DANCINHA

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Congresso de hackers explora lados político e lúdico da ciberpirataria

Logo do Chaos Computer Club

"Ser hacker é um estilo de vida, fazer mais perguntas, tentar entender", diz Chaos Computer Club, que se reuniu em Berlim, abordando temas como censo e armazenamento de dados, mas também ensinando como arrombar cadeados.

 

Sob a sigla 27C3, transcorreu de 27 a 30 de dezembro em Berlim o 27º Chaos Communication Congress, o encontro anual do grupo de hackers Chaos Computer Club (CCC), maior grupo europeu de hackers.

Baseado na Alemanha, o clube se autodefine como "uma comunidade galáctica de formas de vida, independente de idade, sexo, raça ou orientação social, movendo-se entre fronteiras em prol da liberdade de informação".


Em palestras e oficinas, os 3 mil participantes se informaram sobre temas políticos e técnicos, desde censura, vigilância de dados e direitos autorais até segurança em telefonia pela internet (VoIP) e métodos para piratear smartphones.

"Torpedo da morte"

Por exemplo, no dia de abertura do congresso, Collin Mulliner and Nico Golde, dois especialistas em segurança de celulares da Universidade Técnica de Berlim, apresentaram o que designam como SMS of death (torpedo da morte): inundando telefones celulares com mensagens maliciosas, eles descobriram erros de programação nos aplicativos de leitura de textos.

Em certos casos, esses bugs permitem congelar o aparelho, forçando-o a reinicializar-se continuamente. Um ataque em grande escala poderia até mesmo causar o colapso de toda uma rede de telefonia móvel, ao induzir dezenas de milhares de telefones a se reconectarem simultaneamente, teorizaram Mulliner e Golde.

Vítimas em potencial seriam todos os aparelhos de gerações mais antigas, que não sejam smartphones, das firmas Sony Ericsson, Samsung, Motorola, Micromax e LG.

"Chaos" criativo

Fundado em 1981, o Chaos Computer Club é o mais antigo clube de ciberpiratas do mundo. Desde então, ele tem se destacado por expor falhas de segurança informática e por questionar a tendência generalizada à vigilância de dados acirrada, a partir dos atentados de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos.

Em março de 2008, num protesto contra o uso crescente de dados biométricos por parte das autoridades, membros do CCC obtiveram as impressões digitais do então ministro alemão do Interior Wolfgang Schäuble, e as divulgaram. Para tal, retiraram as marcas de um copo d'água usado pelo político conservador durante um evento público.

No congresso de 2007, o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, apresentou um projeto inicial do agora controvertido site dedicado à revelação de documentos oficiais de potencial interesse público. Lá, Assange conheceu Daniel Domscheit-Berg, um integrante do CCC considerado, até poucos meses atrás, o número dois do WikiLeaks.

Apoio ao WikiLeaks

Embora os dois grupos não sejam oficialmente associados, Frank Rosengart, porta-voz do CCC, confirma que sua organização apoia o WikiLeaks. Ambos perseguem metas semelhantes, sobretudo no que concerne a uma maior transparência no governo, ou o que Rosengart denomina "governo legível em máquina" (machine-readable government).

"Para nós, o WikiLeaks é a forma certa de agir: divulgar informação", comentou o porta-voz. "Manter a privacidade, manter as fontes anônimas é uma parte muito importante do software e uma boa forma de pirataria, para revelar o jogo de um sistema que funciona dessa maneira."

Segundo Rosengart, os congressos são, acima de tudo, um ponto de encontro favorável à colaboração técnica, como foi o caso com o WikiLeaks. "Há muitos projetos acontecendo – por exemplo, de programação de código aberto – e algumas pessoas se encontram aqui. Elas se conhecem online, trabalham, programam softwares juntas, mas se encontram aqui pela primeira vez, na vida real."

Recenseamento invasivo

Um dos focos do 27C3 é o armazenamento oficial de dados, que tem crescido dramaticamente nos últimos nove anos. Com o fim declarado de prevenir novos atentados terroristas, diversos governos, entre os quais o alemão e o estadunidense, passaram a armazenar um maior número de dados sobre os seus cidadãos.

O AK Vorrat – Grupo de Trabalho para Armazenamento de Dados – combate justamente nesse front. Sua campanha contra a lei de retenção de dados na Alemanha, em 2008, contribuiu para que ela fosse declarada inconstitucional, dois anos mais tarde.

Atualmente, a principal preocupação do AK Vorrat é o censo de 2011 no país, sobretudo as perguntas invasivas dirigidas às pessoas de fé muçulmana. Ele chama a atenção para o fato de que os dados coletados não serão anonimizados antes de quatro ou seis anos, e teme seu mau uso por parte de políticos.

Algoritmos para a vigilância

Porém, é claro, os interesses do encontro dos hackers internacionais ultrapassam as fronteiras da Alemanha. O Fórum de Informáticos pela Paz e Responsabilidade Social (FIFF) denunciou o Indect, um projeto de pesquisa em nível europeu que desenvolve tecnologias de vigilância para os governos.

Iniciado pela Plataforma Polonesa de Segurança Nacional, ele tem como meta "desenvolver algoritmos e métodos novos, avançados e inovadores para combater o terrorismo e outras atividades criminosas que afetem a segurança dos cidadãos" – como consta de seu site.

De acordo com Kai Nothdurft, membro da FIFF, o Indect coleta informações de diferentes origens, desde websites e redes sociais a bancos de dados governamentais e filmagens de manifestações políticas feitas por UAVs (veículos aéreos não tripulados).

"Eles combinam dados com imagens de câmeras de vigilância em locais públicos e usam reconhecimento facial", alertou. "Isso é uma coisa muito perigosa, pois todas essas técnicas se potencializam, ao serem combinadas." A FIFF é uma ONG alemã que se dedica em especial a questões de privacidade e segurança, assim como ao emprego de tecnologia em armas, robôs e na ciberguerra.

"Hacking": um estilo de vida

Embora os temas políticos sejam o grande foco do congresso de ciberpirataria, há espaço para workshops práticos e divertidos, ensinando a recuperar dados de um disco rígido quebrado ou como piratear o console de jogos Playstation 3. Há até mesmo um estande do clube alemão dos arrombadores de fechadura.

"Entrar por uma porta ou abrir um cadeado de que não se possui a chave é também uma técnica de hacking", explica uma afiliada do grupo, de pseudônimo Snow Goose. Mas ela insiste que o clube tem regras éticas: "Não ensinamos ninguém a entrar na casa de outras pessoas. Arrombe sempre só as suas próprias fechaduras!"

Curiosidade, investigação tecnológica, consciência cívica e ética parecem ser o que une os mais diferentes hackers. Para Frank Rosengart, trata-se, acima de tudo, de um estilo de vida.

"Piratear é fazer mais perguntas, tentar entender, usar dispositivos eletrônicos de forma diferente do que está no manual. Acho que temos que nos aventurar por aí com esse tipo de estilo de vida e tentar fazer um mundo melhor", resume o porta voz do Chaos Computer Club.

Autoria: Cinnamon Nippard / Augusto Valente
Revisão: Carlos Albuquerque

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