos recursos, o país esteja mais pobre econômica, social, política e culturalmente do que no seu início. Nisto consiste a maldição da abundância.

Depois das investigações que conduzi em Moçambique entre 1997 e 2003 visitei o país várias vezes. Da visita que acabo de fazer colho uma dupla impressão que a minha solidariedade com o povo moçambicano transforma em dupla inquietação. A primeira tem precisamente a ver com a orgia dos recursos naturais. As sucessivas descobertas (algumas antigas) de carvão (Moçambique é já o sexto maior produtor de carvão a nível mundial), gás natural, ferro, níquel, talvez petróleo anunciam um El Dorado de rendas extrativistas que podem ter um impacto no país semelhante ao que teve a independência. Fala-se numa segunda independência. Estarão os moçambicanos preparados para fugir à maldição da abundância? Duvido.

As grandes multinacionais, algumas bem conhecidas dos latino-americanos, como a Rio Tinto e a brasileira Vale do Rio Doce (Vale Moçambique) exercem as suas atividades com muito pouca regulação estatal, celebram contratos que lhe permitem o saque das riquezas moçambicanas com mínimas contribuições para o orçamento de estado (em 2010 a contribuição foi de 0,04%), violam impunemente os direitos humanos das populações onde existem recursos, procedendo ao seu reassentamento (por vezes mais de um num prazo de poucos anos) em condições indignas, com o desrespeito dos lugares sagrados, dos cemitérios, dos ecossistemas que têm organizado a sua vida desde há dezenas ou centenas de anos.

Sempre que as populações protestam são brutalmente reprimidas pelas forças policiais e militares. A Vale é hoje um alvo central das organizações ecológicas e de direitos humanos pela sua arrogância neo-colonial e pelas cumplicidades que estabeleceu com o governo. Tais cumplicidades assentam por vezes em perigosos conflitos de interesses, entre os interesses do país governado pelo Presidente Guebuza e os interesses das empresas do empresário Guebuza donde podem resultar graves violações dos direitos humanos como quando o ativista ambiental Jeremias Vunjane, que levava consigo para a Conferência da ONU, Rio+20, denúncias dos atropelos da Vale, foi arbitrariamente impedido de entrar no Brasil e deportado (e só regressou depois de muita pressão internacional), ou quando, às organizações sociais é pedida uma autorização do governo para visitar as populações reassentadas como se estas vivessem sob a alçada de um agente soberano estrangeiro.

São muitos os indícios de que as promessas dos recursos começam a corromper a classe política de alto a baixo e os conflitos no seio desta são entre os que “já comeram “ e os que “querem também comer”. Não é de esperar que nestas condições, os moçambicanos no seu conjunto beneficiem dos recursos. Pelo contrário, pode estar em curso a angolanização de Moçambique. Não será um processo linear porque Moçambique é muito diferente de Angola: a liberdade de imprensa é incomparavelmente superior; a sociedade civil está mais organizada; os novos-ricos têm medo da ostentação porque ela zurzida semanalmente na imprensa e também pelo medo dos sequestros; o sistema judicial, apesar de tudo, é mais independente para atuar; há uma massa crítica de acadêmicos moçambicanos credenciados internacionalmente capazes de fazer análises sérias que mostram que “o rei vai nu”.

A segunda impressão/inquietação, relacionada com a anterior, consiste em verificar que o impulso para a transição democrática que observara em estadias anteriores parece estancado ou estagnado. A legitimidade revolucionária da Frelimo sobrepõe-se cada vez mais à sua legitimidade democrática (que tem vindo a diminuir em recentes atos eleitorais) com a agravante de estar agora a ser usada para fins bem pouco revolucionários; a partidarização do aparelho de estado aumenta em vez de diminuir; a vigilância sobre a sociedade civil aperta-se sempre que nela se suspeita dissidência; a célula do partido continua a interferir com a liberdade acadêmica do ensino e investigação universitários; mesmo dentro da Frelimo, e, portanto, num contexto controlado, a discussão política é vista como distração ou obstáculo ante os benefícios indiscutidos e indiscutíveis do “desenvolvimento”. Um autoritarismo insidioso disfarçado de empreendorismo e de aversão à política (“não te metas em problemas”) germina na sociedade como erva daninha.

Ao partir de Moçambique, uma frase do grande escritor moçambicano Eduardo White cravou-se em mim e em mim ficou: “nós que não mudamos de medo por termos medo de o mudar” (Savana, 20-7-2012). Uma frase talvez tão válida para a sociedade moçambicana como para a sociedade portuguesa e para tantas outras acorrentadas às regras de um capitalismo global sem regras.

Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

terça-feira, 24 de julho de 2012

Fábula: EL GATO Y EL PAJARITO

Trabalho de Michael Bridges: "Observador de Pássaros".

Thomas Moro Simpson · · · · ·  
 
Un pajarito y un gato,
sobre una rama florida,
dejando pasar la vida
conversan desde hace rato.


Dice el gato con pesar:
“¿Cómo saldré yo de aquí?
“Es triste seguir así,
y no sé cómo bajar.”


“Es que sos muy indeciso”,
terció el ave con desdén;
“Si movés las alas bien
llegarás muy pronto al piso”.


El gato maulló, perplejo:
“no tengo alas”, respondió.
El pajarito calló
y luego le dió un consejo:


“Con tu enfoque negativo
¿adónde vas a parar?
¡Tenés miedo de volar!
¡Te creí más constructivo!”


“Vuela el que quiere –añadió-,
y perdoname que insista:
¡Vos sí que sos derrotista!
¡Mirá cómo vuelo yo!”


Thomas Moro Simpson (Buenos Aires, 1929) es el filósofo argentino más importante y creativo de su generación.

sinpermiso electrónico se ofrece semanalmente de forma gratuita. No recibe ningún tipo de subvención pública ni privada, y su existencia sólo es posible gracias al trabajo voluntario de sus colaboradores y a las donaciones altruistas de sus lectores. Si le ha interesado este artículo, considere la posibilidad de contribuir al desarrollo de este proyecto político-cultural realizando una DONACIÓN o haciendo una SUSCRIPCIÓNa la REVISTA SEMESTRAL impresa.