DANCINHA

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

"Por que o Brasil compra armas?", questiona Hans Blix


Hans Blix, ex-inspetor de armas da ONU, prevê em entrevista à DW-WORLD.DE um "fantástico desenvolvimento econômico" para o Brasil e critica a linha armamentista do governo brasileiro.

DW-WORLD.DE: Nos últimos anos, os gastos com a compra de armas em todo o mundo duplicaram. A luta contra o terrorismo explica tal aumento? É uma estratégia correta combater o terrorismo com bombas e tanques?

Hans Blix: Certamente não. Você não combate o terrorismo com aeronaves de guerra ou armas nucleares. É preciso tratar da questão a partir de uma cooperação entre forças policiais e serviço de inteligência. Você não precisa de um grande programa militar para isso. É preciso reconhecer que o complexo militar industrial nos EUA é muito forte. Já o ex-presidente norte-americano Eisenhower alertava para o fato de que eles estavam interessados em construir máquinas de destruição.

Espero que a opinião pública norte-americana e os contribuintes se cansem disso. A administração Bush viveu muito bem às custas do 11 de setembro. Houve uma reação tremenda aos atentados, mas esse temor e afã por ser cada vez mais forte conduz a um tremendo desperdício. Acho que todo o mundo está contra o terrorismo. Ou seja, não vai haver nenhuma dificuldade em estabelecer uma cooperação com os russos ou com os chineses neste sentido.

Como resultado da crise financeira internacional, especialistas norte-americanos alertam para o perigo de que haverá uma expansão armamentista no Oriente Médio, bem como guerras por recursos naturais básicos como a água. O senhor concorda com essa previsão?

Não de fato. É verdade que a escassez de recursos naturais, a competição global pelo petróleo e a competição regional pela água podem, certamente, acentuar o conflito e levar a controvérsias. Apesar disso, podemos ver que o Oriente Médio, onde há petróleo e gás natural, tem sido uma das áreas mais explosivas do mundo. Podemos ver a competição pela Ásia Central, uma região onde há petróle e gás e pela qual os EUA nutrem interesses militares. No entanto, sou um pouco cético em relação à possibilidade de que a luta pelo acesso ao petróleo leve realmente a conflitos armados.

É claro que os EUA têm tropas estacionadas na Arábia Saudita, eles têm muitas tropas no Oriente Médio e querem manter também tropas no Iraque. Mas enfrentarão um conflito armado, digamos, com a Índia ou com a China no Oriente Médio? Duvido. Acho que essa competição vai ser resolvida através do mercado. Através da demanda, quando a Índia e a China estiverem querendo pagar mais pelo petróleo e os norte-americanos tiverem também que pagar mais pelo petróleo no Oriente Médio. Duvido de que seja plausível um confronto militar na região.

Os EUA irão decair como potência mundial? Quais conseqüências e riscos poderão surgir daí?

Há um estudo da CIA que prevê que o poder econômico e a influência dos EUA irão diminuir em relação a emergentes como a China e a Índia, mas eles também prevêem que os EUA continuarão sendo, de forma absoluta, a potência militar suprema no mundo. E é possivel que assim seja, se quiserem pagar por isso. A questão é se isso lhes terá utilidade.

Creio que a competência pelo petróleo poderá mais provavelmente se traduzir em uma guerra de preços do que de armas. Há pessoas que dizem que sou ingênuo ao pensar assim, mas não vejo nenhuma situação na qual poderia haver um enfrentamento militar entre os EUA e a China.

Haverá um mundo multipolar, em que outros países emergentes como o Brasil, a Índia, o México e a Rússia, e talvez a Venezuela e outros países menores, também terão voz e poderáo exercer influência em conflitos como o que existe entre o Irã e os EUA?

Haverá mais multipolarização. Já há no momento. E certamente países como o Brasil estão a caminho de se converter em algo grande. Mas isso vai levar um certo tempo e, mesmo nesse mundo, você poderá indentificar os pesos pesados. Se você olha para a União Européia agora, quem está negociando com o Irã? O Reino Unido, a França e a Alemanha. Fora da UE, há norte-americanos, russos e um pouco a China, mas não são os pequenos.

O senhor mencionou o Brasil, um país que vem comprando armas nos últimos anos. Como o senhor vê essa situação?

Admiro o Brasil por sua vitalidade. Acho que os brasileiros vão ter um desenvolvimento econômico fantástico, mas tenho minhas dúvidas a respeito da utilidade de qualquer armamento para o país. Eles estão discutindo a respeito de um submarino nuclear. É um custo tremendo, o país poderia usar o dinheiro para algo melhor.

Muitos desses países estão agora comprando aviões de guerra por preços exorbitantes. Não vejo sentido nisso. Quem vai atacar o Brasil?

Eva Usi, para Deutsche Welle

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